quinta-feira, junho 07, 2012

MORREU BRADBURY: UM FICCIONISTA DE FUTUROS

Ray Bradbury

 Morreu ontem o escritor Ray Bradbury, nascido a 22 Agosto de 1922 (Waukegan, Los Angeles). Faleceu em 6 de Junho de 2012 e foi um notável escritor no género da ficção científica: o seu registo não era apenas narrativo e as suas histórias, no género aqui referido, investiam num claro valor poético, profético, atento às tecnologias de ponta e àquelas que mal afloravam no horizonte das grandes descobertas da civilização contemporânea, gerando assim, por outro lado, um espaço intemporal onde a consciência humana se confrontava com alegorias, visões simbólicas, avisos ficcionistas que inventavam futuros. O futuro. Há assim uma ideia moral nas histórias de Bradbury, as quais são tecidas para além das nossas habituais verosimilhanças e em ordem a um certo tipo de idealidade no amanhã, algo que nos introduzia numa visão cósmica cuja infinitude envolvia de perto o próprio homem e os seus  poderes de criação ou de antecipação de outras ordens para o mundo.
 
livro Crónicas Marcianas | filme "Marcianos"

Bradbury é hoje mais conhecido pelas suas obras «Crónicas Marcianas» (1950) e pelo filme de Truffaut, de 1966, «Fahrenheit 451» baseado na obra homónima de 1953. O grau de simbolismo sarcástico faz desta obra uma profunda questionação ao valor da civilização e da cultura e às forças da denegação que procuram massificar e apagar os comportamentos aí enraizados. Numa espacialidade urbana mecanizada e asséptica, cheia de automatismos  e de normas dogmáticas, os bombeiros não se dedicam a apagar fogos, são antes uma força política e policial que usa lança-chamas para queimar na praça pública todos os livros e documentos similares que fossem encontrados. Quando esta hipérbole se visualiza no filme, e o dogmatismo embaraça o bombeiro ainda inocente, um terrível retrato das sociedades opressoras e dos preconceitos culturais nos travam num consumismo fútil. 
Mas há sempre os resistentes, os últimos seres a honrar a sua dignidade e a evolução da espécie: fugindo para as florestas, organizando-se de forma comunitária, grupos de homens e mulheres lêem em voz alta obras fundamentais salvas do holocausto e, depois de as decorarem, vão espalhar por outras memórias, oralmente, literaturas raras. A republicação era feita dessa maneira, numa longa deriva em trabalho, e por forma a salvar a memória do próprio homem.
 
Arrancados às bibliotecas clandestinas resmas de livros, um bombeiro subalterno recolhe as provas do pecado envolvido na cultura literária, arquivo de outros saberes.
As chamas reeditam assim muitos outros tormentos da cegueira dos homens e dos seus mal 
avisados poderes: os livros ardem em montanhas, um pouco por toda a parte, lembrando o fervor terrível com que a Inquisição queimava bruxas, sábios e hereges.


Bradbury terminou os seus estudos em 1938 e publica o seu primeiro livro de ficção científica em 1939, estreando-se, profissionalmente, com «Pendulum». «The Lake» é de 1944, entretanto, publica também vários contos e muitas outras obras como «Crónicas Marcianas», «O Homem Ilustrado», «Fahrenheit 451», «Something Wicked This Way Comes» ou «Death Is a Lonely Business» (1985.). A sua obra continua actual.

