sexta-feira, outubro 19, 2012

ENFERMEIROS PORTUGUESES DEIXAM O PAÍS

«Diário de Notícias» (19-10-2012):  Há dez anos era uma das profissões que tinha emprego garantido, hoje os licenciados em enfermagem são obrigados a sair do País para trabalhar fora. Só em Inglaterra, há já 1778 enfermeiros portugueses, segundo dados oficiais do Nursing & amp; Midwifery Council, organização junto da qual têm de se registar para exercer no país. O Reino Unido é um dos principais destinos desta vaga de emigração nos profissionais de saúde, mas não é o único.» Portugal, infelizmente, parece votado a exportar milhares de cidadãos formados em diversas especialidades que já poderiam estar a enriquecer a nossa História e o nosso Futuro. 
Ontem partiram mais de uma centena de profissionais desta especialidade e foi, na televisão, uma terrível cena de coragem e amargura. «Queria trabalhar no meu país, foi para isso que trabalhei, mas o meu país abandona-me. Não sei se algum dia voltarei». Se a tempestade tropical, aliada à incompetência política, atirou para o lixo contingentes inteiros de famílias e pessoas que viviam nas colónias por vezes com raizes seculares, o que aconselhava outras decisões e a devida preparação, hoje, por erros igualmente estúpidos, muitos dos nossos cidadãos não ficam apenas sem casa, amigos, família: ficam sem a própria Pátria. Muitas pessoas que vieram na expulsão rápida e em força, de Angola ou Moçambique, perderam tudo, bens e familiares, a sua segunda Pátria. Se há crimes que se julgam no Tribunal de Haia, a forma como os governos provisórios portugueses desprotegeram milhares de concidadãos, deixando que o Exército não enquadrasse a transferência de pessoas e valores, sobretudo depois de uma teimosia de catorze anos, é matéria que deveria ter sido encarada de outra forma e punida constitucionalmente.
De uma carta de ontem:
Parto do meu país, com uma licenciatura em enfermagem, porque, apesar do dinheiro gasto pelo Estado com a minha formação, tal esforço e o meu próprio empenho carecem por completo de resposta em Portugal. Não há literalmente postos de trabalho para mim e para os meus colegas. Os gastos foram, de todo, desaproveitados. Parto do meu país onde porventura nunca mais voltarei. Fomos aceites em Inglaterra sem crises burocráticas nem precariedades financeiras, técnicas e de habitação. É com mágoa que o faço, mas, para além da carta dirigida ao senhor Presidente da República, nada mais posso fazer pelos futuros colegas que estão a formar-se e que, dentro em breve, talvez já nem possam usufruir dos poucos contratos de curto prazo, entre exílios e nomadismos na terra onde nascemos.
Nome ilegível

terça-feira, outubro 16, 2012

TALIBÃS MATAM DIREITOS, COMO O DA EDUCAÇÃO

Malala, de 14 anos, atacada pelos talibãs por querer o direito à leitura
e à aprendizagem em geral

É inacreditável que o mundo (além das decomposições materialistas que sofre cada vez mais, globalmente, a caminho de uma implosão trágica) tenha ainda de aceitar sem fúria devastadora os senhores talibãs, uma gente que não se escusa de comer e de desejar o mando absoluto, mas que repele até à morte e à tortura os que procuram aprender o espaço da sua identidade, dignidade, sabendo ler e escrever, ouvindo música e vendo cinema, ganhando consciência dos seus direitos fundamentais e cívicos. Os talibãs renegam e proíbem a música, as imagens da arte, na pintura ou no cinema e teatro, entre coisas tão absurdas e radicais como essas, pelo que muita gente os julga dementes e próprios campos clínicos do outro mundo.
Atravessa o planeta uma grande indignação (embrulhada noutros lixos) relativamente ao ataque à bala contra a paquistanesa Malada, de 14 anos, dotada de uma forte consciência das "coisas do tempo" e do que prepara o futuro, através de um aprofundamento das artes, das letras e das ciências, incluindo o papel das pessoas no esforço entrosado que dá vida às comunidades. A rapariga foi atingida na cabeça e num ombro, tendo sido difícil a sua sobrevivência.
No jornal Público, de hoje, Maria João Guimarães escreve que o último crime dos talibãs paquistaneses foi «demasiado chocante (...)». Mas terá sido suficiente para uma acção militar contra os extremistas que estão a expandir a sua influência na região tribal que faz a fronteira com o Afeganistão? Uma menina de 14 anos atingida a tiro na cabeça por defender o direito à educação é impressionante. É mais chocante ainda, porque sabendo que ela não morreu os talibãs prometem voltar a atacá-la, e um dos suspeitos detidos entretanto tentou fazer-se passar pelo pai da adolescente no hospital onde ela estava a ser tratada (Malala Yousafzai chegou ontem a um centro especial em trauma em Birmingham, Inglaterra).

