segunda-feira, novembro 27, 2006

MORREU MÁRO CESARINY DE VASCONCELOS



Filho
de ourives
joalheiro,
o poeta da
«Pena Capital» e
«Nobilíssima Visão»,
além de tod o espólio
que aí fica a
enriquecer-nos,
passou do literal
ao simbólico: da
ouriveria à alquimia
das teclas à que na
poesia incorporou

dos jornais

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Sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo
uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-me nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra.

domingo, novembro 26, 2006

SAUDANDO ÁLVARO LAPA E A SUA OBRA


Campéstico (com muro vermelho), 2005

A vida noutros tempos, 1974


Um orgão, a consciência.
Conforme o seu objecto a consciência vive.
Toda a vantagem em escolher os objectos, mas se não puder ser, qualquer um serve.
Nas obras de arte encontramos: o fausto, a ruptura, a amizade, as emoções pela Natureza,
o inominável e a mão que dispõe.
A minha preferência pela pintura chinesa e japonesa corresponde a uma antropologia e não a uma a uma metafísica.
Nos festins da consciência encontramos uma compensação.

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Este pequeno texto foi extraído de uma introdução de Álvaro Lapa à sua rópria exposição realizada em 1985, na galeria Emi, Valentim de Carvalho. Na sua globalidade, este artista mal conhecido no país, disponde de uma obra invulgar, enigmática, que aborda a consciência do ser, obteve o prémio edp de 2004 e só agora é exposto, antologicamente, no Palácio da Cidade de Lisboa, nos dois pavilhões existentes. Exposição digna, bem contextualizada, e publicação de três volumes, dois sobre as fases da obra plástica e um em torno de muitos dos textos do artista. A sua obra escrita, de grande qualidade, deveria ser reordenada e publicada.
Significativamente, Álavro Lapa faleceu quando ainda decorriam os preparativos para esta exposição e respectivos catálogos.

sábado, novembro 25, 2006

HOMENAGEM A ÁLVARO LAPA

O que smboliza a arte senão a alegria e a tragédia?
Quem não considera o não-ser compreende a arte sem distância,
O não-ser corresponde à imaginação que trabalha e ao animal.
Emociona-me a palavra «lenda» como sentido do que faço.
Naecicismo do indivíduo ou da Natureza tanto faz.
Entre a elite e a claque a escolha impõe-se.
Trabalhanos em ultrapassar os nossos limites ou trabalhamos em amar.

Este extracto foi obtido de um texto de Álvaro Lapa para uma exposição sua, em 1985, na galeria Emi, ajusta-se bem à lembrança dele e da sua obra, agora presente no Palácio da Cidade de Lisboa, e na qual emerge bem uma escrita assim, na «pintura com escrita» e o modo raro como utiliza as palavras propriamente ditas, num discurso ao mesmo tempo hermético, angular e deslumbrante. Mas é preciso apontar o dedo ao país para anunciar os desacertos de alguns actos, posto que Álvaro Lapa faleceu este ano, 2006, quando ainda decorriam os trabalhos de preparação desta exposição e catálogo.

sábado, novembro 18, 2006

MEMÓRIA RURAL NA LINHA FÉRREA



A nossa viagem pelos testemunhos do passado, entre utensílios comuns e patrimónios quase lendários, implica um projecto cultural sem preconceitos, alinhado pela longa parábola que o tempo parece descrever. Num velho estaleiro de ferramentas agrícolas, este velho carro de tracção animal oferece-nos a beleza da idade, dos materiais, do design que os formava e funcionalizava. Penso que estas imagens não são para esquecer

Com este intencional enquadramento do rodado de um suporte de contentores, desenhado para combóios de mercadorias, estabelecemos uma medida de tempo que não chega a um século e contudo já nos parece que o ferro envelheceu, que foi abandonado aqui. O envelhecimento das coisas parece acontecer um pouco a par do nosso próprio envelhecimento.
Prefiro sentar-me no carro de madeira, meio desmanchado. Foi feito para pessoas como eu e não para contentores das ferrovias.