sexta-feira, junho 01, 2012

MENINO MORTO POR VIRUS, TESTEMUNHO HOJE


A morte é assim, também guarda os seus patrimónios. Os mais antigos, os mais singulares na escassez da exemplaridade do céu e da terra. Esta criança, por exemplo, quase mumificada, assim conservada pelo frio das montanhas, tornou-se uma hipótese testemunhal trinta mil anos depois. Morreu de morte natural, atacada por um vírus cujo ADN foi possível decompor e classificar, tendo sido descoberto que tal agente patogénico já existia naquele tempo, era mortal, e ainda se faz sentir nos nossos dias, embora condensado numa das vacinas usadas e portanto praticamente inutilizado para matar crianças sub-alimentadas e alguns meninos contemporâneos, correndo os riscos da obesidade.
Olho para esta imagem, lindíssima na sua enganadora fealdade, e penso como terá sido frugal (também) a sua história. Alguém tratou dela, em parte, e procurou suavizar a sua viagem, não se sabe para onde. Os tecidos espessos encobrem todo o corpo e há um resto de cabeça que ainda parece capaz de nos olhar. Aqui, contudo, já não existe ninguém, existem peças estruturais do corpo, a despeito da fascinante presença dos resíduos. Milhares de anos depois de uma morte, se o corpo não for destruído pelo fogo, como acontece hoje por moda e falsas razões de espaço. São sobretudo razões financeiras e culturais, e as cinzas da cremação acabam depositadas numa simples caixa, mais ou menos adornada e luxuosa. As liturgias modernas, anexadas ao bom tom de uma certa poética, levam a que muitas famílias despejem as cinzas dos seus mortos sobre a terra de origem, ou na corrente de um rio amado, ou no oceano onde o sujeito terá tido prazeres de juventude e de pujança física, nadando em bom estilo e posando na areia, depois, os seus belos músculos molhados.
Nada disto tem importância, obviamente, mas é possível questionar as escolhas. Congelados na terra e na urna de madeira dura, os meus parentes serão agora ossos sem qualquer metafísica. Mas são dados (como na arqueologia) existentes que se podem investigar, saber a história de um tifo a que se escapou ou os sinais de anomalias que explicam a tristeza dos passos.

terça-feira, maio 29, 2012

SEPULTURAS COLECTIVAS NA SÍRIA, EM HOULA


Tem sido impressionante acompanhar o drama da Síria, a luta dos rebeldes contra  um regime intolerável e a devastação  a que este submete cidades inteiras, civis,  homens, mulheres e crianças, destruindo cegamente um património urbano imenso com artilharia pesada. O último massacre, em Houla, foi «repugnante», como classifica o jornal «Público», de hoje. A morte de cem pessoas e  trezentos feridos, o desabamento de imensas infraestruturas, tudo solicita uma intervenção da comunidade internacional e, desta vez, o Conselho de Segurança da ONU condenou  o  alastramento destas operações. Irão condena as forças da imposição e diz que vai enviar  tropas para  evitar que os rebeldes prossigam acções deste tipo. Não há esse poder militar do lado dos rebeldes nem todos os testemunhos e imagens de cidades destruídas, de paredes leprosas podem  esconder-se  debaixo do tapete. Foi preciso que imagens de crianças mortas no massacre de Houla corressem o mundo para que Moscovo e Pequim dessem um passo de condenação para esta repressão sobre a oposição ao regime de Bashar al-Assad. Os mortos são entalados entre blocos de cimento, em longas filas, embrulhados na medida do possível.   
Aqui vemos uma terrível narrativa da suprema ausência.

terça-feira, maio 15, 2012

JÁ VIMOS ESTAS CARAS EM QUALQUER PARTE


A televisão é um dos meios de comunicação social grandemente favorecido pela tecnologia e com os recursos mais diversos, nomeadamente os que podem servir a cultura, a educação, a informação, o avanço crítico sobre os homens e o mundo. 
 
Infelizmente, massificada para além dos limites, só sobrevive com grandes fatias de tempo ocupado por publicidade tóxica e programas ditos recreativos, numa alucinada concorrência entre canais e com o maior despudor e tudo fazer para alienar e «comprar» o espectador.

A TVI é a pecadora maior mas com alguns casos de boa escolha, casos de acaso, sobretudo, e em geral para o fundo da noite, quando o país, mesmo desocupado, dorme pelos mais diversos motivos. 


Este canal implementou recentemente um programa musical com alguma ambição, no qual são convidados cantores e actores-cantores a imitarem significativos vultos do canto não clássico. Premindo uma maquineta de feira, correm retratos de «celebridades» e sai sem bónus o que quer que seja, mulher ou homem para imitação (por vezes) de homens por mulheres ou vice-versa. O resultado tem sido por vezes fabuloso. Mas os apresentadores, Goucha e Cristina Reis, resvalando para o mais popularucho que há em televisão, desarrumam uma coisa que pode ser séria e recreativa, em vez de atravessada pelo desrespeito do júri quando fala, acentuando a chacota e números improvisados do senhor Goucha, impertinentes e fora da linha de nível a que deveria ter-se regido o casting. Uma falsa concepção da boa disposição implica muito estudo e sabedoria nas nuances. Cristina deveria fazer uma boa «fisioterapia» da voz e o senhor Goucha colocar uma banda gástrica no Ego. Boa nota para as prestações de avaliação de António Sala e Jardim. 
Os outros membros do juri podem brincar melhor nas telenovelas, onde toda a concepção é cada vez pior, embora tenhamos actores cada vez melhores. E cuidado: a quantidade não faz a qualidade. 
Há muita gente com saudades de ti, Mário Castrim.

quinta-feira, maio 10, 2012

DOS NOSSOS ANTEPASSADOS: ARTE MODERNA COMO?


