segunda-feira, setembro 03, 2007

LUGARES COM A MORTE ANUNCIADA




O jornal Público apresenta hoje, dia 3 de setembro, 07, uma reportagem sobre Grand-Lahou, cidade em vias de extinção na Costa do Marfim. Texto sintético. Profundamente tocantes as fotografias de Issouf Sanago /AFP. As pessoas ainda sorriem quando se fala em grandes catástrofes planetárias e insistem em considerar que o problema do aquecimento global é um mito urbano.
Há muito tempo, em Grand-Lahou, a população residente deslocava-se pelas ruas, vivia a plenitude das culturas locais, plantava coqueiros, cumpria, enfim, os deveres de cidadania e respondia aos preceitos religiosos, ao baptismo, por exemplo, esperança no futuro para além dos mortos enterrados na ritualidade própria e no desejo de um «reino» para além desse silêncio.
A primeira nota do texto informa-nos de que ainda há vida em Grand-Lahou, qualquer coisa como cinco mil habitantes, dos anteriores 20.000. Cerca de 15.000 deslocaram-se para longe dali, transportando tudo o que tinham, procurando assim uma vida melhor e tendo em conta que o mar, ali, continua a avançar por cima de tudo o que foi ficando.
a padaria de Maïga
Para Maïga, Grand-Lahou já foi Terra Prometida. Quando saiu do Mali estava informado de que o mar poderia galgar a terra, mas a sua fé levou-o a montar uma padaria em Grand-Lahou (1962), desacreditando dos brancos que lhe haviam anunciado o tempo das águas, das inundações irreversíveis, da morte dos coqueiros, do desaparecimento das construções em adobe precário.
cemitério submerso
Se é verdade que Grand-Lahou chegou a ser um dos principais entrepostos coloniais da Costa do Marfim, também é verdade que os missionários brancos, por 1920, tomaram as coisas a sério e iniciaram ali um trabalho incisivo de evangelização. Os mortos enterravam-se a preceito e o tempo de nojo tinha sentido. Hoje, o presidente da Câmara, diz para os jornalistas deste trabalho: «É triste ver o cemitério cristão dos nossos pais despaperecer no mar». Uma água impiedosa, na espuma dos dias, arrasa as campas e rende uma estranha homenagem a pessoas que outrora pareciam eternas.
a morte anunciada
Como é habitual em muitos destes casos, os habitantes daquele lugar, e outros, responsabilizam o governo da Costa do Marfim por nada ter empreendido a fim de travar a subida do nível das águas do mar. Falta-lhes relacionar melhor a frequência e o aumento das tempestades bíbiblicas, os dilúvios, a convulsão da própria terra. Há espaços e vidas que, pelas suas características, são empurrados para o início de grandes transformações terrestres e oceânicas. O aquecimento é global mas esse o problema aqui afectará, de forma particularmente severa, a costa ocidental de África. Foi desenvolvido, por especialistas norte americanos, um importante estudo onde se calcula que o mar possa subir ainda mais 50 cm até ao final do século, com custos colossais para o país.
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N. texto extraído da reportagem já referida, embora apresente alguns pontos de reescrita.

7 comentários:

eremita disse...

e apesar dos sinais, mais do que evidentes, as caravanas continuam a passar com indiferença tantas vezes- Nunca pensei que no meu (breve) tempo de vida pudesse sentir e ver o efeito rápido das alterações climatéricas.
Fraterno abraço

Jograis e Trovadores disse...

Conheci-te de passagem pelo eremita e vim espreitar. Gostei da tua preocupação com a Terra.Todos a sabemos com morte anunciada se não enveredarmos por outros caminhos. Compete àqueles a quem entregámos o poder, traçar as políticas correctas. Para quando?
No meu blogue, há poesia. De outros tempos.
Beijinho

jawaa disse...

A costa de África e toda a costa atlântica; também nós um dia teremos de procurar Espanha... será que se cumpre Saramago?
Ao jogral anterior direi que compete a cada um de nós, principalmente.
Abraço

eremita disse...

Amigo, o meu email encontra-se no blogue: eueremita@gmail.com
Vejo que há alguma sintonia nas avaliacões, análise, que fazemos da vida, pelo menos a partir da nossa e do que encontramos, vemos, registamos ao nosso redor e no mundo, dados e factos sobtre os quais reflectimos.
Até... e fraterno abraço

eremita disse...

desculpe a gralha: «sobtre»
SOBRE

eremita disse...

E.T - já leste, (? retórica) as ótícias sobre a desertificação/africanização em Espanha?
E por cá?

fraterno abraço

Maria disse...

Eu sei que não venho aqui tanto como seria desejável.
Mas hoje deixo-lhe, para ouvir
http://www.youtube.com/watch?v=2uYrmYXsujI

Cumprimentos