fotos de Rocha de Sousa




A MADRASTA


É bom rever-se obras como esta, «A Madrasta», de Paula Rego. A pintura vai ser leiloada, o que quer dizer que ficará, mais do que até agora, afastada dos nossos olhos. De resto, embora já se tratasse de uma história, não pertence ao ciclo de produção que mais tem mobilizado, ultimamente, a pintora e os seus admiradores, todos sob a campânula da comunicação social.
Rever obras deste modo de formar é imperioso para quem sabe haver nestas figuras, e elipses de sentido, o que de melhor a arte contemporânea portuguesa produziu.

sexta-feira, novembro 17, 2006

EM TUDO HÁ DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS





fotos de Rocha de Sousa


A realidade portuguesa actual padece de uma enorme acumulação de males, entre os quais a presença de figuras habituadas e medir tudo com dois pesos e duas medidas, assim avaliando o que fazem, entre personagens, como vimos, que se situam no oportunismo e na farsa para persuadiram o público de que o espectáculo é popular, necessariamente popular, e que os factores que conduzem a uma cultura erudita pertencem a um outro tipo de sociedade, nada fazem crescer, favorecem o conservadorismo da tinta académica ou abrem rupturas que não importam a ninguém.
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MEU DEUS, O PESO
MEU DEUS, QUE PESO
MEU DEUS, SEM PESO
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FEIRA DE VAIDADES E RECOMPOSIÇÕES POLÍTICAS




UM LIVRO
SEM CÓDIGOS,
NEM DEUS,
NEM DA VINCI,
PELO QUAL SANTANA
SE EXPLICA
E RECONSAGRA



Santana Lopes, após um tempo de oficina e a habitual travessia do deserto, apresentou um livro - Percepções e Realidade - em que procura «branquear» o período agitado do seu governo, substituindo Durão Barroso, cujo natural salivar o atraíra para a presidência da Comissão Europeia. Ouvi ontem a entrevista de Santana à Judite de Sousa, ritual que esta mantém com apreciável profissionalismo, e verifiquei mais uma vez a ductilidade representativa daquele político: as palavras escorriam-lhe da boca e procurava não dar espaço à entrevistadora, apesar de alguns entrechoques sem duração e valor. Ele falava com uma «bondade» explícita, parecendo contrariar muitos pontos de leitura que Judite de Sousa teria encontrado no livro, entretanto sem reflexo no discurso televisivo que Santana lhe debitava.Há qualquer coisa em Santana Lopes, penso eu, que lhe trava, desvia ou adoça as qualidades de político. Claro que ele conserva uma formação mediática que vem de longe: basta ver o que aconteceu agora (e ele quase se limitou a reaparecer) com a roda vivia em torno do livro, a rápida convocatória para uma entrevista de primeiro plano, em prime time, e a concentração de comentadores nos jornais e nas rádios. E será esta figura, feita nas bancas do pós 25 de Abril, na deriva partidária, no rápido acesso a importantes personalidades, nos corredores e mentideros da Assembleia da República, tão decisiva e gigantesca assim? Servirá o livro apenas (ou sobretudo) para que a sua memória futura, entre a família e os estudiosos isentos, fique transparente, pronta a iluminar a cabeça dos filhos e futuros netos?

Vejamos alguns excertos dos comentários jornalísticos em cima do acontecimento consagrado pelo livro e os dedinhos do autor já dedilhando o futuro (que para ele é o passado). A selecção seginte baseia-se numa outra, a partir da Quadratura do Círculo,
por Francisco Sena Santos, «Diário de Notícias» 16.11.2006:

O centro do livro é uma tese conspirativa: a de que tudo o que aconteceu a Pedro Santana Lopes deve-se à actuação de três pessoas que actuaram concertadamente com o objectivo de derrubar o Governo, afastar PSL da vida política e criar condições para o que temos hoje, Cavaco Silva em Belém e José Sócrates em S.Bento. Essas três pessoas são Cavaco Silva, Marcelo Rebelo de Sousa e Jorge Sampaio (junta-lhes Carmona Rodrigues. É uma tese conspirativa sem fundamento e o que escreve nada acrescenta. (Pacheco Pereira)

