sábado, novembro 17, 2012

NOVA IORQUE NÃO É SÓ MANHATTAN VISITÁVEL

Nova Iorque 
 
Nova Iorque ou a América e o seu lado invisível

Após a passagem sobre Nova Iorque do violento furacão "Sandy", muitos americanos terão perguntado se a América é de facto a grande fortaleza que pode desafiar o planeta e se as zonas atacadas por aquele fenómeno terão condições para se adaptarem a um clima mais bizarro e aterrador, fruto das leis cósmicas ou da poluente actividade humana. Clara Ferreira Alves escreveu no Expresso desta semana uma pungente e lúcida crónica sobre este acontecimento e acerca da América em geral, os seus recantos mais encobertos onde vivem populações mistas, relegadas para quotidianos absurdos, em graus de medianos e de pobreza incompatíveis com mais furacões.
Viajando numa boleia especial para aceder às Rockaways e à catástrofe no seu melhor perfil, Clara fala-nos de de túneis «fechados, inundados» e de escolas que tentam recomeçar a sua vida embora nem todos os transportes públicos estejam a funcionar. «O caos nas ruas é evidente e os táxis buzinam e quase atropelam as pessoas nas passadeiras. Uma medida de civilidade começa a escassear com a passagem do tempo. Bloomberg, o mayor de Nova Iorque, foi às Rockaways e foi insultado por meia dúzia de moradores desesperados.» A  América, em boa verdade e perante os aspectos obsoletos de muitos equipamentos, tem de repensar as suas infraestruturas e a sua dependência energética. Na recente situação, as centrais nucleares resistiram ao "Sandy," mas as redes de distribuição eléctrica e as vias logísticas capotaram. Os que não abandonaram as casas, por pensarem que acabariam roubados caso se afastassem delas, ficaram na mesma sem nada e agora também não podem  deixar o que lhes resta, porque os assaltantes andam por ali. Alguém contou à jornalista que, num escasso tempo de vinte minutos, ficara com água pela cintura. Usaram o sótão. E viam o mar pelas ruas, enquanto o vento era tal que não ouviam as vozes uns dos outros. «O trauma é imenso.» Uma lágrima desce pela cara de um cidadão, Gary: é uma lágrima silenciosa que ele enxuga com luvas sem dedos.

EM PORTUGAL, ONTEM, UM TORNADO
PROVOCOU DESASTRES DEVASTADORES
NO ALGARVE, EM LAGOA E SILVES

Tornado em aproximação da
costa Algarvia 

passagem por estradas

varrimento em Silves

dezenas de carros destruídos

centenas de árvores arrancadas dos
parques, avenidas e outros locais 

 talvez as alterações do clima e
respectivas catástrofes não sejam
nenhuma história boateira em Quioto
 

E assim decorreu um dia: a Câmara de Silves apelou aos cidadãos do Concelho para uma ajuda. Apareceram cerca de mil pessoas com camiões, carrinhas, serras mecânicas, todos os utensílios. Limparam numa manhã todos os destroços da baixa e ainda colocaram as telhas no edifício da Câmara Municipal, entre outras ajudas assim. O que digo aqui sobre Quioto é que, no dia da sua assinatura, países como os EUA não assinaram, desdenhando dos «boatos» sobre as transformações naturais e produzidas pelo Homem no clima do planeta. Não alinhei nesse boato. Há muito que sei o que esta civilização pode  provocar, refém de certas tecnologias e do petróleo, além de teimar nas apocalípticas concentrações urbanas.
RS

