quarta-feira, dezembro 24, 2014

O PAPA NA CÚRIA ROMANA: PALAVRAS QUE LAVAM



Leiam todos, pela primeira vez, todos, 
e sintam o testemunho, a palavra cortante e mansa, que não degola mas demanda o sentido do homem.

“Tu estás acima dos querubins, tu que transformaste a miserável condição do mundo quando te fizeste como nós” (Santo Agostinho)

Amados irmãos,
Ao final do Advento, encontramo-nos para as tradicionais saudações. Dentro de alguns dias teremos a alegria de celebrar o Natal do Senhor; o evento de Deus que se faz homem para salvar os homens; a manifestação do amor de Deus que não se limita a dar-nos algo ou a enviar-nos uma mensagem ou alguns mensageiros, doa-se-nos a si mesmo; o mistério de Deus que toma sobre si a nossa condição humana e os nossos pecados para revelar-nos a sua Vida divina, a sua graça imensa e o seu perdão gratuito. É o encontro com Deus que nasce na pobreza da gruta de Belém para ensinar-nos a potência da humildade. Na realidade, o Natal é também a festa da  luz que não é acolhida pela gente “eleita”, mas pela gente pobre e simples que esperava a salvação do Senhor.
Em primeiro lugar, gostaria de desejar a todos vós – cooperadores, irmãos e irmãs, Representantes pontifícios disseminados pelo mundo – e a todos os vossos entes queridos um santo Natal e um feliz Ano Novo. Desejo agradecer-vos cordialmente, pelo vosso compromisso quotidiano a serviço da Santa Sé, da Igreja Católica, das Igrejas particulares e do Sucessor de Pedro.
Como somos pessoas e não números ou somente denominações, lembro de maneira especial os que, durante este ano, terminaram o seu serviço por terem chegado ao limite de idade ou por terem assumido outras funções ou ainda porque foram chamados à Casa do Pai. Também a todos eles e a seus familiares dirijo o meu pensamento e gratidão.
Desejo juntamente convosco erguer ao Senhor vivo e sentido agradecimento pelo ano que está a nos deixar, pelos acontecimentos vividos e por todo o bem que Ele quis generosamente realizar mediante o serviço da Santa Sé, pedindo-lhe humildemente perdão pelas faltas cometidas “por pensamentos, palavras, obras e omissões”

E partindo precisamente deste pedido de perdão, desejaria que este nosso encontro e as reflexões que partilharei convosco se tornassem, para todos nós, apoio e estímulo a um verdadeiro exame de consciência a fim de preparar o nosso coração ao Santo Natal.
Pensando neste nosso encontro veio-me à mente a imagem da Igreja como Corpo místico de Jesus Cristo. É uma expressão que, como explicou o Papa Pio XII “brota e como que germina do que é frequentemente exposto na Sagrada Escritura e nos Santos Padres”. A este respeito, São Paulo escreveu: “Porque, como o corpo è um todo tendo muitos membros e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo” (1 Cor 12,12).
Neste sentido, o Concílio Vaticano II lembra-nos que “na edificação do Corpo de Cristo há diversidade de membros e de funções. Um só é o Espírito que, para utilidade da Igreja, distribui seus vários dons segundo suas riquezas e as necessidades dos ministérios (cf. 1 Cor 12,1-11)”. Por isto “Cristo e a Igreja formam o «Cristo total» – Christus totus -. A Igreja é una com Cristo».
É belo pensar na Cúria Romana como sendo um pequeno modelo da Igreja, ou seja, um “corpo” que procura séria e cotidianamente ser mais vivo, mais sadio, mais harmonioso e mais unido em si mesmo e com Cristo.
Na realidade, a Cúria Romana é um corpo complexo, composto de muitos Dicastérios, Conselhos, Departamentos, Tribunais, Comissões e de numerosos elementos que não têm todos a mesma tarefa, mas são coordenados para um funcionamento eficaz, edificante, disciplinado e exemplar, não obstante as diversidades culturais, linguísticas e nacionais dos seus membros.
Em todo o caso, sendo a Cúria um corpo dinâmico, ela não pode viver sem alimentar-se e sem cuidar de si. De fato, a Cúria – como a Igreja – não pode viver sem ter uma ralação vital, pessoal, autêntica e sólida com Cristo. Um membro da Cúria que não se alimenta cotidianamente com aquele Alimento tornar-se-á um burocrata (um formalista, um funcionalista, um mero empregado): um ramo que seca e pouco a pouco morre e é lançado fora. A oração diária, a participação assídua nos Sacramentos, de modo especial, da Eucaristia e da reconciliação, o contato cotidiano com a palavra de Deus e a espiritualidade traduzida em caridade vivida são o alimento vital para cada um de nós. Que todos nós tenhamos bem claro que sem Ele nada poderemos fazer(cf Jo 15, 8).
Consequentemente, a relação viva com Deus alimenta e fortalece também a comunhão com os outros, ou seja, quanto mais estivermos intimamente unidos a Deus tanto mais estaremos unidos entre nós porque o Espírito de Deus une e o espírito do maligno divide.
A Cúria está chamada a melhorar-se, a melhorar-se sempre e a crescer em comunhão, santidade e sabedoria a fim de realizar plenamente a sua missão. No entanto, ela, como todo corpo, como todo corpo humano, está exposta também às doenças, ao mau funcionamento, à enfermidade. E aqui gostaria de mencionar algumas destas prováveis doenças, doenças curiais. São doenças mais costumeiras na nossa vida de Cúria. São doenças e tentações que enfraquecem o nosso serviço ao Senhor. Penso que nos ajudará o “catálogo” das doenças – nas pegadas dos Padres do deserto, que faziam aqueles catálogos – dos quais falamos hoje: ajudar-nos-á na nossa preparação ao Sacramento da Reconciliação, que será um passo importante de todos nós em preparação do Natal.

1. A doença do sentir-se “imortal”, “imune” ou até mesmo “indispensável” transcurando os controles necessários e habituais. Uma Cúria que não faz autocrítica, que não se actualiza, que não procura melhorar é um corpo enfermo. Uma visita ordinária aos cemitérios poderia ajudar-nos a ver os nomes de tantas pessoas, algumas das quais pensassem talvez que eram imortais, imunes e indispensáveis! É a doença do rico insensato do Evangelho que pensava viver eternamente (cf Lc 12, 13-21) e também daqueles que se transformam em senhores e se sentem superiores a todos e não a serviço de todos. Esta doença deriva muitas vezes da patologia do poder, do “complexo dos Eleitos”, do narcisismo que fixa apaixonadamente a sua imagem e não vê a imagem de Deus impressa na face dos outros, principalmente dos mais fracos e necessitados. O antídoto para esta epidemia é a graça de nos sentirmos pecadores e de dizer com todo o coração «Somos servos inúteis. Fizemos o que devíamos fazer» (Lc 17, 10).