O livro de Santana Lopes aviva-nos a memória para um facto indesmentível, o de que todos os que agora, dentro do PSD, diaolizam os erros e desgraças trazidas PSL, naquele tempo eram (com a rara excepção de Pacheco Pereira) seus apoiantes e muitos foram por ele nomeados. (Jorge Coelho)

Durante a entrevista, Santa Lopes, demarcou-se de tudo o que se dissera durante a tarde - a clara dedução de que Durão Barroso preparara a sua saída antecipadamente e pressionou Santana no sentido de o substituir. Lobo Xavier, no programa acima referido, também se referiu a isso: O que Santana Lopes conta sobre Durão Barroso é algo que hoje já não é novidade. Sabe-se que Durão Barroso, durante muito tempo, friamente, preparou a saída do Governo para saltar para a Comissão Europeia.

O falhado governo de Santana, e as convulsões assíduas que nele eclodiam e não valiam nada, tudo isso vai sendo esbatido. A entrevista de ontem, em que o livro não é analisada nem posto em causa, nem no menor capricho, será a porta luminosa capaz de contribuir para os não muito distantes reaparecimentos políticos de Santana, ancorado nos portos de ocasião mais favoráveis. É verdade que não falava muito quando aparecia a debater futebol na televisão. Mas nos Congressos e outras ocasiões propícias, o amante da política voltará a desconfirmar, como acabou por fazer ontem, que nunca mais dirá nunca.


segunda-feira, novembro 13, 2006

domingo, novembro 12, 2006

APÓS O RETORNO COMPLETO DO BIGBANG




Blockhaus

EM BUSCA DAS MARCAS PRINCIPAIS


Durante a nossa vida, no longo percurso dos dias e dos anos, somos tentados a procurar uma relação próxima, sensível e explicável, com as coisas. Mas, no fundo, a realidade que nos envolve é muito mais complexa do que parece na deriva pelo tempo: os velhos vão sentindo que já não procuram as pequenas coisas e sentem o peso da espera, o dia da morte, essa noite inexplicável que torna a própria actividade profissional um sonho breve. Então os velhos limitam-se ao jardim do bairro, vendo os pombos desfocados batendo desfocadamente as asas - e, conforme a situação ou a temperatura, abotoam e desabotoam os botões do casaco.

Há qualquer coisa nas minhas memórias que talvez tenha a ver com esse quadro do corpo e do tempo: a pedra preciosa de um brinco da minha companheira tombou para a carpete e tornou-se invisível. Começámos a esgaravatar aquele universo obscuro e a certa altura julguei haver encontrado a pedra. Cá cima, à luz plena, a pedra não passava de um pequeno fragmento de pão seco. Nem jóia, nem sinal de Deus, nem anunciação da morte.

Com as fotografias de que dispomos nesta brevíssima reflexão vemos dedos impróprios para tocarem o início do infinito. Até a própria ideia de deus apenas espreita, como palavra, no canto de uma revista que foi temporariamente afastada do seu lugar a fim de que o pão seco nos adie a espera.






quinta-feira, novembro 09, 2006

A MEDÍOCRE FALA COMO CULTURA POPULAR

Os protagonistas da tertúlia cor-de-rosa, línguas sujas.
Sujas? São rosas, Senhor, são rosas para distribir pelo povo.
A mãe da Ruth Marlene é um bocado castradora. (Cláudio Ramos). Se Cristiano Ronaldo não tivesse o dinheiro que tem, ninguém olhava para ele. (Maya) Já li uma mensagem de Mário Esteves onde ele dá erros ortográficos gravíssimos. (Valentina Torres) O rabo do Gonçalo Dinis é muito bonito. (Florbela Queirós) Ricardo Pereira deve ter uma fila enorme de candidaturas para ocupar o coração livre. (João Malheiro) Ricardo Pereira deve ser o símbolo da Portugalidade.(Maya) Eu também tenho um ADN kármico e o meu calha sempre para a Elsa Raposo. (Nuno Eiró).