sábado, novembro 10, 2012

BARACK OBAMA VENCEU A AMÉRICA CONGELADA

BARACK OBAMA

Com as crises que assolam o mundo, e apesar de um eleitorado que se deixou congelar com a perda das expectativas criadas há quatro anos por Obama, a América viveu um tempo eleitoral dramático, com os candidatos  praticamente empatados. Dos três debates, Obama saiu por cima nos dois últimos. E o seu mandato foi sacudido por graves problemas, sobretudo com o crash de Wall Street e muitos dos seus efeitos em cadeia, as oposições ao serviço de saúde, a emergência dos sectores multimilionários (como o seu rival  Mitt Romney) numa colagem às forças mais conservadoras. Nos Estados mais propícios a um discurso menos acossado pelos adversários, definindo-se na sua lógica e na sua perspectiva humanitária, Obama arrancou de facto a vitória, logrando um número muito mais expressivo de representantes para o Colégio Eleitoral (303). O futuro que o espera, apesar do seu talento e uma perspectiva mais moderna e aberta para os EUA, não é fácil de enfrentar, mas as suas palavras reeditam bem, de novo, a esperança e a vontade.

ÂNGELA MERKEL, SEGUNDA - FEIRA, 12, EM LISBOA

CHANCELER ÂNGELA MERKEL

Clara Ferreira Alves, na sua crónica da revista do Expresso, escreveu hoje, sábado, a dois dias da chegada a Lisboa da poderosa Ângela Merkel: «o que quer que se tenha desatado na solidariedade da zona euro, está desatado para sempre.»
É inquietante, talvez releve da globalização e de certas heranças alucinantes para mil anos, mas, seja como for, trata-se de um fenómeno cada vez mais impiedoso. A Europa, a que já chamámos verdadeira e polo avançado da civilização Ocidental, já não existe, soçobra na conspiração universal de um capitalismo inominável, com mecanismos odiosos e criações ilusórias, selvagens, sob domínios que se acentuaram com a pulverização  do comunismo e a enxurrada que atravessou (de várias maneiras) o destruído "muro" de Berlim, além do equívoco "jardim" das chamadas grandes potências emergentes. A Alemanha zela por si, mesmo que venha a ser submersa num oceano de milhões de chineses, trazendo de volta as fabriquetas que para lá exportaram. A Alemanha trata dos seus traumas de guerra, reconquistando o velho jeito de mandar, de cobrar a regra, cabelos louros, raça única, amiga dos antigos países ocupados pela União Soviética (onde ganha fortunas) e dos enregelados mas superiores países do Norte, e hoje, com Merkel, é o símbolo avassalador de panos económicos (austeridade e pobreza em vez de destruição de fábricas e bens fúteis) que relevam de previstas destruições do equilíbrio federativo e solidário, estados cada vez mais equívocos neste mundo que nem respeitam uma das mais raras criações do Universo — o Homem.
Cercada pelos agiotas da conspiração do dinheiro, da guerra financeira que vai esmagando toda a civilização contemporânea, a Europa, com países afundados ou quase, a caminho de uma pobreza generalizada, é hoje um «lugar de catástrofe». Em redor dos areópagos de cínicas escolas de economia, soprados pelo crash de Wall Street, propagam-se guerras completamente irracionais, na Síria, na Ásia, no Médio Oriente, assaltos militares, golpes de Estado, terrorismo, um clima ao qual a Natureza responde com outras agressões, apesar das populações vitimadas continuarem a voltar ao fanatismo do crescimento, multiplicando o nomadismo das unidades industriais em nome do progresso (apenas dinheiro assimétrico), tudo numa desagregação imparável, milhões de mortes encobertas e de riquezas expurgadas a povos ainda primitivos, «libertados» euforicamente pelas elites da descolonização, continentes abandonados, territórios vazios e cidades explodindo de ensandecidos rios de gente.
Fazemos votos pelo bem estar da senhora Merkel e desejamos que, ao chegar à Alemanha, não a encontre submersa por 500 milhões de chineses, todos finalmente bem pagos.

