quinta-feira, julho 16, 2009

A PIANISTA REBELDE OU OS CANTOS DO EXÍLIO

Maria João Pires

Parece que algumas das mais importantes personalidades do nosso meio artístico e cultural, zangadas com a mediocridade do país, a tacanhez dos gostos e dos governos, a falta de zelo pelas actividades artísticas, começam a ponderar o abandono deste lugar de tantos ostracismos, procurando o Brasil como terra para novos enquadramentos. Sempre tivemos este tipo de de exílios, dantes sobretudo para França, onde ainda hoje, ligados às artes plásticas e ao cinema, são referência gente como Maria de Medeiros, Bértholo, Lourdes de Castro. Coisa semelhante acontece com londres, cidade onde Paula Rego tem um ponto de ancoragem, entre outros, ou mesmo a Holanda, país arduamente escolhido por Maria Beatris para fazer carreira. Na semana passada lemos as queixas de Sousa Tavares, agora mais público e publicado, em rota de aterragem no Brasil, onde o tratam bem e não o conhecem nas ruas. Conheço engenheiros, homens de letras ou artistas, que emigraram para o Brasil, sem protecção de rectaguarda, pessoas que acabaram por voltar, não muito tempo depois, em face de se se sentirem discriminadas e repelidas polidamente pelas classes privilegiadas das grandes cidades, apesar do convívio, como altos quadros, que mantinham nas empresas com os sues homónimos. Pode ser que isto tenda a mudar. Sabemos de casos, de gente mais comum, que tem baterias de rectaguarda e não alimenta tanto a vontade de ir viver e morrer no Brasil, em nome de uma solução que a pátria desolada não lhes assegura minimamente, mesmo em Lisboa ou Porto. Maria João Pires, pianista de excelência, portuguesa por inteiro mas dotada de capacidades invulgares, talvez perto de geniais, louvada e aplaudida em muitos pontos do mundo, entre prémios, homenagens e audições históricas, é agora (também) um dos últimos casos de exílio no Brasil, país ao qual parece ter dito que pediria a respectiva nacionalidade. Trata-se de um agravo conhecido, que tem implicações mais pesadas do que as telúricas vontades de Sousa Tavares, desconfortos perante os políticos, governos, instituições desse domínio, todas e todos em geral acusados pela pianista de desleixo, a par de indiferença ou recusas quanto ao projecto que ela tinha em andamento - o Centro de Belgais (Castelo Branco), iniciativa que envolvia muito empenho de artistas portugueses e estrangeiros. Continuo a pensar que as figuras de decisivo recorte público, de grande talento e por vezes muito mediáticas, não são as mais indicadas para contraírem síndromas de impertinência no seu país, pois constituem, de facto, uma frente que tem meios de luta e que pode, inclusive, arrastar consigo admiradores, forças aumentadas, coligadas, capazes de fazerem exigências perturbantes de direito à cultura. Os anónimos, os que vivem no fundo do poço, pessoas correntes e de vida por vezes penosa, esses têm por vezes resistido (apesar da diáspora que nos representa no mundo) com sentido de associação, protesto, edificação de espaços produtivos por muitas áreas. Os artistas deveriam ter igualmente esta força, estão mais apoiados e para a sua mediatização nem sequer precisam traficar muito, como nos casos extremos, em que avançar pelas televisões é penoso, humilhante, mas conduz alguns carentes a conseguir no dia seguinte milhares de dadores de coisas várias, na grandeza e no infortúnio. Com isto não quero nem julgar nem condenar as opções de ninguém. Não é disso que se trata. A própria Maria João Pires, cuja rebeldia é amavelmente citada, cujos actos têm revelado posturas de sustentação e dignidade, também não pediu direitos de autor quando, em muito nova, preferia brincar trepando pelos telhados ou fazendo «coisas malucas». A liberdade de transgredir faz parte de certos direitos tendencialmente reconhecidos aos criadores de nomeada e em várias disciplinas de índole artística. Num filme conhecido, A Bela Impertinente, de Jacques Rivette, a irrequietude de um modelo feminino leva o pintor, segundo razões pessoais, a combater perante o corpo que lhe escapa e a memória de amor distante que deseja recuperar. Eu acho que o artista sai vencido, mas também sei que os nossos caprichos de representação, em torno de um real ou de uma lembrança dele, nada reconquistam, pouco constróem. Compreendo que a pintura de Frenhofer o levasse a desejar maior superação do cerco, metáfora que tantos de nós subscreveriam, e acho louvável que, apesar de tudo, o pintor da história tenha permanecido ali, ainda que transitoriamente. Por vezes, os anjos procuram-nos na morada habitual e não num endereço apagado.


2 comentários:

papoila disse...

Está farta!
Compreendo. Mas , acho que estamos todos.

Espanta-me que o governo a deixe partir.

Somos todos bem estranhos...quando alguém brilha por esse Mundo ficamos eufóricos, histéricos, orgulhosos se descobrimos que esse ALGUÉM "tem uma tia que foi casada com um primo de um português"...
Por outro lado deixamos ir embora quem tem valor.
Vamos chorar quando ouvirmos dizer
Maria João Pires, pianista brasileira foi convidada pelo OBAMA!!!

Compreendo que ela parta. MAS...MUDAR DE NACINALIDADE????
Não será de mais????








Partir Sim, mas mudar de nacionalidade? Não será demais???

Miguel Baganha disse...

Há muitos redes no oceano e predadores também. O que é preciso é salvar as baleias dos vários perigos que as cercam.


Um abraço,
Miguel



P.S. Já ouviu os seus cânticos, João?... parecem lamentos.