domingo, junho 26, 2016



                      A BREXIT MANIA ENTRE PERDAS


Andava toda a gente a remoer as decisões  europeias e já a fina flor do Reino Unido lançava luz sobre uma certa promessa inicialmente feita pelo Primeiro Ministro: tratava-se do mais simples referendo atraavés do qual os nobres ingleses (todos) iriam dizer se queriam ou não  permanecer na União Europeia.
Houve forte ruído em torno disso, mas o Parlamento do Reino Unido lançava luz sobre a promessa inicialmente feita pelo Primeiro Ministro, David Cameron: o que parecia ao simples cidadão, e apesar dos apertos de Bruxelas, a questão não parecia assim tão simples, mais ou menos como a dentada na maçã. Há dentes que sangram após essa atitude natural.
Um só dia depois do referendo, documentado nas televisões como uma bela lição de civismo, incluindo esse facto patético de dois velhos terem morrido após o acto de votar. A grandeza desta tragédia. Pois sim: eles haviam ouvido os debates, gente rangendo da pior maneira contra outra gente, campanha absurda que certamente aterrorizou muita gente: os tais velhotes, pelo menos. É que, durante a votação e a contagem dos votos o imaginários dos velhos ainda vivos deve ter-se encantado com os cenários, os grandes espaços cobertos  de mesas lado a lado, rapazes e raparigas lado a lado,trabalhando os montes de papéis e outros, em fila indiana, passando as urnas brancas e pretas de mãos em mãos. Tais imagens abrandavam o nosso medo de estrangeiros e mostravam uma peça engendrada com requinte, como se no fim não houvesse senão um empate e um abraço entre todos.
Contra as bizarras sondagens ingleses (já se viu isso em eleições gerais), a contagem deu a vitória à saída da União Europeia, coisa que anda no ar desde as ofensas aos gregos em reuniões de trabalho.
Agora toda a gente, da esquerda à direita, anda por essa Europa fora a fazer ameaças de fazer também um referente: em Portugal, uma importante figura do Bloco de Esquerda gritou que faria um referendo se Bruxelas insistisse em manter sanções contra este país por décimas acima no déficit decretado.
Ora se este rapariga, enrouquecendo, fez esta ameaça de um cantinho partidário, bem se pode imaginar o que vão ser as negociações para consolidar a saída do Reino Unido, horas e horas de senhores cinzentos barafustando não tanto a saída mas a reconquista de um império já inexistente, ou seja, negócios
retomados noutra perspectiva, com mais liberdade e menos pressão burocrático. Talvez não passe de uma utopia mas os ingleses sabem tratar de si.
Pelo contrário, o que restará agora da Europa ou se revê num trato mais coeso e menos amarrado a regras cruzadas. Porque este espaço e 27 países não se pode tornar numa fortaleza medieval mas duríssima, flagelando a população no fundo das dos altos muros. Dentro, a polícia abre espaço aos carregadores de negócios, enquanto uma espécie de exército espreita as ruas contra os alucinados jihadistas que pululam, convertidos, por toda aparte e são bem capazes de se fazerem explodir no meio de uma praça, gritando Alá é Grande! Estão enganados com as oferendas (femininas) do céu para onde caminham os bocados das almas estilhaçadas. Todos eles já deviam ter aprendido a perceber que não há deuses bons e que oferecem afecto e mulheres meigas. Em todas as religiões a noção de pecado é maior ou menor mas mlenar, com ameaças de castigos sem nome. Todas são assim e o homem aprendeu a defender-se, não através do nem mas pela guerra e pelos genocídios.
A Europa desta ignóbil globalização que estragou meio mundo, devia refazer-se
com os seus parceiros, jogando pacificamente, sem choques, as bolas de um bilhar simbólico. As soberanias não são mitologias: são a história, a civilização e a cultura. Amarrá-las sobre o bilhar, sem liberdade e sem trocas amistosas, é apenas apressar o apocalipso.