quinta-feira, novembro 02, 2006

DESCONSTRUÇÃO/RECONSTRUÇÃO


Esta composição releva de um trabalho lúdico-criativo a partir do excelente cartaz da exposição de abertura da Ellipse FUNDATION 2006

quarta-feira, novembro 01, 2006





CONVITE PARA VISITAR

CONSTRUPINTAR02

através do endereço


terça-feira, outubro 24, 2006

A PORTA ENCOSTADA E A MÃO DE FERRO


Sempre que os nossos vizinhos se reuniam à noite em minha casa - e era sempre, na semana quase toda - esta mão de ferro (de que já falei) estava continuamente disponível. Com ela, como num aperto de mão invulgar, levantávamos e empurrávamos os dedinhos frios contra o batente, outra peça de ferro, placa redonda cravada na madeira, e assim o pedido de entrar ressoava em volta e dentro de casa: assim vinham até nós diversas visitas, vagabundos ou pobrezinhos. Acon-tece que, naquele tempo dos serões em volta da mesa quadrada, onde se falava de espiritismo e se jogava às cartas, uma simples bisca com batota subtil e risos e protestos retumbantes, a mãozinha, fingindo-se de prata, quase nunca acordava, igualmente parecia colada em pose, pendente, despojo de muitos anos atrás, escultura funcional que estava na moda, entre variações secas e luxuosas, papudas, monárquicas.
Na sala, o entusiasmo aumentava, bluf após bluf, e tarde na noite outras pessoas vinham até à nossa casa, beber qualquer coisa e espreitar o jogo de cima da sua posição em pé. Entravam sem bater no batente porque a porta da rua (veja-se como era o mundo outrora) estava sempre encostada, uma fresta entre o pátio e a rua, franqueza, pragmatismo, confiança, nenhuns demónios vencendo o espaço da porta semi-aberta - encostada, como era nosso hábito referir. E mesmo de dia, depois de todos acordados e do pão chegar (porque chegava num sereno porta a porta), a partida para a Escola já era facilitada pela porta com o trinco destravado; também à tarde, aliás, quando a chegada dos estudos compulsivos aliviava os meninos todos. Logo, logo, a avó fazia o lanche e o relógio dela batia horas da mesma maneira que a mãozinha de ferro batia eventuais visitas. E a porta sempre assim, ainda encostada, franca, eu exilado na casa durante anos silenciosos, muito tempo depois, perdida a família nos falecimentos da roda da vida, flores e campas de mármore no cemitário ao fundo da estrada principal.
Um dia, manhã muito cedo, quando o meu exílio na casa de família contava largos anos de solidão, a insónia trouxe-me até ao escritório e ali fiquei a ver a rua e as paredes rasuradas. Destravara o trinco da porta - a que me separava da rua - cumprindo assim uma longa tradição, mesmo que o risco rondasse os arredores, objectos arrebatados às velhotas para servir de troca na urgência da droga. Um som abafado, como acontece quando se deixa cair no chão um saco cheio de roupa, veio rondar os meus ouvidos, agitando ligeiramente o coração. Fui ver. Pela fresta da porta, no cinzento azulado do exterior, uma grande amiga minha, pálida, envelhecida, com um saco no chão e outro ao ombro, fitava a mão de ferro, olhos molhados de uma saudade refém das imagens da juventude e dos dias em que arrebatadamente accionávamos os dedinhos de ferro sobre o batente imóvel.
Abri bem a porta, ela viu-me, lábios brancos e apertados: talvez viesse no intuito de me proteger, de aquecer esta velhice, tal como prometera há vinte anos, falando de aquecimento e ternura, possível e previsível situação tendo em conta o avanço da minha determinante idade, esse deslimite que nos unia e fazia a diferença.
«Não disseste que vinhas».
«Não dava».
E fui eu, vinte anos mais tarde, quem a recebeu ternamente e teve de assumir a penosa tarefa de a tratar em pleno horror definido pela doença em estado terminal que ela transportava nas entranhas.
Deitada, dias depois, no quarto das bonecas, lembrou-se da mão de ferro e da porta encostada. Perguntei-lhe se queria sair, reaver aqueles passeios de outros tempos, respirar a força do ar na orla da cidade breve.
Olhou-me, sofucada, e disse apenas, como era seu hábito:
«Não dá».
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suscitado por algumas sequências de «A CASA REVISITADA», de rocha de sousa

