Quarta-feira, Julho 08, 2009

MORREU, BRANCO, O CANTOR MICHAEL JACKSON

Esta era a imagem de Michael Jackson quando do lançamento do vídeoclip Thriller, em 1984, obra considerada das melhores de todos os tempos. Não há sinais das borbulhas afirmadas na adolescência e o trabalho de imagem adequava-se à pujança dos meios vocais e do gesto, dança invulgar, indiciada por muitos dos ritos urbanos, sobretudo onde florescem diversas misturas rácicas e mitomanias assmbrosas. Fala-se de uma infância problemática, difícil, aliás bem cedo explorada pela própria família na dança e num tom vocal específico, preso também à vontade do próprio Jackson, menino de vocações exploráveis. Um articulista, ao falar desta época, intitula a sua prosa com o título «uma estrela à custa de cinto». Joe, o pai, não admitia falhas aos filhos e recorria à violência para lhe incutir um rigor fanático. O tempo levou esta figura, tão poderosa em Thriller, a uma estranha metamorfose, duvidosamente fundada em certa doença da pele, que empurrou o cantor e dançarino para um caminho alucinatório, por vezes fascinante mesmo sob o peso das suas marcas, das sucessivas operações ao corpo, à derme, às feições do rosto, um rosto enfim ocultável e patético, ilustração inquietante dos ídolos em decadência, dos vícios que entretanto os cerca de solidão e crises depressivas de grave recorte. Jackson não era um monstro e morreu de forma abrupta, sem recurso, tratado das mais diversas sequelas derivadas da sua vida e das lesões que provocava a si mesmo. Teria estranhos hábitos, na sua relação com crianças e bichos exóticos, assaz perigosos, que chegou a ter em casa, com ênfase. Que desejaria ele daquela sala onde, em determinada altura, coleccionou manequins que declarava serem os seus amigos? Metáfora contra a solidão? Resistência à exploração da indústria dos espectáculos? Mas ele próprio os queria assim, talvez sem os saber gerir com vontade bem activada, cultura e bom senso. Seja como for, sem falar em genealidade, o seu talento era insofismável e a sua obra fez história. Nada que justifique, para além do respeito que lhe é devido nesta hora, a hipertrofia dos processos megalómanos em que envolveram as cerimónias da sua despedida e da quase sacralização do ídolo. Assim nos enganamos cada vez mais, sendo certo que os actores dos grandes espectáculos passam ao futuro pelo estreito caminho do envelhecimento irreversível.
este foi o rosto que Michael Jackson impôs a si mesmo,
não se sabe em nome de quê

Segunda-feira, Julho 06, 2009

SOUSA TAVARES, LANZAROTE, BARÃO NO BRAZIL

Miguel Sousa Tavares numa das varandas da sua casa
que dispõe de uma soberba vista sobre o Tejo



