É preciso dizer desde já que, a partir dos primeiros sintomas, a mulher de um dos personagens (actriz Julianne Moore) conservou a visão, facto que o casal decide esconder em nome de sobrevivência. E ela conservou a visão sempre, apesar de teremer perdê-la de um momento para o outro. Mas isso permitiu-lhe, estoicamente, minimizar esforços, ordenar muitas coisas, dirimir conflitos. A história desta peste branca é contada com grande verosimilhança e detalhes surpreendentes, além de medonhos. Depressa se vai compreender que o eterior estará também vitimizado e que a assobrosa barbárie vivida na quarentena tem de ser interrompida em nome da dignidade possível, em busca da mínima aprendizagem dos actos comuns, em ordem à sobrevivência e aos agrupamentos solidários, capazes de partilharem lugares de vida, entendimentos, compreensão so estado do mundo.

O ensaio, no fundo, é mais sobre a natureza humana do que sobre aquela oclusão visual por uma espécie de cortina branca. A redenção é alcançável, pensam os mais atentos aos sintomas em redor, sobretudo quando, além da mulher não invisual, outro elemento do grupo organizado em torno dela recupera a visão. A estabilidade insular desse grupo, porventua como de outros que vemos no caos inóvel das grandes paisagens urbanas, aponta para novos objectivos e para a própria irradicação do fenómeno. É então muito plausível que nos lembremos de «A Peste», de Camus. A busca do homem, contra uma realidade absurda, assaz destruidora dos valores individuais.
A pastosidade da escrita de Saramago, a sua falta de sentido visualizador através da palavra, tornam ´«Ensaio sobre a Cegueira» algo obtuso e pouco empolgante. O filme de Meirelles descodifica sombras e ocultações, usa efeitos de fotografia, encenação e montagem, com forte qualidade expressiva e belíssimo recorte plástico. As diversas situações, crise após crise, tem um lado de blasfémia esclarecedora, faz-nos ver com a mulher que vê, sentir a grandeza da sua força, do se humanismo, da sua esperança. Há soluções cinematográficas, inclisive a passagem a uma certa unificação pelo branco e pelos valores cinza, que nos arrebatam e iluminam, desberta após descoberta. Saramgo é-nos dado a ver pela densidade funcional do filme de Meirelles. E quando a mulher, na varanda da sua casa transformada em albergue, na escolha solidária da paz, ergue os olhos ao céu, num espanto de atmosfera branca e pergunta quando será a sua vez, o realizador baixa a câmara, entrando em campo o esplendor semi-desfeito da cidade em todo o horizonte, a chave humana da salvação é desvendada à clara luz da manhã.
Vejo o livro como um hino à comunidade. É como se estivesse a dizer que é preciso tirar a visão às pessoas para que possamos, finalmente, criar um ambiente de solidariedade comunitária. Fernando Meirelles
2 comentários:
Eu prendi-me ao encadeamento do livro e apenas o li uma vez. Não tencionava ir ver o filme, porque receava o resultado da adaptação, embora Fernando Meireles me mereça a maior confiança.
Agora esta sua excelente explanação leva-me a reconsiderar.
Obrigada.
Foi um prazer receber-te lá na minha casa-sentimento. O jogo, entro nele há mais de 2 anos e tem sido uma bela companhia!
Bem sei que o tempo te escasseia, pela acuidade com que descreves/escreves/pintas/aglomeras os materiais humanos e espirituais. Comigo e por muito menos, acontece o mesmo.
Aqui deixo o meu obrigada. E uma breve referência aos meus comentários: normalmente escrevo com o coração. Por vezes acerto em outros (corações). Outras, perco-me da vida e os meus clarões nem por "visuais" são percebidos.
A crítica do filme (o livro, esse li-o logo) está sem rodriguinhos nem fantasmas inventados; e gostei imenso de te ler, transmitindo a ideia de Alegoria - claro em Saramago! - e de Salvação...que é o que todos teremos necessidade/dificuldade em acreditar.
Grata. Até sempre!
Um abraço
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