segunda-feira, outubro 23, 2006

UM INCIDENTE PROVIDENCIAL

NOTÍCIA
A vaguear pelos sítios das imagens e das palavras, reparei que uma parte daquilo que gosto de fazer ficava apenas aflorado no generalismo de DESENHAMENTO. E obriguei-me a publicar um outro blog destinado a divulgar, num apelo à troca crítica de ideias sobre tais matérias, obras minhas de pintura, pintura digital, fotografia criações similares.
ACEDA ao novo blog CONTRUPINTAR02
através do endereço
www.rochasousa02.blogspot.com

sábado, outubro 14, 2006

OS RESTOS COMO REQUIEM URBANO









reciclar, perder, recuperar, abandonar, ser, restos como requiem urbano, cascas de casa

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Andavam os vagabundos e os sem abrigo pesquisando o conteúdo das sargetas quando lhes caíu um motor de avião em cima. Sábios, logo disseram que nada daquilo pertencia a Bin Laden, pois o expediente era demasiado pobre e pouco matador para que se fizesse tal juizo. Tratou-se apenas de um incidente, espécie de terrorismo ocidental . A ordem ocasional das coisas pode ser estudada na complexidade crescente dos excessos degradados do lixo, caixas, cartões, vómito guardado em plásticos, o tempo que leva à mudança dessas despaisagens.