Há dois ou três anos, escrevi neste mesmo blog um auto de homenagem a Sousa Tavares: eram palavras de quem apreciava a frontalidade e lucidez do jornalista, agora escritor, filho de duas personalidades que ainda conheci e que me confrontaram com a coragem de afirmar uma luta, uma arte, a habitual e cobarde intriga da nossa vida, incluindo a intelectual e a política. Sousa Tavares não me desiludiu. E de súbito o EQUADOR, obra legítima, interessante, mas que lhe cortou, em todo o caso, a geografia da identidade e deixou-o a fazer acrobacia na latitude entre separa Portugal do Brasil, sequioso dos grandes espaços e de mais carga inspiradora.
Caro concidadão, a sua entrevista ao jornal «Diário de Notícias», ontem, domingo, é das peças mais decepcionantes que já sairam do nómado adolescente que ficou a residir no seu retrato inconsciente: porque foi muito desconfortante vê-lo reclinar-se na fama, rebolar na boca as quantias que ganhou, o júbilo de um discutível viajante, uma coisa assim a parecer-se com o pequeno salto de Saramago, ele que foi só amar entre as pedras e espreitar daí, sem as pujanças do tal país novo que é o Brasil, o mundo em volta, Lisboa que você também cantou, o deserto global atravessado por artistas corredores, arranhando-se até ao martírio só para gritarem: «quase no fim da colúna, meus amigos, más chéguei: agora sou de Dakár.» Este é o lado mais pueril dos portugueses, postura pela qual ganharam mundos ao mundo para logo os perder, alcançando terras do fim da Terra, e fugindo para o Brasil pela ameaça exterior, mas fugindo para sempre, com barões e baronesas atrás, barcos carregados de meio Portugal para instalar na terra da salvação, lugar dos engenhos, dos escravos, da imensidão que dana a maior parte dos burgueses, montes de mordomias que brotavam da insanidade das pessoas e da exploração alucinada de riquezas jorrando um pouco por toda a parte, era só apanhá-las e levar à côrte. A loucura teve a sua beleza, a sua grandeza, e dela até saíram coisas absurdas e fascinantes como Manaus.
Apetecia-me dizer, à maneira de Caeiro: «eu sou desta terra, vejo e penso a terra, faço pinturas e escrevo livros, não há mais nada para fazer até ao fim daquele outeiro». É verdade, o Sousa Tavares já ouviu falar nos meus livros? Não ouviu. Mas eu, que nem sequer sou pior escritor do que o meu caro concidadão, não venho em nenhuma página, em nenhum telejornal, não viajo quatro vezes ao Brasil só com a massa de uma edição ou duas ou três. E sabe porquê? Porque, depois de vir de Angola, tive de esgaravatar tudo, palmo a palmo, sem jeito para pedir o favor de um destino inteiro, nem o berço onde me caísse do céu uma nuvem de açucar. E como eu há muita gente por aí, os que deveriam ter a oportunidade de sentir na pele essa doçura de cortesia de que você fala. Não, não pense nisso: o homem que lhe fala é bem mais velho do que você e não tem nenhum azedume pelo triunfo dos outros. Mas nos regimes actuais, o triunfo tem uma indústria por trás. Você é um produto dessa indústria e teve berço e esperteza para saltar a sebe. Está aborrecido com o país (um escritor que almoça, telefonado, com Sócrates) e julga ter urgência em apanhar um abanão, pensando que dessa forma alcançará um pouco do tal elixir da juventude, o sal de um inapagável talento. Precisa de inspiração, foge para o Brasil. É verdade que não tem a obrigação de usar a sua sorte e o seu jeito numa verdadeira causa por Portugal. Se somos macambúzios, geramos Vergílios Ferreiras (sem Nobel). A lista não terminaria. Porque os países velhos, são sobretudo antigos, e é nessa nobreza que a experiência escorre para dentro de nós. Juan Gris dizia que a grandeza de um artista se media, sobretudo, pela quantidade de experiências que ele trazia dentro de si. O Brasil serve para experimentar, para exprimir. A força de Angola, mesmo despida da demografia brasileira, mesmo na passagem pela floresta em guerra, deu-me estados de espírito inquietantes, deles retirei «Angola 61». E você a dar-nos recados, sem se importar com a ofensa que nos lega, porque a sua mobilidade também teve o nosso contributo, que é que pensa?
«Vou para o Brasil. É um país novo, de que eu gosto há muitos anos. E sou muito bem tratado sem ser popular na rua, o que é óptimo. É um país optimista, não está cansado, não está desiludido, sem esperança. Mesmo que agora haja tanta asneira feita no Brasil, todos os dias, não é? Só que que eles têm espaço e tempo para uma maior dose de asneira do que nós». O caro concidadão quer espaço e os emigrantes brasileiros vêm até aqui por sufoco e não acham o português (conforme os contextos) assim tão macambúzio. Podem é ter perdido quase todo o cosmopolitismo que já usaram (Eça de Queiroz devia ressuscitar) e por isso agem de forma mais pagã, nas festas tradicionais, com o património cultural de que dispõem. E os ricos fazem como os ricos paulistas. Mas olhe, Sousa Tavares, cuidado com o espaço, não se meta a ser um «sem terra», porque logo-logo terá terrinha para escrever, mas será rondado por outros sem-terra, muitos outros que nunca mais acabam, e você, macambuzado, pensará na bela casa da Lapa, com vista para o Tejo, decidirá vender a terrinha (que é o que eles todos fazem), virá a Lisboa comer uma boa cabeça de cherne, trocará o Algarve pelo Alentejo, e visitará, com algum esforço, compreendo, o «nosso» Saramago, lá nas pedras de Lanzarote. É mais verdadeira, esta ideia, e só tenho pena que o Nobel Português (da literatura) não se tenha curado das antigas solidões. Não é por acaso que ele diz de si, com algum sarcasmo, está bem de ver: «ele que vá para o Brasil ou para Marte, tanto me faz». Alguma coisa há-de fazer. Pois se um génio-para-si-mesmo-sonhando, aqui em Campo de Ourique, lhe está a dizer estas coisas, é porque alguma distorção ética haverá na sua preferência, tanto mais que, se há coisa que você é, e muito bem, é português. Devia estar mais ofendido com as garotadas que você disse aos jornalistas, como se se babasse de ir participar numa fulgurante imitação dos prazeres colonialistas. Mas não fico ofendido: acho apenas que você se desentendeu. E garanto-lhe, eu que conheci de perto o seu pai, em pleno PREC, tenho contactado com muito poucas pessoas tão portugueses como você, meu caro concidadão. Já não diria o mesmo da senhora sua mãe, que muito apreciei, e cuja obra nos legou, em português.