quinta-feira, novembro 01, 2012

O HOLOCAUSTO NÃO SE ENSINA POR CONTRATO

Numa sessão dedicada à relação Portugal/Israel, o embaixador israelita Ehud Gol no nosso país teceu críticas ao papel das autoridades portuguesas na escassa abordagem do Holocausto e outras tragédias judaicas. Foram muitas as pessoas que se espantaram. Sobretudo os que conhecem muitos casos de apoio aos judeus através de Lisboa e o extraordinário trabalho de Aristides de Sousa Mendes, entre outros. Ehud Gol, com muito zelo e pouco respeito pela história alheia, lamentou que Portugal tenha sido o único país que colocou a sua bandeira a meia haste durante três dias quando soube da morte de Hitler. Entre várias considerações desrelativizadas, o embaixador considerou, em «Portugal e o Holocausto», que, por concordância entre os dois países, o Holocausto deveria passar a ser ensinado no nosso plano escolar, agora e de futuro.
Tudo isto é um pouco estranho: primeiro, porque em Portugal, sem contratos, sempre ouvi referências, filmes, peças de teatro, tendo, a par, lido livros em português sobre aquele assunto, tema, aliás, que toca de perto a minha própria obra artística. A bandeira a meia haste mostra bem como certas entidades estiveram de costas voltadas para os efeitos e mordaças do regime de Salazar. Ele foi responsável por essa bandeira chorando o mito e uma derrota justa. Esta espécie de marketing desenvolvido em torno do Holocausto, quase proferindo a conveniência do seu ensino por contrato, é hoje um mau culto da memória desse infausto acontecimento, sobretudo quando Israel não prima pelo respeito dos vizinhos que conquistou e pelo precário ensino que desdobra sobre o mundo contemporâneo, reclamando para si direitos muitas vezes desfocados ou inexistentes. A evocação, no século XXI, do Holocausto deveria preocupar o senhor embaixador a par de outras realidades em que houve participação internacional e portuguesa, incluindo a morte, em dois meses, de 800.000 cidadãos  entre o Uganda a o Ruanda, bem como a tragédia da Somália, o avanço soviético pelo Afeganistão, a caducada intervenção nesse país dos EUA, as manchas de obscurantismo e grande número de assassinatos de marca talibã, um movimento de medonhos contornos como ameaça à parte mais avançada e lúcida da civilização contemporânea. Enquanto os nazis procuravam exterminar judeus de forma pragmática e absurda, os Aliados cediam à História quarenta milhões de mortos e ainda contribuiram, sem verdadeira legitimidade geográfica, demográfica e histórica, para instaurar na área palestiniana o Estado de Israel.
O reitor da Universidade de Coimbra, perante a referência da «nódoa» da bandeira a meia haste, disse: «Recuso-me a suportar o peso dessa nódoa. O passado é doloroso. O Portugal de hoje não é o mesmo do passado, como a Alemanha de hoje também não é a mesma do passado.» Gol ainda insistiu que os países têm de assumir as responsabilidades pelo passado, depois de ter exclamado que o facto citado «é uma nódoa para nós, judeus, vai aparecer sempre associada a Portugal». Era preciso chamar a atenção ao senhor embaixador para o contexto dos factos e sobretudo para as próprias responsabilidades de Israel, que os países europeus têm reconhecido e ajudado, incluindo Portugal em diversos campos, naturalmente sem o poder e os interesses americanos.

