sexta-feira, março 25, 2016

O MUNDO AGRILHOADO, MORRENDO EM FÚRIA


Não me lembro de ter assimilado uma ideia nobre, concertada, harmoniosa da multidão a que chamamos Humanidade, nunca a paz e a harmonia de que falam os artistas, os poetas, os ditadores da Antiguidade e da contemporaneidade. Havia sempre problemas à minha volta: anos difíceis da vida dos meus pais, gente a prender centenas de operários da indústria transformadora da cortiça, pessoas isoladas no campo, trabalhando de sol a sol, muitas vezes roubadas por ladrões ou simplesmente assassinadas por resistirem timidamente. Em Portugal vivia-se sob a tutela de Salazar, ditador guardado em São Bento, incapaz de pensar o futuro apesar do império feito de colónias mal tratadas, para onde ninguém imigrava a sério, como fizeram nos anos 60, portugueses deslumbrados com a aventura da casa, do dinheiro, de trabalhar para os senhores da Europa e do mundo, já esquecidos que haviam sabido atravessar os mares (quando era natural fazer isso e descobrir terras), quase no patamar da verdadeira grandeza, aquela que permite viver bem e partilhar razoavelmente as coisas. Nada disso, pequenos em quase tudo na sua terra inicial, os portugueses desataram a fugir em todas as direcções, para o mundo em volta, trabalhando como escravos ou chegando a patrões. Hoje são os licenciados que partem, depois de estudos arrancados a custo de escudos e pobres bolsas e remedeio: já acabara o Império mas subsistia a memória da história dessa gente afinal trabalhadora, que enchia bolsas de imigrantes de um lado ao outro do mundo, mesmo em plena época de novas guerras no Afeganistão, no Iraque, no Paquistão, na Argélia, no Irão, entre Islamitas, Muçulmanos, Iraquianos, Talibãs, Xiitas ou Sunitas, crentes de Alá e inimigos dos Cristãos, os das Cruzadas, senhores, durante séculos, de grandes áreas do mundo, partes do planeta com a Índia, norte, centro e sul de África, américas latinizadas, para não falar do Brasil explicado pelos portugueses e dos Estados Unidos da América, Estados e Estados a Norte, mistura de raças e interesses acerca de um tal El Dorado, submissão dos Índios.
De tudo isto, após séculos de Igreja católica apostólica romana, desaparecidas as não muito remotas civilizações da Grécia do Egipto, da Índia ou da China, desaparecidas como os Incas que falavam com o céu ou simplesmente transformadas pelo engenho tecnológico e demoníaco da genérica civilização ocidental, aquela que (mesmo em grande avanço) se envolveu com a Alemanha em duas guerras mundiais, sob o horror nazi e os campos de concentração e o holocausto, judeus presos e mortos ao que parece porque podiam competir com a «raça ariana», mito daquele cabo de guerra, Hitler, que teve de apagar corpo e alma com uma cápsula de cianeto.
Passaram várias décadas de aparente paz e desenvolvimento, a Alemanha e os tecnocratas da austeridade passaram a apertar uma já agrilhoada União Europeia. Por aqui todos tinham ajudado a criar um Estado mítico, Israel, senhor de si e dos outros, ensinando o mundo que, a partir de agora, com gente como o Daesh e os atentados de homens-bomba, uma academia do horror que nos obrigará a aprender a "viver com medo2. Diz ajuizadamente Clara Ferreira Alves na sua crónica de hoje: «Nos campos de refugiados, na degradação e na humilhação, novos radicalismos se formarão com outros nomes. A integração desta população de apátridas que só tem o Islão como pertença impossível.»