Sábado, Junho 27, 2009

CAMPO DE ADORADORES DA MORTE PELO SOL

O senhor Silva pertence às redes comunitárias de adoradores do sol. Na praia, certamente. O mundo já não pode viver sem os Silvas. Eles não querem nada com as serras e as cidades. É no verão que se deslocam aos milhares, porque o sol queima muito mais nessa altura. As estradas, logo a partir de Julho, enchem-se de gente. Gente dentro de carros fumegantes. As auto-estradas são pagas e quanto maior for o percurso mais se paga. Os Silvas viajam com um plano de poupança, usando de preferência pequenos carros utilitários, em segunda mão e pagos a prestações. Em estradas atulhadas. Antes de Julho já as filhas dos Silvas andam dias e dias a caçar todos os raios de sol, ali mesmo em Santo Amaro. Umas têm medo dos avisos quanto à exposição aos raios solares por causa dos cancros da pele. Mas são como os fumadores: um terço deles, em todo o país, deixou de fumar pelo aumento do preço mas, acima de tudo, pela proibição de expelir fumo de cigarros em todos os lugares públicos, escolas, empregos, restaurantes, hospitais, e até igrejas. A campanha sobre as praias, largamente desenvolvida pelas autoridades, não fez baixar os adoradores da morte pelo sol. Não é por acaso que as meninas, fugindo ao provincianismo e aos costumes antigos, já afirmam querer a cremação quando morrerem. Caixões e cemitérios, que parolice, que seca: é muito mais higiénico a cremação dos cadáveres. Depois, sem nojos, ficar numa pequena ânfora de estilo grego, ali na própria sala, ou no quarto da família. Se há pessoas que derramam os mortos, por acidente, na carpete, outras há que usam processos de prevenção contra tais casos, ajudando a indústria dos sarcófagos de metais preciosos para uso dos mais colados à necrófilia. De resto, há quem vá a uma ponte velha, aí abrindo a caixinha e polvilhando o espaço e as águas com o pó dos mortos. Outras alternativas são as próprias praias, onde muitos começaram a morrer: e é mesmo durante o banho de mar que filhos e netos de um Silva qualquer (já não se trata de uma questão de minorias) despejamam as cinzas a cerca de cinquenta metros da orla de areia suja, entre a espuma dos dias, eles boiando com a ajuda de bóias de plástico insuflado e uma coroa de flores que deixarão ao sabor das correntes. A berraria dos miúdos é clara e intensa, chegam a esticar os dedos molhados por baixo da caixinha, sujando-se com a cinza do avô e logo admoestados pelas mamãs para lavarem já já os dedos na água salgada até não sentirem nem um só grão na pele. Mas quanto ao resto, não há problema: a multidão enche cada campo em que se transformou a praia, cada pessoa luta arduamente pelo seu bocado de território. Quando consegue lá estender a toalha, abre logo um chapéu de sol e desata a cobrir-se de protector solar número 40. A segurança e a comodidade são coisas que desapareceram há muito. A qualidade de vida, ao descer na maior promiscuidade, costuma matar, de insolação e enfartes, pelo menos dez pessoas por semana. Agora as concessões são a dobrar e comportam, a preços fabulosos, serviço médico e de enfermagem. Os deputados da Assembleia Nacional Superior já enfrentaram a hipótese de criar cotas para cada praia e consoante as horas. E alternâncias. E até proibições. Como ninguém tomava as medidas relativas aos vários regulamentos, os campos foram municiados com grandes chapéus de sol, mas os Silvas preferem ir para os piores sítios, com direito a pequenas sombrinhas de sua propriedade, as quais espetam na areia, o eixo logo rodeado de mochilas, cães, meninos e bolas. Qualquer Silva que se prese, após essa hora de marcha, luta e pouso, abrem os seus banquinhos portáteis, ficam em calções, besuntados a 40, e lendo jornais (Bola, Record, Correio da Manhã). É claro que o sol atravessa a lona dos toldos, mesmos dos toldos institucionais, e ninguém descobre ninguém neste mar de adoradores do sol, ou mesmo da morte por lento suicídio em nome do bronzeamento. As mulheres são as que mais rezam sob o sol e o creme a escorrer, pele escuríssima, tudo muito pior do que em Fátima.