sexta-feira, março 25, 2016

O MUNDO AGRILHOADO, MORRENDO EM FÚRIA


Não me lembro de ter assimilado uma ideia nobre, concertada, harmoniosa da multidão a que chamamos Humanidade, nunca a paz e a harmonia de que falam os artistas, os poetas, os ditadores da Antiguidade e da contemporaneidade. Havia sempre problemas à minha volta: anos difíceis da vida dos meus pais, gente a prender centenas de operários da indústria transformadora da cortiça, pessoas isoladas no campo, trabalhando de sol a sol, muitas vezes roubadas por ladrões ou simplesmente assassinadas por resistirem timidamente. Em Portugal vivia-se sob a tutela de Salazar, ditador guardado em São Bento, incapaz de pensar o futuro apesar do império feito de colónias mal tratadas, para onde ninguém imigrava a sério, como fizeram nos anos 60, portugueses deslumbrados com a aventura da casa, do dinheiro, de trabalhar para os senhores da Europa e do mundo, já esquecidos que haviam sabido atravessar os mares (quando era natural fazer isso e descobrir terras), quase no patamar da verdadeira grandeza, aquela que permite viver bem e partilhar razoavelmente as coisas. Nada disso, pequenos em quase tudo na sua terra inicial, os portugueses desataram a fugir em todas as direcções, para o mundo em volta, trabalhando como escravos ou chegando a patrões. Hoje são os licenciados que partem, depois de estudos arrancados a custo de escudos e pobres bolsas e remedeio: já acabara o Império mas subsistia a memória da história dessa gente afinal trabalhadora, que enchia bolsas de imigrantes de um lado ao outro do mundo, mesmo em plena época de novas guerras no Afeganistão, no Iraque, no Paquistão, na Argélia, no Irão, entre Islamitas, Muçulmanos, Iraquianos, Talibãs, Xiitas ou Sunitas, crentes de Alá e inimigos dos Cristãos, os das Cruzadas, senhores, durante séculos, de grandes áreas do mundo, partes do planeta com a Índia, norte, centro e sul de África, américas latinizadas, para não falar do Brasil explicado pelos portugueses e dos Estados Unidos da América, Estados e Estados a Norte, mistura de raças e interesses acerca de um tal El Dorado, submissão dos Índios.
De tudo isto, após séculos de Igreja católica apostólica romana, desaparecidas as não muito remotas civilizações da Grécia do Egipto, da Índia ou da China, desaparecidas como os Incas que falavam com o céu ou simplesmente transformadas pelo engenho tecnológico e demoníaco da genérica civilização ocidental, aquela que (mesmo em grande avanço) se envolveu com a Alemanha em duas guerras mundiais, sob o horror nazi e os campos de concentração e o holocausto, judeus presos e mortos ao que parece porque podiam competir com a «raça ariana», mito daquele cabo de guerra, Hitler, que teve de apagar corpo e alma com uma cápsula de cianeto.
Passaram várias décadas de aparente paz e desenvolvimento, a Alemanha e os tecnocratas da austeridade passaram a apertar uma já agrilhoada União Europeia. Por aqui todos tinham ajudado a criar um Estado mítico, Israel, senhor de si e dos outros, ensinando o mundo que, a partir de agora, com gente como o Daesh e os atentados de homens-bomba, uma academia do horror que nos obrigará a aprender a "viver com medo2. Diz ajuizadamente Clara Ferreira Alves na sua crónica de hoje: «Nos campos de refugiados, na degradação e na humilhação, novos radicalismos se formarão com outros nomes. A integração desta população de apátridas que só tem o Islão como pertença impossível.»