Temos aqui, de facto, um problema radical. Terrorismo Islâmico, que não brotou de nenhuma doença divina, começo nma rede de roubos, emboscadas, mistificações. Allah desceu furiosamente à Terra com a maior vontade de aplicar regras brutais, irracionais, aos homens que o amassem e que matassem em nome Dele, acedendo a um céu Total, com ofertas femininas virginais, símbolo aberto do que a mente obscura deles tornara, na terra, vítimas assimétricas das burcas, dos xailes, dos escondimentos, e de penas por pecados fundamentais. Sujeitas, em grandes áreas, ao corte do clitóris, podem vir a ser punidas, por adultério, com a morte à pedrada, na Praça Pública. Os guerreiros Jihadistas tratam os vencidos com a degolação, numa ritualidade difícil de encontrar nas épocas mais remotas. E o ESTADO Judaico ISRAEL, encravado numa zona que a Inglaterra e a França escolheram, imposta aos  palestiniamos, sabe esperar por tudo isto com as suas próprias guerras e o seu medo. Rompe compromissos, implanta Gaza, constrói muros, declara que nunca consentirá na instauração de um próximo Estado Palestiniano, embora esta gente seja dali e tenha o direito a trabalhar e a morrer ali, entre pedras, poeira e plantas secas.
A Turquia, candidata à Europa mas ainda não julgada apropriada pelos altíssimos deificados tecnocratas dos gabinetes neo-europeus, é contudo um país tampão (no caso dos refugiados vindos da Síria e outras terras lavradas a sangue). E então, a austera e mitigante Europa, sem pudor, cortejou a Turquia, pela sua especial posição geográfica para se encarregar de travar mais vagas de emigrição, deportando os despojados de injustificada ânsia. A Turquia aceitou receber para tais ensaios de novos holocaustos, empresa sórdida, a quantia de três mil milhões de euros, cuja vida e fortunas ninguém sabe onde irá parar.
Diz Clara Ferreira Alves. «Entretanto, a Grécia e a Itália sucumbem ao peso que a Europa atiçou ou malbaratou, as do Afeganistão e Iraque, da Líbia e Síria.» Obama, apesar da sua entrevista à revista ATLANTIC, lamentando o comportamento dos parceiros Cameron e Sarkozy, foi liminarmente ludibriado. E a Nato? E a ONU? Aqui, Clara escreve sumariamente: «O que é, hoje, o Oriente?» (...) «A que Médio Oriente do século XX ainda se dá existência? Esse Médio Oriente terminou ou foi terminado. Israel não é Israel. É hoje um Estado acossado e dominado politicamente por conservadores e zelotas, com um primeiro ministro que tem a certeza de que a Palestina nunca existirá.»
O Daesh talvez seja invencível. Vamos esperar, no medo, que a sua própria o eliminará. Haverá então outros refugiados, gente degradada, a humilhação formará novos imigrados e os Messias voltarão para mistificar o futuro e um deus novo, todo poderoso.
Rocha de Sousa

segunda-feira, janeiro 04, 2016

UM PAÍS APRISIONADO NAS GRADES DO MUNDO



                                                                 
Velho e quase enterrado no excesso de uma civilização entretanto contaminada por todas as pestes antigas e modernas, esqueço-me do que disse e desejaria ainda dizer. A chamada crise baralhou tudo até ao abismo. E já estávamos inseridos na Europa a que tinhamos aderido com esperança. Mas a Europa não é, entretanto, um espaço de solidariedade, de novas e respeitadas fecundações. Quase inerte perante os luxos das suas instalações na Bélgica, cavaqueando propostas por vezes cintilantes mas que os grandes grupos parlamentares chumbam liminarmente, a «União Europeia» parece esquecida dos seus tratados, todos eles cada vez mais carecidos de remoção ou aperfeiçoamento, a fim de que não se tornem fomento de totalitarismos e outras pestes. Porque muitas coisas mudaram, a idade dos  paises  difere muito entre si, e a Alemanha (apesar das suas  fecundações e peso económico) quase dirige, convoca e adia, apressa e repete  fórmulas, cada grupo de trabalho  está  por ela atempadamente tocado seja para o que for. Ignorando-se a perigosa grandeza das tecnologias mais avançadas, sobretudo as da comunicação, e a inchada globalização que nivela tudo, absorve tudo, movimenta excessivamente empresas, energias, fronteiras em perda. E isto perante a convulsão de todos os roubos e conflitos em curso, o que deveria implicar outra vigilância e um atendimento inicial aos refugiados. Nada daquilo a que se assistiu durante estes últimos tempos, vendo morrer milhares de pessoas no Mediterrâneo, deixando que os especuladores lhes comessem todas as quantias possíveis e empurrando-os, com barcos super-lotados, para as águas frias. E eles, os que se salvaram em maioria, começaram a tomar como gare de partida para a Alemanha os países a que chegavam, Itália e Grécia. Isto não podia ter acontecido assim. Tinha que haver acordo com os países de partida para identificar, coordenar e embarcar de forma segura aqueles que tivessem fortes razões para fazer a passagem. Ou eles ou a Alemanha  julgavam que tudo podia caber ali, com  uns  grupelhos por aqui e por ali, no bem melhor que houvesse. Agora tudo está ensarilhado, é preciso técnicos de recepção, novos lugares, melhores distribuições, previsíveis retornos a países recuperados, como a Síria que já devia estar ocupada por forças da ONU, vindas de todo o mundo, Assad reformado, a reconstrução em curso, enquanto houvesse meios de tratar do Daesh, que tem a força que tem porque as etnias e religiões politizadas nunca tiveram mais do que uns turistas já em fuga.