2. Outra doença:  doença do “martalismo” (que vem de Marta), da excessiva operosidade: ou seja, daqueles que mergulham no trabalho, descuidando, inevitavelmente, “a melhor parte”: sentar-se aos pés de Jesus (cf Lc 10,38-42). Por isto Jesus chamou os seus discípulos a “descansar um pouco’” (cf Mc 6,31) porque descuidar do descanso necessário leva ao estresse e à agitação. O tempo do descanso, para quem levou a termo a sua missão, é necessário, obrigatório e deve ser lavado a sério: no passar um pouco de tempo com os familiares e no respeitar as férias como momentos de recarga espiritual e física; é necessário aprender o que ensina o Coélet que «para tudo há um tempo» (3,1-15).

3. Há ainda a doença do “empedernimento” mental e espiritual, ou seja, daqueles que possuem um coração de pedra e são de “dura cerviz” (At 7,51-60); daqueles que, com o passar do tempo, perdem a serenidade interior, a vivacidade a audácia e escondem-se atrás das folhas de papel, tornando-se “máquinas de práticas” e não “homens de Deus” (cf Hb 3,12). É perigoso perder a sensibilidade humana necessária que nos faz chorar com os que choram e alegrar-se com os que se alegram! É a doença dos que perdem “os sentimentos de Jesus ” (cf Fl 2,5-11) porque o seu coração, com o passar do tempo, endurece e torna-se incapaz de amar incondicionalmente ao Pai e o próximo (cf Mt 22,34-40). Ser cristão, com efeito, significa ter os mesmos sentimentos de Jesus Cristo» (Fl 2,5), sentimentos de humildade e de doação, de desapego e de generosidade.

4. A doença do planeamento excessivo e do funcionalismo. Quando o apóstolo planeja tudo minuciosamente e pensa que, fazendo um perfeito planeamento, as coisas efectivamente progridem, tornando-se, assim, um contador ou um comercialista. Preparar tudo bem é necessário, mas sem jamais cair na tentação de querer encerrar e pilotar a liberdade do Espírito Santo, que é sempre maior, mais generosa do que todo planeamento humano (cf Jo 3,8). Cai-se nesta doença porque  «é sempre mais fácil e cômodo adaptar-se às suas posições estáticas e imutadas. Na realidade, a Igreja mostra-se fiel ao Espírito Santo na medida em que não tem a pretensão de regulamentá-lo e de domesticá-lo… – domesticar o Espírito Santo! – … Ele é frescor, fantasia, novidade».

5. A doença da má coordenação. Quando os membros perdem a comunhão entre si e o corpo perde a sua funcionalidade harmoniosa e a sua temperança, tornando-se uma orquestra que produz barulho, porque os seus membros não cooperam e não vivem o espírito de comunhão e de equipe. Quando o pé diz ao braço: “não preciso de ti”, ou a mão à cabeça: “quem manda sou eu”, causando, assim, mal-estar ou escândalo.

6. Há também a doença do “alzheimer espiritual”: ou seja, o esquecimento da “história da salvação”, da história pessoal com o Senhor, do «primeiro amor» (Ap 2,4). Trata-se de uma perda progressiva das faculdades espirituais que num intervalo mais ou menos longo de tempo causa graves deficiências à pessoa, tornando-a incapaz de exercer algumas actividades autónomas, vivendo num estado de absoluta dependência das suas visões, tantas vezes imaginárias. É o que vemos naqueles que perderam a memória do seu encontro com o Senhor; naqueles que não têm o sentido deuteronômico da vida; naqueles que dependem completamente do seu presente, das suas paixões, caprichos e manias; naqueles que constroem em torno de si barreiras e hábitos, tornando-se, sempre mais escravos dos ídolos que esculpiram com suas próprias mãos.
7. A doença da rivalidade e da vanglória. Quando a aparência, as cores das vestes e as insígnias de honra se tornam o objectivo primordial da vida, esquecendo as palavras de São Paulo: «Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses, e sim os dos outros» (Fl 2,1-4). É a doença que nos leva a ser homens e mulheres falsos, e a vivermos um falso “misticismo” e um falso “quietismo”. O mesmo São Paulo os define «inimigos da Cruz de Cristo» porque se envaidecem da própria ignomínia e só têm prazer no que é terreno» (Fl 3,19).

8. A doença da esquizofrenia existencial. É a doença dos que vivem uma vida dupla, fruto da hipocrisia típica do medíocre e do vazio espiritual progressivo que formaturas ou títulos acadêmicos não podem preencher. Uma doença que atinge frequentemente aquele que, abandonando o serviço pastoral, se limitam aos afazeres burocráticos, perdendo, assim, o contato com a realidade, com as pessoas concretas. Criam, assim, um seu mundo paralelo, onde colocam à parte tudo o que ensinam severamente aos outros e começam a viver uma vida oculta e muitas vezes dissoluta. A conversão é por demais urgente e indispensável para esta gravíssima doença (cf Lc 15,11-32).
9. A doença das fofocas, das murmurações e do mexerico. Já falei muitas vezes desta doença, mas nunca é suficiente. É uma doença grave, que começa simplesmente, quem sabe, para trocar duas palavras e se apodera da pessoa, transformando-a em  “semeadora de cizânia” (como satanás), e em tantos casos “homicida a sangue frio” da fama dos seus colegas e confrades. É a doença das pessoas velhacas que, não tendo a coragem de falar diretamente, falam pelas costas. São Paulo nos adverte: «Fazei todas as coisas sem murmurações nem críticas a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes» (Fl 2,14-18). Irmãos, guardemo-nos do terrorismo das maledicências!

10. A doença de divinizar os chefes: é a dos que cortejam os Superiores, esperando obter a benevolência deles. São vítimas do carreirismo e do oportunismo, honrando as pessoas e não a Deus (cf Mt 23,8-12). São pessoas que vivem o serviço, pensando exclusivamente no que devem obter e não no que devem dar. Pessoas mesquinhas, infelizes e inspiradas só pelo seu próprio egoísmo (cf Gal 5,16-25). Esta doença  poderia atingir também os Superiores, quando cortejam alguns seus colaboradores para obter a sua submissão, lealdade e dependência psicológica, mas o resultado final é uma verdadeira cumplicidade.

11. A doença da indiferença para com os outros. Quando alguém pensa somente em si mesmo e perde a sinceridade e o calor das relações humanas. Quando o mais esperto não coloca o seu conhecimento a serviço dos colegas menos espertos. Quando se chega ao conhecimento de algo e o esconde para si, ao invés de compartilhar positivamente com os outros. Quando, por ciúme ou por astúcia, se sente alegria ao ver o outro cair, ao invés de erguê-lo e encorajá-lo.