As pinturas da gruta Chauvet são provavelmente as mais antigas do mundo. No «Público» do dia 8 de Maio deste ano era mostrada ao público esta arte parietal que se estima ter sido executada há cerca de 30.000 anos. A recente datação, a mais exacta que existe, confirma que o bestiário que cobre as paredes desta gruta do Sul de França consolida um tempo de formação mais recente do que se supunha, o que obriga a rever muitas teses sobre a natureza das obras e em que termos funcionavam para os homens daquele idade, desenhos e pinturas numa agitação vitalista realizadas, presumivelmente, em níveis de claridade muito baixos, mesmo que reforçados com fogo de tochas criteriosamente orientado. Ao primeiro impacto, Éliette Brunel, sob o clarão da lâmpada frontal, exclamou apenas: «Eles vieram cá!»
Eis uma bela frase. Uma frase que mostra o espanto de uma cientista do século XX perante a absurda qualidade plástica, exímia representação de animais do meio, feita, segundo se conseguira determinar, até então, como tendo uma idade de mais de 40.000 anos. E a quem se referia Éliette, quem estivera ali, quem era essa gente que precedeu o homem histórico tal como o conhecemos? Seriam seres semelhantes a  nós, do espaço exógeno, que ali apontara exemplos do seu estudo no local, onde nunca mais voltaram? A mitologia dos OVNIS acercou-se bem cedo destes testemunhos de uma sábia expressão gráfica e pictórica, aprontada onde ficasse preservada e exprimisse a capacidade do encontro com os meios locais e o seu  valor sintético dizendo a beleza de animais já tão complexos, ao mesmo tempo exaltando a vida daquela terra e ornamentando os tectos das noites quentes ou frias que o fim do nomadismo viera alinhar, convocando mais meios de sobrevivência.
São razoavelmente conhecidas as matérias que o homem deste tempo usava, partindo da própria terra, a fim de assegurar a paleta básica, os materiais de expressão. As especulações quanto a datas, para um pensamento sobre causas e fins, pouco importa. Claro que os artesãos deste mundo remoto tinham uma praxis adequada ao que realizavam e certamente não desconheciam a fauna mais persistente de cada lugar. Mas para que pintavam e desenhavam, alheios e gatos e cães, a sítios de faustosa flora? Penso que isso se devia ao facto de o seu trabalho não ser desinteressado. E era interessado no conhecimento de certos animais, quer a sua anatomia e mobilidade, quer o grau de resistência a um lançamento de caça. Tais pinturas resultariam assim numa educação visual ordenada no sentido de se obter um justo e rápido olhar sobre tudo o que importava ver no intuito da caça. Parece muito pragmático para seres tão acossados por perigos de origem desconhecida. A metodologia e o rigor das representações podem apontar esse modo de operar quanto ao caminho visado. Mas não seria o rigor a face de uma mimética capaz de tornar límpido o objecto do desejo? Percepcionas e conheces bem, melhor acertas com os instrumentos de morte. Os desenhos parietais, sem composição de campo, seriam alvos de uma liturgia repetida muitas vezes e propiciadora do êxito na caça e no índice de sobrevivência.



