sábado, março 30, 2013

JOSÉ SÓCRATES E DUAS CITAÇÕES BEM OPORTUNAS

Desta vez não vou escrever apenas por minha conta: vou viajar por dois textos notáveis, de grande lucidez relativamente à insanidade global deste mundo cada vez mais perigoso, profundamente castigado pela voracidade do dinheiro e do poder, a Europa em perda e os mais poderosos fracturando o que deveria ser uma União solidária na própria pacificação das diferenças.


José Sócrates, ex-primeiro ministro em Portugal, derrotado de forma polémica em 2011, fez votos de silêncio e partiu para França, onde se dedicou, durante dois anos, ao estudo da ciência política. A ausência ainda foi enrolada, pelos "mentideros" de Lisboa, em celofane dourado, boatos de vida luxuosa, mais boatos que é típico, entre nós, fazerem de notícia e alimentarem os jornais. Sócrates, em terrenos de surpresa, voltou a Portugal e, a convite da RTP, concedeu uma entrevista de auto-defesa, retrato do que terá feito de correcto no nosso país e comparando situações, nomeadamente perante o caos de austeridade que nos vai engolindo. Usando uma metáfora, Sócrates comparou a estratégia do governo a um mergulho num poço, no fundo do qual, entre lamas, continua a escavar para aprofundar a famosa austeridade. E disse: se eles se deixassem convencer seria preciso gritar-lhes -- parem de escavar no fundo do poço. Daí nunca mais poderão voltar. É preciso parar a escavação.

Clara Ferreira Alves

«A neurose colectiva fez de Sócrates uma celebridade administrada pela ausência em vez de um chefe político. (...) E os comentários dizem tudo sobre os famosos ajustes de contas. Pode ser que Sócrates tenha regressado para ajustar contas com o Presidente e os outros, mas os jornais usaram esse regresso para ajustar contas com Sócrates. Nem sei bem porquê. (...) Acho tão inútil odiar Sócrates como odiar Merkel. No dia em que em que ao espião privatizado Silva foi oferecida uma sinecura na Presidência do Conselho de Ministros, acto político que nos deveria fazer vomitar, as pessoas escolhem odiar Sócrates. No ano em que soubemos que uma quadrilha de amigos do Presidente não paga o que deve ao BPN e temos nós de pagar por eles, milhares de milhões, as pessoas escolhem odiar Sócrates. No mês em que a nossa saída do euro está por um triz, as pessoas escolhem odiar Sócrates. Que lhes faça bom proveito. (...)
«Se Sócrates fosse o bandido que fugiu para Paris e para uma vida de luxo com dinheiro roubado no Freeport (campanha mais infame do que a da homossexualidade) não tinha regressado. Vi um homem de consciência tranquila. A pergunta que me interessava ninguém a fez. E a Europa? (...) O que faria Sócrates hoje para acabar com a austeridade e garantir os pagamentos? Tenho curiosidade de fazer esta pergunta a  um  líder político  em  vez  de esperar que  um  funcionário, o actual chefe do governo ou o da oposição, me responda.»



Miguel Sousa Tavares

«Primeiro que tudo e para memória futura (até porque o tempo se encarrega de inverter  situações e posições): que fique registado que muito boa gente defendeu, sem pudor, que José Sócrates devia ser silenciado para sempre.
posto isto, a questão imediatamente relevante era a de saber porque quis, ele próprio, regressar agora. "Por direito e por dever e porque está na hora", respondeu Sócrates. Quanto ao direito, com aquela ferocidade e eficácia que é bem conhecida e justamente temida: dois anos da "narrativa" de que todos os males de que padecemos se devem aos dois anos de governação irresponsável de Sócrates, entre 2009 e 2011 -- em que ele sozinho terá contrariado a vontade de todas as forças políticas, todas as forças económicas e todo um povo, que nada mais suplicavam do que poupanças do Estado -- tudo isso ficou seriamente abalado depois da longa prestação televisiva do réu. Compreende-se bem porque o queriam calar para sempre. (...)
«Desde ontem que anda um animal feroz à solta na cidade.»

domingo, março 17, 2013

UM REQUIEM PARA REFUNDAR QUE PORTUGAL?