Temos aqui, de facto, um problema radical. Terrorismo Islâmico, que não brotou de nenhuma doença divina, começo nma rede de roubos, emboscadas, mistificações. Allah desceu furiosamente à Terra com a maior vontade de aplicar regras brutais, irracionais, aos homens que o amassem e que matassem em nome Dele, acedendo a um céu Total, com ofertas femininas virginais, símbolo aberto do que a mente obscura deles tornara, na terra, vítimas assimétricas das burcas, dos xailes, dos escondimentos, e de penas por pecados fundamentais. Sujeitas, em grandes áreas, ao corte do clitóris, podem vir a ser punidas, por adultério, com a morte à pedrada, na Praça Pública. Os guerreiros Jihadistas tratam os vencidos com a degolação, numa ritualidade difícil de encontrar nas épocas mais remotas. E o ESTADO Judaico ISRAEL, encravado numa zona que a Inglaterra e a França escolheram, imposta aos  palestiniamos, sabe esperar por tudo isto com as suas próprias guerras e o seu medo. Rompe compromissos, implanta Gaza, constrói muros, declara que nunca consentirá na instauração de um próximo Estado Palestiniano, embora esta gente seja dali e tenha o direito a trabalhar e a morrer ali, entre pedras, poeira e plantas secas.
A Turquia, candidata à Europa mas ainda não julgada apropriada pelos altíssimos deificados tecnocratas dos gabinetes neo-europeus, é contudo um país tampão (no caso dos refugiados vindos da Síria e outras terras lavradas a sangue). E então, a austera e mitigante Europa, sem pudor, cortejou a Turquia, pela sua especial posição geográfica para se encarregar de travar mais vagas de emigrição, deportando os despojados de injustificada ânsia. A Turquia aceitou receber para tais ensaios de novos holocaustos, empresa sórdida, a quantia de três mil milhões de euros, cuja vida e fortunas ninguém sabe onde irá parar.
Diz Clara Ferreira Alves. «Entretanto, a Grécia e a Itália sucumbem ao peso que a Europa atiçou ou malbaratou, as do Afeganistão e Iraque, da Líbia e Síria.» Obama, apesar da sua entrevista à revista ATLANTIC, lamentando o comportamento dos parceiros Cameron e Sarkozy, foi liminarmente ludibriado. E a Nato? E a ONU? Aqui, Clara escreve sumariamente: «O que é, hoje, o Oriente?» (...) «A que Médio Oriente do século XX ainda se dá existência? Esse Médio Oriente terminou ou foi terminado. Israel não é Israel. É hoje um Estado acossado e dominado politicamente por conservadores e zelotas, com um primeiro ministro que tem a certeza de que a Palestina nunca existirá.»
O Daesh talvez seja invencível. Vamos esperar, no medo, que a sua própria o eliminará. Haverá então outros refugiados, gente degradada, a humilhação formará novos imigrados e os Messias voltarão para mistificar o futuro e um deus novo, todo poderoso.
Rocha de Sousa

terça-feira, fevereiro 09, 2016

TUDO VAI MUDAR ANTES DA MORTE DO PLANETA

As grandes cidades, após milénios de fausto e negócios de batota, criando vícios de toda a espécie, escravatura, sequestro, violação de crianças e brutais roubos por todo o planeta, o dinheiro escondido por aqui e por ali, empresas mamutianas emigrando de latitude em latitude, besuntando de restos tudo o que sobrava das falências e dos retornos, tudo isso define agora uma coisa que se chamava planeta Terra e onde milhares de espécies viveram e vivem, comendo-se entre si. Os países estão em guerra, o Médio Oriente arde todos os dias e o Daesh corta cabeças, promove atentados pelo chamado mundo civilizado, quer invadr sobretudo a Europa, depois o mundo, enterrando cabeças degoladas e atirando os corpos para o meio do asfalto ou para o fogo dos desertos. Nada disto tem sentido, sob o comando das altas tecnologias, aviação sofisticada, vasos de guerra, Assad sempre empoleirado na sua fortaleza, Putin afagando-o, Czar moderno que faz luta-livre e passa por altas portas douradas, além da datcha que não mostra e dos barcos  em que passeia. Bush não foi preso pela guerra que mentirosamente justificou com estranhas bombas atómicas que nunca ninguem viu. Hussein foi enforcado. O Iraque ficou orfão, com lutas inenarráveis entre xiitas e sunitas, além das outras etnias que colam aos jihadistas. Um dia chegarão todos a toda a Europa, que já começaram a invadir, preferindo a poderosa Alemanha, e lutanto numa praça de Colónia, aproveitando raparigas para esbofetear e violar. A grandeza da Alemanha estremece, é preciso repovoar o mundo com mais senso. Mas antes, com esta gente a atravessar o Mediterrâneo, é preciso  obter direitos germânicos, ter bom tratamento, casa, segurança social. Porquê? Nada disto vale a pena porque faltam cem anos para um meio afogamento do mundo inteiro. Xiitas e Sunitas terão de combater debaixo de água, mesmo com guelras de abrótea.