12. A doença da cara funérea. Quer dizer, das pessoas grosseiras e sisudas que pensam que, para ser sérias, é necessário assumir as feições de melancolia, de severidade e tratar os outros – principalmente os que consideram inferiores – com rigidez, dureza e arrogância. Na realidade, a severidade teatral e o pessimismo estéril são muitas vezes sintomas de medo e de insegurança. O apóstolo deve esforçar-se por ser uma pessoa amável, serena e alegre que transmite alegria por toda parte onde quer se encontre. Um coração repleto de Deus é um coração feliz que irradia e contagia de alegria todos os que estão à sua volta: é o que se vê imediatamente! Não percamos, portanto, aquele espírito jovial, cheio de humor, e até autoirônico, que nos torna pessoas amáveis, mesmo nas situações difíceis. Quanto bem nos faz uma boa dose de sadio humorismo! Far-nos-á muito bem recitar muitas vezes a oração de São Tomás Moro: rezo-a todos os dias; me faz bem.

13. A doença de acumular: quando o apóstolo procura preencher um vazio existencial no seu coração, acumulando bens materiais, não por necessidade, mas só para sentir-se seguro. Na realidade, nada de material poderemos levar conosco, porque “a mortalha não tem bolsos” e todos os nossos tesouros terrenos – mesmo que sejam  presentes – jamais poderão preencher aquele vazio; pelo contrário, torná-lo-ão cada vez mais exigente e mais profundo. A estas pessoas o Senhor repete: «Dizes: sou rico, faço bons negócios, de nada necessito – e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu … Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te» (Ap 3,17-19). A acumulação só pesa e freia inexoravelmente o caminho! E penso numa anedota: um tempo, os jesuítas espanhóis descreviam que a Companhia de Jesus era como a “cavalaria leve da Igreja”. Lembro-me da mudança de um jovem jesuíta que, enquanto carregava num caminhão os seus muitos bens: bagagens, livros, objetos e presentes, ouvi um velho jesuíta, que estava a observá-lo, dizer com um sorriso sábio: e esta seria a “cavalaria leve da Igreja?”. As nossas mudanças são um sinal desta doença.

14. A doença dos círculos fechados onde a pertença ao grupinho se torna mais forte do que a pertença ao Corpo, e, em algumas situações, ao próprio Cristo. Também esta doença começa sempre de boas intenções, mas com o passar do tempo, escraviza os membros, tornando-se um câncer que ameaça a harmonia do Corpo e causa tanto mal – escândalos – especialmente aos nossos irmãos menores. A autodestruição ou o “tiro amigo” dos camaradas é o perigo mais sorrateiro. É o mal que atinge a partir de dentro; e, como diz Cristo, «todo o reino dividido contra si mesmo será destruído» (Lc 11,17).

15. E a última: a doença do proveito mundano, dos exibicionismos, quando o apóstolo transforma o seu serviço em poder e o seu poder em mercadoria para obter dividendos humanos ou mais poder; é a doença das pessoas que procuram insaciavelmente multiplicar poderes e, com esta finalidade, são capazes de caluniar, de difamar e de desacreditar os outros, até mesmo nos jornais e nas revistas. Naturalmente para se exibirem e se demonstrarem mais capazes do que os outros. Também esta doença faz muito mal ao Corpo porque leva as pessoas a justificar o uso de todo meio, contanto que atinja o seu objetivo, muitas vezes em nome da justiça e da transparência! E vem-me aqui à mente a lembrança de um sacerdote que chamava os jornalistas para lhes contar – e inventar – coisas privadas e reservadas dos seus confrades e paroquianos. Para ele a única coisa importante era ver-se nas primeiras páginas, porque assim se sentia “potente e convincente”, causando tanto mal aos outros e à Igreja. Pobrezinho!
Irmãos, estas doenças e tais tentações são naturalmente um perigo para todo cristão e para toda cúria, comunidade, congregação, paróquia, movimento eclesial  e podem atingir quer em nível individual quer comunitário.
É necessário esclarecer que só o Espírito Santo  – a alma do Corpo Místico de Cristo, como afirma o Credo Niceno-Costantinopolitano: «Creio… no Espírito Santo, Senhor e e vivificador» – pode curar todas as enfermidades. É o Espírito Santo que sustenta todo esforço sincero de purificação e toda boa vontade de conversão. É Ele que nos faz compreender que todo membro participa da santificação do corpo ou do seu enfraquecimento. É Ele o promotor da harmonia: “Ipse harmonia est”, diz São Basílio. Santo Agostinho diz-nos: «Enquanto uma parte aderir ao corpo, a sua cura não é desesperada; mas o que foi cortado não pode nem curar-se nem sarar».
O restabelecimento é também fruto da consciência da doença e da decisão pessoal e comunitária de tratar-se, suportando pacientemente e com perseverança a terapia.
Somos chamados, portanto – neste tempo de Natal e por todo o tempo do nosso serviço e da nossa existência – a viver «pela prática sincera da caridade , crescendo em todos os sentidos, naquele que é a Cabeça, Cristo. É por Ele que todo o corpo – coordenado e unido por conexões que estão ao seu dispor, trabalhando cada um conforme a atividade que lhe é própria – efetua esse crescimento , visando à sua plena edificação na caridade » (Ef 4,15-16).
Amados irmãos!
Certa vez li que os sacerdotes são como aviões: só fazem notícia quando caem, mas há tantos que voam. Muitos criticam e poucos rezam por eles. É uma frase muito simpática, mas também muito verdadeira, porque delineia a importância e a delicadeza do nosso serviço sacerdotal e quanto mal poderia causar um só sacerdote que “cai”, a todo o corpo da Igreja.
Portanto, para não cair nestes dias em que nos preparamos à Confissão, peçamos à Virgem Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja, que cure as feridas do pecado que cada um de nós tem no seu coração e que ampare a Igreja e a Cúria a fim de que sejam sadias e saneadoras; santas e santificadoras  para a glória do seu Filho e para a nossa salvação e do mundo inteiro. Peçamos a Ela que nos faça amar a Igreja como a amou Cristo, seu Filho e nosso Senhor, e que tenhamos a coragem de nos reconhecermos pecadores e necessitados da sua misericórdia e que não tenhamos medo de abandonar a nossa mão entre as suas mãos maternais.
Os melhores votos de um santo Natal a todos vós, às vossas famílias e aos vossos colaboradores. E, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim! Obrigado de coração!  (a)

(a) transcrição do discurso publicado na Internet.