jornais e quotidianos de um país que se enganou na Europa

de um filme de Paulo Rocha

Abri mais uma vez o jornal e senti uma grande tristeza e rasguei aquelas folhas de papel atulhadas de fotografias e de letras subitamente encavalitadas na névoa dos meus olhos: pareciam flutuar numa qualquer água suja, fundo de terra afundando-se. Havia por lá palavras como «espécie humana», como «sangue», «recua» ou «Kyoto». Antes de minorar o fumo tóxico que chega a encobrir Pequim, obrigando a população a usar máscara, devia pensar-se no sentido que tomou a actual civilização, nos impérios falidos e nos que se julgam com direitos sobre os pobres que sobraram. Para que serve a arrogância nórdica, incluindo a germânica e a britânica, se o Mediterrâneo ainda está a atear a sua Primavera e a China está para chegar (já poluída) se calhar abraçada à Índia, pujante e fracturada, espalhando violações por grandes manchas humanas sem segurança mas carregadas da maior produção de cinema coleante do mundo.
Portugal fez uma descolonização tão repentina e aberrante como o surto de austeridade da Troika, depois de uma guerra de catorze anos, em que houve tempo para todas as refundações e não se tentou nenhuma, tendo sido espoliados dos seus bens, afectos e velhas famílias, quase um milhar de portugueses, aos trambolhões, numa ponte aérea internacional, voraz, sem que os militares tivessem, no mínimo, assegurado a nossa honra e a dos adversários, que visivelmente não estavam à altura da sua. Mário Soares não tem nada que se molestar com isto, eu estive em Angola e sei o que digo: nem a guerra tinha razão de ser nem o epílogo podia ser decidido por gente ensandecida, apaixonada ou politicamente de cabeça quente. E as forças armadas que não se amofinem, porque se tinham pressa em sair dali, o que já podiam muito antes de haver tentado, no mínimo reformavam-se, a par das populações que o desejassem, e CONTINUAVAM LÁ, em plena independência dos emergentes países, até que os verdadeiros cidadãos e suas naturais reformas fossem transferidos para lugares apropriados, sobretudo na Pátria que segurara as pontas com tanto sacrifício. Salazar pensou assim, recusou emendas, e teve lá o seu voto julgando-se sempre Presidente do Conselho. A sua visão do futuro, mesmo quando a guerra já durara uma década, era mais do mesmo. Essa loucura repete-se hoje, aqui, no desemprego e na fome.
Como agora, numa Europa a que aderimos em jeito cosmopolita, e que, após o desenho da utopia, começa a desmoronar-se, fracturando-se por nações que se habituaram a ser diferentes entre si, respeitando-se assim até lhe derramarem dinheiro novo por cima, desde que cedessem (como aconteceu a Portugal) meios e produções centenárias. Falam no esbanjamento do Sócrates, mas o desastre começou logo com o PREC, com as apropriações de bens alheios sem medida jurídica, sem lei nem roque, sem amanhãs cantando. Aquilo não era bem uma revolução e por isso não tinha nenhuma legalidade revolucionária, o que se pode analisar caso a caso, antes de se restabelecer a justiça (lenta e por vezes mesmo cega) e um princípio constitucional que chegou a estar cercado no edifício da Assembleia que o procurava democraticamente definir.
Por isso chegou a vontade de recolher as algas da maré: calibrando maçãs e laranjas. Mas os frutos bons que não tivessem a medida da Europa caducavam para espaços de mendicidade. Os velhos do vinho foram comprados para venderem as vinhas, os pescadores para abaterem a frota, os agricultores para se aconchegarem em casinhas com uns milhares de euros para a sopa. O governo abriu braços e pernas, desatou a usar dinheiros e fortunas, fundando «fundações» de betão, políticas de crédito à habitação e mil e uma coisas que atingiram as compras lunáticas dos Ferrari. Os grandes impérios económicos, cada vez mais habituados a reinarem sobre ditaduras e democracias, envenenando a economia e  tudo o que a pobreza enganara de sonhos, caíram sobre povos inteiros, uns rebentando do miolo, com o dólar, outros prosseguindo a sua globalização e mandando os credores pararem créditos, exigindo pagamento de dívidas (colossais) com as quais afinal haviam vivido à tripa-forra.
Veio o governo de Passos e de Gaspar. O país estava de rastos e os mais ricos sopravam dinheiros para tudo quanto era sítio seguro. Foi sempre assim. Os «cortes nas gorduras» é uma expressão afinal popular e não técnica; e a mando da Troika a austeridade, com mais impostos e raspagens de emergência, fizeram o país ajoelhar em menos de um ano, sempre num descasque mal esclarecido e sem qualquer conotação com as reedificações económicas perante milhares e milhares de falências e milhares e milhares de desempregados, sobre os quais se somam, pelo menos, duzentos mil emigrantes. Uma espera digna, com manifestações dignas, tem facilitado a vida a um governo de palavras intermitentes e de nenhuma narrativa capaz de explicar cada fase do mergulho. O ministro das Finanças, é cada vez mais um personagem beckettiano e menos ministro.