sexta-feira, outubro 19, 2012

ENFERMEIROS PORTUGUESES DEIXAM O PAÍS

«Diário de Notícias» (19-10-2012):  Há dez anos era uma das profissões que tinha emprego garantido, hoje os licenciados em enfermagem são obrigados a sair do País para trabalhar fora. Só em Inglaterra, há já 1778 enfermeiros portugueses, segundo dados oficiais do Nursing & amp; Midwifery Council, organização junto da qual têm de se registar para exercer no país. O Reino Unido é um dos principais destinos desta vaga de emigração nos profissionais de saúde, mas não é o único.» Portugal, infelizmente, parece votado a exportar milhares de cidadãos formados em diversas especialidades que já poderiam estar a enriquecer a nossa História e o nosso Futuro. 
Ontem partiram mais de uma centena de profissionais desta especialidade e foi, na televisão, uma terrível cena de coragem e amargura. «Queria trabalhar no meu país, foi para isso que trabalhei, mas o meu país abandona-me. Não sei se algum dia voltarei». Se a tempestade tropical, aliada à incompetência política, atirou para o lixo contingentes inteiros de famílias e pessoas que viviam nas colónias por vezes com raizes seculares, o que aconselhava outras decisões e a devida preparação, hoje, por erros igualmente estúpidos, muitos dos nossos cidadãos não ficam apenas sem casa, amigos, família: ficam sem a própria Pátria. Muitas pessoas que vieram na expulsão rápida e em força, de Angola ou Moçambique, perderam tudo, bens e familiares, a sua segunda Pátria. Se há crimes que se julgam no Tribunal de Haia, a forma como os governos provisórios portugueses desprotegeram milhares de concidadãos, deixando que o Exército não enquadrasse a transferência de pessoas e valores, sobretudo depois de uma teimosia de catorze anos, é matéria que deveria ter sido encarada de outra forma e punida constitucionalmente.
De uma carta de ontem:
Parto do meu país, com uma licenciatura em enfermagem, porque, apesar do dinheiro gasto pelo Estado com a minha formação, tal esforço e o meu próprio empenho carecem por completo de resposta em Portugal. Não há literalmente postos de trabalho para mim e para os meus colegas. Os gastos foram, de todo, desaproveitados. Parto do meu país onde porventura nunca mais voltarei. Fomos aceites em Inglaterra sem crises burocráticas nem precariedades financeiras, técnicas e de habitação. É com mágoa que o faço, mas, para além da carta dirigida ao senhor Presidente da República, nada mais posso fazer pelos futuros colegas que estão a formar-se e que, dentro em breve, talvez já nem possam usufruir dos poucos contratos de curto prazo, entre exílios e nomadismos na terra onde nascemos.
Nome ilegível

terça-feira, outubro 16, 2012

TALIBÃS MATAM DIREITOS, COMO O DA EDUCAÇÃO

Malala, de 14 anos, atacada pelos talibãs por querer o direito à leitura
e à aprendizagem em geral

É inacreditável que o mundo (além das decomposições materialistas que sofre cada vez mais, globalmente, a caminho de uma implosão trágica) tenha ainda de aceitar sem fúria devastadora os senhores talibãs, uma gente que não se escusa de comer e de desejar o mando absoluto, mas que repele até à morte e à tortura os que procuram aprender o espaço da sua identidade, dignidade, sabendo ler e escrever, ouvindo música e vendo cinema, ganhando consciência dos seus direitos fundamentais e cívicos. Os talibãs renegam e proíbem a música, as imagens da arte, na pintura ou no cinema e teatro, entre coisas tão absurdas e radicais como essas, pelo que muita gente os julga dementes e próprios campos clínicos do outro mundo.
Atravessa o planeta uma grande indignação (embrulhada noutros lixos) relativamente ao ataque à bala contra a paquistanesa Malada, de 14 anos, dotada de uma forte consciência das "coisas do tempo" e do que prepara o futuro, através de um aprofundamento das artes, das letras e das ciências, incluindo o papel das pessoas no esforço entrosado que dá vida às comunidades. A rapariga foi atingida na cabeça e num ombro, tendo sido difícil a sua sobrevivência.
No jornal Público, de hoje, Maria João Guimarães escreve que o último crime dos talibãs paquistaneses foi «demasiado chocante (...)». Mas terá sido suficiente para uma acção militar contra os extremistas que estão a expandir a sua influência na região tribal que faz a fronteira com o Afeganistão? Uma menina de 14 anos atingida a tiro na cabeça por defender o direito à educação é impressionante. É mais chocante ainda, porque sabendo que ela não morreu os talibãs prometem voltar a atacá-la, e um dos suspeitos detidos entretanto tentou fazer-se passar pelo pai da adolescente no hospital onde ela estava a ser tratada (Malala Yousafzai chegou ontem a um centro especial em trauma em Birmingham, Inglaterra).

