segunda-feira, dezembro 31, 2012

"SIGHT & SOUND" TROCA CITIZEN POR VERTIGO.

Imagens de Citizen Kane por Vertigo

A revista Sight & Sound, fazendo a vontade aos cultores de Hitchcock e outros lobbies mais ou menos esquisitos, retirou Citizen Kane de melhor filme de todos os tempos e colocou lá um bem carpinteirado filme do velho mito de Hollywood, Vertigo, do cineasta atrás referido. É talvez um processo de ensandecimento e de vénia comercial a um autor sem dúvida de grande mérito, mas cuja obra (depois do seu primeiro período) foi sucessivamente louvada pelas mais diversas razões, assaz sempre discutíveis e em geral menores. Porque o realizador Hitchcock tem uma obra de base americana, engenhosa mas não universal, e que, quanto a nós, nem mereceria (com Vertigo) estar em segundo lugar. A América já colonizou demais os outros espaços culturais e cinematográficos com as mais diversas bugigangas da indústria do cinema, donde nos habituaram a extrair de facto grandes obras, como Citizen Kane, num mar imenso de variedades de consumo, ainda que em muitas delas a marca vertiginosa da técnica e dos meios seja apreciável. 
Acontece que Citizen, de Orson Welles, é uma excepção difícil de superar, feita por um génio do cinema quando ainda tinha 24 anos, um rapaz prodigioso e que já angariara fama nas suas peças de teatro e intervenção radiofónica. Ao tocar em problemas magnos da América do capital e dos grandes influenciadores do poder político, como W. Randolph Hearst, Orson Welles quebrou as estratificações conservadoras do cinema americano e da própria América. Houve depois outros, como Kazan. O cinema de Orson foi sempre excessivo e comprometido com a densidade da realidade humana e do mundo em geral. No filme em questão havia mesmo pontos coincidentes entre as biografias de Hearst e Kane. Para além disso, o filme marcou a linguagem cinematográfica com importantes inovações, tanto nas técnicas narrativas como nos agentes significantes da escrita visual. Foi considerado, por grande parte da crítica especializada, como o maior filme da história até ao momento: figura em primeiro lugar na lista do American Film Institute.
Alguns filmes de Kazan (América, América ou Um Rosto na Multidão) podiam colocar-se à frente do excelente carpinteiro de filmes policiais, freudianos e de suspense made in América, que é Hitchcock. Vertigo não passa de um dos seus mais hábeis exercícios de piscar o olho ao espectador. Nick James, da própria revista Sight & Sound, mostrou-se surpreendido com esta exclusão ou troca. Outros continuam a falar em obra estadudinense. E os comentários feitos à troca de lugares, muitas vezes sob anonimato (porque será?), apontam quase todos, para o melhor filme até hoje, a extraordinária obra de Tarkovsky «Andrei Rubliov». Esta escolha atesta a favor de uma sensibilidade e cultura cinematográficas que podemos situar, com efeito, acima de Citizen.



Planos de VERTIGO, de Hitchcock

domingo, dezembro 30, 2012

MORREU ONTEM O CINEASTA PAULO ROCHA

  
cineasta Paulo Rocha
falecido, com 77 anos, a 29.12.2012
 

        
 plano do seu último filme


                plano do seu primeiro filme «Verdes Anos»

plano de «Ilha dos Amores»