terça-feira, novembro 17, 2015

MITOLOGIAS DA POLÍTICA E GOVERNOS ADIADOS





Presidente Cavaco Silva

Em Portugal, entretanto inundado por programas de televisão em regime de continuidade sobre os atentados acontecidos em Paris pela mão Daesh, as eleições legislativas já ocorreram há um mês, tendo o governo minoritário de Passos Coelho sofrido o efeito derrubante de uma moção de censura. O partido socialista, que, a seu tempo, aceitou complexas operações para apear António José Seguro (secretário geral do Partido) a fim de realizar uma linha eleitoral em que concorria àquele lugar António Costa (na altura presidente  da Câmara Municipal de Lisboa). Após um tempo infinito, entre debates e movimentos vários, António Costa ganhou largamente o lugar, arrebatando-o a Seguro. Não parece bonito, mas naquele tempo muita gente achava pouco substancial a argumentação política e de projecto da parte de José Seguro.
Só perto das eleições legislativas António Costa se pôs a caminho, registando-se nas sondagens iniciais que lhe eram muito favoráveis, na zona da maioria absoluta.
O governo da Coligação continuava  afagando um vago sucesso depois de troika e abordava a necessidade de reformas estruturais, sobretudo no aparelho central do Estado, agilizando sectores e formas de abertura a novas relações com as feridas do país. Não houve, contudo, senão um papel redigido por Paulo Portas, umas folhas que tivemos oportunidade de ler e que não tinha qualquer dote sequencial e orgânico no sentido de uma verdadeira reforma do Estado. Dir-se-ia que o autor se esquecera do assunto e apressadamente enunciara umas duas dezenas de linhas indicadoras. Ninguém se dispunha a considerar isso um projecto e reforma, nem os cortes nas contas públicas como uma via certa e de conexões funcionais para a tão almejada reforma. Só se verificaram, um pouco mais para o fim da legislatura, certas medidas pontuais, qualquer coisa como «esta medida de Janeiro passa a ser tomada em Março», «aquele nível de subsídio passa do nível x para um aumento y de 0,9%»
Este governo caíu e os seus líderes (com aliados) mostraram grande azedume. O partido Socialista, quer baixara a sua fasquia ao ponto de perder votos perante os da Coligação, tratou do caso em sucessivos golpes negociais com o Bloco de Esquerda e o Partido comunista, além do Partido Os Verdes, procurando obter uma maioria na Assembleia  da República, algo mitigada entre programas alheios e o seu próprio programa. Foi um trabalho invulgar, talvez uma experiência de todos em novas partilhas, mas os membros desses partidos não entraram ara membros do futuro governo do Partido Socialista. Um golpe de prudência perante navegações de risco e uma forma de tratarem à rectaguarda os apoios à gestão do governo (de novo negociada, em casos que fossem além dos já estabelecidos).
Alguns disseram que era golpe, outros que estava dentro das regras constitucionais, o país dividia-se ao meio. Seja como for, no primeiro embate na Assembleia, ainda era fácil prever que frutos se obtenham. E o resto ficaria a dever-se ao Presidente da República. O Presidente torcera o nariz e »desertou» até à Madeira, onde ainda se encontra à hora em que escreve. E, curiosamente, o Costa, ontem à noite na televisão, explicou o sentido da sua reforma com exemplar limpidez, tranquilo, exemplificando a mecânica dos arranjos. E hoje as pessoas andavam agitadas: porque o residente falara, de longe, num governo de gestão que comandara durante 5 meses. Cinco meses nesta hora, com a Europa que temos e as crispações que vão pelo mundo, é coisa não menos que bizarra.
Imagino que o Presidente chega hoje. Amanhã vai ouvir mais gente, bancos, sindicatos, pescadores, gestores qualificados. Por aí. Depois as forças Armadas, penso, porque Holande está em guerra com os jihadistas e não sabemos se o Partido Comunista ou a Catarina já se converteram ao islamismo radical. Será que no terceiro ou quarto dia, ainda o Presidente ouvirá o Conselho de Estado? E se eles estão infiltrados



quinta-feira, outubro 22, 2015

MAIORIAS ESTÁVEIS NO LIMITE DA COSTA FALÉSIA


Acabou um ciclo, dizem; temos de voltar e escolher as novas luminárias do novo ciclo. Em boa verdade, o país, Portugla do nosso esquecimento, está em vias de ficar mais deserto no interior, afundando o Algarve em mais betão, mais passeantes vindos de toda a Europa, Américas, Médio Oriente, Índia, China, Eritreia.