Quarta-feira, Junho 17, 2009

CONDIÇÕES DOS JUDEUS IMPOSTAS À PALESTINA



Gritos, disparos de armas de fogo, pedras voando na atmosfera carregada de fumos, um cheiro pesado espalhando-se sobre o asfalto amolecido nuns pontos, cicatrizado noutros. Anos da Intifada, memória humilhada das derrotas militares e dos territórios ocupados, Arafat num cartaz tão longe, velhos de plantações mirradas, outrora capazes de produzirem cebolas, agora definitivamente labirintos de cimento e arame farpado. Corredores vigiados. Agonia na Faixa de Gaza, enre campos e ruínas. Os povos palestinianos sabem, em suma, de uma dor qualquer, baça e funda, que tem a ver com tudo em volta, Telavive, os israelitas, anos 40, mais tarde a guerra dos seis dias. Os problemas do Médio Oriente persistem, cortantes, apesar da História soprar outros ventos, odores indizíveis, o cheiro da terra queimada. E um cuidado com os velhos azimutes, porque o rumo da morte já não se sabe com antecedência qual seja. Foi feito mais um apelo para reconhecimento do Estado de Israel, enquanto Estado Judaico, apelo inserido num discurso de Benjamin Netabyahu, primeiro ministo daquele país, mas os conteúdos pontuais são quase um insuto, o que acabou entretanto por ensombrar expectativas, as próprias simulações de abertura, tudo num estranho ciclo vicioso onde Deus capitula e o sagrado domina aterradoramente todos os espíritos. Ninguém irá apoiar o apelo de Benjamin, aliás produzido na Universidade de Bar.Ilan, perto de Telavive. O Egipto não poderá dar a mão a um programa implícito totalmente desajustado da situação. Nem o Egito, nem a maior parte dos Estados da Zona. É verdade que o primeiro ministro Benjamin Natanyahu declarou pela primeira vez, no seu discurso, aceitar um Estado da Palestina. Só que as condições apresentadas para essa aceitação, não parecem poder tornasr-se História, porque foram urdidas de forma impenetrável e de verdadeiro desprezo pelos outros. Tais condições foram rejeitadas pelos palestinianos e também pelos países árabes, incluindo mesmo os que têm acordo com Israel.

O presidento Egípcio, Mubarak, adiantou dias atrás ter comunicado ao presidente dos EUA, Barak Obama, que «todas as crises no mundo árabe passam por Jerusalém». Esclareceu haver comunicado ao ministro israelita que as negociações sobre o estado definitivo dos territórios palestinianos deveriam ser imediatamente retomadas e no ponto em que foram interrompidas». Com efeito, as ideias anunciadas por Benjamin Netanyahu não respondem às epectativas da comunidade internacional, infirmam o próprio estatuto do Estado dos Palestiniamos e bloqueiam os dados imprescindíveis para a existência de pas naquela zona. O Egipto assinou acordos com Israel, em 1978, e a Jordánia em 1994. O Líbano e a Síria têm suspenso um processo de paz com Telavive, Pois esses dois países colocaram as mais sérias reservas ao conteúdo do discurso de Netanyahu. O modo com o estas personalidades têm encarado os «direitos» de Israel, ou aqueles que os combatem, legam à contemporaneidade uma das mais absurdas contendas em volta de arcaicas mitologias, como se a vida das pessoas pudesse ser tratada dessa maneira ou assim pirateada, aliás desde a instalação artificial e combinada dos judeus na terra segregada aos povos da região, na altura.


Tudo tem sido visto por orgãos internacionais, por vezes até em combinação com eles, o chamado milagre de desenvolvimento do Estado de Israel, não apenas à custa de engenho e arte, ou de domínio tecnológico, mas também pela guerra e, em nome da defesa, por expansão humana ou territorial. Judeus de Gush Emunin, em 1974, tomaram para sua insta~lação Sebatia, perto de Nablus (norte da Cisjordânia), fazendo aquilo que constitui o primeiro colonato ilegal no território palestiniano, nessa zona ocupada por Israel após a guerra de 1967. Além disso, a inclusão tocou a Jerusalém Oriental. Os israelitas ocuparam o Sinai e os Montes Golã. Com o decorrer do tempo, os colonatos (ilegais perante a lei internacional) multiplicaram-se com arrogância. As caravanas tomavam as colinas e aí emerguam casas, subsidiadas, integrando as melhores condições possíveis. De pólo a pólo, os pequenos povoados ganharam escala e demografia de autênticas cidades. Basta dizer que hoje são 300 mil só na Cisjordânia. Yizahak Samir (1992), depois de perder as eleições, chegou a confidaenciar que tencionava construir tanto e tanto que impedisse a devolução dos territórios aos palestinianos. Não haveria nada para resolver e é nisso que consiste a actual ameaça dos colonos. Há jeito de entendimentos com estes actos prepotentes e insensatos?

Pois então veja-se como Benjamin Netanyahu concebe as coisas: (publicado do Diário de Notícias em 16.06.09. O texto anterior baseia-se em trabalhos de Lumena Raposo)

Estado judaico: os palestinianos têm de recopnhecer Israel como nação judaica.

Garantias intenacionais:O Estado Palestiniano não pode ter exército, não pode controlar o seu espaço aéreo nem adquirir amas.