A morte de Paulo Rocha, cineasta que chegou a ser assistente de realização na rodagem do filme «Acto da Primavera», de Manoel de Oliveira, fez o cinema português perder mais uma figura de referência: o jovem que soube pesquisar aspectos da Lisboa dos anos 60, no seu primeiro filme («Verdes Anos») aqui ilustrado. Ele morre pouco tempo depois de Fernando Lopes, de tão grande importância, gerando assim, como que simbolicamente, um vazio nos vazios do nosso país desde há três anos a esta parte. João Mário Grilo escreveu sobre este acontecimento, dizendo: «É um momento muito triste para a cultura portuguesa (...) Paulo Rocha foi o que melhor soube fazer, a relação entre a poética do cinema e a poética do país.» Tanto ele como Fernando Lopes souberam usar a arte para interpretar a vida» coisa que não é nada fácil entre transformações que, durante todo o século XX e parte do actual, descarnaram saberes e técnicas em nome da novidade pela novidade, encobrindo o visível que Klee tentou explicar para pôr ao nosso alcance a complexidade do real. Cada filme de Paulo Rocha, nesse sentido e nas suas normas de simplicidade, é uma luta contra as diversas novas vagas de que foi contemporâneo. «Há uma conjuntura que Paulo lê muito bem e incorpora-a». E assim procura dar a cada filme a natureza dos objectos singulares (como em toda a obra de arte mais rara sempre acontece), de tal modo relacionando personagens e história. Ou, como diz Grilo, fazendo desses filmes, também, invulgares ou grandes documentários sobre a vida portuguesa.
Paulo Rocha pertenceu ao tempo em que «as pessoas tinham muito poucos meios para filmar». Bem sabemos que isso joga contra os  verdadeiros autores, pois o cinema só se torna possível através de alianças muito sólidas, desde os fundos económicos aos meios técnicos e logísticos. Por isso a personalidade aqui citada sublinha com eloquência: o ecrã é também uma pele muito fina entre o cinema e a vida.
Aqui dizemos, pela nossa parte; os homens do cinema já aprenderam, em Portugal, a sua linguagem e a maneira de poupar os meios sem deixar de zelar pelo sentido da imagem e voz que nos oferecem. Os distribuidores e exibidores não aprenderam nada: minimizam os meios, oferecem caixas claustrofóbicas e rudimentares como salas de projecção, para desdobrar, na maior tacanhez, os sítios de «exibição», nunca em nome do cinema, sempre em nome do dinheiro. É preciso acrescentar a isto, na morte de alguém que sofreu na pele tamanha exiguidade, que as salas onde se explora entre nós o cinema não ganham  qualquer «reajustamento»  através de tão equívoca austeridade. E sempre aos berros, como se as máquinas servissem para triturar imagens e bandas sonoras.

segunda-feira, dezembro 24, 2012

TAP NÃO FOI VENDIDA A SALDO, HÁ CARAVELAS

                   TAP, PARTE DA IDENTIDADE DE PORTUGAL

Foi publicado neste lugar um post que contradizia a venda da TAP e fazia algumas considerações sobre o sentido dela mesmo num espaço de crise, denunciando os males físicos e humanos do nosso país em dificuldades. Aqui se enunciavam as catástrofes políticas, sociais e culturais a que temos estado sujeitos, num lamento contra a perda da TAP, última esquadra a lembrar as caravelas do secular destino oceânico dos portugueses, vínculo de uma gasta aventura já em névoa nos testemunhos de tal grandeza nas várias partidas do mundo.
Alguém se zangou com o post e procedeu à sua remoção, facto que denuncio aqui sob forte protesto, sacudindo as más recordações censórias de outros tempos.
Com um avião igual ao publicado há dias, voando em sentido contrário, aqui reforço a notícia de que o governo teve de suspender a venda da TAP, por problemas financeiros não clarificados a tempo pelo comprador. A teimosia na venda continua,
mas ontem, na televisão, Marcelo Rebelo de Sousa forneceu a ideia de um processo de alienação da Empresa cuja ligação a Portugal seria mantida pela pluralidade dos meios e dos acordos entre compradores, inclusive entre grupos nacionais.