Neste mesmo Outubro de 2015, os portugueses foram chamados às urnas (não estou a falar dessas nem a chorar o 1º de Novembro). Acabou o tempo do governo de Passos Coelho e foram escaladas as eleições nacionais: gastando um tempo imenso e mal temperado de estudos, mensagens políticas, sessões de debate sereno, voltou tudo ao mesmo: o governo  de Passos, A COLIGAÇÃO, que é uma forma um pouco secreta de diluir os dois partidos implicados, não engraçou muito com demasiada exposição, descansou, planeou e tratou de algumas armadilhas, ficou a ver os austerizados passando e só se atirou ao lobo nos escassos e mal organizados debates desta fase. Deu tudo mal para aqueles que se julgavam na frente da maratona, sobretudo o partido Socialista. Com tanta fome de verdadeiro poder, os socialistas andaram em sondagens de ouro, a par do  silêncio bondoso dos coligacionistas. Chegou, enfim, a hora das arruadas das quais Passos se defendeu bem, conciliando o seu discurso de «palavras sobrepostas» com os lamentos dos pobres e algumas palavras soezes.


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E tudo acabou (para começar dias depois) com umas estranhas abadas de votos. Aqueles que já não vão em simbolismos radicais, indo votar branco, ficaram em casa e cacarejaram durante a noite do grande espectáculo, coisa que nem a Teresa Guilherme saberia gerir (o que não quer dizer que seja boa a sua gestão) nem a Cristina Ferreira gritaria melhor (o que não significa que essa apresentadora grite bem).



Os senhores da coligação, que passavam por ser os vencedores com maioria absoluta, perderam 700.000 votos (foi um modesto corte em nome da Troika) e tiveram de pousar na terra da maioria relativa. Os senhores socialistas, comandados pelo António Costa (que viera substituir democraticamente o jovem Seguro) não passaram dos 32% e perderam perante os coligados, que ficaram senhores de um osso relativizado mas razoável.
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Vieram os do Bloco de Esquerda, com as suas duas meninas Catarina e Mortágua, e fizeram-se ao bife: mais que duplicaram o seu eleitorado e como que piscaram o olho ao Costa, um caso (pensou ele) verdadeiramente histórico nestas quentes esquerdas. O BE arrecadou 19,9/% de votos. E o hirto Partido Comunista-PEV (uma outra coligaçãozita) incendiaram a memória de Jerónimo (chorando por Álvaro Cunhal) com a módica meia-tinta de 8,25 % de votação.
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Pensava eu, e outros como eu, que este resultado ainda segurava, por algum tempo, A COLIGAÇÃO PSD/CDS. Porque o partido mais votado apresentaria o seu líder ao presidente da República para que este o indigitasse à formação de governo. Situação frágil mas conhecida. O Passos foi à vida sem ser indigitado mas com o recado de estudar a formação do governo. E pensou: o meu segundo cenário vai para o Costa, embora também esteja fraco.
Fraco? Já andava a namorar o Bloco de Esquerda, para formar uma nova maioria à esquerdina, coisa que não houvera nestes cenários pós-25 de Abril. Namoraram duas vezes e foram visitar pela primeira vez a casa do Passos. Passos estava com a alma deslavada e atirou-lhes com vinte papelinhos integrando pontos para juntar aos do Costa. Ora o Costa estava mais interessado noutra vitalidade. E lá foi para enviar o roteiro geminável à coligação. Não deu em nada e o Passos cuspiu para a televisão que esta atitude não os levaria a nada e nem iria volta a reuniões com o PS. Recebeu o plano e escandalizou-se: «Isto é o programa de governo do PS, feito pelo Centeno». Acabou-se. E já o Costa vinha à televisão explicar a dinâmica mais mobilizadora do Bloco de Esquerda. Explicou os pontos acordados, contando também com a discreta presença do PC.
O locutor questionou: «Mas como é que o senhor resolve a posição desses partidos que não querem o euro, nem a Europa, nem a Nato, nem o Tratado Orçamental». Costa sorriu: «Tudo resolvido. Eles garantiram que nada reivindicam a esse respeito, guardam na gaveta, podemos confiar. Nem é o programa deles que funciona, é o nosso em justos acertos».
O entrevistador abriu muito os olhos e mandou o Costa para outra entrevista.
Cavaco sabe o que fazer porque (diz) montou quatro cenários. Um deles vai resultar. E ele pensa nos estranhos presidentes que o vêm substituir na contenda para a escolha (provável) de um idoso catedrático de direito, há mais de uma década comentador político de televisão.
Pedi ao Goucha para supervisionar este texto. Disse-me, afunilando os dedos, falta um pouco mais de sal, senhor professor... Pensei que esta salada intriguista, sonsa, em que nada inspira confiança, talvez empurre mais emigrantes para as calendas, aumentando os abstencionistas para uma ordem de 100% e grandes bolsas geridas pela Santíssima Trindade de três troikas.