Projecta bonecos e fala palavra a palavra, por vezes redundante, apesar da escrita. Todos, lá fora, o consideram figura de destaque. Os pobres de Portugal não percebem nada disso. Dizem: aquela história da idade do gato era uma saudade qualquer dos gatos que lhe faltam.
Agora faltam ainda, por mais um ano, ou dois, ou dez, ou vinte, mais quatro milhões. Em que país civilizado tais reviravoltas continuavam a ter credibilidade ou gente com paciência para tanta raspagem do tacho sem um abrir de janela. Que não há alternativa. Que vamos no caminho certo. Os gregos aprenderam depressa essa lição. Aqui há tempo, Passos prometeu que «não ia esticar a corda» -- falava da austeridade sobre os portugueses. O pior é que a corda já partiu e ele não deu por isso, continuando a ver passar o rio da austeridade sem saber como pôr o país a flutuar.
António José Seguro ensandeceu, faz demagogia, ergue cada vez mais a cabeça, mas afunda o PS com a actual maioria.
E a alternativa?
Pois meus amigos: lembram-se da ponte aérea e do colonialismo despachado num ápice? É o que temos de fazer. As coisas que estão a mais e ainda disfarçadas devem ser roubadas ou destruídas. As forças de investigação e judiciais devem controlar todas as saídas patrimoniais e, no plano virtual, assaltar os bancos e os grandes vendedores cujo dinheiro voa para parte incerta, desfazendo tais nós e recolhendo valores mal parados. As rendas voltam a subir, pela mão dos tais senhorios bondosos: qualquer buraco custa 800, 1200, 2000 euros. Daqui a cem anos vão chorar porque ninguém pode fazer obras com rendas da 1200 euros. Um estado moral e moderno deveria criar tectos de compra, de aluguer, sempre numa escala que não despejasse as pessoas na rua nem as mandasse emigrar, antes as colocasse num grande plano ordenador do território, entrando pela terra adentro e criando condições novas para a agricultura e cidades redimensionadas. O que há para refundar não é o país, propriamente dito, mas a rede de contradições do governo e a falta de perspectiva  para tornar paralelos o nivelamento ajustador (reequilibrando o que for necessário) e o plano inclinado (a subir) onde já brilham muitos sucessos e faltam outros espaços de produção bem ponderada e inovadora. 
Esse trabalho não pode ser como uma guerra de catorze anos e um milhar de espoliados: está-se a repetir, com duzentas mil casas novas mas vazias, o abandono das propriedades primeiro arrancadas aos famosos latifundiários e os oportunismos perante quem chega de mãos a abanar ou quem parte da mesma maneira. Essa já não pega. As grandes e cegas teimosias alastram pelo território sem nada produzirem. Depois ficam impunes aqueles indivíduos que chuparam o BPN (não gosto deste lugar comum mas é o que temos de mais sensacional, depois das relvas e da idade dos gatos). O medo não é o do filósofo, medo de ser português. O medo é o de não ser português em Portugal, onde há tantos recursos fora do manejo golpista dos dinheiros e das megalomanias estradistas, surfistas, futobolísticas.
Do Editorial Diário de Notícias 17-03-2013
O ministro das Finanças conseguiu retirar o País de uma encruzilhada e empurrá-lo para um beco sem saída. A austeridade não é, como prometeu Vítor Gaspar, o passe matemático que nos levaria ao crescimento. Falhou. Não se trata de deificar as previsões. Todas podem falhar. Até Passos Coelho já diz que «previsões são apenas previsões». O pior é que não são apenas. O País não é uma previsão, a recessão que nos arrasta para a pobreza não é uma previsão, o défice que ultrapassa todas as barreiras não é uma previsão, a dívida que cresce descontroladamente não é uma previsão os direitos perdidos e ameaçados não são uma previsão.
Hoje mesmo Vítor Gaspar disse «não sei», «não tenho plano B, nem plano C», numa conferência de imprensa onde se colocava o problema da inconstitucionalidade eventualmente confirmada até dois mil milhões de euros pelo Tribunal Constitucional. De súbito, a incompetência constitucional do governo pode colocar-se como um impasse e uma demissão. O euro não poderia ter sido desenhado assim nem estar sujeito a uma indevida partilha: quase pleno emprego a norte, colapso quase mortal a sul, já com xenofobias intragáveis.
O líder socialista, que agora assume a ruptura definitiva com o Governo e já não exclui uma censura parlamentar, mesmo que ineficaz, sabe que está mais próximo de ter de assumir as suas responsabilidades.
Mas qual é o caminho para o futuro  que propõe António José Seguro? As sondagens são aterradoras no balanço entre os dois maiores partidos: dir-se-ía que o país não olha para os líderes dos partidos, todos, incluindo o CDS, comentando «venha agora o outro». Não: o que o país, mesmo aquele que não vem para a rua, está a afirmar é que, no termo (ou antes) deste mandato, todos têm de jogar para a mesma baliza. Será uma espécie de ruptura com o sistema, uma obrigação ética, política e nacional.