sábado, outubro 06, 2012

MARGARIDA MARANTE: JORNALISTA ACUTILANTE

MORREU MARGARIDA MARANTE
UM CASO DE SUCESSO NA TELEVISÃO
COMO ENTREVISTADORA INCISIVA E CORDIAL
*
Margarida faleceu aos 53 anos, vítima de um ataque cardíaco. Nos tempos iniciais da SIC, Margarida Marante notabilizou-se em estúdio, com grande acutilância nas entrevistas que fazia a personalidades de importante  recorte cultural, social ou político. O Diário de Notícias de hoje fala mesmo numa entrevistadora incisiva e também generosa. A jornalista, nascida em 1959, começou a prática na área da sua escolha aos 17 anos: conduziu, então, na SIC, programas como Sete à Sexta, Crossfire (ao lado de Miguel de Sousa Tavares) ou Esta Semana. Passou pela revista Opção, Expresso, Tempo. Em 1978 ingressou na RTP, de onde saiu em 1990. Trabalhou na revista Elle e na rádio, TSF. Em 1992 fez parte da equipa fundadora da SIC. Foi pela sua prestação nos dois canais de televisão aqui referidos que Margarida Marante alcançou o estatuto de «melhor entrevistadora do país.» Esta é uma justa e atenta opinião de Luis Andrade, antigo director de programas da RTP. Os espectadores haviam ganho grande expectativa pelo seu trabalho, acorrendo às grandes entrevistas que realizou, a personalidades de relevo, e em diversas áreas, tudo numa linha de rigor e profundidade, belíssima condução das perguntas, questionando temas e assuntos de decisivo relevo. A sua fotogenia televisiva, a par da sua natural beleza, enquadravam uma voz bem timbrada, bem colocada, entre a precisão e o sorriso.

Os seus problemas de saúde e de luta psicológica contra adversidades do seu foro íntimo afastaram-na durante algum tempo e fragilizaram-na muito. Mas enquanto exercia funções era justamente conhecida por ser incansável. O coração, esse, cansou-se ontem: teria as suas razões, Deus teria outras. Mas para nós não havia nenhuma razão justa.