quarta-feira, dezembro 17, 2014

OBSERVATÓRIO DO MUNDO GLOBALIZADO

                             
 Dezembro de 2014: talibãs matam 132 crianças na escola de Peshawar, Paquistão. Ataque sem precedentes neste país. As autoridades continuarão a lutar contra estas criaturas inomináveis 

   na morte de Mohammed Ail Khan,
           de 15 anos        


Muitos outros trágicos acontecimentos se verificaram um pouco por todo o mundo. Este foi um dos mais bárbaros factos a registar ontem: extremistas, mal sabendo a fala do homem inteiro, disseram que as mortes das crianças e centenas de feridos, incluindo nove adultos, se cingiu a uma vingança contra o governo. E garantiu que a luta vai continuar. Lumena Raposo, do «Diário de Notícias», escreveu hoje: «Vi crianças a cair que choravam e gritavam.»
Este foi o pior ataque no país desde os atentados de 2007, em Carachi, que fizeram 150 mortos. Os movimentos regressivos da Humanidade em quase todo o mundo têm, nos talibãs, cujos ódios e restrições individuais se conhecem, o exemplo mais inquietante de um fim sangrento, da morte do Homem pelas suas próprias mãos, esvaziado de toda a cultura, proibido de ver, ouvir, cantar, dançar, pintar, aprender as ciências e a história dos povos antigos. Perante este acontecimento a Prémio Nobel da Paz, Malala, denunciou-o como um ataque «atroz e cobarde».

domingo, dezembro 07, 2014

MÁRIO SOARES, HOJE, COMPLETA 90 ANOS DE VIDA


Mário Soares, ex-presidente da República Portuguesa, celebra hoje 90 anos de idade. Tem sido uma figura incontornável na história do país, mesmo antes do 25 de Abril de 1974. A democracia que se definiu no país após a revolução, orlada pela Constituição de 1976, elegeu Mário Soares a um plano invulgar no àmbito das transformações que se viveram entretanto, com uma trágica mas inevitável descolonização, fruto de intransigência de Salazar, que rejeitou a oferta dos americanos para apoio a um plano progressivo de autonomia das chamadas Províncias Ultramarinas, com eventual Federação de Estados no futuro. A luta ideológica entre o Partido Socialista (Mário Soares) e Partido Comunista (Álvaro Cunhal) marcou profundamente o país no início das grandes transformações verificadas no espaço português, à partida na iluminada manifestação da Fonte Luminosa da Alameda Afonso Henriques, e depois, sob o comando dos militares democratas, como Ramalho Eanes, Salgueiro Maia e Jaime Neves, tendo como Presidente o General Costa Gomes, o perigoso confronto  do 25 de Novembro (no qual o general Otelo, entre outros, visava a instituição de um regime de esquerda), intentona perdida a favor da estratégia seguida pelas forças comandadas por Ramalho Eanes.




Mário Soares integrou o cargo de Primeiro Ministro, tendo sido Presidente da República.


Nascido em Lisboa, foi o segundo filho de João Lopes Soares, ex padre e pedagogo, ministro na I República e combatente do Salazarismo, e de Elisa Nobre Baptista. Co-fundador do Partido Socialista de Portugal, a 19 de Abril de 1973, Mário Soares foi um dos mais famosos resistentes ao Estado Novo, pelo que foi preso doze vezes (num total de cerca de três anos de cadeia) e deportado sem julgamento para a ilha de São Tomé, em 1968, até se exilar em França, em 1970.

Mário Soares licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1951, e em Direito, na Faculdade de Direito da mesma universidade, em 1957.1 . Foi nos tempos de estudante que, com apoio do pai, iniciou o seu percurso político — pertenceu ao MUNAF - Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista, em Maio de 1943, integrou a Comissão Central do MUD - Movimento de Unidade Democrática, Em 1946, foi fundador o MUD Juvenil e membro da primeira Comissão Central, no mesmo ano. Em 1949, ano em que, a 22 de Fevereiro,  casou-se na prisão,  registo na 3.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa, com Maria Barroso. Foi secretário da Comissão Central da candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República. Em 1955 integrou o Directório Democrático-Social, dirigido por António SérgioJaime Cortesão e Azevedo Gomes e, em 1958, pertenceu à comissão da candidatura do General Humberto Delgado à Presidência da República. Foi militante do Partido Comunista Português e, como advogado, defensor do Dr. Álvaro Cunhal.
Desempenhou funções docentes no Ensino Secundário Particular e chegou a dirigir o Colégio Moderno, fundado pelo pai. Como advogado, defensor de presos políticos, participou em numerosos julgamentos, realizados no Tribunal Plenário e no Tribunal Militar Especial. Representou a família de Humberto Delgado na investigação do seu alegado assassinato. Juntamente com Adelino da Palma Carlos, defendeu também a causa dinástica de Maria Pia de Saxe Coburgo e Bragança. Ainda na década de 1950 foi membro da Resistência Republicana e Socialista, redactor e signatário do Programa para a Democratização da República em 1961, candidato a deputado pela Oposição Democrática, em 1965, e pela CEUD, em 1969.
Aquando do seu exílio em França, em 1970, foi chargé de cours nas universidades de Paris VIII (Vincennes) e Paris IV (Sorbonne), e igualmente professor convidado na Faculdade de Letras da Universidade da Alta Bretanha, em Rennes, que lhe atribuiu o grau de Doutor Honoris Causa. Em 1973, foi o primeiro fundador do Partido Socialista, de que foi secretário-geral e ainda hoje é militante.
Estando ainda aí, em 1972, foi à loja à loja maçónica parisense " maçonaria, segundo ele próprio, optando depois por ficar "adormecido"4 .
A 28 de Abril de 1974, três dias depois da Revolução de 25 de Abril, regressou do exílio em Paris, no chamado "Comboio da Liberdade".5 Dois dias depois, esteve presente na chegada a Lisboa de Álvaro Cunhal. Ainda que tivessem ideias políticas diferentes, subiram de braços dados, pela primeira e última vez, as ruas da Baixa Pombalina e a avenida da Liberdade.
Durante o período revolucionário que ficou conhecido como PREC foi o principal líder civil do campo democrático, tendo conduzido o Partido Socialista à vitória nas eleições para a Assembleia Constituinte de 1975.
Foi Ministro dos Negócios Estrangeiros, de Maio de 1974 a Março de 1975, e um dos impulsionadores da independência das colónias portuguesas, tendo sido responsável por parte desse processo.
A partir de Março de 1977 colaborou no processo de adesão de Portugal à CEE, vindo a subscrever, como primeiro-ministro, o Tratado de Adesão, em 12 de Julho de 1985.
Foi primeiro-ministro de Portugal nos seguintes períodos:


Presidente da República entre 1986 e 1996 (1.º mandato de 10 de Março de 1986 a 1991, 2.º mandato de 13 de Janeiro de 1991 a 9 de Março de 1996).