segunda-feira, outubro 12, 2015

COSTA PINHEIRO, FALECIDO ENTRE O EXÍLIO E A IMIGRAÇÃO



Eu gostava dele, mesmo sem ter a certeza de o conhecer e tendo trocado um monte de palavras com os seus óculos a brilhar. Depois disse-me que as pinturas chamadas de Reis eram a lembrança da nossa História e apareciam-lhe das cartas e dos livros e dos sonhos de criança. «Não, não sou nem um imigrado nem um artista votado ao exílio. Os que emigram procuram empregos, cidades e escritórios. Eu não tenho nada disso.» 
Andávamos por ali, ás voltas, na exposição do KWY, como no livro de Herbert o Hélder, aquele que se chama OS PASSOS EM VOLTA e é uma obra prima da literatura portuguesa.

Costa Pinheiro morreu em Munique, com 83 anos. Aqui mesmo dois quadros dele dedicados a Fernando Pessoa, génio incontestável. Lembro-me do que ele disse nessa linha de desocultações: «A imaginação domina o corpo. E o corpo vive equilibrado com as emoções e os sentimentos naturais.» Fernando Pessoa podia ter dito algo assim, no seu «Livro do Desassossego».



A frase-lema de Costa Pinheiro: A imaginação é a nossa liberdade.

terça-feira, outubro 06, 2015

A MULHER QUE NOS OLHA DE FRENTE E VÊ: futebol, miudezas da fé, televisão de novelas e publicidade, política atrapalhada, a morte em casa e o império perdido

*Há vários anos que me sinto enganado no curso anunciado da nossa verdadeira história, porque nos tolhem os passos, dos anteriores até aos posteriores, e tão lento me fazem ser que só me restam imagens abaixo desta, deusa do Loge.*
Vou ao sabor do que me ocorre. 
Começo pelo passado dia 4 de Outubro, domingo, 2015: foi dia de eleições legislativas,Portugal, depois de sondagens favoráveis à coligação PSD/CDS, que governou o país sob um horrível clima de compressão, entre cortes impiedosos nos vencimentos e nas pensões, altos níveis, vagas de emigração, altas percentagens de desemprego, vagas de emigração, mitos da utopia europeia sob o rigor assimétrico da Alemanha, miséria, suicídios, greves, sobras de riqueza entre aqueles que nunca se mostram como podem ganhar 100.000 euros por mês no mesmo país onde o ordenado mínimo pouco passa dos 500 euros.
Não vou contar a miséria da queda do Império, do tempo da ditadura, dos "retornados" de África, feridos ainda hoje sem o devido ressarcimento, populações a quem tudo foi roubado, empurradas para a Metrópole através de uma ponte aérea e à mercê de hotéis, pensões, albergues, casas de família. Dizem-me ao ouvido que Portugal conseguiu um feito notável ao resgatar cerca 

                                      

750.000 cidadãos, integrando-os em  pouco tempo. Quem  me  sopra  assim  ao  ouvido é um velho amigo daquele almirante careca que desarmou toda a gente, baralhou  as  forças  armadas  já desautorizadas, trabalhou a favor de um Movi- mento que tinha a benção de Leste  mas  deveria,  em vez de arrebatar de forma totalitária  o poder, teria  sido  melhor que o  partilhasse com os outros. Falo de Angola,  onde  os  próprios  cubanos  abancaram  para  ajudar o  governo  pouco sabido  em  guerra  guerrilheira  e tinha já  os  sul-africanos  subindo  pelo terri-tório. Os cubanos   combateram,  empurraram a malta do sul e ficaram também à espera de retornar a Cuba, tratando de se pagar  com  carros, carrões  e  carri- nhos, ou fábricas quase inteiras. Vieram sem custos. Depois daquele tempo,  al- guma  oferenda  haviam  de  receber "Retornaram"  a  Portugal,   estiveram   em hotéis  pensões,  tiveram   subsídios  e receberam a boa televisão metropolitana e a política  gritada, com  arruadas, sem faltar a direita e a esquerda.