quarta-feira, dezembro 05, 2012

CENA NO DIA DA MORTE DE JOAQUIM BENITE, TMA


JOAQUIM BENITE | encenador

Jonas acreditava na sua estrela


Joaquim Benite, homem que se dedicou desde longa data ao teatro e ao seu tratamento através de encenações recuperadas de vários ângulos da modernidade, nomeadamente no Teatro Municipal de Almada. O teatro em si foi uma grande aquisição para o meio e a programação absorveu as mais diversas peças, do clássico à contemporaneidade, tendo como condutor relevante o próprio Joaquim Benite, de quem fui amigo e cujo trabalho só me foi possível seguir à distância, por razões de saúde. Morreu hoje, esse batalhador por uma arte que tanto tem sofrido com as massificações das indústrias culturais e crise civilizacional. Morreu de forma quase fútil, com uma pneumonia pertinente e absurda. Lembro-me das nossas conversas e do muito que ele apreciava Camus. E pelo facto de eu ter feito uma adaptação de Jonas (novela de Camus) ao teatro, a ele a confiei, embora soubesse quanto era árdua a sua montagem. Chegou a estar agendada e numa altura em que eu ainda estava disponível. Fica aqui a capa, não para uma publicidade inútil e logo absorvida nos habituais azedumes e equívocos. É a minha homenagem a Benite, um trabalhador incansável no âmbito do teatro, redescobrindo actores e processos para dar a ver difíceis mensagens de uma arte do espaço e do tempo, vivida num frente a frente entre actores e público. Que Almada possa continuar esta obra.


sábado, novembro 17, 2012

NOVA IORQUE NÃO É SÓ MANHATTAN VISITÁVEL

Nova Iorque 
 
Nova Iorque ou a América e o seu lado invisível

Após a passagem sobre Nova Iorque do violento furacão "Sandy", muitos americanos terão perguntado se a América é de facto a grande fortaleza que pode desafiar o planeta e se as zonas atacadas por aquele fenómeno terão condições para se adaptarem a um clima mais bizarro e aterrador, fruto das leis cósmicas ou da poluente actividade humana. Clara Ferreira Alves escreveu no Expresso desta semana uma pungente e lúcida crónica sobre este acontecimento e acerca da América em geral, os seus recantos mais encobertos onde vivem populações mistas, relegadas para quotidianos absurdos, em graus de medianos e de pobreza incompatíveis com mais furacões.
Viajando numa boleia especial para aceder às Rockaways e à catástrofe no seu melhor perfil, Clara fala-nos de de túneis «fechados, inundados» e de escolas que tentam recomeçar a sua vida embora nem todos os transportes públicos estejam a funcionar. «O caos nas ruas é evidente e os táxis buzinam e quase atropelam as pessoas nas passadeiras. Uma medida de civilidade começa a escassear com a passagem do tempo. Bloomberg, o mayor de Nova Iorque, foi às Rockaways e foi insultado por meia dúzia de moradores desesperados.» A  América, em boa verdade e perante os aspectos obsoletos de muitos equipamentos, tem de repensar as suas infraestruturas e a sua dependência energética. Na recente situação, as centrais nucleares resistiram ao "Sandy," mas as redes de distribuição eléctrica e as vias logísticas capotaram. Os que não abandonaram as casas, por pensarem que acabariam roubados caso se afastassem delas, ficaram na mesma sem nada e agora também não podem  deixar o que lhes resta, porque os assaltantes andam por ali. Alguém contou à jornalista que, num escasso tempo de vinte minutos, ficara com água pela cintura. Usaram o sótão. E viam o mar pelas ruas, enquanto o vento era tal que não ouviam as vozes uns dos outros. «O trauma é imenso.» Uma lágrima desce pela cara de um cidadão, Gary: é uma lágrima silenciosa que ele enxuga com luvas sem dedos.

EM PORTUGAL, ONTEM, UM TORNADO
PROVOCOU DESASTRES DEVASTADORES
NO ALGARVE, EM LAGOA E SILVES

Tornado em aproximação da
costa Algarvia 

passagem por estradas

varrimento em Silves

dezenas de carros destruídos

centenas de árvores arrancadas dos
parques, avenidas e outros locais 

 talvez as alterações do clima e
respectivas catástrofes não sejam
nenhuma história boateira em Quioto
 