domingo, março 03, 2013

VILA MORENA CANTADA PELO POVO HUMILHADO

Grândola Vila Morena


 Ontem, sábado, dia 2 de Março de 2013, poucos meses depois de uma grande manifestação contra as medidas de austeridade a que se chama tecnicamente ajustamento, o povo voltou a sair à rua na boa ordem com que tem enfrentado os famosos "cortes orçamentais", brutais, cujo caminho visa acertar o déficit e seguir, até perdas que já chegaram ao fundo, o passo desta derrocada civilizacional, pelo eixo torto da assombrada Globalização, talvez a mais ignóbil maneira de "juntar tudo no mesmo cesto", unificando os ricos nas suas grandes redes internacionais e massificando o dilúvio universal da pobreza, a próprio Europa (que já foi uma bela utopia) escangalhada perante a pressão dos países do norte e de maior poder, alheios a um sistema de facto solidário, vinculador das realidades nacionais a um governo central, presidente eleito por todos os países do euro, Banco e Fundo coordenando projectos, orientando ajudas "a fundo perdido" e com retorno, sem que as pseudo-elites do Norte pudessem humilhar os tais pigs, os «sonhadores preguiçosos do sul».


  A História não ensina nada disso e a Alemanha, que conseguiu ignorar o parlamento europeu, a Comissão, o Presidente, "batendo o pé" ao Banco Central, e enquanto Merkel não ganha as eleições, não fez outra coisa senão convocar reuniões gerais, com agendas torcidas, vinte e tal reuniões de ministros daqui e de acolá, todos a acordarem das noites longas "com as mãos a abanar". A Alemanha dissera que não, a Alemanha reagira mal, a Alemanha não considerou conveniente. A tibieza dos outros ministros contribuiu para um rasto imperialista que poderá colocar a Europa a jeito da derrocada do euro e da explosão das misérias, num conflito de novo armado. Devia a Alemanha repensar melhor estas coisas, porque ela pode parecer grande para a Europa mas é, sem qualquer dúvida, pequena para o mundo inteiro -- o que já foi provado em duas grandes guerras cujo centro foi ela própria. A verdade é que as virtudes germânicas não são as maiores do mundo, nem podem servir de modelo canónico a toda a gente. A Humanidade enfrenta a avalanche de diferenças e semelhanças que emerge de grandes países a Leste. A deslocação de empresas para explorar lá o que não dá cá, e assim por diante, é mais um mal da Globalização do que uma virtude da mobilidade. A tecnologia e o mamutiano poder financeiro, com Goldman Sachs feito assombração das grandes manadas em todo o lado, subterraneamente a mandar em quase tudo o que pode agitar-se na vida e ser esbulhado na cabala dos dinheiros, febre infecciosa que se espalha um pouco por toda a parte e cria credores como cogumelos para entalarem, com súbitas regras contraditas, milhares de países da zona de sombra e miséria que já não tem forças suas capazes de varrerem o lixo à sua volta, nem colher plantas familiares, nem proteger as famílias e a distribuição das demografias. A fome alastra, como o desemprego, e os países mais frágeis vêem os seus filhos (na alucinação das grandezas) emigrar em massa para tudo quanto é sítio onde o dinheiro ainda fervilha e os consumos permitem ilusões por mais uma ou duas décadas.


 Portugal, preso ao contrato inflexível da Troika, tem um governo de maioria que se dispõe a cumprir "à risca" e à rasca tudo o que era corte de despesas, tendo devastado grandes estruturas industriais e económicas do país, sempre sem reservar corredores para a economia e o retorno a áreas de que abdicou cegamente às ordens de Bruxelas: agricultura, ordenamento do território, frota de pescas, marinha mercante, estabilidade do mercado interno e do emprego. Repor tudo isso com algum bom senso, mostra-se agora um sorvedor de mais dívidas e juros colossais, que algum computador na Goldman Sachs alinha em "tranches". Os cortes nas pensões, vencimentos e por aí adiante, com taxas inventadas até ao ridículo, abateu desde há dias a classe média para metade. Abandonam-se os velhos, exalta-se a juventude desempregada, aponta-se para mais uma necessidade de quatro mil milhões de euros. Se isso se reflectisse, mesmo devagar, numa parte do que foi destruído e é essencial para um nível de vida médio e equilibrado, a gente pensaria que "do mal o menos". Mas não é nada de nada: o governo não ensina o país a perceber para que serve a recessão e a pobreza compulsiva, sem medidas a médio e longo prazo visando os direitos fundamentais da pessoa humana.
 Lisboa foi atravessada por centenas de milhares de pessoas, além de outras cidades, numa mobilização à volta de um milhão de cidadãos. Muitos deles expressaram-se para a televisão com grande mágoa e uma dignidade comovente. Tem sido sempre assim, fora um ou outro acidente manipulado, incluindo cruzados nómadas, vindos do Além. A Troika está em Portugal, numa sétima avaliação. Os agravamentos da situação, que a teoria não resolve em termos de pessoas, obriga agora, apesar de divergências da oposição e de um Partido Socialista sem grandeza nem sabedoria, ao qual muitos de nós legaram as suas esperanças não há muito tempo, a planear novas soluções para vencer o desânimo e a desestruturação do tecido empresarial, tendo em conta os valores do último trimestre de 2012, confirmados pela subida continuada do desemprego. 
 "Santos de casa não fazem milagres", mas os santos da Troika mostram-se cozinheiros de uma só cozinha, sem elasticidade e invenção ou modo capazes de reencontrarem o futuro.

sábado, março 02, 2013

MORREU EDUARDO NERY: OBRA PLURAL, IMENSA

Eduardo Nery

Morreu hoje, de manhã, o artista plástico Eduardo Nery, grande pintor formado pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Nasceu na Figueira da Foz, em 1938. A sua capacidade de pesquisa e de desenvolvimento de novas formas em diversos procedimentos artísticos, desde o desenho e a pintura à escultura, à tapeçaria, arte pública em vários meios, arquitectura de interiores, instalações, tratamento da cor no espaço urbano, desenvolvimentos experimentais a partir da arte africana (que coleccionava) e também na gravura e na fotografia, onde é inventor de soluções poéticas surreais e do fantástico, entre outras. Tudo isto com grande rigor e um cuidado final de excelência. Será difícil encontrarmos alguém, em Portugal, com tamanha abertura de espaços artísticos, capacidade de investigação, pluralidade de meios e formas, inovação em todos os campos abordados.
Foi logo em 1959 (após ou durante a frequência da ESBAL) que viajou para Paris, iniciando um estágio com Jean Lurçat em Saint-Céré, França, para aprofundar o universo da tapeçaria contemporânea. No âmbito da Manufactura de Portalegre, produziu das mais belas tapeçarias que se fizeram em Portugal, quer no plano da respectiva genuinidade plástica, quer integrando aí exemplares da pintura "op", excepcional no rigor e na teoria da percepção, o que também logrou alcançar em pintura, bidimensional e tridimensional. Trabalhou praças, (Alentejo), interiores de edifícios, planos urbanos exteriores, sempre a convocar os seus códigos mais coerentes, uma geometria que não desdenha a base estrutural mas se alarga em consonância com a arquitectura e o próprio ambiente. 
A sua pesquisa na fotografia é das mais relevantes do universo português: desde as misturas a preto e branco às encenações lumínicas das máscaras africanas e até às subtis osmoses do real e do irreal, a cores, numa linha surreal e num trajecto ligado ao fantástico, pelos caminhos de um imaginário -- fascínio, relações subtis de cultura, entendimento da história e do mundo contemporâneo.
A sua atenção estendeu-se a quase todos os sinais da época. Depois de uma lógica de coerência interna, Nery chegou a soluções dadaístas de anti-pintura, na destruição aparente de quadros, molduras decepadas, tudo atravessado por uma nostalgia mordaz, entre o peso do dourado e a ironia do trompe l'oeil. Saber a fundo o fenómeno da perspectiva correspondia, neste autor, a estudos sobre arquitecturas inteiras suspensas no espaço, na exaltação simulada da terceira dimensão, incluindo a luminosidade certeira e um cromatismo penetrante.
Com os padrões de repetição, Nery inventou soluções visuais de grande efeito, «espacialidades perturbadas, onde a vertigem ou o labirinto se instalam como metáfora de uma geometria plana.»