Mas não é bem disto que me apetecia escrever algumas notas:
Das eleições ocorridas no domingo, a coligação que estava no governo voltou a ganhar a maioria (por absurdo que pareça). O PS, que andou sempre mozambúzio, enleado num secretário geral muito jovem e sem verdadeiras ideias de projecto, José Seguro, acabou por se fracturar numa complexa luta por aquele lugar, António Costa contra Seguro. Perdeu Seguro mas as tendências internas do partido misturaram caldeiradas requentadas e foram para as eleições com um bom método de Costa mas ainda sem capacidade interventiva e científica. A coligação não tinha senão as ideias da espinha do peixe, o programa era esse, chupar a espinha, em perfeita estabilidade, até porque havia dinheiro emprestado pelos mercados (mais dívida) e um cus-cus de vapor económico, embora houvesse acabado a troika. Enquanto a Europa se fechava na fascinação da ordem, da regra, do poder da Alemanha, na mania dos gregos em terem ainda o seu Olimpo, o direito a escolhas, coisas menores que lhe valeram uma enorme malhada humilhante na reunião com uma espécie de mutantes da grandeza e da escassez azeda.
Ontem à noite, os canais de televisão, embora sem prescindir do futebol e dos respectivos marretas, debateram os resultados e voltaram aos dados constitucionais, chegando a propor que se escolhesse a maioria pelo aumento de votos à esquerda (mas não de deputados), ao contrário da geografia matemática que mandavam as regras e o bom senso. O PS não é da mesma esquerda que o Bloco de Esquerda e amanhã talvez apresente um papel de serviço. Senhores do Olimpo, que futuro há para nós nesta tormenta de gente insana ou neste pánico quase suicida?



                                              Mortágua em nome do BE+PS

 As diferenças são tão notórias que é impensável advogar aquela linha para essa duas áreas. Nem com o resto. E a balbúrdia instalou-se, amainou hoje, mas os resultados vão encalhar em várias assembleias de guerrilha, porventura com mais eleições a meio da legislatura. Se então reaparecer a troika, sairão do país mais 500.000 jovens sequiosos por mais dinheiro, menos campo e mais mitologia urbana , tropeçando em euros.
Devem ter todos cuidado com os refugiados, não porque eles sejam feras, mas porque são nações, por vezes pequenas nações, adoçadas o melhor possível à nossa cultura e antiga história. A Alemanha tem a RDA vazia, onde pode criar um novo mundo de mesclas, mas vai regando a terra seca da perdida solidariedade europeia e finge desconhecer que as cheias e as intempéries têm agora uma escala avassaladora, anunciando que os continentes de grandes dimensões têm afinal potencialidades para revitalizações enormes e nunca um destino de infinitos  esvaziamentos..





Portugal não é a formiga pig que anunciam os lordes do norte, e outros mais ou menos. Portugal é um país que desbravou muito mar e abriu terras ao futuro, deixando por lá marcas e gente de assinalável sentido da aventura, da busca e das trocas comerciais. Da lonjura da Ásia às pontas do Brasil, da África ocidental e oriental até à Índia, o nosso sangue e o nosso engenho ainda sobram enquanto memória e nações. O oceano rodeia toda a nossa fronteira virada a oeste e dispomos de uma área marítima (que muitos nos querem retalhar) capaz de ainda ter petróleo e que alberga, de certeza, vastos campos de investigação geológica, biológica, entre o que se desconhece nas grandes profundidades; pode assim ajudar-se a salvar quem é, incluindo a deter a degradação do planeta como o homem tem vindo gananciosamente a fazer, queimando o ar e alguns apenas pensam o país como a verdadeira"jangada de pedra" que Saramago inventou, impossivelmente eterna e imperdível.
A humanidade tem ensandecido cada vez mais, deixando-se arrastar pela invenção tecnológica e, com ela, empolar os efeitos colaterais, maléficos, da globalização.

Mas falando de coisas caseiras e quase inenarráveis:
1. Um canal português de televisão produziu, entre muitas outras, uma novela intitulada MULHERES. Era um trabalho bem feito, um pouco amassado nas repetições formais e de mobilidade. Tratava o problema da vida de vários casais e pessoas, no âmbito profissional do imobiliário, duas empresas, uma de mulheres a libertar-se do baixo jogo comercial. Curiosamente, entre os primeiros episódios, as actrizes faziam um depoimento sobre o sentido da sua entrega e qual o seu projecto de vida. Isso foi depressa abandonado. Os casos eram interessantes e rodados com simplicidade, a despeito dos problemas humanos e sociais que emergiam em certa progressividade.