E assim decorreu um dia: a Câmara de Silves apelou aos cidadãos do Concelho para uma ajuda. Apareceram cerca de mil pessoas com camiões, carrinhas, serras mecânicas, todos os utensílios. Limparam numa manhã todos os destroços da baixa e ainda colocaram as telhas no edifício da Câmara Municipal, entre outras ajudas assim. O que digo aqui sobre Quioto é que, no dia da sua assinatura, países como os EUA não assinaram, desdenhando dos «boatos» sobre as transformações naturais e produzidas pelo Homem no clima do planeta. Não alinhei nesse boato. Há muito que sei o que esta civilização pode  provocar, refém de certas tecnologias e do petróleo, além de teimar nas apocalípticas concentrações urbanas.
RS

sábado, novembro 10, 2012

BARACK OBAMA VENCEU A AMÉRICA CONGELADA

BARACK OBAMA

Com as crises que assolam o mundo, e apesar de um eleitorado que se deixou congelar com a perda das expectativas criadas há quatro anos por Obama, a América viveu um tempo eleitoral dramático, com os candidatos  praticamente empatados. Dos três debates, Obama saiu por cima nos dois últimos. E o seu mandato foi sacudido por graves problemas, sobretudo com o crash de Wall Street e muitos dos seus efeitos em cadeia, as oposições ao serviço de saúde, a emergência dos sectores multimilionários (como o seu rival  Mitt Romney) numa colagem às forças mais conservadoras. Nos Estados mais propícios a um discurso menos acossado pelos adversários, definindo-se na sua lógica e na sua perspectiva humanitária, Obama arrancou de facto a vitória, logrando um número muito mais expressivo de representantes para o Colégio Eleitoral (303). O futuro que o espera, apesar do seu talento e uma perspectiva mais moderna e aberta para os EUA, não é fácil de enfrentar, mas as suas palavras reeditam bem, de novo, a esperança e a vontade.

ÂNGELA MERKEL, SEGUNDA - FEIRA, 12, EM LISBOA

CHANCELER ÂNGELA MERKEL

Clara Ferreira Alves, na sua crónica da revista do Expresso, escreveu hoje, sábado, a dois dias da chegada a Lisboa da poderosa Ângela Merkel: «o que quer que se tenha desatado na solidariedade da zona euro, está desatado para sempre.»
É inquietante, talvez releve da globalização e de certas heranças alucinantes para mil anos, mas, seja como for, trata-se de um fenómeno cada vez mais impiedoso. A Europa, a que já chamámos verdadeira e polo avançado da civilização Ocidental, já não existe, soçobra na conspiração universal de um capitalismo inominável, com mecanismos odiosos e criações ilusórias, selvagens, sob domínios que se acentuaram com a pulverização  do comunismo e a enxurrada que atravessou (de várias maneiras) o destruído "muro" de Berlim, além do equívoco "jardim" das chamadas grandes potências emergentes. A Alemanha zela por si, mesmo que venha a ser submersa num oceano de milhões de chineses, trazendo de volta as fabriquetas que para lá exportaram. A Alemanha trata dos seus traumas de guerra, reconquistando o velho jeito de mandar, de cobrar a regra, cabelos louros, raça única, amiga dos antigos países ocupados pela União Soviética (onde ganha fortunas) e dos enregelados mas superiores países do Norte, e hoje, com Merkel, é o símbolo avassalador de panos económicos (austeridade e pobreza em vez de destruição de fábricas e bens fúteis) que relevam de previstas destruições do equilíbrio federativo e solidário, estados cada vez mais equívocos neste mundo que nem respeitam uma das mais raras criações do Universo o Homem.
Cercada pelos agiotas da conspiração do dinheiro, da guerra financeira que vai esmagando toda a civilização contemporânea, a Europa, com países afundados ou quase, a caminho de uma pobreza generalizada, é hoje um «lugar de catástrofe». Em redor dos areópagos de cínicas escolas de economia, soprados pelo crash de Wall Street, propagam-se guerras completamente irracionais, na Síria, na Ásia, no Médio Oriente, assaltos militares, golpes de Estado, terrorismo, um clima ao qual a Natureza responde com outras agressões, apesar das populações vitimadas continuarem a voltar ao fanatismo do crescimento, multiplicando o nomadismo das unidades industriais em nome do progresso (apenas dinheiro assimétrico), tudo numa desagregação imparável, milhões de mortes encobertas e de riquezas expurgadas a povos ainda primitivos, «libertados» euforicamente pelas elites da descolonização, continentes abandonados, territórios vazios e cidades explodindo de ensandecidos rios de gente.
Fazemos votos pelo bem estar da senhora Merkel e desejamos que, ao chegar à Alemanha, não a encontre submersa por 500 milhões de chineses, todos finalmente bem pagos.