No livro que lhe dediquei, escrevi na primeira página em branco:

 Para uma cultura aberta e sem omissões.
 Para um país que tem direito a conhecer
 a História da  sua Cultura
 e não apenas o esplendor da contingência.
 (rocha de sousa, 1989)

Foi neste sentido que Eduardo Nery trabalhou. Ao terminar o livro, havia lá a nota de que assim ou de outro modo (porque ver o visível é efectivamente transformá-lo à medida do nosso sonho, de acordo com as paisagens que nos habitam) o artista assume a função de um espaço poético que nos define e sem o qual nada existiria após os desertos.

domingo, janeiro 13, 2013

A MODA DOS BELOS E ASSASSINOS SUPER CÃES

Em cima, um dono de Rottweiller encapuçado
e em baixo os belos exemplares que gostam de carne humana bem tenra
Cada vez mais, no nosso "jardim à beira mar plantado", cães de raças muito agressivas por natureza, difíceis de treinar e domesticar por um qualquer cidadão urbano, no seu apartamento de duas assoalhadas e varanda, têm provocado graves acidentes, em grande parte mortais, envolvendo adultos e crianças . A situação, que já deveria ter sido tratada com mais zelo e legislação apropriada, porque há "culturas" do pior senso possível, quer na cidade quer mesmo em lugares dedicados à agricultura, quintas e zonas um pouco isoladas. Hoje mesmo, a propósito do último acidente mortal com uma criança, uma senhora teve o desplante de dizer para a comunicação social: «filho meu nunca seria deixado a atravessar a cozinha, quase às escuras, tendo um cão desses em casa, fora ou dentro da varanda.» Esta senhora zela mais pela comodidade do seu cão mimado, que um dia lhe pode comer a mão bondosa, do que pelos direitos naturais do próprio filho.
Nos bairros de Lisboa, este facto alarga-se aos cães facilmente treináveis e que chegam a parecer capazes de assumir um certo lado humano, de presença e companheirismo. As noções de risco, que vêm dos desportos ensandecidos e coisas assim, são agora trazidas para o espaço urbano, mesmo o mais apertado, contrariando a postura familiar dos cães educáveis e fidelizados, rasgando, a par das sujidades que quase nenhum dono limpa do passeio, o equilíbrio destas concepções cívicas.
Ao ler problemas deste tipo, a propósito das mitologias dos comportamentos humanos actuais, consultei a par disso as questões legais que envolvem o convívio com estes animais.
Diz lá, sob o título de animais perigosos, que são vistos assim:
1. Se mordeu, atacou ou ofendeu o corpo ou a saúde de uma ou mais pessoas.
2. Que tenha ferido gravemente ou morto animal e pessoa fora da propriedade do detentor.
3. Que tenha sido declarado como tal pelo seu comportamento detentor à junta de freguesia da sua área de residência.
4. Que tenha sido considerado como tal pela entidade competente devido ao seu comportamento agressivo ou especificidade fisiológica.
Depois são especificadas estas alíneas, identificadas as raças perigosas, incluindo o alargamento da perigosidade pelos cruzamentos efectuados.
Tudo parece cuidado, em conta, e são indicados os procedimentos específicos, em termos legais, os quais terão de ser cumpridos contra multas ou coimas.
Os textos são mais vastos. Mas neles falta, se a moda continuar e os tais cães continuarem a ignorar, de súbito, a tal domesticação que os donos muito louvam: é conveniente, para cidadãos timoratos ou proprietários sensatos, criar (como já se viu no cinema, em super polícias biomecânicos) polícias robotizados ou mesmo carapaças para crianças e cidadãos que se deslocam  em certos locais, incluindo jardins. A gravura acima presume o efeito pretendido. De resto, apesar de tanto nos encantarem os pombos, quase essenciais às cidades e aos seus espaços de recreio, que  nenhum mal nos  fazem  excepto  nos brindarem com alguma caca de passagem, porque razão sanitária as câmaras municipais envenenam discretamente uma boa parte dessas aves, nos períodos em que a sua demografia começa a ser contra-indicada para as pessoas?