domingo, setembro 30, 2012

DÍVIDA, FINANÇAS, EUROPA PENHORADA NAS RUAS

 REGRESSÃO GLOBAL DA CIVILIZAÇÃO
ONDE RENASCEM A VIOLÊNCIA E OS NEONAZIS
A utopia de uma Europa forte e unida sob a protecção decisiva de uma "moeda única", o euro, teve  os  seus criadores e os seus respeitáveis teóricos e entrou em "roda livre" com tratados blindados, acenando ao  mundo, na pompa de todas as grandes vitórias, juntando todos os países já associados na grande festa de cada vitória, de cada milhar de páginas em regulamentos e normas para tudo, aspirando a uma solidária disciplina de reordenamento da produção e dos territórios, contra a memória histórica, técnica e cultural, como aconteceu com o nosso país, compelido a afundar frotas pesqueiras e vastas plantações vinículas, entre outras rasteiras que nem a França nem a Alemanha cuidaram de aceitar para si. Daí em diante, as diferenças seculares e o assalto concertado dos credores de países com dívidas (cuja norma de pagamento vinha de longe e se fazia sem usura transcendente) resultou numa súbita crise aberta nos EUA e que impediu os "Senhores do euro" de continuar a linha bem desenrolada desde o pós-guerra, forçados a morrer de fome ou a pagar tudo em poucos anos, reduzindo por magia os déficits e sofrendo o emergir do assombro que antecedeu tanto horror e tantos conflitos. Contornando, sem olhar à regra, o seu déficit, a Alemanha e a  França fizeram as malas para um directório que abriu fendas por todo o lado, afundou a Grécia, Portugal, Irlanda, agora a Espanha e a Itália, sem norma federativa à vista e respeito mútuo consolidado. A senhora Merkel e Sarkozy, sem respeito pelo Parlamento Europeu e pela Comissão, passaram a dar ordens e a impor austeridade económica, uma vertigem para a pobreza e sem esboços paralelos dedicados a uma futura consolidação económica. E entretanto os "resgates" rasgaram países, atingiram o limite do tolerável, infectaram a paciência dos povos: Madrid veio para a rua, a Grécia já luta há tempos, Portugal suportou até ontem, a Espanha resiste por si mas enfrenta desejos de independência da Catalunha, a Itália segue as mesmas medidas sagradas do FMI e na forte e intransigente Alemanha, estranhos fenómenos sócio-culturais tomaram aldeias, donde a população foi soprada de formas obscuras, e por lá se instalam grupos radicais, hostis aos muçulmanos, cortantes e sinalizados por chefes nacionais que disfarçam a confusão ética e política. Assim parecem começar os novos tempos e assim começaram os antigos desastres.




O mundo parece soçobrar a um falso desenvolvimento que mistura raças e procedimentos, tudo relacionado com estranhas simbioses e uma espécie de Natureza em revolta, o ar sujo, o lixo na estratosfera, os oceanos, rios e terras sob o efeito de milenares poluições -- e tudo se confunde no apagamento das Estações do ano, na crise do próprio planeta, aliás cada vez mais sob o efeito de produtos e cientificidades que desagregam os ecossistemas, os paraísos sonhados, excessos sem nome, cidades insustentáveis, o embuste gigantesco do dinheiro manejado na desmedida calibração de muito e nada, de grandezas e misérias. A China emerge, a Índia também, o Ocidente assusta-se e torna-se mais cativo dos seus luxos, das suas assimetrias. Mas nada disso é bem assim. O "efeito dominó" corre em espiral e os "donos do dinheiro" acabarão por perdê-lo nos próximos dilúvios, Dubai batido por estranhas areias, o Islão procurando implementar as suas próprias Cruzadas, em vez de das duas torres gémeas virá ainda um raio de estrela, os arranha-céus terão também o seu tempo de apodrecimento e as cidades em altura cairão por terra, restando, em vez do dólar e do euro, ilhas longínquas, no mar e na terra, onde os sobreviventes terão de inventar novos processos de manter a espécie e de moderar os hábitos, os desejos, os sonhos. Talvez até acabem as moedas. E um dia terá acontecido o envelhecimento da Europa, povoada da agricultores, sem banqueiros, tratando da alimentação regular e parca, das comunicações menos repentinas e menos globalizantes, trotando em carros de ligação, sem usura, sem Papas nem Cardeais, nem Ayatolas, nem Cristo, nem Deus. A ciência recomeçará sem ostentação. Porque, já no século XX havia muito mais coisas para descobrir e ordenar moderadamente do que encher uma ilha de centenas de prédios com mais de cem metros de altura. As escalas definem tamanhos determinados, mas não é isso que determina o valor nem das coisas nem da arte.
Portugal tem de voltar a navegar. E a China, derrubando as cidades vazias que edificou para os seus escravos, voltará a cultivar o arroz. Buda será enviado para o Nirvana e, no seu lugar, matadouros floridos servirão para matar e tratar a grande cultura de todas as vacas da Ásia. Lenine ressuscitará para criar uma estrutura pronta a exterminar todas as máfias que acederam à Rússia, ajudando a acabar com as outras, nos outros lugares do mundo onde existe esse flagelo. Os velhos poderão descansar nas igrejas. E os conventos, com as suas ordens religiosas, acolherão população envelhecida e dedicar-se-ão à produção de géneros básicos, para a alimentação e o vestuário.