Ora esta curiosa novela passou para o fundo da noite e depois, embora fosse quadricularmente bem organizada, a televisão produtora resolveu desligar tudo para a ponta da semana: ou ao sábado ou ao domingo, recordando planos anteriores obsessivamente antes do tardio genérico, aliás com publicidade no declínio mal «avisado» do retalho breve da semana. Estes abusos (do seu próprio trabalho e dos actores) são cada vez mais frequentes na televisão portuguesa, para a qual parece que ninguém aponta a necessidade de lhe restituir verdadeiros planos deontológicos e a devida legislação formal ou punitiva.
Faz rir, no entanto, saber-se hoje que a Instituição que trata da atribuição dos prémios Emy nomeou as nossas pobres MULHERES para a hipótese de receberem um daqueles galardões.

2. Este caso fez-me estudar problemas paralelos: e são brutalidades contra o bem estar e a boa comunicação de entretenimento (já que não passam disso).
Um outro canal da nossa prolixa televisão, começou por somar telenovelas em horas depois dos noticiários  da noite. Por último, a par de outras novelas de outros canais, tudo por cima de tudo -- e tudo encravado ao "segundo" por cortes gerais de publicidade -- o canal a que nos referimos já acumula cinco capítulos até cerca da uma hora da manhã, uns cortados ao meio, outros colados aos seguintes, chegando mesmo a apresentar no fim a notável novela IMPÉRIO, cortada num pequeno revisionamento e em mais duas metadinhas atravessadas pela famosa publicidade que concorre, assim proposta, para delitos domésticos de faca e alguidar. Dada a impressão em que os próprios intervenientes se embrulham na sequência programática cada vez mais, até  a actual REGRA DO JOGO (brasileira), sendo um objecto assinalável, acaba estropiada na malandragem em grande gritaria e com tanta gente em campo (por vezes) que apetece encurtar  com um  breve perfume Done contra seu próprio modo de ser.



Noutros campos, o futebol é um dos maiores factores de doença colectiva que alastra pelas televisões. E não me refiro apenas aos jogos, esses mesmos cada vez mais rebenta pedras e menos bamboleia, tudo brutal e custando milhões.  A indústria de homens para a bola chega a ser chocante nas assimetrias e no horror das maningâncias de dinheiro, honorários e muitas outras despesas.
Algo de semelhante, mais sofisticado, pago de fora, acontece com as indústrias da comunicação audo-visual ou só de som (se fosse possível refrear a montagem de «utilidades» no mesmo objecto de consumo). As redes sociais corrompem a natureza humana (quanto mais se sabe mais se insiste) e os processos comunicacionais queimam consciências, limitam os tempos de lazer ou trabalho. Cada rapariguinha, cada rapaz, além dos homúnculos a deslizar ecrãs e senhoras castigando teclas com a ponta dos dedos, têm várias máquinas como ardósias a seu lado, no banco do jardim. Enquanto dedilham uma, as outras esperam. Serão os amanhãs que cantam?

Só sobre o nosso dia a dia, na cidade, sobram casas, taxas, impostos, erros de construção e fios acumulados sobre as portas por causa das zonas e dos meos, sabe-se lá que mais entre tubos da água com cem anos, que se rompem, e esgotos incapazes de susterem as cheias vasculares, inundando de fezes e água barrenta as belezas da Avenida da Liberdade, do Marquês de cima abaixo, não é?



Lisboa nunca será assim, felizmente

terça-feira, setembro 08, 2015

O NOVO TEMPO DAS TRÁGICAS MIGRAÇÕES


  Deus ou o Horror?

Há dias, ao ver cenas indescritíveis das marchas desamparadas de ondas de imigrantes, após a retenção sem nome das pessoas na Hungria, lembrei-me de ter escrito: "Ninguém sabe se Deus existe e de que morte padece o Homem, crente do nada". A percepção das vagas humanas que se metiam em barcos de borracha e tentavam atravessar o Mediterrâneo, morrendo metade pelo caminho, concentrava-se depois nas chegadas às costas da Itália -- um monte de mulheres, crianças e homens, tropeçando nos próprios passos, a morte na alma. A grande Europa, que ainda há bem pouco tempo juntava eminências da finança e da política para julgar os «pigs» gregos, zurzindo os ministros daquele país da forma menos cortez que já se viu em situações assim, por razões colossais, capazes de assombrarem os santos, pareceu não ter-se dado conta do que estava a acontecer nas suas barbas e nem um fio de força humanitária sobrou das suas assembleias e grupos encarcerados de trabalho ou decisão. Nada parecia estar a acontecer, nem no auto-proclamado Estado Islâmico, nem nas terras queimadas da Síria, com uma guerra que produz milhares de mortos e deveria ser parada em nome da decência civilizacional. Campos de refugiados da Síria já existem há anos em varios sítios, a Jordânia que o diga, e o símbolo trágico de Yarmouk devia tirar sono a alguns senhores políticos do norte da União, padecida de si mesma, esses que desconhecem as horas e trabalho a sul e a história que alguns povos dessa zona gravaram na memória do mundo.
De súbito, por mar e por terra, mais dezenas de milhares de imigrantes surgiram de todos os lados, visando estabelecer-se no norte da Europa, nomeadamente na Alemanha. Alemanha, essa, que pediu então a solidariedade dos outros  povos  europeus,  gregos  também  --  pode imaginar-se  --  e engalanou  gente para receber os refugiados da guerra Síria, sobretudo, enquanto alguns protagonistas da fuga, bem avisados, chamavam a atenção de outros companheiros para o facto de, nas diferentes multidões, terem eventualmente viajado jihadistas activos, infiltrados  que poderão, nos países de chegada, garantir uma ideia menos pacífica do futuro, a desencadear no paraíso do euro.