sábado, janeiro 12, 2013

"O EIXO DO MAL" OU OS MALES DO EIXO

do pré-genérico do Eixo do Mal

O programa televisivo «O Eixo do Mal» é uma tentativa curiosa de abordar em troca de depoimentos, através de cinco participantes, os problemas actuais da política na crise que o país atravessa. O autor deste blog confessa o seu apreço pelas crónicas e outros trabalhos de Clara Ferreira Alves. Quanto aos outros elementos que participam no jogo, o nosso conhecimento é relativo, embora tenha havido contacto ao nível das colunas que assinam na imprensa. Terá de ser dito, sem ironia e com pena, que os  protagonistas desta "série", momentos depois de começarem um "episódio", parecem subitamente transferidos para «A Casa dos Segredos», deixando-se como que contaminar pelo fechamento do lugar, sem contactos, claustrofóbicos e compulsivos nas falas e nos atropelos, perdendo, em parte, aquilo que melhor os poderia identificar: parecem, de facto, os meninos e as meninas da "Casa", nos melhores momentos de crise de despersonalização, uivando uns sobre os outros. Para além da muito longa pastagem por terrenos temáticos que se poderiam reduzir a dois ou três minutos, todos querem o malho e malham à vez ou todos de uma vez, o que torna ininteligível uma prestação que, em certos casos, caso a caso, poderia mobilizar o espectador. E se falam em comunicação a propósito da crise de entendimento dos  discursos  políticos (que hora são, ora não são), aumentam o ruído e descomunicam por completo. A sua prestação torna-se assim, lamentável. Estamos assim, num meio como a televisão, que tem que se lhe diga, perante uma prestação lamentável e inútil, mal assumida por pessoas porventura capazes de o fazer com boa medida e boa interacção.

domingo, janeiro 06, 2013

PÚBLICO: A SÍRIA ESTÁ A MORRER

                                          Jornal Público
A Síria está a morrer, escreveu em título o jornal PÚBLICO. E escreveu com razão, escreveu com as palavras nos olhos, com as imagens no coração. Foi assim que eu próprio pensei quando escrevi sobre esse Apocalipse e lhe reservei a forma de livro: «NARRATIVAS DA SUPREMA AUSÊNCIA». Escrevi durante dois meses, convulsivamente, rodeado de jornais e de gravações, pensando nos mortos que se revelavam dia a dia e que hoje a ONU, assumindo apenas o papel de observadora, conta por 60.000. Depois, como nem os povos, nem as nações nem os organismos internacionais se mobilizavam mais do que as minhas narrativas, parei de escrever e selei o monte de páginas em forma de livro. Ao contactar com as editoras, entre silêncios e escusas, apesar de eu insistir que estas vozes são mais importantes, na hora, do que as notícias sobre os campos de golfe, ao lado da nossa própria crise, os mails não tiveram resposta e as secretárias enviaram-me respostas automatizadas.
Dizia eu a certa altura:
A terrível realidade agora vivida na Síria ganhou sentidos e contornos apocalípticos. O mundo está perigoso. Os heróis não arrastam consigo nem a ética nem a razão. Transformaram-se em demónios do massacre e da petrificação da História, em o menor temor perante as cidades que destroem, o futuro que empurram para nunca mais, o suicídio bombista que os faz desaparecer, a eles e a centenas de outros em volta, gritando contra os tiranos ao accionarem a arma mais mortífera de que dispõem, sagração ímpia que atinge os homens e é premiada por Deus. É preciso que a religião tenha infectado a alma e a razão, a própria consciência das pessoas, para que o martírio adquira este estatuto leviano e cego, numa luta que vinga Deus oculto dos seus inimigos mais cépticos, antigos ou em espírito. Oculto, isto é: ausente.
Parece que falar desta forma, mesmo por alguém que já publicou muitas palavras, não bate certo, ou seja: não faz sucesso nem negócio. É assim a suprema ausência e a cegueira dos surdos que não nos podem ouvir porque ainda sabem contar o dinheiro só com os dedos.

segunda-feira, dezembro 31, 2012

"SIGHT & SOUND" TROCA CITIZEN POR VERTIGO.

Imagens de Citizen Kane por Vertigo

A revista Sight & Sound, fazendo a vontade aos cultores de Hitchcock e outros lobbies mais ou menos esquisitos, retirou Citizen Kane de melhor filme de todos os tempos e colocou lá um bem carpinteirado filme do velho mito de Hollywood, Vertigo, do cineasta atrás referido. É talvez um processo de ensandecimento e de vénia comercial a um autor sem dúvida de grande mérito, mas cuja obra (depois do seu primeiro período) foi sucessivamente louvada pelas mais diversas razões, assaz sempre discutíveis e em geral menores. Porque o realizador Hitchcock tem uma obra de base americana, engenhosa mas não universal, e que, quanto a nós, nem mereceria (com Vertigo) estar em segundo lugar. A América já colonizou demais os outros espaços culturais e cinematográficos com as mais diversas bugigangas da indústria do cinema, donde nos habituaram a extrair de facto grandes obras, como Citizen Kane, num mar imenso de variedades de consumo, ainda que em muitas delas a marca vertiginosa da técnica e dos meios seja apreciável. 
Acontece que Citizen, de Orson Welles, é uma excepção difícil de superar, feita por um génio do cinema quando ainda tinha 24 anos, um rapaz prodigioso e que já angariara fama nas suas peças de teatro e intervenção radiofónica. Ao tocar em problemas magnos da América do capital e dos grandes influenciadores do poder político, como W. Randolph Hearst, Orson Welles quebrou as estratificações conservadoras do cinema americano e da própria América. Houve depois outros, como Kazan. O cinema de Orson foi sempre excessivo e comprometido com a densidade da realidade humana e do mundo em geral. No filme em questão havia mesmo pontos coincidentes entre as biografias de Hearst e Kane. Para além disso, o filme marcou a linguagem cinematográfica com importantes inovações, tanto nas técnicas narrativas como nos agentes significantes da escrita visual. Foi considerado, por grande parte da crítica especializada, como o maior filme da história até ao momento: figura em primeiro lugar na lista do American Film Institute.
Alguns filmes de Kazan (América, América ou Um Rosto na Multidão) podiam colocar-se à frente do excelente carpinteiro de filmes policiais, freudianos e de suspense made in América, que é Hitchcock. Vertigo não passa de um dos seus mais hábeis exercícios de piscar o olho ao espectador. Nick James, da própria revista Sight & Sound, mostrou-se surpreendido com esta exclusão ou troca. Outros continuam a falar em obra estadudinense. E os comentários feitos à troca de lugares, muitas vezes sob anonimato (porque será?), apontam quase todos, para o melhor filme até hoje, a extraordinária obra de Tarkovsky «Andrei Rubliov». Esta escolha atesta a favor de uma sensibilidade e cultura cinematográficas que podemos situar, com efeito, acima de Citizen.