Os que ainda combatem Mário Soares apontam-lhe a sua recusa em reformar-se. Ele recusa deixar de ser personagem central da vida política. É amado e odiado em medidas proporcionais. Mário Soares, o «actor que, mesmo assobiado pelo público, insiste em representar. A comemoração dos seus 90 anos tem actos públicos e declarações contra o empobrecimento do pais. O Partido Socialista tenta alcançar de novo o poder em 2015/2016.

sexta-feira, dezembro 05, 2014

O IMPERADOR CLÁUDIO E A PASSADEIRA VERMELHA



Imperador em termos de «Coordenador». Coordenador de um programa televisivo que se chama, em jeito de revista badalada nos consultórios médicos, Passadeira Vermelha e acontece num cenário de mau gosto excelente, com vários maples brancos, puffs por ali, em meia-lua, as câmaras todas arrumadinhas do nosso lado, do lado do telespectador. O plano geral mostra tudo com clareza, enquanto Cláudio se espreguiça ou deita nos bancos à esquerda, esperando que os outros falem ou falando ao mesmo tempo de todos.
Procurando o primeiro plano, ou um protagonismo em gritos e palavreado fragmentário, Cláudio não tem as divisas todas, segundo o manifesto oficial deste regular evento. «Ligada desde o primeiro minuto à SIC CARAS, Liliana Campos confessa-se feliz com este desafio profissional que chegou há menos de um ano à sua vida.» (sic)

Liliana Campos, de facto  a Imperatriz

Liliana, que faz o trabalho de casa com esmero, falando depois  dos modelos e das actrizes em cascata, incluindo há dias um belo requiem pela Duquesa de Alba, considera o balanço do programa positivo. Está a gostar muito de «fazer o projecto». E acrescenta: Identifico-me cada vez mais com a «Passadeira Vermelha»

Fornecidos estes primeiros dados, entre a apresentação de modelos enrolados em vestidos intragáveis, piores ainda pelo cacarejo sobreposto de todos os presentes, ou a dor escondida da Jolie, ou pareceres sobre famílias reais, e ainda, no prato do mesmo dia, a problemática da homossexualidade, novas famílias, meninos sem trauma, por aí adiante, sem rigor nem citações capazes. Claro que é uma vergonha pôr em causa a orientação sexual das pessoas, o seu direito à adopção, constituindo uma verdadeira família. Só que esta causa social não é assim tão simples e as fontes de saber sobre ela deveriam ser abordadas com muito mais profundidade. O mesmo se pode apontar àquelas falas disfuncionais sobre as relações sexuais, comportamentos femininos e masculinos, diferenças e semelhanças, um ruído constante onde se ouvem vocábulos como tamanho, posturas, coisas prosaicas, o assunto rolando no acaso do que vem à boca.


Plano geral que confirma o dispositivo atrás referido. O programa «Passadeira
Vermelha» é um talk-show em directo, de segunda a sexta-feira, no canal SIC CARAS. A apresentação desta pérola dos audio-visuais está a cargo de Andreia Rodrigues, Liliana Campos e Sofia Cerveira, as quais são acompanhadas do painel de comentadores Cláudio Ramos, Pedro Crispim e Luísa Castel-Branco, todos dizendo diferentes «abordagens e olhares sobre a actualidade social, nacional, internacional» -- sempre «com humor e boa disposição», acentua a propaganda. Até se fala, para  breve, em várias iniciativas, como lançamentos de livros, exposições, estreias de cinema. É preciso abrir já as gavetas dos nossos talentos. De contrário, aparecem os amigos e os génios de circunstância. Mas não é assim que se faz isto assim.

terça-feira, novembro 25, 2014

UMA QUARENTENA POR DOENÇAS DO CAPITAL





O thriller desempenhado pelo ex-primeiro Ministro José Sócrates ocorreu à sua chegada de Paris, tendo sido usada a manga de evacuação por emergência. Ele sabia que seria detido no aeroporto: entidades policiais e tributárias, carros ligeiros, descaracterizados, as televisões e os jornais, todos parecendo seguros do que se passava, na hora certa. Estavam lá. O segredo de justiça era, mais uma vez, divulgado  e envolvia  presunções graves sobre crimes cometidos por José Sócrates: fraude fiscal, corrupção e branqueamento de capitais. 
No Campus da Justiça, ao qual aportaram os carros, autoridades e o indiciado daquelas acções verdadeiramente graves e surpreendentes, toda a gente dos noticiários e jornais da manhã mostrou-se paciente, profissional, durante longas horas. Entre as dez e onze horas daquele dia, uma funcionária leu o comunicado do juiz inquiridor, Carlos Alexandre, no qual se esclarecia, em nome da tranquilidade pública e do interesse das investigações, que a José Sócrates era desde logo atribuída a medida de coação correspondente a Prisão Preventiva.

Nos dias seguintes, jornais, televisão e rádio dedicavam as mais diversas abordagens sobre tão excitante assunto. Eu próprio cheguei a descrever aqui a acção rocambolesca da detenção de Sócrates e da sua ida, naquele mesmo dia, para a Penitenciária de Évora, recentemente cuidada e dedicada aos detidos de especial importância nos domínios sociais, políticos, económicos. Desde então, houve especiais cuidados no Partido Socialista, à beira de um Congresso, e debates os mais diversos. A minha atenção fixou-se ontem, dia 30, na conversa em que participou, com especial relevo, António Vilaverde Cabral: a sua análise das situações relativas ao regime português, ao comportamento da justiça, às sequelas de muitas derrocadas nos últimos tempos, incluindo  ilicitudes agravadas e um desgaste geral cujo aprofundamento começa a abrir espaços problemáticos ao futuro do país, tudo isso me deixou assombrado, numa espécie de revelação iluminada.
Por isso achei curial sintetizar a notícia que detalhara sobre a viagem de Paris para Lisboa do ex-primeiro ministro José Sócrates. É verdade que não concordo com acções deste género provocando demasiados efeitos de ricochete. De resto, não sei se a Justiça está agora mais rápida perante os crimes de colarinho branco e novelas sucateiras. Pode parecer mas não sei, não posso afirmar, embora me pareça que o país precisa cada vez mais de clareza nas decisões e de um forte entrosamento das diversas áreas de criação e produção. Fico gelado quando me anunciam crimes hediondos preteridos por gastos de tempo de pesquisa e escrituração. 
Apreciei, no seu primeiro mandato, muitas das ideias avançadas por Sócrates, aliás numa altura em que a própria União Europeia abria fundos para o desenvolvimento de infra-estruturas modernizadoras, projectos sociais ou de qualificação, bases de melhor sustentação quanto à escolaridade, ensino superior, planos tecnológicos. Depois desse tempo, quando as eleições deram ao partido Socialista, e a Sócrates, uma vitória relativa, a crise começava a cavalgar na mobilidade grosseira da  globalização. E cá estamos nisso, num tumulto de guerras e fanatismos sem limite. A Europa perde uma boa parte da sua luz.
Qualquer processo desta natureza, há muito anunciado e hoje ancorado tecnologicamente no maior vórtice, massifica quase tudo, baixa os indicadores culturais, os índíces de desenvolvimento em harmonia. Talvez tudo, assim. deva recomeçar por vastas áreas de  inquérito e avaliação. A comunicação social tem de regular as suas fontes, sem bolas de cristal nem dinheiro mal parado.  
Não é meu intuito afirmar o céu na terra, nem qualquer favor público a certas personalidades cuja acção ou obras atraíram muita gente e levaram outra aos domínios da ira e da negação. Há sombras e claridades um pouco por todo o lado. Dentro de um mundo assim é nosso dever avaliar com propriedade quando figuras de perfil histórico nos conduzem a tomar as nossas próprias decisões comportamentais, de cidadania, perto ou longe da política. Se é que se pode despolitizar a vida em comunidade e o desenho intrínseco da nossa identidade.