terça-feira, setembro 25, 2012

CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE ALBERT CAMUS


ALBERT CAMUS  
prémio Nobel da Literatura 1957

Vivemos uma época de grandes conflitos, global mas fracturante, refém do dinheiro e de várias submissões, em guerras depois da última Grande Guerra, e são cada vez menos os que festejam os grandes artistas que marcaram a história e a cultura de forma indelével. Está a ser gerida uma mostra dedicada a Albert Camus, ancorada na data do seu nascimento. E parece que este grande escritor, prémio Nobel de forma cristalina, é outra vez Estrangeiro numa França que, segundo se lê nos jornais, se encrespou em torno desta exposição, vivendo uma «guerra civil da cultura». A PESTE voltou e não foram os ratos que a trouxeram. Ao abrirmos esse livro podemos ler uma citação da Daniel DeFoe: «É tão razoável representar uma espécie de encarceramento por uma outra como representar qualquer coisa que realmente existe por qualquer coisa que não existe». 
Mas, atendendo à morte aparente do bacilo da peste, Camus avisa-nos que ele de facto não morre, persiste nos mais recônditos lugares, anos a fio, «nos lenços e na papelada e que virá, «talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordará os seus ratos e os mandará morrer numa cidade feliz».
Algo de semelhante está a acontecer e confundimos tudo com crise e progresso.

terça-feira, setembro 18, 2012

SÍSIFO CAÍU DA MONTANHA ENROLADO NA PEDRA



Passos Coelho, primeiro ministro de Portugal, e Paulo Portas, ministro nos Negócios Estrangeiros, envelheceram nestes últimos dias amareladamente: um deles queria representar o papel olímpico de Sísifo, há um ano que transporta a pedra do castigo para o alto da montanha. Mas, à quinta vez, escorregou numa casca de banana e enrolou-se no bloco que o arrastou  para o fundo da Segurança Social. Portas ficou com o papel ímpio na mão e falou no belo estilo dos "homens de Estado": não concordava com a ideia da TSU
os trabalhadores aumentados na taxa social, que ofertavam aos patrões a fim de que esses obtivessem melhores condições para aumentar os postos de trabalho. Do fundo do buraco negro da «Segurança Social,» Coelho geme e grita que nada o fará recuar, nem mesmo o poço cósmico em que se encontra. Paulo repete que não pensa desfazer a coligação, pois sabe que vai logo parar ao inferno, pede apenas algum «manejo», uns retoques mas, seja como for, está tudo bem. Há um ano sonâmbulo, o povo veio todo para a rua, mais comportado do que os seus políticos.
Realmente, que raio, agora que já se esbulhou (excepto os ricos) quase toda a gente e que a Troika até nos acompanhará até 2014, que raio de birra é esta: há pelo menos vinte maneiras de arranjar uns trocos, tanto mais que os patrões até vão oferecer aos trabalhadores a cobrança para eles projectada, equilibrando os dinheiros de todos e inventando maneiras menos pobres de tratar do aumento dos postos de trabalho, pois aquela solução era pior que um eufemismo e nem sequer engordava os nobres empreendedores. Lá porque mora onde mora e faz dieta, o primeiro ministro Coelho (Passos) não deve disfarçar teimosia e arrogância em jeito de menino bem comportado e nada arrogante. Dobre lá o papel. Divida isso em partes iguais. E mande flores à Merkel, um galo para o Elyseu, dois biliões de tostões aos amigos gregos. Para Espanha basta uma caçadeira e para o CDS a medalha de bom comportamento. Daqui a oito dias faça uma festa, visite o BCE com um pacote de dívida portuguesa (da melhor casta) e diga ao maior banco alemão que até os grandes se esvaziam e que até em Portugal há bancos chiquérrimos.
É que os senhores não têm nenhum problema entre mãos. têm a pedra. Façam dela um monumento à Troika e mandem outro "cão-de-água" ao Obama.
Não se esqueçam de começar a prender os corruptos, os que já mandam em vocês, incluindo o catedrático a quatro bancos. Barrela, limpeza, avante pelas autoestradas acima.