Planos de VERTIGO, de Hitchcock

domingo, dezembro 30, 2012

MORREU ONTEM O CINEASTA PAULO ROCHA

  
cineasta Paulo Rocha
falecido, com 77 anos, a 29.12.2012
 

        
 plano do seu último filme


                plano do seu primeiro filme «Verdes Anos»

plano de «Ilha dos Amores»

A morte de Paulo Rocha, cineasta que chegou a ser assistente de realização na rodagem do filme «Acto da Primavera», de Manoel de Oliveira, fez o cinema português perder mais uma figura de referência: o jovem que soube pesquisar aspectos da Lisboa dos anos 60, no seu primeiro filme («Verdes Anos») aqui ilustrado. Ele morre pouco tempo depois de Fernando Lopes, de tão grande importância, gerando assim, como que simbolicamente, um vazio nos vazios do nosso país desde há três anos a esta parte. João Mário Grilo escreveu sobre este acontecimento, dizendo: «É um momento muito triste para a cultura portuguesa (...) Paulo Rocha foi o que melhor soube fazer, a relação entre a poética do cinema e a poética do país.» Tanto ele como Fernando Lopes souberam usar a arte para interpretar a vida» — coisa que não é nada fácil entre transformações que, durante todo o século XX e parte do actual, descarnaram saberes e técnicas em nome da novidade pela novidade, encobrindo o visível que Klee tentou explicar para pôr ao nosso alcance a complexidade do real. Cada filme de Paulo Rocha, nesse sentido e nas suas normas de simplicidade, é uma luta contra as diversas novas vagas de que foi contemporâneo. «Há uma conjuntura que Paulo lê muito bem e incorpora-a». E assim procura dar a cada filme a natureza dos objectos singulares (como em toda a obra de arte mais rara sempre acontece), de tal modo relacionando personagens e história. Ou, como diz Grilo, fazendo desses filmes, também, invulgares ou grandes documentários sobre a vida portuguesa.
Paulo Rocha pertenceu ao tempo em que «as pessoas tinham muito poucos meios para filmar». Bem sabemos que isso joga contra os  verdadeiros autores, pois o cinema só se torna possível através de alianças muito sólidas, desde os fundos económicos aos meios técnicos e logísticos. Por isso a personalidade aqui citada sublinha com eloquência: o ecrã é também uma pele muito fina entre o cinema e a vida.
Aqui dizemos, pela nossa parte; os homens do cinema já aprenderam, em Portugal, a sua linguagem e a maneira de poupar os meios sem deixar de zelar pelo sentido da imagem e voz que nos oferecem. Os distribuidores e exibidores não aprenderam nada: minimizam os meios, oferecem caixas claustrofóbicas e rudimentares como salas de projecção, para desdobrar, na maior tacanhez, os sítios de «exibição», nunca em nome do cinema, sempre em nome do dinheiro. É preciso acrescentar a isto, na morte de alguém que sofreu na pele tamanha exiguidade, que as salas onde se explora entre nós o cinema não ganham  qualquer «reajustamento»  através de tão equívoca austeridade. E sempre aos berros, como se as máquinas servissem para triturar imagens e bandas sonoras.

segunda-feira, dezembro 24, 2012

TAP NÃO FOI VENDIDA A SALDO, HÁ CARAVELAS

                   TAP, PARTE DA IDENTIDADE DE PORTUGAL

Foi publicado neste lugar um post que contradizia a venda da TAP e fazia algumas considerações sobre o sentido dela mesmo num espaço de crise, denunciando os males físicos e humanos do nosso país em dificuldades. Aqui se enunciavam as catástrofes políticas, sociais e culturais a que temos estado sujeitos, num lamento contra a perda da TAP, última esquadra a lembrar as caravelas do secular destino oceânico dos portugueses, vínculo de uma gasta aventura já em névoa nos testemunhos de tal grandeza nas várias partidas do mundo.
Alguém se zangou com o post e procedeu à sua remoção, facto que denuncio aqui sob forte protesto, sacudindo as más recordações censórias de outros tempos.
Com um avião igual ao publicado há dias, voando em sentido contrário, aqui reforço a notícia de que o governo teve de suspender a venda da TAP, por problemas financeiros não clarificados a tempo pelo comprador. A teimosia na venda continua,
mas ontem, na televisão, Marcelo Rebelo de Sousa forneceu a ideia de um processo de alienação da Empresa cuja ligação a Portugal seria mantida pela pluralidade dos meios e dos acordos entre compradores, inclusive entre grupos nacionais.