terça-feira, novembro 18, 2014

A GLOBALIZAÇÃO TOTALITÁRIA E A SACRA DÍVIDA


I


Spielberg, no filme "Inteligência Artificial", procura abordar o comportamento humano, sobretudo quanto à invenção e ao poder, entre sentimentos de pertença, de género, assaz pelas vias da paixão, da vida e da morte eterna. Um absurdo excesso de produção dirigido a supostas necessidades de apoio à vida quotidiana das pessoas -- tarefas assistidas, as razões do amor, o peso da solidão, os hábitos comuns de passear o cão ou consumir uma enorme quantidade de minudências -- acabou por encher as sociedades de robots figurativos, homens, mulheres, crianças; bonecos, enfim, capazes de se confundirem com pessoas reais, embora dados a especialidades diversas, na cozinha, no jardim, na cama, na leitura, no tratamento certeiro das limpezas ou da educação canina. David, criança, era justamente a mais perfeita criação da indústria robótica, com um notável software, chegou a ser contrariado pelo filho da sua dona, a mãe. Mãe que não suportou a situação, acabando por abandonar David, mergulhando-o numa dolorosa deriva de procura de si mesmo, tentando ser uma criança real, condição para o amarem de verdade. Viveu assim a tormenta de passar a pertencer a um mundo de biliões de seres mecânicos, desempregados, ultrapassados por novas séries, sendo cada vez mais combatidos por uma parte dos homens e das mulheres que os acusavam de contribuírem para a dissipação da raça humana, dominando por fim as nações e destruindo assim a própria História. Com meios brutais e afinal rudimentares, esta parte da humanidade edificara "feiras da carne", caçavam milhares e milhares de humanos mecânicos para os destruir, despedaçando-os e atirando-os para enormes lixeiras.
David procura então, fugindo a tudo isso, uma Fada que (diz a lenda) pode tornar uma criança da série "MEC", por exemplo, em criança real. Teoricamente, qualquer robot é eterno, como a Fada Azul, e David  atravessa o mundo para descodificar tudo o que o impede de chegar à Fada mágica. Não tem resposta concreta, embora haja cumprido todos os passos da mitologia, e soçobra num tempo de 2.000 anos, sendo depois despertado por uma outra gente que habitava então o planeta Terra. Ao ser-lhe mostrada a mãe, oferta alucinatória que durou apenas um dia, David vê a mãe adormecer (morrer), adormecendo também, não alienado, humano, o primeiro robot que abdica da vida perene para morrer de facto, mas provando o sentimento de ser amado pela mãe que ousara conhecer e amar.






II

É tempo de pensarmos um pouco nesta poética naif para conseguirmos equacionar o espaço das nossas dependências, do nosso aprisionamento pelas tecnologias de ponta, vítimas de olhadores e ouvidores estatais, obrigados a consumir milhares de coisas inúteis, ou feitas para a criação de novas necessidades, assim amarrados e amordaçados às dívidas, ao excesso de escolhas, ao Big Brother, à grande e totalitária dívida.



Edward Snowden

Julian Assange

Estes são dois personagens relevantes de uma luta contra a alta espionagem, neste caso nomeadamente nos Estados Unidos. Porque Snowden acedeu a milhares e milhares de informações classificadas naquele país, revelando depois uma grande parte delas. Mas este fenómeno, sobretudo com a chamada competitividade da Globalização, cresce por toda a parte e das mais sofisticadas vias técnicas e/ou estratégicas. O que importa (não sabemos se evocar aqui alguma ética) é denunciar um crescente acesso às grandes manobras e projectos, às pessoas de grande relevo, embora tal manobra também se estenda a pequenos actores e famílias por todo o mundo. Edward acabou por ser acolhido na Rússia, enquanto Assange se recolheu, daí missionando  sobre esta matéria, na Embaixada do Equador em Londres. Falou há dias, em video-conferência, no Centro de Congressos do Estoril. Sobre esse facto O "Público" publicou um artigo de Kathleen Gomes: "A Missa de Domingo de Julian Assange".
Citação do texto: «Anti-capitalista e anti-autoritário, o fundador da WikiLeaks comparou as actividades de vigilância de agências secretas como a NSA às práticas levadas a cabo pela Stasi, a polícia política da ex-RDA (Alemanha de Leste, sob influência soviética). Mas os governos não são os únicos culpados. Companhias das áreas da informática tornaram-se aliadas, agentes privados cujo trabalho importa à máquina do Estado norte-americano. (...)» Quando as pessoas dizem: «Não tenho nada a esconder, porque é que hei-de preocupar-me com isso?», a nossa resposta deve ser: «o que há de errado consigo, se não tem nada a esconder? Deve ser uma pessoa incrivelmente aborrecida. Por favor, trate já de procurar qualquer coisa que tenha de esconder».
De facto. Parece estranho, entre tanto lucro sombrio, tanta miséria, haver gente limpa. E depois? Como viveriam  as grandes indústrias do segredo e da informação? Acabaria o mundo, que acabará depois do «Interstellar».
Pediram a Assange para prever o futuro:
«Para mim a questão é como evitar o totalitarismo. Com os avanços tecnológicos estamos muito rapidamente a chegar a um nível de centralização global, com muito poucos centros de poder. Precisamos de encontrar alternativas».

É estranho pensar que esta tentacular apropriação dos Estados e das pessoas possa adiantar-se à morte física do planeta e à morte eterna da humanidade. Porque as grandes Empresas que começam a centralizar todo o poder afundar-se-ão nele, arrastando consigo a massa dos seres inteligentes.
Disse Kathleen que, no fim, o oráculo desapareceu no imenso ecrã branco, sob forte aplauso, tão etéreo como surgira. Será esta uma nova vaga de Messias, séculos e séculos depois do Messias a quem chamaram Cristo? Ressurreição ou Morte?