quinta-feira, novembro 01, 2012

O HOLOCAUSTO NÃO SE ENSINA POR CONTRATO

Numa sessão dedicada à relação Portugal/Israel, o embaixador israelita Ehud Gol no nosso país teceu críticas ao papel das autoridades portuguesas na escassa abordagem do Holocausto e outras tragédias judaicas. Foram muitas as pessoas que se espantaram. Sobretudo os que conhecem muitos casos de apoio aos judeus através de Lisboa e o extraordinário trabalho de Aristides de Sousa Mendes, entre outros. Ehud Gol, com muito zelo e pouco respeito pela história alheia, lamentou que Portugal tenha sido o único país que colocou a sua bandeira a meia haste durante três dias quando soube da morte de Hitler. Entre várias considerações desrelativizadas, o embaixador considerou, em «Portugal e o Holocausto», que, por concordância entre os dois países, o Holocausto deveria passar a ser ensinado no nosso plano escolar, agora e de futuro.
Tudo isto é um pouco estranho: primeiro, porque em Portugal, sem contratos, sempre ouvi referências, filmes, peças de teatro, tendo, a par, lido livros em português sobre aquele assunto, tema, aliás, que toca de perto a minha própria obra artística. A bandeira a meia haste mostra bem como certas entidades estiveram de costas voltadas para os efeitos e mordaças do regime de Salazar. Ele foi responsável por essa bandeira chorando o mito e uma derrota justa. Esta espécie de marketing desenvolvido em torno do Holocausto, quase proferindo a conveniência do seu ensino por contrato, é hoje um mau culto da memória desse infausto acontecimento, sobretudo quando Israel não prima pelo respeito dos vizinhos que conquistou e pelo precário ensino que desdobra sobre o mundo contemporâneo, reclamando para si direitos muitas vezes desfocados ou inexistentes. A evocação, no século XXI, do Holocausto deveria preocupar o senhor embaixador a par de outras realidades em que houve participação internacional e portuguesa, incluindo a morte, em dois meses, de 800.000 cidadãos  entre o Uganda a o Ruanda, bem como a tragédia da Somália, o avanço soviético pelo Afeganistão, a caducada intervenção nesse país dos EUA, as manchas de obscurantismo e grande número de assassinatos de marca talibã, um movimento de medonhos contornos como ameaça à parte mais avançada e lúcida da civilização contemporânea. Enquanto os nazis procuravam exterminar judeus de forma pragmática e absurda, os Aliados cediam à História quarenta milhões de mortos e ainda contribuiram, sem verdadeira legitimidade geográfica, demográfica e histórica, para instaurar na área palestiniana o Estado de Israel.
O reitor da Universidade de Coimbra, perante a referência da «nódoa» da bandeira a meia haste, disse: «Recuso-me a suportar o peso dessa nódoa. O passado é doloroso. O Portugal de hoje não é o mesmo do passado, como a Alemanha de hoje também não é a mesma do passado.» Gol ainda insistiu que os países têm de assumir as responsabilidades pelo passado, depois de ter exclamado que o facto citado «é uma nódoa para nós, judeus, vai aparecer sempre associada a Portugal». Era preciso chamar a atenção ao senhor embaixador para o contexto dos factos e sobretudo para as próprias responsabilidades de Israel, que os países europeus têm reconhecido e ajudado, incluindo Portugal em diversos campos, naturalmente sem o poder e os interesses americanos.