Intriga, em todo o caso a raridade e a situação destes procedimentos. Não há bizontes pintados por tudo quanto é tecto de rocha ou parede alisada. Esses habitáculos, se é que se tratavam de habitáculos, não tiveram uma disseminação estrondosa: talvez porque eram trabalhos de manejo difícil, talvez porque poderiam servir sobretudo para a comunidade aspirar colectivamente à bondade dos deuses. Então, em lugar de habitação, as cavernas seriam espaços de refúgio e convocação dos espíritos. O homem tolhia-se perante a sua figura, porque aspirava a eternizar em qualidade aquele material tão constante à sua volta. Houve sítios, em todo o caso, onde figuras humanoides, de cabeças orladas, foram aparecendo no que talvez fosse a invenção a montante da pastorícia. A estranheza das cabeças e das suas ornamentações iguais levou os crentes da mitologia OVNI a verem ali figuras de outros lados, estrangeiros, que procuravam estabilizar os meios da vida na Terra. É muito e é pouco para ser verdade. Olhamos aquelas figuras e apetece-nos rodar a cabeça, ver em movimento para melhor sentir o movimento dos seres representados. Não há praticamente grutas destas onde, a certa altura e num espaço maior, não nos confrontemos com figura acima do nosso olhar. Também isto nos faz espécie, porque imagina-se mal como fariam os artesãos para subir ao seu campo de trabalho e executá-lo como que em primavera, sem os tornar façanhudos e distorcidos.
No primeiro dia em que entrei na capela Sixtina, no Vaticano, havia muita gente, um marulhar de vozes baças. Vendo mal e sem grande ânimo as pinturas das paredes, verticais, tive a sensação de que não havia tecto e fui olhando para cima, afinal como a maior parte das pessoas que me envolviam e até rezavam. Lá estava, bem no alto e com grande sabedoria técnica, uma série de pinturas que interessavam ao lugar e sugeriam a ascensão salvadora. Assombrado, só me vinham à memória o grande enlace das pinturas nas paredes e tectos das grutas que conhecera.

terça-feira, maio 08, 2012

MIA COUTO: ENTRE LEÕES, HOMENS E MITOS

Mia Couto
Dir-se-á que este é o verdadeiro Mia Couto, inspirando-se na sua amada e bem conhecida África, zelando pelas inspirações literárias e pelo estado do território, como preservá-lo, como o ocupar com gente produzindo sem vandalizar.
A verdade é que, como dizia o outro, Moçambique é o país deste escritor e Portugal é o seu refúgio. Talvez mais do que refúgio, porque também se transformou em loja, livraria, parque de relações sociais. E não estou a dizer isto por ironia: raramente um escritor da língua portuguesa, vivendo fora do espaço original da Língua, terá tido tanto ruído à sua volta, honrarias, sessões solenes, tempos de antena (televisiva) em horário nobre, entrevistas, cartazes, montes de livros em todas as livrarias importantes do país. Em princípio, isso não é mau. O pior é a sua singularidade, a sua raridade, mais do que um Prémio Nobel que nos caísse em sorte.
Sou leitor da obra de Mia Couto (não lhe outorgava o Prémio Nobel, embora ele viva num sítio que estará à bica do acontecimento. Prémio Nobel emergindo entre leões, homens e mitos. E Mia Couto é bem comportado, inova até onde pode e deve, não esgaravata revoluções. E, pelo meio de tudo isso, um escritor que humaniza a escrita e a leva muitas vezes, foneticamente, à boca. O actual livro («A confissão da Leoa») é, creio, o segundo romance de Mia Couto. É pena que ele não nos fale mais profundamente das suas experiências pessoais, o tempo, a natureza dele e do povo em volta, os conflitos e a empobrecida vida do campesinato. Mas desta vez,  origem de um certo comportamento dos leões e o seu avanço no território que lhes é próprio, gera uma parábola que se abre aos mitos, aos sonhos, aos fantasmas, depois dos leões, descendo sobre a miniaturização dos homens, ferindo a sua fragilidade, gente a sangrar de facto, caçadas improváveis, palavras novas menos ou mais acertadas. A sociedade dos homens não sai muito bem tratada desta simbologia e da força ancestral desta raça de seres que pode agora caçar os homens em vez de ser caçada por eles. Porque os homens, imitando manias coloniais, correm para as cidades e abandonam o território à Natureza. As sociedades em Angola ou Moçambique não têm que ser amadas e desculpadas com carradas de História não sei se errada, se própria do tempo até onde a podemos narrar.
Cito José Silva Maria: «Tendo em conta os contornos da narrativa, atravessada por cosmogonias, lendas, crenças e sonhos premonitórios, havia o risco de Mia Couto cair em estereótipos — ou, pior ainda, nas armadilhas do realismo mágico. Felizmente, tal não acontece. A sua prosa mimetiza a paisagem e flui como o rio que atravessa a aldeia. Não há demasiados afloramentos líricos, nem o exagero de neologismos que saturava muitas das suas obras anteriores.»
Isto quer dizer que vai no bom caminho, que a caça não acontece «nas costas da razão». Afastado o receio das «coisas invisíveis» e consciente da trágica e «infindável guerra», fica  o aviso contra o hábito dos homens sempre abusarem do seu poder e das mulheres educadas para a renúncia.