DE GATO A LEÃO, MIA COUTO COM O SEU MELHOR

Enfim
TERRA SONÂMBULA
A CONFISSÃO DA LEOA
Encalhei durante muito tempo na escrita de Mia Couto, porque a tentativa de dizer África e os seus mitos e os seus povos, tudo passava por uma bondade inocente e por certa disneylândia de neologismos assaz ruidosos que salpicavam poquenos livros ou contos.
Desejando corrigir o que hoje tem, para mim, outra face, agradeço ao próprio Mia Couto ter sabido alcançar uma grandeza literária bem engrenada no espaço e na cultura africana, na devida extensão, na imagética e vaga fantasmagoria de gente ou espíritos, com leões que anunciam restos de erros, assimetrias do poder e do território. Este Mia Couto é quem há muito eu esperava.
Foi com estes dois livros que me deixei convencer, porque a paisagem vista do "velho autocarro" mistura duas tragédias, milhares de memórias, ou suprema deambulação dos mortos sobre os destroços das guerras. A escrita concebe-se naquele continente a flutuar, em terra e no oceano, espaço todo feito por referências de eleição. Quando se lê «não havia aldeias no desenho do nosso futuro» estamos a navegar sem restos de canas fingidas (neologismos) a cada mergulho das pás dos remos. E a respiração aproxima-se da nossa interioridade e da próxima experiência de África, no cume do desastre que muitos de nós viveram.
Quando li a sinopse deste segundo livro, talvez pela redacção de banda desenhada, ali parecia ostentar-se um outro escritor (inicial) que não ultrapassara a curiosidade invulgar pela história real convocada. E pensei que se perderia uma colossal metáfora sobre a memória da construção colonial, entre erros e sonhos, da imensidade dos povos em espera. Mas não. Tratava-se de uma obra maior, verdadeiramente inesquecível.

terça-feira, setembro 11, 2012

O GRANDE CINEMA CUJA VIDA ESTÁ EM PERIGO

                                                                                            1
 
                                                                                         2

Cito aqui dois filmes que se notificaram em Cannes. Os festivais são ainda o que sobra das melhores escolhas de arte no espaço empestado da civilização sobrevivente, gananciosa, infectada de bolsas de infecção industrial e de outros estereótipos.

1- filme de Kim Ki-duk, PIETA (Leão de Ouro)
2 - filme de Wang Bing, THE SISTERS (Prémio Secção Horizontes).

Aqui se lamenta, mais uma vez, que os monopólios da distribuição, em Portugal, continuem a facilitar o caos de gostos e de falsos entretenimentos, sem um ciclo sequer de obras actuais e no plano histórico, produção especial de autores exemplares para que aconteça um pouco o que aconteceu quando o Quarteto passou toda a obra de Tarkovsky e a Cinemateca fez ciclos de Kazan e Welles, os eternos pilares que estiveram acima de toda a indústria do cinema em desenvolvimento, hoje corroída pela doença crónica do imaginário americano, monstros e efeitos irreais, ruído, um largo tsunami de lixo que muitos copiam e mal.