III


enfim, o mundo moderno e as novas dívidas

O que acontece nos domínios atrás aflorados, acontece sobretudo com a indústria financeira e os efeitos da Globalização sobre esse enorme poder. Um poder que foi trabalhado para gerir as trocas e a expansão das redes habitacionais e de produção, associado entretanto à economia e à política, segundo as muitas ideologias que arrumam os países por máfias meio encobertas, começa a esmigalhar milhões de seres humanos, atirando-os para a miséria, e erguendo as classes ricas, coladas ao poder, para um falso paraíso na Terra, apesar de se saber que as dívidas contraídas em todos os continentes, e que alimentam os credores, deuses negros do trabalho escravo e do manejo dos juros, se escondem atrás das agências de notação, histéricas, trabalhando numa vertigem igual à das Bolsas, atando os pulsos de toda a gente remediada a sinais de códigos informáticos (AAA / BBB / CCC / C-lixo / Lixo irreparável). Há quem acredite que as dívidas são hoje uma entidade deificada, A DÍVIDA, coisa sem rosto, ingerível, que acabará com os últimos escravos. Ela paira sobre uma paisagem destroçada, meio submersa nos oceanos putrefactos, enquanto aquela falsa Fada Azul que se desfez aos olhos de David assim continuará, na morte eterna, no mais fundo dos mares globalizados.
Se permanecerem assim, como têm sido formadas, as regras vigentes da economia internacional podem levar-nos a imaginar o que acontecerá na maioria dos países do imenso Terceiro Mundo, e de outros mais avançados, intercalares: nenhum deles atingirá verdadeiramente o patamar de país desenvolvido. Desta forma,e a hora actual bem o indicia, não é cientificamente palpável que tais países estejam em vias de desenvolvimento, pelo contrário: um cerco de Dívida mantém-se emergente, ajudando as  cadeias  da   produção e da manipulação informativa a descarregarem novos apelos para novas encomendas; ou reiterando os ciclos viciosos de diferentes consumismos. Por isso, os países de certas periferias conceptuais, sinalizados pelas potências mais fortes, encontram-se afinal  em vias de empobrecimento  cada vez maior. A distância entre ricos e pobres não se reduz, aumenta. E este é, sem dúvida, no centro da nossa angústia, o maior escândalo destes tempos. Põe mesmo em causa os tão sublinhados Direitos Humanos.


habitat


Os restos dos grandes sonhos, teias de belas tapeçarias ou caixotes de um marginal habitat tão longe quanto possível das fezes fluviais, fragmentam os últimos habitantes da última e mais extensa civilização. Os precisos dados estatísticos de Rudolf Strahm acabam por se ajustar aos factos de uma certa decadência, exílio, almas solitárias. Ainda sobram juros extorsivos, depois de muitos povos terem pago assim, por duas vezes, a sua sacrossanta Dívida, logo descobrindo que haviam tentado remediar a fome e o vazio com mais encomendas de produtos de emergência. Os bancos ainda activos cobram juros muito altos: a vida no Olimpo, dos deuses ricos, é um enlevo de credores que eternizam novas dívidas, criando assim estranhas genealogias de novos Sísifos, eternos escravos da pedra que rola a cada transporte vazio de sentido. O aumento das taxas decidido arbitrariamente pelos credores, deve-se, na prática, a uma "espada de Dâmocles" que pesa inexoravelmente sobre os devedores acorrentados. 

As pessoas que lêem este blog, do outro lado do mundo, sabem que não há aqui páginas adicionadas, apenas citações breves, a dor é maior do que isso. Os conteúdos não se arranjam no mercado nem eu quero falar sobre mim, muito menos anunciar o mais sumário dos objectos. Quero, num limite indeclinável da vida, à beira da morte eterna, denunciar que vivo um tempo novamente selvagem, helenístico, embriagado, amoral, acultural, cada vez mais submerso no bojo horrendo da Arca de Noé, bebendo leite azedo de cabras febris.



Este post foi redigido sem ter que falar sobre mim, nem anunciar actualizações ou páginas de manejo mais fácil; não se trata de tornar familiar o que é acutilante e complexo. O design é ainda o mesmo, não me obrigo a convencer os outros à mesma dívida de sangue que brota, lenta, dos meus pulsos. E por último: não sou funcionário do nosso amável Google.

sábado, novembro 08, 2014

QUANDO OS OLHOS NOS OLHAM ANTES DA MORTE




Não há maneira de olhar o mundo da Globalização sem pressentir a turbulência que tem envolvido o planeta e em que tudo o que tomamos por humanidade se dilacera entre o pavor da memória longínqua e a fragmentação financeira que milhões de corruptores, fugindo à morte em nome de uma vida «para sempre», levam aos túneis da impunidade. Há cerca de dez séculos, quando as nações ainda estavam por decidir pelo império da Igreja Católica, caravanas marítimas e exércitos em terra, varriam os crentes de outros livros sagrados, ou de outras religiões, para longe, em nome de Cristo, que se deixara morrer na cruz (a mitologia o diz) para salvar os homens da demência e da crueldade. Nada se salvou em qualquer lugar até aos dias que passam. E no século XX, em jeito de um ajuste de contas e vontades territoriais, as nações já formadas entregaram-se ás duas maiores pelejas que já se viu no mundo. Antes disso, a Inquisição da Igreja Católica Apostólica Romana fez por toda a Europa grandes limpezas dos seus contraditores, mas abusou passando por cima de milhões de inocentes. Como agora acontece, de outras bandas, rolando cabeças e extinguindo-se etnicamente gente por fim cega, sem boca nem destino. Parece que o ponto alto da civilização amada depois das grandes guerras, tecnicista e até virtual, começa a retroceder para o abismo das noites sem alma, em nome do novo deus Global e com a lâmina suja de sangue, ao mesmo tempo ímpio e inocente. Todo o planeta sucumbe sob os fumos do excesso de gastos de matérias-primas e toda a humanidade se mistura, não para fazer um novo homem, mas clonagens de seres agressivos, vindos da mais longínqua escala da Darwin. Vamos ver o que nos diz o filme Interstelar.

quarta-feira, outubro 22, 2014

MAR SALGADO DE MIL EMIGRAÇÕES DESALMADAS

Esta paisagem é uma gravura feita com paixão por D.Carlos, 
por fim vítima dum dramático regicídio, no limiar abrasador da implantação da República