Eu nunca pensei fugir de Portugal, emigrar, ser rico na Suiça. Estive numa guerra que houve em Angola, era a guerra de libertação em nome da independência. Desisti, estou velho, as velhas casas caiem aos bocados produzindo belas «instalações». Os cargueiros dão à costa, mortos suspensos das amuradas. E a marinha de guerra varre o Mediterrâneo em paz, salvando meninos, meninas e velhos. As mulheres que se desenrrasquem com as suas burcas e as bóias ao pescoço. Mas a Alemanha, que gostaria de ter tomado enfim toda a Europa, tem de a partilhar com 11 milhões de foragidos e meia dúzia de califados.
        

Portugal,o mais antigo reino da Europa, fechou as praias e recebeu os cadáveres de ferro, além de corpos humanos sem fim. Mudou de Governo e a Comissão de Bruxelas não gostou. Todos os bichos das bolsas e dos mercados rangeram os dentes. Costa, o primeiro ministro português, cortou parte do seu orçamento e ofereceu molduras douradas ao Bloco de Esquerda. O PC perdeu votos, entrou para o apoio ao governo (a fingir, mais ou menos) e fala do alto de uma torre (Jerónimo) contra os capitalistas, os blocos de riqueza, as novas teorias da austeridade. Costa quer resgatar cortes. Viu-se logo batido por todos os lados, ainda por cima rodeado de bancos roubados ou em perda.
            A Europa, que em breve vai ser abocanhada pelos Árabes e Estado Islâmico, insiste nas regras. Nada de consumos, de compras, de déficits. Agora é como dizia Lutero, retirando os bonecos religiosos das paredes das capelas. Reuniões duram meses, semanas, o Costa vai ter que raspar as gorduras com as quais pretendia rejuvenescer Portugal, dando-lhe banhos de mar ao sol do Verão. Mal sabe ele que as praias vao desaparecer e que os donos do Norte da Europa, invadidos pelos gelos derretidos, terão de emigrar para o sul, lado a lado com pigs, ali por Marselha ou, se calhar, pendurados dos multibancos da Grécia. E todos os sistemas do Centro, Esquerda e direita, vão desaparecer no regime enviezado (com z), que tem a vantagem de riscar o espaço na oblíqua e misturar ricos e pobres, na grande partilha das belas casas com as favelas importadas do Brasil. 
          A Inglaterra, poderosa, terá à vista os telhados dos casinhotos revivalistas e os lords vão procurar asilo na Escócia, subida com uma hidráulica famosa, toda feita na clandestinidade. Portugal apresenta rachas junto a Espanha. Há quem diga que o enorme espírito de Saramago, saneador por excelência e Nobel  por mérito de carpintaria está de picareta astral em punho dando corpo à Jangada de Pedra. Os Açores insistem que devem colar-se ao Algarve, em Pleno Atlântico e que o Panteão pode passar para Madeira, bem fixa ao fundo e capaz de ser regida por 30 ou 40 anos de cada vez.
               A jangada tem uma vantagem: turismo livre e liberdade frente à congeladora Europa, seus tratados absurdos e seus orçamentos de pedra. Ninguém aí sobreviverá sem abelhas nem galinhas. Peixes fogem, o trigo será por cotas miseráveis. Muitos russos emigrarão para a antiga República Alemã Oriental. Entretanto acabará o futebol, os jogadores utilizados para fabricar pão (em contas) e os iates serão vendidos, dois a dois à Suiça, últimos ricos, ficando o resto a pagar taxas para a Segurança Social. Nas Igrejas serão produzidas mantas para suprir a hipotermia que se torna endémica cada vez mais. Todos os ditadores de África vão ser presos e fuzilados em jeito dominó. Todas as cidades com mais de vinte andares de cimento armado, serão reduzidas a dez andares (até r/c, além de replicadas em zonas mais ou menos equidistantes por esses campos fora. Nunca mais poderá haver um velho habitante solitário de uma solitária aldeia.
Sousa Carneiro lendo Rocha de Sousa