domingo, setembro 02, 2012

AFUNDEM O SERVIÇO PÚBLICO DA RTP1 NA RELVA

MATEM A RTP2
ÀS MÃOS DO CAVALEIRO DAS TREVAS
SEMPRE A MELHOR ESCOLHA 
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Logo ao pequeno almoço, João Lopes, crítico de cinema e de olhar apurado, apeteceu-lhe variar um pouco e comer uma boa taça de morangos, a par da projecção do fabuloso e bem apoiado filme MORANGOS COM AÇUCAR. Toda a gente sabe do que se trata, justamente na hora em que o governo, sem tabus nem histerias, se prepara para vender ou concessionar o canal 1 da RTP e fechar a sete chaves o canal 2, onde ainda perpassa um leve perfume de cultura, integrando notícias e referências de quase todas as artes sobreviventes em Portugal e no estrangeiro. Ao lado do repasto, o crítico tinha uma nota e uma imagem sobre o filme «Oslo, 31 de Agosto», filme da Noruega, sem morangos.
Ao começar, pouco depois, a escrever a sua coluna para o DIÁRIO DE NOTÍCIAS, acentuando, nomeadamente: «não se pode esperar que um público educado por Morangos com Açucar mostre o mínimo interesse em ver, por exemplo Oslo, 31 de Agosto, um belo filme norueguês, estreado no mesmo dia de Morangos, que não passou em nenhum noticiário televisivo. Tem a ver com quê? O ser ou não ser jovem, a dificuldade de amar e a dependência de drogas. E tem alguns actores sem tiques publicitários, a começar pelo brilhante Anders Danielsen Lie.»

«Oslo, 31 de Agosto»
João Lopes chama a atenção para o ostracismo a que vai ser remetido este filme. As performances das bilheteiras «desenham uma fronteira intransponível.» Reconhecendo Esse desastre cultural, Lopes acrescenta apenas «que o comércio é a primeiríssima forma de cultura. Na sua inquestionável inteligência, os responsáveis pela operação Morangos com Açucar sabem que esse evento existe «como um perverso ministério da cultura, com um poder simbólico superior ao de qualquer instituição educacional.» E sublinha: «Meus senhores, eis a crua verdade: os grandes agentes culturais são vocês».


o homem do leme: deixa a RTP 1 para um opaco campo de relva

Pela nossa parte, esta intervenção de João Lopes é exemplar: e este tipo de «discurso» deveria constar do contrato de concessão da RTP1 a uma «agência privada». Por conceder apenas, e à borla: não compensa em nada o país, nem a história nem a descoberta científica ou cultural. A excelência dos privados (mito lusitano sem nexo) vão tratar da sua courela, criar outras e mais clientelas acéfalas, desbaratar um fio condutor que deveria ser moderno e isento.
Sobre este bizarro e mal anunciado evento, João Lopes é oportunamente sarcástico: «A conjuntura apela ao desespero da caricatura. Assim, depois de pelo menos duas décadas de metódica degradação populista do espaço televisivo, nasceu das pedras da calçada uma avalancha de gente preocupada com os destinos da RTP, incluindo alguns políticos que nunca ligaram ao assunto. António Borges foi o santo milagreiro: com meia dúzia de palavras displicentes, conseguiu consagrar o reconhecimento de uma verdade rudimentar, regularmente enunciada por alguns críticos de televisão nos desertos do nosso pensamento democrático: que a televisão (e, em particular, a RTP) é uma questão absolutamente prioritária na conjuntura político-cultural portuguesa.»

Diremos nós, deste sítio de reflexão, oiçam as palavras deste homem e olhem para as sombras que restam na vil exploração das imagens e das consciências.


OREMOS

quinta-feira, agosto 30, 2012

UMA CIVILIZAÇÃO DO DESPERDÍCIO E DA BELEZA


fotografia de Miguel Baganha

Desde que apareceu no firmamento das artes visuais em Lisboa, Miguel Baganha pintou e fotografou, acedendo a galerias, iniciando uma aventura hoje tão difícil e agarrando o sentido  da experiência, interagindo entre o ver e o fazer em dois campos fundamentais das artes da imagem. No caso presente, há uma ironia e uma tragédia, desde a ideia que envolve utensílios do quotidiano, cruzetas, formas de plástico amolecido, em monte, e a memória de um certo belo horrível que ainda emerge das valas comuns da última Guerra Mundial, documentos de milhares de corpos nus assassinados metodicamente nas câmaras de gás. O uso daqueles materiais  precários,  ferramentas de plástico, não basta para cumprir a modernidade, a instalação original: é preciso, fundamentalmente, entrar com isso no domínio dos conteúdos de referência ou metáfora, o mundo da simbologia inerente à própria vida espiritual e cultural da Humanidade. Aquelas matérias e elementos, convocados assim, podem resvalar para uma prática populista, mera curiosidade de  efeitos frívolos, ao contrário do que se espera na instauração da forma artística lugar de comunicação no qual valores estéticos e conceptuais responsabilizam a mensagem como sempre aconteceu nas diversas civilizações ao longo das épocas,  sentido dos sentidos inerentes à realidade humana.

sábado, agosto 11, 2012

FABRICO DE MENINOS MORTOS PARA MÃES CEGAS

olhem primeiro para estas crianças:
estarão a descansar, algumas a dormir
ou todas mortas por serem fictícias?

