terça-feira, janeiro 08, 2008

NÉVOAS NA RELAÇÃO ENTRE PALAVRAS E SEXO


Por iniciativa do «Diário de Notícias», alguns escritores portugueses contemporâneos que publicam prosa aceitaram explicar as más relações entre a escrita e o erotismo, a literatura e o sexo. Foi dito pela redacção, ao que parece em síntese dos depoimentos, que faltam palavras, falta audácia, e também parece ausente no país o gosto por uma tradição ligada a esse tema, algo que de facto se julga inexistir no português escrito em Portugal. Antes de tratar do espanto que esta erudição pode causar, oiçamos as vozes que conseguimos recolher, publicadas naquele matutino.


Argumentos sobre a relação entre as
PALAVRAS E O SEXO

Miguel Sousa Tavares: A dificuldade é não cair no mau gosto e aí a língua portuguesa não facilita. Como se descreve, por exemplo, o peito de uma mulher?
José Rodrigues dos Santos: Em arte não há regras. O que uns acham horrível, outros acham belo. A arte é inerentemente subjectiva.
Margarida Rebelo Pinto:Mesmo quando sou crua, nunca tenho medo de cair em coisas vulgares porque acho que não vou lá parar.
Francisco José Viegas: Se me perguntassem directamente, sim, eu diria que se fode mal na literatura portuguesa.
Frederico Lourenço: É difícil encontrar vocabulário sem cair na obscenidade, na pornografia. Se escrevo sobre sexo, refugio-me na conceptualização.


comentário

Quem diria que estes depoimentos foram produzidos por escritores, independentemente do seu êxito mediático ou editorial? Tudo isto é vago, é névoa, é escapatória. Ou talvez apenas falta de criatividade e de ideias. Sousa Tavares, pessoa que admiro enquanto jornalista, comentador e escritor, derrapa onde não poderia derrapar: que «a língua portuguesa não facilita». Com efeito, é tudo menos o que se esperava da imensa riqueza da língua portuguesa, das alternativas que fornece para o tratamento narrativo ou especulativo de uma sequência implicando, mais ou menos directamente, o sexo. Para descrever o peito de uma mulher, o que faltará a Sousa Tavares? E quem se sujeita, enquanto artista da palavra, a descrever apenas seja o que for?

José Rodrigues diz que em arte não há regras, que ela é inerentemente subjectiva. Podemos inferir que ele deixa a questão ao arbítreo do leitor, o que não é de todo desinteressante, defendendo-se com a chamada subjectividade da arte. Um quadro ou um livro são objectos de civilização, denotam caminhos mais ou menos abertos. A relação da palavra com o sexo é para ser assumida sem escapatórias, nem por inexistência de regras, nem por muralhas de subjectividade. Henry Miller dizia o que dizia e há dias morreu um escritor português a quem a realidade sexual da sua própia condição abria fendas nas defesas cravadas a fogo, pela Inquisição, no inconsciente clectivo. Para além disso, as alternativas não faltam, sobretudo em português.

Margarida Rebelo Pinto diz que pode ser crua mas que nunca tem medo das palavras. Aceita cair em coisas vulgares porque acho que não vou lá parar. Aqui está um caso, assaz conhecido, e onde os lugares comuns abundam, segundo certos leitores. Ter medo das palavras não é defeito, usá-las mal, sim. Esta escritora tem compromissos legíveis com o seu público, mas quanto mais complexa é a relação da palavra com o real, mais liberdade, criatividade e rigor tem o artista de usar. Em geral, a aproximação literária da realidade sexual, da sua expressão, da sua visibilidade, é feita com as regras do autor, com a violência ou a brandura do seu discurso, mas não em termos que empurrem para debaixo do tapete o lixo das suas dificuldades, das suas vulgaridades.

Francisco José Viegas, na sua frontalidade, mostrando-se desinibido, acaba por fornecer uma opinião legível e não esquiva. Por mim, não diria que «se fode mal na literatura portuguesa». E o medo nada teria a ver com a palavra. É que, numa língua onde o brejeiro e o trágico tiveram intérpretes superiores, a afirmação de Viegas é falaciosa. Pode falar-se em pudor e escassez de situações como as indicadas, mas a escassez não é fraqueza, é medida, é ritmo, sobretudo quando associada a um pudor criativo na dádiva e na entrega, nunca o que as forças religiosas inculcaram nos adolescentes, ainda há pouco tempo no tempo e apesar da pedofilia tratada eufemisticamente como abuso, em vez e sim como revelação da condição humana.

Frederico Lourenco não quer cair na obscenidade, na pornografia. «Se escrevo sobre sexo, diz ele, refugio-me na conceptualização». Ora aqui temos um comportamento bem da inteligência portuguesa: refugiar-se, conceptualizar. Se não há tradição na literatura lusitana a propósito da temática do sexo, é porque vivemos todos, durante muito tempo, castrados pela censura a todos os níveis e por obediências académicas afinal obscenas.

Talvez seja oportuno citar, para nós, o afrontamento de Christopher Hitchens a propósito das razões a montante daquelas indecisões de expressão: «Sabe-se agora com segurança que a ligação entre a saúde física e a saúde mental está fortemente ligada à função, ou disfunção, sexual. Será, então, coincidência que todas as religiões reivindiquem o direito a legislar em questões de sexo? Os crentes sempre reivindicaram o monopólio neste âmbito para imporem restrições a si mesmos, uns aos outros e aos não crentes. (...) Violenta, irracional, intolerante, aliada ao racismo e ao fanatismo, investida de ignorância hostil ao livre exame, desdenhosa das mulheres e coerciva com as crianças: a religião organizada devia ter muito a pesar-lhe na consciência.» É boa altura para perguntar como se descreve a hipocrisia das velaturas castrantes e obscuras lançadas pelos vários poderes sobre tantos escritores portugueses contemporâneos.

3 comentários:

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Pelos vistos a letra de Miguel Sousa Tavares não diz com a careta.
Quando tenta escrever situações referentes a esta matéria cai num mau gosto despudorado e não se quiexe da lingua, queixa-se da sua incapacidade para retratar por palavras essas cenas

jawaa disse...

Sousa Tavares escreve bem mas derrapa mtas vezes, Rodrigues dos Santos defende-se e MRP não é para ouvir.Perguntem a Inês Pedrosa. Francisco J Viegas às voltas com os policiais deve ter falhado Bocage e as 3 Marias...
A Ditadura e a Igreja serão certamente as grandes responsáveis por alguma inibição.