sexta-feira, outubro 13, 2006

A ORDEM NATURAL DAS COISAS

foto Rocha de Sousa

num país do desassessego


A ordem natural das coisas é não haver nenhuma ordem natural das coisas. Lembram-se do Noivo, um homem de meia ideia, vestido de smoking, pasta na mão, cabelos sedosamente puxados atrás, como nos velhos tempos da brilhantina - esse excluido que vogava pelos cafés de forma altiva e inabalável? Assim ficara desnatural, com efeito, pelo facto de ter sido abandonado pela noiva em pleno altar. A súbita vontade alheia, contraditória de mil promessas entretanto feitas, implodira a própria cerimónia do casamento e o Noivo perdera-se dele mesmo. Hoje, olhando para o mundo em redor, a verdade é que nos tornámos todos noivos, sem smoking. Convertidos ao desleixo global, luxo aristocrático invertido, homens e mulheres usam calças de ganga das mais diversas maneiras. A rapaziada, entre os jovens semi-universitários e os parlamentares de gabarito, usa barba crescida, aparada uns milímetros acima da pele por uma nova invenção no meio industrial das máquinas de barbear. Mas não se pode assegurar em rigor que tais máquinas tivessem nascido depois das barbas haverem crescido mal aparadas. Pela ordem natural das coisas, primeiro teria crescido a barba, depois a tecnologia para o tratamento da sua qualidade. Nos cafés, no intervalo da discussão sobre futebol, alguém, mais afoito e porventura mais culto, assegura que a máquina apareceu primeiro, que acontece em muitos outros casos, propondo aquele bizarro tratamento da barba. A propósito dos cafés, cada vez mais raros, improisados e de menor gosto, há neles uma persistência curiosa, mais antiga do que as calças de ganga: o hábito de quase toda a gente tomar ali o seu pequeno almoço, café com leite e pão com manteiga, enquanto alguns outros só consomem um copo de vinho, uma dose ou duas de três. Nas tascas também ressoam os telemóveis, há telemóveis por toda a parte, e muitos e muitos jovens passeando com os aparelhos colados às orelhas, passando para as namoradas palavras obscenas. O mundo, aliás, ficou cheio de telemóveis, de primeira, segunda e terceira gerações. Os pais fotografam os filhos quando os levam para a Escola, braços levantados, câmara de telemóvel eficiente e silenciosa - Deus olhando do alto o funcionamento do Seu quotidiano. Apesar de tudo, o país está empobrecido, garantem os economistas e os políticos. Mas as terras estão atulhadas de cidades a perder de vista, paisagens de betão onde abundam o lixo e os consumos, uma pressa de convocar o futuro. E isso caracteriza bem, paradoxalmente, os cidadãos que ainda não chegaram a uma mais profunda consciência do tempo, ou seja, da morte. Náo é por acaso que amentou o número de vagabundos e os sem-abrigo, todos os que, mesmo na enxovia das camas de cartão, deliram com os principais clubes de futebol, desdobrando longos discursos que invadem territórios alheios - até lugares electrónicos como este - para criticarem arbitragens, faltas mal aplicadas, lesões de jogadores, políticas da Federação, da Liga, da Fifa, uma corrupção que deslisa no intervalo dos jogos e nos bares do norte. Exclamam por vezes, num caso de contusão mais grave, que não há Serviço Nacional de Saúde capaz, que os Centros não têm funcionários nem aparelhos, que as urgências migram para o litoral e para as grandes cidades, que as maternidades foram fechando, sobretudo no interior abandonado, ficando assim os doentes e as grávidas a dezenas de quilómetros dos sítios próprios das suas necessidades, o que fez duplicar, só num ano, o número de óbitos e partos nas ambulânvias do INEM e dos Bombeiros. Ao lado dos incêndios, bom negócio de sobras e novos pobres. A par dos lixos atirados um pouco por toda a parte. Ou dos produtos venenosos que fábricas e suiniculturas despejam nos rios e lagos do jardim à beira mar plantado. Nas praias também, calor a prumo, milhares de pessoas encalhando na areia, a lembrar terrivelmente os campos de refugiados de que África está repleta, entre guerras e ditadores cegos. Afinal, somos pobres ou ricos? Talvez remediados, como no tempo rural de Salazar. Havia crianças com a bandeira da Mocidade Portuguesa e cantando o Hino Nacional. Hoje as crianças são geniais, embora banqueteando-se com tecnologia alienante (jogos apocalípticos) e sandes americanas - produto que nos vai colonizando e tornando obesos. Ah, o nosso rico caldo-verde, com uma rodela de linguiça a meio. Os mais pequenos são transportados nas manhãs de folga em carrinhos tipo new look, enquanto os pais ainda vigiam os fotógrafos das redondezas, por causa da pedofilia e do eterno processo da Casa Pia. Há muitos arguidos em Portugal, gente de acasos e da candonga, ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres. Porque os pobres desempregados preferem vender umas gramas de droga a juntar-se à tarefa camarária do lixo, um lixo urbano sempre acumulado, publicidade rasgada com ele, ou nas paredes, em sucessivas gerações desde o 25 de Abril. Nessas noites de bruma, para além das escassas árvores da cidade, há gatunos roubando carros ou assaltando apartamentos, na melhor das imitações das escolas estrangeiras, Nova Iorque e Chicago, por exemplo. A GNR e a PSP são polícias que costumam passear de carro desportivo, linhas azuis e verdes, mas os agentes pedestres, quando se encontram com um bandido, têm de fazer contas para saber se estão em situação de legítima defesa ou não. Antes disso já comeram com um balázio na barriga e as suas velhas armas, encravadas, nem puderam responder. Cada tiro de um polícia é um polícia em tribunal. Mais arguidos, cadeias onde a sobremesa ao almoço pode conter pequenas doses de cocaína, e depois a sida, a tuberculose, coisas assim. Os filhos dos filhos de alguns dos presos mais velhos pagam taxas moderadoras, agora de utilização, são metidos em Casas de integração, dormem lá uns tempos, cortando cartolinas, e depois fogem pelo muro descarnado e ficam adstritos a uma zona de vagabundos, a trabalharem bem a solidariedade dos grupos que andam durante a noite distribuindo mantas e sopinhas quentes. O pior é a televisão, não há sítios para ver os jogos, excepto algumas tabernas, e o futebol, além do eixo do mal, é a sua mística, o país chega a parar, a assembleia nacional faz pausas apropriadas. As rixas repetem-se todas as noites. Os médicos de família não passam de uma ficção. Se não há futebol na televisão, há porrada e notícias com crimes hediondos, já de marca portuguesa, e publicidade a espectáculos que enchem estádios ou novelas cheias de armadilhas onde os bons actores portugueses perdem o seu tempo e a sua dignidade. A balbúrdia dentro e em volta de Lisboa cresce de minuto para minuto, as pessoas mais velhas ficam perplexas, e aqui há dias um velho de setenta anos perdeu-se lá para as bandas do eixo Norte-Sul, Cril, Crel, andou em contramão por estradas sem sinais, ou com poucos sinais, errados, mal escalonados, o que de resto acontece por todo o país e é causa importante dessas tragédias do asfalto, diagnosticadas sempre pela polícia como devidas ao alcool e à velocidade excessiva. O velho deixou o carro num recanto inócuo e voltou de táxi, no outro dia, para o recuperar. Mas o carro tinha desaparecido e o pobre homem nunca mais o viu, perdendo assim o negócio de batatas que transportava de um produtor dos arredores para a zona das Olaias. Nesse dia, quando chegou a casa, lá estavam os papéis do IRS, um pedido por conta, uma esmola solicitada pelas Finanças. Ainda pensou em falar com o filho, mas o desgraçado acabara a licenciatura e estava desempregado há mais de um ano. As Universidades haviam perdido o tino, julgavam-se produtoras de elites cordenadoras, afastando-se do mundo real e procurando assegurar-se de que os Politécnicos iriam produzir tecnólogos, num país a abarrotar de engenheiros, nas empresas, nas estradas, e sobretudo nos Governos. Como os professores dos primeiros níveis do ensino eram nómadas, andavam a ensi-nar um ano na Lousã e no ano seguinte a leccionar em Ourique, o insucesso escolar talvez comece logo por aí. Que não, diz o Ministério. A estratégia da rede escolar tem de ser vista, programas, livros, autonomia das instituições, mesmo aquelas que restaram perdidas no mato. Perdidas na memória daquela paz e daquela medida que faziam das brincadeiras, no recreio, uma verdade calorosa.