quarta-feira, maio 02, 2012

FERNANDO LOPES: TALVEZ UMA ABELHA NA CHUVA

MORREU  FERNANDO LOPES
 
câmara lenta

Tive o privilégio de assistir à primeira projecção, com Fernando Lopes e Vitor Silva  Tavares, do filme «Uma Abelha na Chuva», que será sempre, para mim, a melhor peça da obra do realizador de «Belarmino» e de «O Delfim», entre outros. Não é possível esquecer. Não é possível deixar de lamentar, hoje, esta morte que agrava os silêncios que se abatem sobre a nossa cultura, no cinema, na literatura, nas artes plásticas, entre partilhas e desenvolvimentos legados pelo século XX. Fernando Lopes, eu o convoco, homem sábio e sensível, referência inalienável do Cinema Novo português. Todos os lembram pelo culto da amizade, profundo saber e felicidade na vida. Segundo as palavras do seu filho mais velho, Fernando Lopes, de 76 anos, vítima de cancro, esteve sempre lúcido; depois «apagou-se devagarinho; foi uma coisa muito suave.»

 EM CÂMARA LENTA

É bom quando se pode deixar aos outros uma visão do mundo e das pessoas, seja qual for a obra «acabada». Também, desse tempo, muitos lembrarão «Verdes Anos», primeira obra de Paulo Rocha, que será depois superado em «Abelha na Chuva», no qual Fernando Lopes nos mostra como desde cedo sabia reflectir sobre a vida, como nessa aventura da personagem feminina perante a dureza do marido e a chuva envolvente, tudo nos mostra a solidão, solidão mais profunda do que aquela que «Verdes Anos» inaugurara em tempo domingueiro nos subúrbios de Lisboa. O último filme de F. Lopes («Em Câmara Lenta ») é  mais do que uma viagem ao fundo do mar, é sobretudo, pelas memórias da personagem, uma reflexão sobre a vida e a condição humana, gente que aparece e desaparece, que nos guia para a luz que deverá receber-nos.


BELARMINO

Fernando Lopes entra pela vida fora, trabalha esse boxer da margem, Belarmino, faz um «cinema da verdade», leva-nos pela mão e pelas entrevistas ao pugilista na deriva nocturna de Lisboa, uma espera, um último combate, o tempo a passar. A maturidade e a criatividade de Lopes ganham aqui uma espécie de rampa de lançamento para a (talvez) primeira obra do Cinema Novo Português, «Uma Abelha na Chuva». Peça fundamental da nossa cinematografia e cuja rodagem decorreu com meios escassos mas sob a batuta encantatória do realizador, alguém que dá ao cinema outro campo de invenção e a voz peculiar do romance de Carlos de Oliveira. Este filme tem uma sensibilidade mais rara, é em certa medida claustrofóbico, abstracto, interiorizado. «Abriu a porta à vertente obsessiva e quase experimentalista de Fernando Lopes,» algo quase mágico e surpreendente nas hipóteses formais, que outros filmes posteriores talvez não contenham na mesma dose de perturbação.


Uma Abelha na Chuva
Excepcionais interpretações de Laura Soveral, João Guedes, Zita Duarte e Ruy Furtado

Aqui deixamos uma breve homenagem a um grande artista português a quem o país tem o dever de realizar uma apresentação de toda a sua obra, menos complexo e dispendioso, creio, do que as pomposas exposições rectrospectivas de artistas plásticos portugueses e estrangeiros. O cinema é uma grande arte da comunicação, sintetizando todas as outras artes  da imagem, do espaço e do tempo.

             UM DOS PLANOS INICIAIS DE «UMA ABELHA NA CHUVA»