sexta-feira, outubro 19, 2012

ENFERMEIROS PORTUGUESES DEIXAM O PAÍS

«Diário de Notícias» (19-10-2012):  Há dez anos era uma das profissões que tinha emprego garantido, hoje os licenciados em enfermagem são obrigados a sair do País para trabalhar fora. Só em Inglaterra, há já 1778 enfermeiros portugueses, segundo dados oficiais do Nursing & amp; Midwifery Council, organização junto da qual têm de se registar para exercer no país. O Reino Unido é um dos principais destinos desta vaga de emigração nos profissionais de saúde, mas não é o único.» Portugal, infelizmente, parece votado a exportar milhares de cidadãos formados em diversas especialidades que já poderiam estar a enriquecer a nossa História e o nosso Futuro. 
Ontem partiram mais de uma centena de profissionais desta especialidade e foi, na televisão, uma terrível cena de coragem e amargura. «Queria trabalhar no meu país, foi para isso que trabalhei, mas o meu país abandona-me. Não sei se algum dia voltarei». Se a tempestade tropical, aliada à incompetência política, atirou para o lixo contingentes inteiros de famílias e pessoas que viviam nas colónias por vezes com raizes seculares, o que aconselhava outras decisões e a devida preparação, hoje, por erros igualmente estúpidos, muitos dos nossos cidadãos não ficam apenas sem casa, amigos, família: ficam sem a própria Pátria. Muitas pessoas que vieram na expulsão rápida e em força, de Angola ou Moçambique, perderam tudo, bens e familiares, a sua segunda Pátria. Se há crimes que se julgam no Tribunal de Haia, a forma como os governos provisórios portugueses desprotegeram milhares de concidadãos, deixando que o Exército não enquadrasse a transferência de pessoas e valores, sobretudo depois de uma teimosia de catorze anos, é matéria que deveria ter sido encarada de outra forma e punida constitucionalmente.
De uma carta de ontem:
Parto do meu país, com uma licenciatura em enfermagem, porque, apesar do dinheiro gasto pelo Estado com a minha formação, tal esforço e o meu próprio empenho carecem por completo de resposta em Portugal. Não há literalmente postos de trabalho para mim e para os meus colegas. Os gastos foram, de todo, desaproveitados. Parto do meu país onde porventura nunca mais voltarei. Fomos aceites em Inglaterra sem crises burocráticas nem precariedades financeiras, técnicas e de habitação. É com mágoa que o faço, mas, para além da carta dirigida ao senhor Presidente da República, nada mais posso fazer pelos futuros colegas que estão a formar-se e que, dentro em breve, talvez já nem possam usufruir dos poucos contratos de curto prazo, entre exílios e nomadismos na terra onde nascemos.
Nome ilegível

terça-feira, outubro 16, 2012

TALIBÃS MATAM DIREITOS, COMO O DA EDUCAÇÃO

Malala, de 14 anos, atacada pelos talibãs por querer o direito à leitura
e à aprendizagem em geral

É inacreditável que o mundo (além das decomposições materialistas que sofre cada vez mais, globalmente, a caminho de uma implosão trágica) tenha ainda de aceitar sem fúria devastadora os senhores talibãs, uma gente que não se escusa de comer e de desejar o mando absoluto, mas que repele até à morte e à tortura os que procuram aprender o espaço da sua identidade, dignidade, sabendo ler e escrever, ouvindo música e vendo cinema, ganhando consciência dos seus direitos fundamentais e cívicos. Os talibãs renegam e proíbem a música, as imagens da arte, na pintura ou no cinema e teatro, entre coisas tão absurdas e radicais como essas, pelo que muita gente os julga dementes e próprios campos clínicos do outro mundo.
Atravessa o planeta uma grande indignação (embrulhada noutros lixos) relativamente ao ataque à bala contra a paquistanesa Malada, de 14 anos, dotada de uma forte consciência das "coisas do tempo" e do que prepara o futuro, através de um aprofundamento das artes, das letras e das ciências, incluindo o papel das pessoas no esforço entrosado que dá vida às comunidades. A rapariga foi atingida na cabeça e num ombro, tendo sido difícil a sua sobrevivência.
No jornal Público, de hoje, Maria João Guimarães escreve que o último crime dos talibãs paquistaneses foi «demasiado chocante (...)». Mas terá sido suficiente para uma acção militar contra os extremistas que estão a expandir a sua influência na região tribal que faz a fronteira com o Afeganistão? Uma menina de 14 anos atingida a tiro na cabeça por defender o direito à educação é impressionante. É mais chocante ainda, porque sabendo que ela não morreu os talibãs prometem voltar a atacá-la, e um dos suspeitos detidos entretanto tentou fazer-se passar pelo pai da adolescente no hospital onde ela estava a ser tratada (Malala Yousafzai chegou ontem a um centro especial em trauma em Birmingham, Inglaterra).