segunda-feira, janeiro 04, 2016

UM PAÍS APRISIONADO NAS GRADES DO MUNDO



                                                                 
Velho e quase enterrado no excesso de uma civilização entretanto contaminada por todas as pestes antigas e modernas, esqueço-me do que disse e desejaria ainda dizer. A chamada crise baralhou tudo até ao abismo. E já estávamos inseridos na Europa a que tinhamos aderido com esperança. Mas a Europa não é, entretanto, um espaço de solidariedade, de novas e respeitadas fecundações. Quase inerte perante os luxos das suas instalações na Bélgica, cavaqueando propostas por vezes cintilantes mas que os grandes grupos parlamentares chumbam liminarmente, a «União Europeia» parece esquecida dos seus tratados, todos eles cada vez mais carecidos de remoção ou aperfeiçoamento, a fim de que não se tornem fomento de totalitarismos e outras pestes. Porque muitas coisas mudaram, a idade dos  paises  difere muito entre si, e a Alemanha (apesar das suas  fecundações e peso económico) quase dirige, convoca e adia, apressa e repete  fórmulas, cada grupo de trabalho  está  por ela atempadamente tocado seja para o que for. Ignorando-se a perigosa grandeza das tecnologias mais avançadas, sobretudo as da comunicação, e a inchada globalização que nivela tudo, absorve tudo, movimenta excessivamente empresas, energias, fronteiras em perda. E isto perante a convulsão de todos os roubos e conflitos em curso, o que deveria implicar outra vigilância e um atendimento inicial aos refugiados. Nada daquilo a que se assistiu durante estes últimos tempos, vendo morrer milhares de pessoas no Mediterrâneo, deixando que os especuladores lhes comessem todas as quantias possíveis e empurrando-os, com barcos super-lotados, para as águas frias. E eles, os que se salvaram em maioria, começaram a tomar como gare de partida para a Alemanha os países a que chegavam, Itália e Grécia. Isto não podia ter acontecido assim. Tinha que haver acordo com os países de partida para identificar, coordenar e embarcar de forma segura aqueles que tivessem fortes razões para fazer a passagem. Ou eles ou a Alemanha  julgavam que tudo podia caber ali, com  uns  grupelhos por aqui e por ali, no bem melhor que houvesse. Agora tudo está ensarilhado, é preciso técnicos de recepção, novos lugares, melhores distribuições, previsíveis retornos a países recuperados, como a Síria que já devia estar ocupada por forças da ONU, vindas de todo o mundo, Assad reformado, a reconstrução em curso, enquanto houvesse meios de tratar do Daesh, que tem a força que tem porque as etnias e religiões politizadas nunca tiveram mais do que uns turistas já em fuga.


terça-feira, novembro 17, 2015

MITOLOGIAS DA POLÍTICA E GOVERNOS ADIADOS





Presidente Cavaco Silva

Em Portugal, entretanto inundado por programas de televisão em regime de continuidade sobre os atentados acontecidos em Paris pela mão Daesh, as eleições legislativas já ocorreram há um mês, tendo o governo minoritário de Passos Coelho sofrido o efeito derrubante de uma moção de censura. O partido socialista, que, a seu tempo, aceitou complexas operações para apear António José Seguro (secretário geral do Partido) a fim de realizar uma linha eleitoral em que concorria àquele lugar António Costa (na altura presidente  da Câmara Municipal de Lisboa). Após um tempo infinito, entre debates e movimentos vários, António Costa ganhou largamente o lugar, arrebatando-o a Seguro. Não parece bonito, mas naquele tempo muita gente achava pouco substancial a argumentação política e de projecto da parte de José Seguro.
Só perto das eleições legislativas António Costa se pôs a caminho, registando-se nas sondagens iniciais que lhe eram muito favoráveis, na zona da maioria absoluta.
O governo da Coligação continuava  afagando um vago sucesso depois de troika e abordava a necessidade de reformas estruturais, sobretudo no aparelho central do Estado, agilizando sectores e formas de abertura a novas relações com as feridas do país. Não houve, contudo, senão um papel redigido por Paulo Portas, umas folhas que tivemos oportunidade de ler e que não tinha qualquer dote sequencial e orgânico no sentido de uma verdadeira reforma do Estado. Dir-se-ia que o autor se esquecera do assunto e apressadamente enunciara umas duas dezenas de linhas indicadoras. Ninguém se dispunha a considerar isso um projecto e reforma, nem os cortes nas contas públicas como uma via certa e de conexões funcionais para a tão almejada reforma. Só se verificaram, um pouco mais para o fim da legislatura, certas medidas pontuais, qualquer coisa como «esta medida de Janeiro passa a ser tomada em Março», «aquele nível de subsídio passa do nível x para um aumento y de 0,9%»
Este governo caíu e os seus líderes (com aliados) mostraram grande azedume. O partido Socialista, quer baixara a sua fasquia ao ponto de perder votos perante os da Coligação, tratou do caso em sucessivos golpes negociais com o Bloco de Esquerda e o Partido comunista, além do Partido Os Verdes, procurando obter uma maioria na Assembleia  da República, algo mitigada entre programas alheios e o seu próprio programa. Foi um trabalho invulgar, talvez uma experiência de todos em novas partilhas, mas os membros desses partidos não entraram ara membros do futuro governo do Partido Socialista. Um golpe de prudência perante navegações de risco e uma forma de tratarem à rectaguarda os apoios à gestão do governo (de novo negociada, em casos que fossem além dos já estabelecidos).
Alguns disseram que era golpe, outros que estava dentro das regras constitucionais, o país dividia-se ao meio. Seja como for, no primeiro embate na Assembleia, ainda era fácil prever que frutos se obtenham. E o resto ficaria a dever-se ao Presidente da República. O Presidente torcera o nariz e »desertou» até à Madeira, onde ainda se encontra à hora em que escreve. E, curiosamente, o Costa, ontem à noite na televisão, explicou o sentido da sua reforma com exemplar limpidez, tranquilo, exemplificando a mecânica dos arranjos. E hoje as pessoas andavam agitadas: porque o residente falara, de longe, num governo de gestão que comandara durante 5 meses. Cinco meses nesta hora, com a Europa que temos e as crispações que vão pelo mundo, é coisa não menos que bizarra.
Imagino que o Presidente chega hoje. Amanhã vai ouvir mais gente, bancos, sindicatos, pescadores, gestores qualificados. Por aí. Depois as forças Armadas, penso, porque Holande está em guerra com os jihadistas e não sabemos se o Partido Comunista ou a Catarina já se converteram ao islamismo radical. Será que no terceiro ou quarto dia, ainda o Presidente ouvirá o Conselho de Estado? E se eles estão infiltrados