quarta-feira, abril 25, 2012

MIGUEL PORTAS: MORREU A DEFENDER UM IDEAL


MIGUEL PORTAS


Ao falar-se de alguém que defendeu sempre um ideal, contra a própria dilaceração da doença, sublinhamos um caso verdadeiro de coragem e de grande sentido do dever para com as próprios companheiros. É, sem dúvida, o caso do deputado europeu Miguel Portas, que morreu ontem vítima de um cancro, contra o qual  também resistiu arduamente, a par do cumprimento do seu trabalho como cidadão, estudioso e político. O jornal «Público» publicou uma página inteira sobre Miguel Portas, dizendo dele, em título, uma vida contra a corrente. Na sequência desse título, escreve ainda que o europeu do Bloco de Esquerda morreu aos 53 anos, num percurso marcado pela inteligência e heterodoxia. «Culto e afável, orador brilhante e grande dialéctico, entrou na política quando adolescente».
Muito novo ainda, no VII Congresso Extraordinário do PCP, em 1974, já como delegado mostrou-se senhor da sua liberdade de pensar e absteve-se numa resolução política. A sua grande personalidade anunciava-se desde logo.
Antes do 25 de Abril, filho do arquitecto Nuno Portas e de Helena Sacadura Cabral, Miguel era irmão do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas: de linhas ideológicas diferentes, os dois irmãos mantinham uma profunda relação de amizade fraternal e de respeito.
Miguel Portas, economista «em abstenção», dedicou-se à política e a diversas intervenções de carácter cultural, sendo bem conhecida a sua actividade como documentarista (para formato televisivo), área onde prestou testemunhos de grande valor pedagógico sobre os despojos de civilizações antigas.
Zita Seabra acentua que Miguel Portas escrevia muito bem. Sempre pensou pela sua própria cabeça, revelando-se de uma rebeldia saudável».
Miguel, lutando sempre na sua perspectiva conceptual, abordou desde logo os dissidentes do PC, procurando saber bem o curso das ideias e das fracturas. A sua fundada inquietação levou-o a sair do PC em 1991. A sua inquietude mostrava o debate que trava consigo mesmo e a honestidade que o caracterizava. A sua lisura intelectual, cultura bem fundada, deixavam-no desconfortável com as chamadas ideias feitas. A sua postura de humanista era mais decisiva, no afecto pelas pessoas, do que qualquer linha radicalista. Foi o ser humano de amável recorte, que o apartava das ideologias fechadas em cânones opacos.
Portas será homenageado no teatro São Luiz a 1 de Maio. Completaria nesse dia 54 anos.
__________________________________________________
texto baseado em diversos excertos, nomeadamente da secção Obituário, de Nuno Ribeiro




 Miguel Portas, memória de um percurso que ainda se pode admirar
    e cujo lugar na História nos dará perspectivas
 e futuras relações de ideias

sexta-feira, abril 20, 2012

A PERGUNTA RESULTOU NESTE LÚCIDO TEXTO


Anónimo   deixou um novo comentário na sua mensagem "BREIVIK DIZ QUE MATOU EM LEGÍTIMA DEFESA":

Todas as épocas históricas registam a presença de indivíduos capazes das maiores violências para chamarem a atenção para as suas ideias e para si próprios. Alguns, defendendo ideais em nome do coletivo, justificando monstruosidades com a razão pura, outros satisfazendo impulsos incontroláveis, outros ainda obedecendo a "vozes interiores". Todos se consideram seres superiores, seres iluminados, profetas isentos de culpa e acima da justiça, que desprezam assumindo orgulhosamente os seus atos. O século XX (e está visto que o XXI também começou mal)parece particularmente representado (com destaque para Charles Manson e família)mas apenas por estar mais presente na memória coletiva e à facilidade com que os mass media produzem e desfazem mitos, ao sabor de interesses quase sempre nebulosos. As fobias epidémicas que conduzem aos fundamentalismos têm geralmente um desses ideólogos como ponto de partida, como iniciador ou coordenador, cujos atos são mitificados a ponto de se tornarem acertados e até justos, por muito bárbaros que sejam. O problema não reside assim no facto de essa gente existir, grave é haver gente que se diz responsável e que sonha com uma sociedade mais justa, a considerar esses indivíduos visionários, tal como em muitas sociedades se achava que os deuses falavam pela boca dos loucos, e assim angariam apoios e seguidores. Não é difícil imaginar as possibilidades de aproveitamento político destes "visionários" criminosos. Aceito que falte coragem a terceiros para assumir os seus erros e partilhar responsabilidades, mas custa-me aceitar que os desculpem com conversa filosófica onde raramente cabem aqueles que se esforçam por tratar corretamente o seu próximo.
E cuidado com esta geração "Ickeana" (inspirada por David Icke e afins)! "O sonho  da razão produz monstros" (Goya).