sábado, outubro 06, 2012

MARGARIDA MARANTE: JORNALISTA ACUTILANTE

MORREU MARGARIDA MARANTE
UM CASO DE SUCESSO NA TELEVISÃO
COMO ENTREVISTADORA INCISIVA E CORDIAL
*
Margarida faleceu aos 53 anos, vítima de um ataque cardíaco. Nos tempos iniciais da SIC, Margarida Marante notabilizou-se em estúdio, com grande acutilância nas entrevistas que fazia a personalidades de importante  recorte cultural, social ou político. O Diário de Notícias de hoje fala mesmo numa entrevistadora incisiva e também generosa. A jornalista, nascida em 1959, começou a prática na área da sua escolha aos 17 anos: conduziu, então, na SIC, programas como Sete à Sexta, Crossfire (ao lado de Miguel de Sousa Tavares) ou Esta Semana. Passou pela revista Opção, Expresso, Tempo. Em 1978 ingressou na RTP, de onde saiu em 1990. Trabalhou na revista Elle e na rádio, TSF. Em 1992 fez parte da equipa fundadora da SIC. Foi pela sua prestação nos dois canais de televisão aqui referidos que Margarida Marante alcançou o estatuto de «melhor entrevistadora do país.» Esta é uma justa e atenta opinião de Luis Andrade, antigo director de programas da RTP. Os espectadores haviam ganho grande expectativa pelo seu trabalho, acorrendo às grandes entrevistas que realizou, a personalidades de relevo, e em diversas áreas, tudo numa linha de rigor e profundidade, belíssima condução das perguntas, questionando temas e assuntos de decisivo relevo. A sua fotogenia televisiva, a par da sua natural beleza, enquadravam uma voz bem timbrada, bem colocada, entre a precisão e o sorriso.

Os seus problemas de saúde e de luta psicológica contra adversidades do seu foro íntimo afastaram-na durante algum tempo e fragilizaram-na muito. Mas enquanto exercia funções era justamente conhecida por ser incansável. O coração, esse, cansou-se ontem: teria as suas razões, Deus teria outras. Mas para nós não havia nenhuma razão justa.