Nesta ordem natural das coisas, que não é ordem nem natural, os velhos atrasam-se no caminho para a morte, atrapalhando a Segurança Social. E os meninos, nascendo cada vez menos em nome da cidadania da mulher e de uma escassa procriação, com raízes genéticas mirradas pela economia, vão crescer sem afectos, mordendo o isco dos matulões e dos cigarros. Os velhos esperam sentados nos bancos das ruas brancas do Alentejo ou nos escassos jardins onde ainda podem jogar às cartas. Alguns pensam: a morte nunca mais chega. E outros dizem aos seus botões comprados há muitos anos na retrosaria do Sequeira: deixam atrasar tudo e não há listas que cheguem para tantos atrasos. Sousa Carneiro escreve: desfizeram-se os pomares, abriram cotas estreitas na agricultura, largaram o mar salgado e afundaram as traineiras, perderam a guerra em África e as pistolas que restaram oferceram à PSP; queimam as florestas e toleram os negócios obscuros, falam em mobilidade como se tivéssemos que voltar ao paleolítico e regredir em caminhadas imensas, enquanto o trabalho falta e se apregoa com pompa que nunca haverá mais empregos estáveis, tudo rodará em volta de tudo. Os psiquiatras não, esses não rodam, nunca mais voltarão a ser nómadas: os andarilhos da indústria ou do ensino, e quem sabe, um dia, se da saúde, esses sim, globalizaram-se e frequentam psiquiatras por causa das bipolaridades incandescentes, da nostalgia, e da falta de apoio aos mortos na estrada.

Mas Almada Negreiros disse um dia, e com razão, por três vezes seguidas, entre minutos, sobre a urna de uma celebridade: Há pontos finais.