sábado, outubro 06, 2012

MARGARIDA MARANTE: JORNALISTA ACUTILANTE

MORREU MARGARIDA MARANTE
UM CASO DE SUCESSO NA TELEVISÃO
COMO ENTREVISTADORA INCISIVA E CORDIAL
*
Margarida faleceu aos 53 anos, vítima de um ataque cardíaco. Nos tempos iniciais da SIC, Margarida Marante notabilizou-se em estúdio, com grande acutilância nas entrevistas que fazia a personalidades de importante  recorte cultural, social ou político. O Diário de Notícias de hoje fala mesmo numa entrevistadora incisiva e também generosa. A jornalista, nascida em 1959, começou a prática na área da sua escolha aos 17 anos: conduziu, então, na SIC, programas como Sete à Sexta, Crossfire (ao lado de Miguel de Sousa Tavares) ou Esta Semana. Passou pela revista Opção, Expresso, Tempo. Em 1978 ingressou na RTP, de onde saiu em 1990. Trabalhou na revista Elle e na rádio, TSF. Em 1992 fez parte da equipa fundadora da SIC. Foi pela sua prestação nos dois canais de televisão aqui referidos que Margarida Marante alcançou o estatuto de «melhor entrevistadora do país.» Esta é uma justa e atenta opinião de Luis Andrade, antigo director de programas da RTP. Os espectadores haviam ganho grande expectativa pelo seu trabalho, acorrendo às grandes entrevistas que realizou, a personalidades de relevo, e em diversas áreas, tudo numa linha de rigor e profundidade, belíssima condução das perguntas, questionando temas e assuntos de decisivo relevo. A sua fotogenia televisiva, a par da sua natural beleza, enquadravam uma voz bem timbrada, bem colocada, entre a precisão e o sorriso.

Os seus problemas de saúde e de luta psicológica contra adversidades do seu foro íntimo afastaram-na durante algum tempo e fragilizaram-na muito. Mas enquanto exercia funções era justamente conhecida por ser incansável. O coração, esse, cansou-se ontem: teria as suas razões, Deus teria outras. Mas para nós não havia nenhuma razão justa.

domingo, setembro 30, 2012

DÍVIDA, FINANÇAS, EUROPA PENHORADA NAS RUAS

 REGRESSÃO GLOBAL DA CIVILIZAÇÃO
ONDE RENASCEM A VIOLÊNCIA E OS NEONAZIS
A utopia de uma Europa forte e unida sob a protecção decisiva de uma "moeda única", o euro, teve  os  seus criadores e os seus respeitáveis teóricos e entrou em "roda livre" com tratados blindados, acenando ao  mundo, na pompa de todas as grandes vitórias, juntando todos os países já associados na grande festa de cada vitória, de cada milhar de páginas em regulamentos e normas para tudo, aspirando a uma solidária disciplina de reordenamento da produção e dos territórios, contra a memória histórica, técnica e cultural, como aconteceu com o nosso país, compelido a afundar frotas pesqueiras e vastas plantações vinículas, entre outras rasteiras que nem a França nem a Alemanha cuidaram de aceitar para si. Daí em diante, as diferenças seculares e o assalto concertado dos credores de países com dívidas (cuja norma de pagamento vinha de longe e se fazia sem usura transcendente) resultou numa súbita crise aberta nos EUA e que impediu os "Senhores do euro" de continuar a linha bem desenrolada desde o pós-guerra, forçados a morrer de fome ou a pagar tudo em poucos anos, reduzindo por magia os déficits e sofrendo o emergir do assombro que antecedeu tanto horror e tantos conflitos. Contornando, sem olhar à regra, o seu déficit, a Alemanha e a  França fizeram as malas para um directório que abriu fendas por todo o lado, afundou a Grécia, Portugal, Irlanda, agora a Espanha e a Itália, sem norma federativa à vista e respeito mútuo consolidado. A senhora Merkel e Sarkozy, sem respeito pelo Parlamento Europeu e pela Comissão, passaram a dar ordens e a impor austeridade económica, uma vertigem para a pobreza e sem esboços paralelos dedicados a uma futura consolidação económica. E entretanto os "resgates" rasgaram países, atingiram o limite do tolerável, infectaram a paciência dos povos: Madrid veio para a rua, a Grécia já luta há tempos, Portugal suportou até ontem, a Espanha resiste por si mas enfrenta desejos de independência da Catalunha, a Itália segue as mesmas medidas sagradas do FMI e na forte e intransigente Alemanha, estranhos fenómenos sócio-culturais tomaram aldeias, donde a população foi soprada de formas obscuras, e por lá se instalam grupos radicais, hostis aos muçulmanos, cortantes e sinalizados por chefes nacionais que disfarçam a confusão ética e política. Assim parecem começar os novos tempos e assim começaram os antigos desastres.