Jerusalém:Permanecerá a capital de Israel. Os palestinianos têm de abdicar da sua reivindicação à capital de Jerusalém Orientalk.

Colonoatos:Israel não construirá mais colonatos na Cisjordânia mas fica indiciado a autorização do denominado «crescimento natural» nos já existentes.

Direito ao regresso: O problema dos refugiados palestinianos tem de ser solucionado fora de Israel. (Milhões de refugiados palestinianos vivem em campos da Cisjordânia, Jordânia, Líbano, Síria e Faixa de Gaza)

Depois disto, sobretudo com este guião iniminável, parece que a Nação Judaica se prepara para vingar, com outro, o Holocausto que Hitler, não os palestinianos, lhe infligiram.

Domingo, Junho 14, 2009

ARTE CONTEMPORÂNEA | Artur Cruzeiro Seixas


CRUZEIRO SEIXAS

Conheci pessoalmente Cruzeiro Seixas em Angola, nos anos 60, aproveitando um tempo de licença na cidade de Luanda. Entre amigos, aí visitámos a belíssima colecção de arte africana que o pintor conseguira formar ao longo dos anos, naquele grande território atormentado por guerras inúteis. Ao rever alguns textos escritos sobre a sua última exposição na Galeria S. Mamede (CENAS INTOCÁVEIS), reparei numa frase que eu próprio citara, a partir do catálogo. Franklin Rosemot dizia a certa altura das suas considerações: «uma figura principal no movimento surrealista internacional pela segunda metade do século XX, ele continua a ser, como a presente exposição o demonstra, um excelente exemplo e mentor do século XXI». Ao revisitar, entre memórias, a casa de Cruzeiro Seixas em Luanda, mobílias populares integralmente pintadas de azul, objectos brancos, molduras brancas, nichos e patamares onde se situavam as principais esculturas mágicas, salto por cima daquela nota entusiástica: o artista português, hoje ainda activo e a viver numa residencial de idosos, falou-me há dias dos seus sonhos e das figuras humanas que lhe preencheram os melhores momentos de convívio, com afecto e verdadeiro conhecimento da sua obra. O Surrealismo foi sem dúvida um movimento determinante na história da arte relativa ao século XX: intenso, inovador, capaz de se desdobrar pelas almas contagiantes, este Movimento também se fracturou em consequência das mudanças de modo e fundamento em todas as grandes transformações do tempo. Em Portugal, Cesariny herdou um perfil soberano, talvez inspirado em Breton, mas o que podemos estudar na obra de Cruzeiro, mentor por sua vez de outros artistas, é um talento fiel ao rigor e à encenação do espaço. O pintor não era surrealista porque sim, tanto quanto aconteceu no século XX, mesmo quando alguns perdiam o apego ao modo, visando outras experiências, opostas, mas continuando a dizer-se representativos do Movimento, ostentando o seu forte galardão, quer na via caligráfica, quer simplesmente da abstracção, por vezes ciosos de sopros orientais. Ora isso mudava muita coisa. Cruzeiro Seixas, criador das suas composições, morfologias, lendas, oratórias do mito e dos seres intocáveis, sempre se conservou fiel às técnicas que desenvolveu e aperfeiçoou, sempre manteve o seu pensamento alinhado pelos princípios e concepções da estética surrealista. Quase profissional, no sentido desse apego a um jogo certeiro, sem cartas viciadas, ele tem sido um autor de excelência, transportável, sem desgaste maior, para o século XXI.


apontamento da memória

Artur Cruzeiro Seixas nasceu em 1920. A sua ligação ao grupo «Os Surrealistas» cobriu a apresentação inicial ao público (colectiva em 1949): trazia «estranhas esculturas de meias de seda armadas em estruturas de arame». Mas a sua afirmação verdadeiramente significativa aconteceu na área do desenho, escrita inusitada, caligrafia de delicada presença formal. Tratou-se, e durou até hoje, assim o posso dizer, de uma especialidade aparentemente suspensa da própria banda desenhada, antes de ela ser essa verdade cósmica, de superior design, que Alex Raymond nos legou. Esta imaginária filiação em nada belisca o espírito superior, com outros riscos e outros propósitos, do belo formulário gerido por Cruzeiro Seixas. Ele foi, quase de súbito, surrealista, plástica e poeticamente, na metamorfose que imprimia a muitas das figuras, sujeitando-as ao paroxismo de cenas de violência e crueldade, como referiu José Augusto França. Mas o que importou foi o seguimento gráfico, lírico, poses das citadas encenações operáticas, composições de palco (o plano ou o palco) inventadas com ênfase, formas por vezes inspiradas na poesia de Lautréamont, universos de valor onírico, maior entre os maiores da arte portuguesa dos anos sessenta. Senhor seguro de uma imagética efectivamente invulgar, a dança das linhas modeladoras, neste autor, servem profundas dinâmicas estruturais e uma suavidade algo feminina, desde as anatomias e os adereços ao tipo de musicalidade virtualmente inserida nas cenas e nas «paragens» de cada enquadramento.