quinta-feira, outubro 22, 2015

MAIORIAS ESTÁVEIS NO LIMITE DA COSTA FALÉSIA


Acabou um ciclo, dizem; temos de voltar e escolher as novas luminárias do novo ciclo. Em boa verdade, o país, Portugla do nosso esquecimento, está em vias de ficar mais deserto no interior, afundando o Algarve em mais betão, mais passeantes vindos de toda a Europa, Américas, Médio Oriente, Índia, China, Eritreia.

Neste mesmo Outubro de 2015, os portugueses foram chamados às urnas (não estou a falar dessas nem a chorar o 1º de Novembro). Acabou o tempo do governo de Passos Coelho e foram escaladas as eleições nacionais: gastando um tempo imenso e mal temperado de estudos, mensagens políticas, sessões de debate sereno, voltou tudo ao mesmo: o governo  de Passos, A COLIGAÇÃO, que é uma forma um pouco secreta de diluir os dois partidos implicados, não engraçou muito com demasiada exposição, descansou, planeou e tratou de algumas armadilhas, ficou a ver os austerizados passando e só se atirou ao lobo nos escassos e mal organizados debates desta fase. Deu tudo mal para aqueles que se julgavam na frente da maratona, sobretudo o partido Socialista. Com tanta fome de verdadeiro poder, os socialistas andaram em sondagens de ouro, a par do  silêncio bondoso dos coligacionistas. Chegou, enfim, a hora das arruadas das quais Passos se defendeu bem, conciliando o seu discurso de «palavras sobrepostas» com os lamentos dos pobres e algumas palavras soezes.


________________________________________

E tudo acabou (para começar dias depois) com umas estranhas abadas de votos. Aqueles que já não vão em simbolismos radicais, indo votar branco, ficaram em casa e cacarejaram durante a noite do grande espectáculo, coisa que nem a Teresa Guilherme saberia gerir (o que não quer dizer que seja boa a sua gestão) nem a Cristina Ferreira gritaria melhor (o que não significa que essa apresentadora grite bem).



