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terça-feira, julho 31, 2007
NA MORTE DE INGMAR BERGMAN
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domingo, julho 29, 2007
PARA ALÉM DO INFINITO

sábado, julho 21, 2007
DO BLOG AOS RETRATOS SEM ROSTO

terça-feira, julho 17, 2007
O ENXERTO DE SARAMAGO
Numa entrevista concedida ao «Diário de Notícias», Saramago disse: «Portugal acabará por integrar-se na Espanha». E assim, breve, à sua volta, os homens de cultura ficaram em choque: porque uma coisa é fugir por medo, passados que são séculos de história, outra é anunciar algo que nunca será uma escolha e que, como soberania importada de fora, com cumplicidades cá dentro, acaba como retrato da traição. Algumas das reacções a este mergulho em direcção à jangada de pedra, mostram fundamentada indignação: porque Saramago tem uma «dívida para com a língua portuguesa», move-se numa rodilha de azedumes ligados à «ortodoxia marxista-leninista» Mais: «uma provocação deve ser motivo de reflexão» e a mim ocorre-me dizer que uma provocação deve ser antecipadamente reflectida, sobretudo como neste caso, dada a sua importância e os créditos de quem a soltou. Apesar das suas intervenções, quando convidado pela televisão, revelarem um contido apreço pelos problemas do homem e da criação, sem derrapagens deste tipo, nota-se que o desconforto de Saramago em relação a Portugal emerge aqui e além numa espécie de elipses ou de ardilosas metáforas. Saramago é agora acusado de ser incapaz de defender Portugal»
Martins da Cruz, Ministro dos Negócios Esrangeiros de Durão Barroso, foi talvez quem mais reagiu à frase da Saramago. «A visão de Saramago é uma visão do século XIX e não do século XXI. É muito fácil odiar Portugal no estrangeiro, o que é difícil é defender os interesses de Portugal no estrangeiro, e isso o sr. Saramago é manifestamente incapaz de fazer». Nesta linha de abordagem à insólita situação, também houve reacções de muitos intelecuais e escritores, como Vasco Graça Moura ou Manuel Alegre. «Ele tem a responsabilidade de ter ganho o Nobel da Literatura com a língua portuguesa», disse o poeta Manuel Alegre. «Saramago concebe a realidade como sendo gerível com uma engenharia de racionalidade» (considerou Graça Moura). Por muito que a medalha do Nobel notabilize um homem, neste caso um português, isso confere-lhe mais deveres perante a língua e a Pátria donde se alcandorou a esse galardão, do que direitos enviesados, má fé, arrogância, eufemismos perversos. Os direitos de expressão têm de ter sempre em conta os outros -- e, em casos assim, menor sensacionalismo e profunda reflexão sobre a hipótese formulada. Por mim, na raiz do meu ser e da minha língua, da nossa cultura e considerável antiguidade, muito teria para dizer a Saramago (apesar das minha deficiências e das fragilidades não usufruirem o benefício dos media), pois considero que o escritor contraiu uma grande responsabilidade a vários níveis. Portugal honrou-o, perdoou-lhe muitas sinuosidades, conversou civilizadamente sobre os valores humanos e a necessidade da arte. A caricatura da «Jangada de Pedra», Portugal voltado para a América e a Espanha com as suas feridas voltadas para a Europa, a cicatrizar, não tem necessariamente que deslizar para o sul. E era melhor a ideia de que essa ruptura servisse para ligar de novo os dois continentes, voltando assim a uma certa verdade original. Saramago deve reflectir, partindo de dentro de si mesmo e fazendo auto-crítica. Nas pedras de Lanzarote. Observando as condições capazes de permitirem saudavelmente o enxerto de uma coisa na outra. E a lembrar-se da humilde grandeza com que escreveu «Levantado do Chão».