domingo, setembro 30, 2012

DÍVIDA, FINANÇAS, EUROPA PENHORADA NAS RUAS

 REGRESSÃO GLOBAL DA CIVILIZAÇÃO
ONDE RENASCEM A VIOLÊNCIA E OS NEONAZIS
A utopia de uma Europa forte e unida sob a protecção decisiva de uma "moeda única", o euro, teve  os  seus criadores e os seus respeitáveis teóricos e entrou em "roda livre" com tratados blindados, acenando ao  mundo, na pompa de todas as grandes vitórias, juntando todos os países já associados na grande festa de cada vitória, de cada milhar de páginas em regulamentos e normas para tudo, aspirando a uma solidária disciplina de reordenamento da produção e dos territórios, contra a memória histórica, técnica e cultural, como aconteceu com o nosso país, compelido a afundar frotas pesqueiras e vastas plantações vinículas, entre outras rasteiras que nem a França nem a Alemanha cuidaram de aceitar para si. Daí em diante, as diferenças seculares e o assalto concertado dos credores de países com dívidas (cuja norma de pagamento vinha de longe e se fazia sem usura transcendente) resultou numa súbita crise aberta nos EUA e que impediu os "Senhores do euro" de continuar a linha bem desenrolada desde o pós-guerra, forçados a morrer de fome ou a pagar tudo em poucos anos, reduzindo por magia os déficits e sofrendo o emergir do assombro que antecedeu tanto horror e tantos conflitos. Contornando, sem olhar à regra, o seu déficit, a Alemanha e a  França fizeram as malas para um directório que abriu fendas por todo o lado, afundou a Grécia, Portugal, Irlanda, agora a Espanha e a Itália, sem norma federativa à vista e respeito mútuo consolidado. A senhora Merkel e Sarkozy, sem respeito pelo Parlamento Europeu e pela Comissão, passaram a dar ordens e a impor austeridade económica, uma vertigem para a pobreza e sem esboços paralelos dedicados a uma futura consolidação económica. E entretanto os "resgates" rasgaram países, atingiram o limite do tolerável, infectaram a paciência dos povos: Madrid veio para a rua, a Grécia já luta há tempos, Portugal suportou até ontem, a Espanha resiste por si mas enfrenta desejos de independência da Catalunha, a Itália segue as mesmas medidas sagradas do FMI e na forte e intransigente Alemanha, estranhos fenómenos sócio-culturais tomaram aldeias, donde a população foi soprada de formas obscuras, e por lá se instalam grupos radicais, hostis aos muçulmanos, cortantes e sinalizados por chefes nacionais que disfarçam a confusão ética e política. Assim parecem começar os novos tempos e assim começaram os antigos desastres.




O mundo parece soçobrar a um falso desenvolvimento que mistura raças e procedimentos, tudo relacionado com estranhas simbioses e uma espécie de Natureza em revolta, o ar sujo, o lixo na estratosfera, os oceanos, rios e terras sob o efeito de milenares poluições -- e tudo se confunde no apagamento das Estações do ano, na crise do próprio planeta, aliás cada vez mais sob o efeito de produtos e cientificidades que desagregam os ecossistemas, os paraísos sonhados, excessos sem nome, cidades insustentáveis, o embuste gigantesco do dinheiro manejado na desmedida calibração de muito e nada, de grandezas e misérias. A China emerge, a Índia também, o Ocidente assusta-se e torna-se mais cativo dos seus luxos, das suas assimetrias. Mas nada disso é bem assim. O "efeito dominó" corre em espiral e os "donos do dinheiro" acabarão por perdê-lo nos próximos dilúvios, Dubai batido por estranhas areias, o Islão procurando implementar as suas próprias Cruzadas, em vez de das duas torres gémeas virá ainda um raio de estrela, os arranha-céus terão também o seu tempo de apodrecimento e as cidades em altura cairão por terra, restando, em vez do dólar e do euro, ilhas longínquas, no mar e na terra, onde os sobreviventes terão de inventar novos processos de manter a espécie e de moderar os hábitos, os desejos, os sonhos. Talvez até acabem as moedas. E um dia terá acontecido o envelhecimento da Europa, povoada da agricultores, sem banqueiros, tratando da alimentação regular e parca, das comunicações menos repentinas e menos globalizantes, trotando em carros de ligação, sem usura, sem Papas nem Cardeais, nem Ayatolas, nem Cristo, nem Deus. A ciência recomeçará sem ostentação. Porque, já no século XX havia muito mais coisas para descobrir e ordenar moderadamente do que encher uma ilha de centenas de prédios com mais de cem metros de altura. As escalas definem tamanhos determinados, mas não é isso que determina o valor nem das coisas nem da arte.
Portugal tem de voltar a navegar. E a China, derrubando as cidades vazias que edificou para os seus escravos, voltará a cultivar o arroz. Buda será enviado para o Nirvana e, no seu lugar, matadouros floridos servirão para matar e tratar a grande cultura de todas as vacas da Ásia. Lenine ressuscitará para criar uma estrutura pronta a exterminar todas as máfias que acederam à Rússia, ajudando a acabar com as outras, nos outros lugares do mundo onde existe esse flagelo. Os velhos poderão descansar nas igrejas. E os conventos, com as suas ordens religiosas, acolherão população envelhecida e dedicar-se-ão à produção de géneros básicos, para a alimentação e o vestuário.