O mundo parece soçobrar a um falso desenvolvimento que mistura raças e procedimentos, tudo relacionado com estranhas simbioses e uma espécie de Natureza em revolta, o ar sujo, o lixo na estratosfera, os oceanos, rios e terras sob o efeito de milenares poluições -- e tudo se confunde no apagamento das Estações do ano, na crise do próprio planeta, aliás cada vez mais sob o efeito de produtos e cientificidades que desagregam os ecossistemas, os paraísos sonhados, excessos sem nome, cidades insustentáveis, o embuste gigantesco do dinheiro manejado na desmedida calibração de muito e nada, de grandezas e misérias. A China emerge, a Índia também, o Ocidente assusta-se e torna-se mais cativo dos seus luxos, das suas assimetrias. Mas nada disso é bem assim. O "efeito dominó" corre em espiral e os "donos do dinheiro" acabarão por perdê-lo nos próximos dilúvios, Dubai batido por estranhas areias, o Islão procurando implementar as suas próprias Cruzadas, em vez de das duas torres gémeas virá ainda um raio de estrela, os arranha-céus terão também o seu tempo de apodrecimento e as cidades em altura cairão por terra, restando, em vez do dólar e do euro, ilhas longínquas, no mar e na terra, onde os sobreviventes terão de inventar novos processos de manter a espécie e de moderar os hábitos, os desejos, os sonhos. Talvez até acabem as moedas. E um dia terá acontecido o envelhecimento da Europa, povoada da agricultores, sem banqueiros, tratando da alimentação regular e parca, das comunicações menos repentinas e menos globalizantes, trotando em carros de ligação, sem usura, sem Papas nem Cardeais, nem Ayatolas, nem Cristo, nem Deus. A ciência recomeçará sem ostentação. Porque, já no século XX havia muito mais coisas para descobrir e ordenar moderadamente do que encher uma ilha de centenas de prédios com mais de cem metros de altura. As escalas definem tamanhos determinados, mas não é isso que determina o valor nem das coisas nem da arte.
Portugal tem de voltar a navegar. E a China, derrubando as cidades vazias que edificou para os seus escravos, voltará a cultivar o arroz. Buda será enviado para o Nirvana e, no seu lugar, matadouros floridos servirão para matar e tratar a grande cultura de todas as vacas da Ásia. Lenine ressuscitará para criar uma estrutura pronta a exterminar todas as máfias que acederam à Rússia, ajudando a acabar com as outras, nos outros lugares do mundo onde existe esse flagelo. Os velhos poderão descansar nas igrejas. E os conventos, com as suas ordens religiosas, acolherão população envelhecida e dedicar-se-ão à produção de géneros básicos, para a alimentação e o vestuário.