Esta imagem do menino morto na praia, à qual uma revista associou o holograma de uma menina que saúda o espaço e o amor, num gesto incisivo, do coração, é hoje um dos mais trágicos símbolos das viagens em fuga, contra a guerra, a chacina e todos os totalitarismos emergentes ou sedimentados desde há muito.



Muitos povos, ao longo dos séculos, produziram diásporas imensas. Portugal é um país com mais de oito séculos de existência e sempre emigrou para longínquas partes do mundo, onde fez valer o seu direito ao trabalho e ao respeito pela sua condição. A História das Navegações Portuguesas marca o próprio desenvolvimento dos conhecimentos sobre a Terra, Continentes e Culturas. Nada disso poderá ser apagado, continuando a ensinar, mesmo na actualidade, muitas linhas de saber sobre migrações, sustentabilidade dos territórios, emigração, imigração integrada. Mas o que está a acontecer com as actuais migrações, sobretudo da Síria e das zonas onde o Estado Islâmico faz a guerra em completa barbaridade, não é um ideal de descoberta e de esperança. É particularmente um vasto impulso de fuga, sobretudo em direcção à Alemanha, na presunção de que o trabalho para todos, incluindo os direitos humanos, estarão todos ali, assegurados e sem racismo. O país vai acolher 800.000 refugiados. A catástrofe alarga-se em vários sentidos, pensa-se que até ao insuportável, e é certo que nas zonas de guerra há ainda, pelo menos, cerca de 11 milhões de pessoas esperando uma oportunidade de sair em direcção ao norte.


Não há razões, nem humanitárias, nem culturais ou religiosas, para que toda a gente acossada por alienados do poder, genocidas profissionais, tenha que rumar em direcção à Europa, apesar do déficit demográfico desta. A Europa, aliás, está a reaprender a solidariedade, porque a União com que sonhava está praticamente congelada em regras e orgãos especiais. Um melhor ajustamento dessa forma de gerir um espaço tão completo não pode depender das pressões económico-financeiras nem de ideologias mitificantes da História. Os refugiados, diferentes entre si, filhos de nações igualmente de perfis próprios, não podem ser apartados (à força do terror) do senso que desenha todo um tempo e toda uma história. A  África não se move apenas como esta parte em dura viagem. Depois disso, e pela grande realidade que sempre representou antes e depois da colonização, esse continente não tem necessariamente que se esvaziar. Além de que os países totalitários e sanguinários dessa zona devem ser levados a compreender as suas máculas, a relação entre as diversas etnias. Porque, no quadro actual, os que hoje fogem da morte, muitos dizem não compreender a razão daquilo lhes acontece, já com saudade da sua casa e das suas realidades. Um dia, muitas dessas pessoas poderão evocar o direito de regressar a tais paisagens, tendo os deveres assumidos e numa comunidade capaz de relacionar trabalho e liberdade. Os deslocados que entretanto choram os seus lugares de nascimento e de vida devem, amanhã, poder decidir de forma digna e segura a escolha aberta à vida que conceberem, sem medo, sem perdas. Infelizmente, já houve nos últimos dias sinais de desencanto, vozes que evocam as suas casas abandonadas, o dia-a-dia vivido com natural proximidade dos vizinhos, dos amigos, lugares de costumes elencados no trajecto da história a que pertenceram. "Até parece que a comunidade internacional não sabe como parar aquela guerra". O próprio presidente da Síria, só para acrescentar uma breve nota a tantas coisas ocultadas, também não sabe a forma de parar tantos males e pessoas em fúria, atrás de uma utopia sem rei nem roque. 

 

 HORAS DE PARTIR, HORAS DE CHEGAR, HORAS DE REGRESSAR