quarta-feira, dezembro 05, 2012

CENA NO DIA DA MORTE DE JOAQUIM BENITE, TMA


JOAQUIM BENITE | encenador

Jonas acreditava na sua estrela


Joaquim Benite, homem que se dedicou desde longa data ao teatro e ao seu tratamento através de encenações recuperadas de vários ângulos da modernidade, nomeadamente no Teatro Municipal de Almada. O teatro em si foi uma grande aquisição para o meio e a programação absorveu as mais diversas peças, do clássico à contemporaneidade, tendo como condutor relevante o próprio Joaquim Benite, de quem fui amigo e cujo trabalho só me foi possível seguir à distância, por razões de saúde. Morreu hoje, esse batalhador por uma arte que tanto tem sofrido com as massificações das indústrias culturais e crise civilizacional. Morreu de forma quase fútil, com uma pneumonia pertinente e absurda. Lembro-me das nossas conversas e do muito que ele apreciava Camus. E pelo facto de eu ter feito uma adaptação de Jonas (novela de Camus) ao teatro, a ele a confiei, embora soubesse quanto era árdua a sua montagem. Chegou a estar agendada e numa altura em que eu ainda estava disponível. Fica aqui a capa, não para uma publicidade inútil e logo absorvida nos habituais azedumes e equívocos. É a minha homenagem a Benite, um trabalhador incansável no âmbito do teatro, redescobrindo actores e processos para dar a ver difíceis mensagens de uma arte do espaço e do tempo, vivida num frente a frente entre actores e público. Que Almada possa continuar esta obra.


sábado, novembro 17, 2012

NOVA IORQUE NÃO É SÓ MANHATTAN VISITÁVEL

Nova Iorque 
 
Nova Iorque ou a América e o seu lado invisível

Após a passagem sobre Nova Iorque do violento furacão "Sandy", muitos americanos terão perguntado se a América é de facto a grande fortaleza que pode desafiar o planeta e se as zonas atacadas por aquele fenómeno terão condições para se adaptarem a um clima mais bizarro e aterrador, fruto das leis cósmicas ou da poluente actividade humana. Clara Ferreira Alves escreveu no Expresso desta semana uma pungente e lúcida crónica sobre este acontecimento e acerca da América em geral, os seus recantos mais encobertos onde vivem populações mistas, relegadas para quotidianos absurdos, em graus de medianos e de pobreza incompatíveis com mais furacões.
Viajando numa boleia especial para aceder às Rockaways e à catástrofe no seu melhor perfil, Clara fala-nos de de túneis «fechados, inundados» e de escolas que tentam recomeçar a sua vida embora nem todos os transportes públicos estejam a funcionar. «O caos nas ruas é evidente e os táxis buzinam e quase atropelam as pessoas nas passadeiras. Uma medida de civilidade começa a escassear com a passagem do tempo. Bloomberg, o mayor de Nova Iorque, foi às Rockaways e foi insultado por meia dúzia de moradores desesperados.» A  América, em boa verdade e perante os aspectos obsoletos de muitos equipamentos, tem de repensar as suas infraestruturas e a sua dependência energética. Na recente situação, as centrais nucleares resistiram ao "Sandy," mas as redes de distribuição eléctrica e as vias logísticas capotaram. Os que não abandonaram as casas, por pensarem que acabariam roubados caso se afastassem delas, ficaram na mesma sem nada e agora também não podem  deixar o que lhes resta, porque os assaltantes andam por ali. Alguém contou à jornalista que, num escasso tempo de vinte minutos, ficara com água pela cintura. Usaram o sótão. E viam o mar pelas ruas, enquanto o vento era tal que não ouviam as vozes uns dos outros. «O trauma é imenso.» Uma lágrima desce pela cara de um cidadão, Gary: é uma lágrima silenciosa que ele enxuga com luvas sem dedos.

EM PORTUGAL, ONTEM, UM TORNADO
PROVOCOU DESASTRES DEVASTADORES
NO ALGARVE, EM LAGOA E SILVES

Tornado em aproximação da
costa Algarvia 

passagem por estradas

varrimento em Silves

dezenas de carros destruídos

centenas de árvores arrancadas dos
parques, avenidas e outros locais 

 talvez as alterações do clima e
respectivas catástrofes não sejam
nenhuma história boateira em Quioto
 

E assim decorreu um dia: a Câmara de Silves apelou aos cidadãos do Concelho para uma ajuda. Apareceram cerca de mil pessoas com camiões, carrinhas, serras mecânicas, todos os utensílios. Limparam numa manhã todos os destroços da baixa e ainda colocaram as telhas no edifício da Câmara Municipal, entre outras ajudas assim. O que digo aqui sobre Quioto é que, no dia da sua assinatura, países como os EUA não assinaram, desdenhando dos «boatos» sobre as transformações naturais e produzidas pelo Homem no clima do planeta. Não alinhei nesse boato. Há muito que sei o que esta civilização pode  provocar, refém de certas tecnologias e do petróleo, além de teimar nas apocalípticas concentrações urbanas.
RS