um mundo metamórfico e crepuscular

Cruzeiro Seixas toma o rumo de Angola em 1951 e ali trabalhou no museu de Luanda, estudando os universos da expressão plástica nativa. Muito respeitado no meio, contribuindo para a cultura da cidade, inclusive quando acolheu Nikias Skapinakis (pinturas de Lisboa) e outros artistas. Ele teve o mérito de aceitar um convite de artistas para expor em colectivo, apesar do estatuto que alcançara enquanto director do museu, num espaço de lamentáveis lacunas nesse campo. Quando voltou a Lisboa foi entendido justamente pelo lado da cultura demonstrada e opções estéticas inspiradas, tendo assim sido director da Galeria S.Mamede, de 1969 a 1974, e a ele se deve uma boa parte do lançamento de autores como Paula Rego, Mário Botas, António Areal ou Cesariny. Os surrealistas portugueses, após alguns endeusamentos e liturgias vindas de França, chegaram a disputar o seu próprio pelouro, defeito próprio de certos radicalismos ao tempo.




Rosemont, surrealista americano, ainda escreveu sobre Seixas e as suas imagens nestes termos: ele é um autor «a quem o mundo deve indiscutivelmente tantos dos mais maravilhosos desenhos das últimas cinco décadas, e é também um dos mais incontestáveis mestres deste Pluriverso em perpétua transformação».
Estas palavras gravam-se nas imagens aqui expostas. E também nos casos da pintura, com a mesma base de desenho, onde figuras híbridas, em metamorfose, lembram ainda a realidade antropomórfica, barcos de areia e astros como bolas amassadas à beira mar. Tocam, com idêntico sentido, as modelações em tons de terra cota, a visibilidade das ondas, o real aberto diante de nós com o seu fogo petrificante, poses monumentais, um mundo metamórfico e crepuscular, sob atmosferas sensivelmente empurradas pelos ventos, entre seres e coisas e justaposições, força romântica que se atenua pela melancolia do mundo. Esta obra parece elaborar respostas à obra de Rimbaut, no sentido dos encontros, aliás num trajecto de quem deseja em tudo ser sublime,
«absolutamente moderno».