Não é fácil aceitar tudo o que as grandes indústrias das falsas necessidades nos impingem, desde um porta-chaves com horas e sinais sonoros incorporados até crianças fictícias para ajudar mães cegas de amor ou de frustração, talvez apenas maníacas dos jogos da moda. Colocam à nossa disposição brancas de Neve e Bruxas, Batmans e Super Homens, livros electrónicos e telemóveis que cantam as nossas canções preferidas. E porque não bebés de vinil, realistas, hiperrealistas, à escala real, acabados de nascer (mortos) ou sorrindo e susceptíveis de lavar (sem vida)? A fantasia das nossas cada vez mais comuns falências chega a este limite de non sense, produzindo filhos inviáveis que certas senhoras estéreis ou saudosas do seu próprio corpo compram e tratam a fingir, vestindo-os como se fossem passear em carrinhos no jardim do bairro. A invenção pagável do homem chegou ao ponto cego de superar Deus, manipulando os homens e as mulheres até se enganarem com falsos filhos que vestem, fazendo ressoar o seu coração a pilhas, para que os falsos iludidos se deleitem com maiores ilusões. As crianças que morrem lá longe, ou ali à esquina, podiam fazer melhor encenação; e a segurança social que as sequestra e que não incentiva a sua adopção, em processos bem semelhantes aos da Inquisição, melhor seria que enterrasse os bonecos, ursos e bonecas de borracha, vestidos com trapos e meias rotas.
Entre os artigos que saíram tratando este ímpio fenómeno, um deles diz: «Trocam-lhes fraldas, dão-lhes biberões em dias de frio e investem em cadeirinhas de segurança para os poderem transportar de carro.» Uma senhora diz no seu blogue: «A minha bebezinha é a coisa mais linda do meu mundo.» O amor desta mulher brasileira, a caminho dos 50 anos e com dois filhos adultos exprime-se agora através do seu Bebé de vinil, que veste e trata com desvelo: «Os meus filhos ficaram mais felizes e mais iluminados depois desta bebé».
Esta barbaridade sem nome, que explica muitos desvios psicológicos vindos da nossa colossal civilização de embustes e objectivos dissolvidos no dinheiro e na futilidade, chega assim a um novo pico de loucura, como se não bastassem as odiosas e incultas barbies. Agora, pela técnica reborn, um novo sucesso  entra nos bolsos do mundo das frivolidades e das neuroses coloridas, entre meninos e meninas pretos ou brancos, a dormir ou mortos à partida.
Que é que andamos a fazer às pessoas e com a sua cada vez maior falência irracional?

terça-feira, agosto 07, 2012

VERSALHES, JOANA VASCONCELOS E A LOGÍSTICA

Publiquei aqui, há tempo, um comentário sobre a exposição de Joana Vasconcelos em Versalhes e sua alegada projecção de Portugal além fronteiras. Indústria cultural importava pouco, dizia-se por cá, o que conta é que ela derrame marcas lusitanas sobre o mundo. Ora eu não venho desdizer os meus pontos de vista, os quais apontam para uma projecção portuguesa mais substancial, aberta e pluralmente qualificada, como acontece com alguns dos nossos cientistas.
Seja como for, ouvi pela televisão uma análise ao excelente trabalho de montagem da equipa portuguesa que apoiou Joana, à logística impecável nas soluções e a todo o envolvimento de comunicação que chegou a vergar os franceses mais cépticos. Esse aspecto é relevante e quero acentuá-lo para que o meu olhar seja mais justo e mais completo.