SR

terça-feira, abril 17, 2012

BREIVIK DIZ QUE MATOU EM LEGÍTIMA DEFESA

Breivik

OSLO: Tribunal começou a julgar autor do episódio mais sangrento da Noruega do pós-guerra

Vários assassinatos em massa deixaram o mundo estupefacto e perplexo. Mas o caso de Breivik, na Noruega, é um dos mais espantosos e abre (ou fecha) portas para nos questionarmos um pouco mais a sério do que temos feito. Os orgãos de comunicação social cobriram largamente a intervenção bombista de Breiviki em Oslo e o assassinato colectivo que realizou e assumiu na ilha UTOYA. Na primeira sessão do seu julgamento, por ter assassinado 77 pessoas, quase todas jovens, numa calculada chacina, Anders Behring Breivik, de 33 anos, reiterou a confissão dos seus crimes, de que não se considera arrependido, e no primeiro instante da sessão saudou a assembleia com o braço direito erguido, punho fechado, procurando delinear o seu perfil desde logo.
Durante a sessão, declarou: «Reconheço os factos, mas não reconheço a minha culpabilidade no sentido penal.» Impassível, Breivik assumiu a autoria dos seus actos sanguinários mas recusou a ideia de culpa, ao mesmo tempo que considerava o tribunal incompetente para o julgar. Em atitude de desafio ás mais de duas centenas de pessoas que assistiam a esta primeira sessão do julgamento, Breivik adiantou: «Invoco a legítima defesa», explicando que actuou contra «traidores da pátria, culpados de entregar a sociedade norueguesa ao Islão e ao multiculturalismo.»
Ao indagarem a sua profissão, respondeu: «escritor.»
Quanto à legitimidade do tribunal, Breivik afirmou que não reconhece os tribunais noruegueses porque receberam o seu mandato dos partidos políticos que apoiam o multiculturalismo.
Embora mostrasse alguma comoção quando viu um vídeo ideológico de sua autoria, diz-se universitário, amante da música clássica e da «Crítica da Razão Pura», de Kant, além de se considerar cristão conservador.
É caso para questionar esta segurança e este absurdo, a razão pura e o cristão que mata gente contaminada pelo multiculturalismo. Ele teme o Islão porquê? Ele faz saneamento mortal e termos de que princípio: prevenção? Defesa contra os «pervertidos»? Aviso ao Estado de que se está, em nome de uma problemática modernidade, a deixar envolver na provocação do islamismo? Terá ele a percepção de uma morte anunciada da civilização ocidental e do perigo (para valores transcendentes) das potências avassaladoras que emergem do Oriente?

Um amigo meu mostrou-se inquieto com os factos: «Nós não podemos aceitar prevenções deste tipo e profecias sangrentas. Mas não compreendo como se fala só de crime com tanta facilidade num caso tão especialmente encenado e com fundamentos ideológicos, discutíveis, é certo, mas implícitos nas nossas próprias contradições? E se ele tiver razão?»
_______________________________________________________
texto inicial com base num artigo  de Lumena Raposo, do Diário de Notícias

domingo, abril 08, 2012

A MORTE TRÁGICA DE DIMITRIS CHRISTOULAS

Parlamento Grego

Memória de Dimitris Christoulas

manifestações por Christoulas reprimidas

A pressão das medidas de austeridade aplicadas à Grécia, na crise do euro, passa por ser remédio do equilíbrio financeiro de um país altamente endividado para permanecer com normal legitimidade na União Europeia. O empobrecimento da população em geral tem desencadeado revolta e perturbações da ordem pública, isolando os mais despojados. O farmacêutico aposentado, Dimitris Christoulas, reagiu à situação em que acabou por se ver envolvido: chegou de Manhã à praça Sintagma, diante do Parlamento Grego, buscou sombra de uma árvore secular, pronunciou algumas palavras, e disparou contra a sua própria cabeça um revolver que empunhava. Deixou algumas palavras escritas, onde se lia sobretudo: «Quero morrer mantendo a minha dignidade, antes que me veja obrigado a procurar comida nos restos das latas do lixo». Dimitris perdera 30% da sua pensão, todos os subsídios para os remédios que tomava, tornando-se incapaz de controlar todas as contas, em particular os preços em subida brutal dos bens de consumo regulares.
A morte do aposentado, naquela quarta-feira de trevas, em Atenas, lança sobre as consciências uma sombra de revolta e uma grande perplexidade. As manifestações de pesar pela sua morte surgiram no próprio dia, em reflexão. Depois disso, a polícia teve de lutar com jovens desesperados, entre distúrbios que deixam para sempre marcas de sangue nos centros da actual ditadura financeira.