Os senhores da coligação, que passavam por ser os vencedores com maioria absoluta, perderam 700.000 votos (foi um modesto corte em nome da Troika) e tiveram de pousar na terra da maioria relativa. Os senhores socialistas, comandados pelo António Costa (que viera substituir democraticamente o jovem Seguro) não passaram dos 32% e perderam perante os coligados, que ficaram senhores de um osso relativizado mas razoável.
_______________________________________


Vieram os do Bloco de Esquerda, com as suas duas meninas Catarina e Mortágua, e fizeram-se ao bife: mais que duplicaram o seu eleitorado e como que piscaram o olho ao Costa, um caso (pensou ele) verdadeiramente histórico nestas quentes esquerdas. O BE arrecadou 19,9/% de votos. E o hirto Partido Comunista-PEV (uma outra coligaçãozita) incendiaram a memória de Jerónimo (chorando por Álvaro Cunhal) com a módica meia-tinta de 8,25 % de votação.
________________________________________


Pensava eu, e outros como eu, que este resultado ainda segurava, por algum tempo, A COLIGAÇÃO PSD/CDS. Porque o partido mais votado apresentaria o seu líder ao presidente da República para que este o indigitasse à formação de governo. Situação frágil mas conhecida. O Passos foi à vida sem ser indigitado mas com o recado de estudar a formação do governo. E pensou: o meu segundo cenário vai para o Costa, embora também esteja fraco.
Fraco? Já andava a namorar o Bloco de Esquerda, para formar uma nova maioria à esquerdina, coisa que não houvera nestes cenários pós-25 de Abril. Namoraram duas vezes e foram visitar pela primeira vez a casa do Passos. Passos estava com a alma deslavada e atirou-lhes com vinte papelinhos integrando pontos para juntar aos do Costa. Ora o Costa estava mais interessado noutra vitalidade. E lá foi para enviar o roteiro geminável à coligação. Não deu em nada e o Passos cuspiu para a televisão que esta atitude não os levaria a nada e nem iria volta a reuniões com o PS. Recebeu o plano e escandalizou-se: «Isto é o programa de governo do PS, feito pelo Centeno». Acabou-se. E já o Costa vinha à televisão explicar a dinâmica mais mobilizadora do Bloco de Esquerda. Explicou os pontos acordados, contando também com a discreta presença do PC.
O locutor questionou: «Mas como é que o senhor resolve a posição desses partidos que não querem o euro, nem a Europa, nem a Nato, nem o Tratado Orçamental». Costa sorriu: «Tudo resolvido. Eles garantiram que nada reivindicam a esse respeito, guardam na gaveta, podemos confiar. Nem é o programa deles que funciona, é o nosso em justos acertos».
O entrevistador abriu muito os olhos e mandou o Costa para outra entrevista.
Cavaco sabe o que fazer porque (diz) montou quatro cenários. Um deles vai resultar. E ele pensa nos estranhos presidentes que o vêm substituir na contenda para a escolha (provável) de um idoso catedrático de direito, há mais de uma década comentador político de televisão.
Pedi ao Goucha para supervisionar este texto. Disse-me, afunilando os dedos, falta um pouco mais de sal, senhor professor... Pensei que esta salada intriguista, sonsa, em que nada inspira confiança, talvez empurre mais emigrantes para as calendas, aumentando os abstencionistas para uma ordem de 100% e grandes bolsas geridas pela Santíssima Trindade de três troikas.


segunda-feira, outubro 12, 2015

COSTA PINHEIRO, FALECIDO ENTRE O EXÍLIO E A IMIGRAÇÃO



Eu gostava dele, mesmo sem ter a certeza de o conhecer e tendo trocado um monte de palavras com os seus óculos a brilhar. Depois disse-me que as pinturas chamadas de Reis eram a lembrança da nossa História e apareciam-lhe das cartas e dos livros e dos sonhos de criança. «Não, não sou nem um imigrado nem um artista votado ao exílio. Os que emigram procuram empregos, cidades e escritórios. Eu não tenho nada disso.» 
Andávamos por ali, ás voltas, na exposição do KWY, como no livro de Herbert o Hélder, aquele que se chama OS PASSOS EM VOLTA e é uma obra prima da literatura portuguesa.

Costa Pinheiro morreu em Munique, com 83 anos. Aqui mesmo dois quadros dele dedicados a Fernando Pessoa, génio incontestável. Lembro-me do que ele disse nessa linha de desocultações: «A imaginação domina o corpo. E o corpo vive equilibrado com as emoções e os sentimentos naturais.» Fernando Pessoa podia ter dito algo assim, no seu «Livro do Desassossego».



A frase-lema de Costa Pinheiro: A imaginação é a nossa liberdade.