terça-feira, setembro 25, 2012

CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE ALBERT CAMUS


ALBERT CAMUS  
prémio Nobel da Literatura 1957

Vivemos uma época de grandes conflitos, global mas fracturante, refém do dinheiro e de várias submissões, em guerras depois da última Grande Guerra, e são cada vez menos os que festejam os grandes artistas que marcaram a história e a cultura de forma indelével. Está a ser gerida uma mostra dedicada a Albert Camus, ancorada na data do seu nascimento. E parece que este grande escritor, prémio Nobel de forma cristalina, é outra vez Estrangeiro numa França que, segundo se lê nos jornais, se encrespou em torno desta exposição, vivendo uma «guerra civil da cultura». A PESTE voltou e não foram os ratos que a trouxeram. Ao abrirmos esse livro podemos ler uma citação da Daniel DeFoe: «É tão razoável representar uma espécie de encarceramento por uma outra como representar qualquer coisa que realmente existe por qualquer coisa que não existe». 
Mas, atendendo à morte aparente do bacilo da peste, Camus avisa-nos que ele de facto não morre, persiste nos mais recônditos lugares, anos a fio, «nos lenços e na papelada — e que virá, «talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordará os seus ratos e os mandará morrer numa cidade feliz».
Algo de semelhante está a acontecer e confundimos tudo com crise e progresso.

terça-feira, setembro 18, 2012

SÍSIFO CAÍU DA MONTANHA ENROLADO NA PEDRA



Passos Coelho, primeiro ministro de Portugal, e Paulo Portas, ministro nos Negócios Estrangeiros, envelheceram nestes últimos dias amareladamente: um deles queria representar o papel olímpico de Sísifo, há um ano que transporta a pedra do castigo para o alto da montanha. Mas, à quinta vez, escorregou numa casca de banana e enrolou-se no bloco que o arrastou  para o fundo da Segurança Social. Portas ficou com o papel ímpio na mão e falou no belo estilo dos "homens de Estado": não concordava com a ideia da TSU —
os trabalhadores aumentados na taxa social, que ofertavam aos patrões a fim de que esses obtivessem melhores condições para aumentar os postos de trabalho. Do fundo do buraco negro da «Segurança Social,» Coelho geme e grita que nada o fará recuar, nem mesmo o poço cósmico em que se encontra. Paulo repete que não pensa desfazer a coligação, pois sabe que vai logo parar ao inferno, pede apenas algum «manejo», uns retoques — mas, seja como for, está tudo bem. Há um ano sonâmbulo, o povo veio todo para a rua, mais comportado do que os seus políticos.
Realmente, que raio, agora que já se esbulhou (excepto os ricos) quase toda a gente e que a Troika até nos acompanhará até 2014, que raio de birra é esta: há pelo menos vinte maneiras de arranjar uns trocos, tanto mais que os patrões até vão oferecer aos trabalhadores a cobrança para eles projectada, equilibrando os dinheiros de todos e inventando maneiras menos pobres de tratar do aumento dos postos de trabalho, pois aquela solução era pior que um eufemismo e nem sequer engordava os nobres empreendedores. Lá porque mora onde mora e faz dieta, o primeiro ministro Coelho (Passos) não deve disfarçar teimosia e arrogância em jeito de menino bem comportado e nada arrogante. Dobre lá o papel. Divida isso em partes iguais. E mande flores à Merkel, um galo para o Elyseu, dois biliões de tostões aos amigos gregos. Para Espanha basta uma caçadeira e para o CDS a medalha de bom comportamento. Daqui a oito dias faça uma festa, visite o BCE com um pacote de dívida portuguesa (da melhor casta) e diga ao maior banco alemão que até os grandes se esvaziam e que até em Portugal há bancos chiquérrimos.
É que os senhores não têm nenhum problema entre mãos. têm a pedra. Façam dela um monumento à Troika e mandem outro "cão-de-água" ao Obama.
Não se esqueçam de começar a prender os corruptos, os que já mandam em vocês, incluindo o catedrático a quatro bancos. Barrela, limpeza, avante pelas autoestradas acima.