das cenas intocáveis

texto publicado no JL

Sábado, Junho 06, 2009

AMANHÃ EUROPEIAS EM PLENA POLITICOMANIA

dos jornais

Um amigo meu encontrou-me no café, sentou-se, pediu água lisa, e começou a tentar sair da lavandaria das europeias. «Não estou preocupado, meu caro, estou sobretudo indignado. E não é para seguir a máxima de Soares. Nem os gritos do povo, índios nas feiras, tabernas carregadas de políticos de aviário bebendo café e copos de três, beijocando quem cospe neles ou lhes devolve bafos e salivas. São todos umas tribos de abruptos, todos têm razão de coisa nenhuma, os pachecos com os seus maneirismos no poder de interrupção, capela do círculo em quadratura, maçonaria de pacote, blogues e santanas por aí, à coca, copistas das cópias das antigas eleições, muito pau, muita bandeira, slogans capitalistas, esquerdistas, direitistas, enquanto rolam ferreiras pelo Chiado abaixo, sorrindo idades e arcaísmos, devegar se vai ao longe, treta dos liceus para pequeninos. Nem devagar nem depressa. Não há longe. E lá vêm os capelães da evangelização de rua, os arautos das canetas esferográficas, lápis de cor, cadernos de cópia, panfletos ou garotadas para os velhotes esfarrapados da reforma, batuques, portas a fechar portas e a abrir portões, melna sem pá, estilo francês, la fraternité, muito discurso a fingir de jeitoso, trocadilhos, e por duas ou três razões. Ou quatro, Os sócrates não podiam deixar o trono para virem umas horas apoiar os seus candidatos, vitais moreiras acusados de burros, de falharem tudo, sim, sim, os rangéis é que estão a dar, não nas faladuras, talvez por serem quase virgens em coisas destas e terem uma voz aguda e rachada, uma escolha brilhante (dizem) das ferreiras para fazerem o papel delas, aquelas que chamaram aos sócrates cooveiros da Pátria e afirmaram, brando no laranja, que as reformas não se fazem em democracia: fazem-se depois de se suspender a democracia pelo menos durante seis meses. Tudo à bruta, num tufão de mudança, políticos atirados deste para outros continentes, nada de provedores, nem de juízes, juízes também, porque não? Um estágio, sem vencimento, na Guiné-Bissau, seria de um fulgor sem nome. Indignado, eu? Eu nem queria parar a democracia, queria varrer os partidos, tudo se recicla ao cabo de certo tempo. Em vez deles, experimentava, através de um programa de televisão, punha lá gente miúda e boa, humilde e sábia, ansiãos também, daqueles dos governos comunitários nas aldeias, mas sem etiquetas, num gran círculo sem quadratura, projecto eventualmente capaz de mitigar a nossa depressão pânica. Os actuais partidos, os grandes e velhos partidos, deveriam pagar multas imensas por cada arruada cometida, gente a comer febras, a beber vino, a esconder segredos: iriam todos descascar batatas batatas em prisão preventiva até confessarem os recentes manobrismos, reconhecendo que propaganda de rua, com brinquedos e outras acenos, não são maneira de falar às populações, a festinha balofa, os milhares de euros gastos para lavar a roupa suja, entre duas ou três palavras sobre a europa, lá onde se acomodam primas donas, delinquentes da extrema esquerda, defensres do natural equilíbrio dos mecados, tudo ao molhe e no malho, malta do dinheiro selvagem, malta que finge esquecer a lei dos mais fortes, a morte do planeta por erros colossais dos seus homenzinhos conscientes. São os xavieres de sacristia, os louçãs analistas, padres metodistas com pedra no sapato, dragas como as Irínias mais afinadas, ildas trotantes, cortantes, fundamentalistas, jerónimos dos partidos que são como condomínios fechados, homens sem cabelos brancos nem sobrancelhas façanhudas, todos reféns de mitologias doentes, de incapacidades mórbidas. Todos os nossos partidos estão em desacordo com tudo, mas em cinco minutos aceitaram o dinherrinho para as arruadas e, em mais de um ano, não foram capazes de se entender para a substituição de um senhor provedor, que acabou, doente e indignado, por resignar. E por aí se vê que nada, entre cassetes, vai muito mais longe do que malhar no freeport, manuelas malhadas pelos marinhos, bancos corruptos, banqueiros por prender, aliás entre outros da mesma casta social. E o ensino, meu caro? A ministra vem do outro mundo falar de forma tecnicista, salvadora, capaz dos maiores milagres, O ensino não tem nada a ver com tão enviesados manobrismos nem os professores precisavam de andar tanto na rua, humilhando-se. Os sindicatos têm as suas tocas de permanência, não doutrinam nem ajudam ninguém: é também gente petrificada por décadas no seu altar, não resignam nem à porrada e aceitam eleições continuamente iguais. O espectáculo dos últimos dias, repetindo até ao vómito fórmulas gastas, arcaicas, todas de feirantes no seu pior estilo, ideias nenhumas, barretes muitos, que é que eles fazem amanhã? A crise não está a servir para nada, é uma oportunidade perdida: a ideia de progresso alfacinha é a mesma, mais carros, mais condomínios fechados, mais hipermercados, mais assimetrias sociais (até ao crime), mais vencimentos inomináveis, mais imobiliário sem norte, abjecto, casas devolutas, casas a mais, cidades grandes a mais, vileza das estradas, o interior candidato a deserto, nem memória da agricultura diversificada, nem uma única ideia sobre como mudar o homem e as sociedades para um outro paradigma (como se dis agora), um projecto capaz de excluir o excesso e o lixo, os fósseis e a morte das florestas» Estou sem fôlego, amigo, disse ao meu amigo. Apreendeste tudo isso nos jornais, onde tudo não passa desse barro e dessa acidez, ficando bem longe de retornos aos primeiros grandes ciclos da vida organizada. O trânsito, na capital da Nigéria, visto do ar, perturba qualquer consciência. Mas isso, como quase tudo mais ou menos semelhante a isso, incluindo a migração para as cidades que parece continuar até à sufocação, o planeta vai calar ou apagar daqui a menos de dois séculos. Os abruptos, ao emigrarem para Sírius, serão porventura visitados por uma Nova verdade, respirando uma atmosfera de metano e acabdo submetidos a uma outra genética totalmente imprevisível. Deus ainda não sabe o que fazer com a sua criação.