Ora Portugal tinha sido conquistado por terra e por mar, ficando amarrado àquele grande oceano, o Atlântico, a carpinteirar embarcações e amanhando a terra, numa distância de séculos antes da batata, coisa estranha e que tinha a alcunha de "veneno do chão". O chão foi muitas vezes o nosso mal, porque o tempo matava as plantas de comer e as árvores eram muito ocasionais para se aproveitarem. Claro que D. Dinis tratou do Pinhal de Leiria e há quem diga que, já nessa altura, numa vida tão rudimentar, alguns homens eram grandes, visionários. Teria o rei plantado tantos pinheiros por capricho, ainda por cima sem nada de substantivo para se comer? Diziam os historiadores menos científicos,  aqueles que pressentem a razão de ser das loucuras colectivas ou o imaginário que nos consome metade do cérebro: havia ali coisa, obviamente. Tanto pinheiro para tão pouca gente parecia mais o advento de uma indústria para ajudar em vários campos a instalação da vida. Não eram rosas, senhor, nem pão: eram os rolos da arte náutica, os planos de alargar a terra para além do mar, na primeira e talvez única visão a longo prazo de um governante do país.
Já ouviram falar dos Descobrimentos? Caravelas, naus, galeões, especiarias, paz de espírito, acção indiana, Brasis, Áfricas -- e tudo devagar, tudo pensado, desde a logística à alimentação e à cartografia. Fomos longe, fomos a vanguarda da Europa, e depois acantonámos a fazer gravuras e  perfumar monarquias decadentes. Da República nem se fala, porque acabou por mudar de número e fechar bocas e embocaduras com o Professor de botas lustrosas e uma ditadura em volta, por quarenta e oito anos, incluindo parte das guerras coloniais, ir e vir, mar, pastorícia dos espíritos, Cerejeira ao lado, uma visita jornalística, Só, Christine Garnier em São Bento, as pernas juntas, olhando a brancura do homem e o seu falejar em jeito de língua franco-portuguesa. Despediu-se um dia da porta, a mão ao alto, e ela no automóvel a apontar. De pé. E Só.

Mas vamos lá, tempos depois, "o 25 de Abril", "os capitães", "o Copcom da revolução", "o abaixo os latifundiários", "o deixa lá que do patrão tratamos nós", "o povo é quem mais ordena", "a Europa sopra ordens" e "os governos" (o nosso também), foram nessa. Euros em vez de escudos, uma União depressa desunida. Roubaram-nos as terras, a cortiça, mandaram abater os barcos que cumpriam a pesca, pagos enviesadamente, gente do mar metida em casa, com os restos, enquanto aquela gente também nos roubava o mar, as vinhas, o calibre natural das laranjas e das maçãs. Que reforma era esta? Em menos de um fósforo desapareceram a marinha mercante e as frotas da pesca longínqua, as aldeias dos imigrantes, tudo votado ao cimento armado, às auto-estradas contra os portos e as plataformas marítimas e ferroviárias da nossa ainda viagem, após as desastradas descolonizações, atrasadas, sem estrutura comunitária de raças e culturas. Voltámos para esta velha jangada (de pedra, como disse o Saramago) e um mar cada vez maior em volta. Um mar que vemos do ar, em vez de o aprofundarmos no mesmo e melhor intuito das antigas navegações por cima dele.
Nas listas das comissões nomeadas pelos partidos que arrumaram o país, com alguns militares, depois do "25 de Novembro", constam listas estranhas de bens alienados como lixo e pagos prémios de consolação em euros. Por isso vem lá, por ordem alfabética, os milhões de perdas: abóboras, abacates, albornozes, árvores (trinta mil espécies a favor do eucalipto) automóveis, casas, cadeiras, calmeirões, camaleões, canteiros, canais, dormitórios, donzelas, dormideiras, danças, enchidos, empilhadoras, escritores, editores, empreendedores, emblemas, exuberâncias, êxitos, além do ferro e dos ferros ou ferrovias, frémitos, fundos financeiros, deixando os forretas com quem se abriam novos negócios. Globalização mal-entendida e mal praticada, gente por ela empobrecida e as novas modas do ruído, governos sem governo, a deriva da água que secará um dia e os céus indomáveis pelos fumos cujo limite se aproxima do fim dos tempos, embora os grandes senhores das moedas em circulação, emparedados no seu fanatismo, se recusem a ter causas inteligentes cuja energia não vem das forças renováveis mas dos fósseis claramente destinados a provocarem desequilíbrios civilizacionais, mais doenças, mais catástrofes, mais indeterminação perante a própria vida solar.



Embaladas, assim, as nossas vísceras, numa galáxia longe da nossa depois da morte solar e do fim deste planeta cheio de fezes concentradas ao longo de milhões de anos, coisas destas poderão sofrer trasladações hoje impensáveis. A vida transporta-se a anos-luz de distância, mas vida desencontrada da sua raiz, reduzida à sua essência polar. Isto quer dizer que os governozinhos que nos governam, lambendo notas e atravancando tudo, a própria vida sem nome de espécie, cospem em bocados de barcos que nos restam pelos oceanos todos, espaço do que foi potencialmente um novo mundo. Não haverá mais retratos de presidentes, só insectos capazes de viver entre ambientes de metano ou calcinações inamovíveis. Se nada sobrar de nós, assim, nada mesmo, nem a alma, nem um resto de saudade, que vísceras parecidas com as nossas poderão chegar a sítios ainda limpos, derivados da mesma lógica energética que nos tem rodeado? Mais acasos, vidas acidentais, depois dotadas de coisas como neurónios e de percepção e de uma qualquer consciência? 

Há cada vez menos respostas sob o peso colossal da tecnologia avançada e dentro da carne enervada (mortal) que entrou em desistência de valores supremos perante a utopia da conquista do tempo, aprendendo, enfim, o Universo. O conhecimento rudimentar e confuso que formámos da infinitude universal, entre milhões de galáxias, todas elas com mais de cem mil anos-luz de comprimento, levou-nos ao horror de desistir das culturas da invenção e das iluminações, como se, de facto, nos aproximássemos de um Apocalipse acima de tudo o que já foi convocado pelos profetas da morte dos astros.
Se a vida voltar a acontecer depois de nós, ou de outros, será de novo uma vida sem sentido e sem continuidade.



morte das máquinas ou vísceras



    
Enquanto a vida se desfaz entre molezas morfológicas, os sistemas sociais que as máquinas apoiaram, engrandecendo e deturpando, desagregam-se das partes cívicas, acaba a tabuada, 3 vezes 4 ou 34, sobrando as tintas pardas da indefinição que nos iludiu sempre e se multiplicou, pela luz solar, em milhares de reflexos coloridos. O mundo chegou a parecer aprazível, percorrendo contudo uma linha de perda civilizacional, entre excessos e perdas incontáveis.
As coisas foram perdendo as relações que as moviam, já quase ninguém sabe a ordem do que foi feito, calhando ainda marcas da carpintaria geométrica, habitação pós-rupestre ou do campo no século XX. 

                                                

Os restos, já sem europas, parlamentos, desigualdades, pobrezas, os  ódios dos últimos degoladores da beleza, em nome de Deus, desembarcados na terra áspera de um território sem árvores nem céu, são talvez as nossas memórias, longe do mar salgado, longe das díásporas hemorrágicas. Antes da Morte nos ligar definitivamente ao infinito, acabará o mar que não aproveitámos, a terra que despovoámos, as casas e o património todo que sepultámos, as crianças que não tivemos, os impérios que não partilhámos, a solidão e a solidariedade que não conjugámos; tudo isso fica aqui, desalinhado, nestes breves destroços que só a arte pressentiu.



                                            DULOS                                                                                                               SAPIENS