Sábado, Maio 23, 2009

INVULGAR HOMENAGEM A UMA VIDA DIFERENTE


Tomei conhecimento em Silves, há cerca de uma semana, que a cidade perdeu um dos seus mais curiosos habitantes, apesar da pobreza e da diferença, cidadão que teve a desdita de nascer com deficiência mental, em definitivo limitado no desenvolvimento da fala, bem como noutros aspectos estruturais ser enquanto da prestação comum enquanto ser humano. Cresceu inicialmente sob a protecção dos pais, gente modesta mas responsável dos deveres inerentes a um caso assim, desde muito cedo, aliás, compreendido e acompanhado pela população da cidade. Na cama de um anexo hospitalar, já com idade avançada mas impossivelmente determinável, morreu Zé Xana, assim mesmo, como era conhecido por toda a gente. Confirmaram-me o que eu próprio verificara, ao longo de décadas, sempre que vinha a férias: que o Zé, eterno moço, inicialmente descalço e depois ajudado e arranjado por instituições sociais, desfrutara sempre de uma saúde de ferro. Umas vezes encontrava-o de sandálias com meias e um casaco escuro, em espinha, calças pardas, amarrotadas, barba crescida, pele curtida do vento e do sol, cabelos hirsutos, negros, gritantes. Outras vezes, anos depois, descobria-o nos sítios habituais, derivas por lugares que lhe eram próprios, paragens nas mesmas praças, rindo a quem passava, «café, café... o Zé sabe, tu és Amorim. Teu pai teu pais?» Se alguém se afastava, com alguma indiferença, ele não barafustava nem gritava -- dizia apenas para a distância maior: «Quando voltas morim, quando voltas? Teu pai teu pai?» Sentava-se na calçada e ria, em bronze, cabelos rijos; chamava por outros que passavam, voltava bem depressa à sua deambulação pela cidade, vencendo horas e horas de passos e pausas junto de qualquer sítio. Sempre capaz de identificar quem via, se era alguém, se era alguém da realidade social da terra ou comerciantes que vinham habitualmente ao mercado. Vencia, com risos e bonomia, todos os silêncios, a mudez dos domingos, a incerteza de certos acontecimentos, e cada vez mais, ao contrário da idade invisível, a sua memória acumulava nomes e rostos de muitas pessoas, fosse qual fosse a hora de chegada, até aqueles que regressavam da guerra no Ultramar, voltando outros. Souzinha souzinha, tás tu?» E eu: «Em Lisboa». Ele ria-se porque já sabia: «Souzinha, zinha, teu mano teu mano, teu mano onde mora? Teu pai morto, tua mãe morta, teu mano souza?» Olhava-o, abismado, via-lhe um rosto de rapaz enrugado, quase castanho, cabelos duros com pintinhas brancas aqui e além: «Toma, Zé, vai beber o teu café». E ele queria, aceitava, pedia mais, ria sempre e não se afastava de nós enquanto não nos despedíssemos dele.
Vivia, por último, numa casinha estreita e branca. As vizinhas e outras pessoas haviam decidido naturalmente tratar de limpar-lhe a casa, lavar as roupas, dar-lhe de comer. Para uma cidade acinzentada e pobre, onde as pessoas se metiam em casa durante dias e dias inteiros, sobretudo quando da morte da indústria corticeira, tal solidariedade era quase patética. E mesmo quando tudo mudou para melhor, de 74 aos anos 90, ninguém esqueceu o Xana, nem o tratou com mais negligência. Ele foi sempre nosso companheiro de chegadas e partidas, ali ficava nas ruas empedradas, acenando com gestos do coração, rouco, ainda que o cuspo lhe aflorasse aos lábios. «Souza, teu mano, pá? diz, diz, teu mano e os meninos, os menos grandes?» Os olhos húmidos sabiam exprimir essa saudade, anunciar essas lacunas, como aconteceu durante a guerra e depois do 25 de Abril.

Zé Xana nunca trabalhara, por clara incapacidade cognitiva; trabalhava, contudo, até o sol se pôr. Era o seu modo de trabalhar, manter o seu mundo em volta, exercer a faculdade da memória específica. Assim procurava os outros, saudava os outros, mesmo quando começou a decair, sujando-se, deixando romper-se a roupa. Lá foi recolhido, enfim, para o tal anexo de um velho hospital, a saber o que sofria, não no desespero da morte. Creio que ele não sabia o que isso era, o que não espanta, pois nós mesmos não sabemos, embora nos passe o resultado dela pela consciência. O Zé esteve sempre atento às visitas, porque as recebia, visitas sobretudo da sua zona, pessoas simples, gente que ele agarrava com os olhos sombrios ou molhados, atribuindo o nome certo a cada um, agitado, logo pedindo «abraça, abraça, abraça».
Morreu, enfim, o Zé Xana, figura emblemática de um certo quotidiano. E, por mais surpreenden- te que pareça, a cidade fez-lhe o funeral, um bonito funeral, e encheu as ruas que permitem acesso, demorado, ao cemitério. Vivendo numa bebulosa onde as memórias se certificavam de centenas de pessoas, talvez parentes, Xana passou aos habitantes da cidade uma mensagem profunda, assim agradecida por uma multidão que respeitou, com a grandeza da humildade, aquele desconhecido diferente, morto por nada, aquele «estrangeiro» que todos sabiam ser português e que todos acompanharam à derradeira morada.
Deus não estava ali, mas os homens sabem, por vezes, fazer o Seu trabalho.