quinta-feira, junho 07, 2007

O CONHECIMENTO DA ARTE

pintura de Francis Bacon

As artes não servem de ornamento do mundo. São, noutro sentido, entre suportes culturais determinantes, o rosto da própria civilização.

As instituições portuguesas ligadas à educação e ao conhecimento ou difusão da arte, apesar da circulação intensiva da informação na época contemporânea, têm sido longamente adversas a reconhecer as modernas projecções do projecto artístico e os processos avançados das diferentes formações na área das disciplinas de índole estética. As principais reformas que foram assumidas em Portugal surgiram tarde e carregadas de arcaismos imponderáveis. Trinta ou quarenta ans atrasado relativamente a esta problemática, o nosso país não foi sequer capaz de corporizar a reforma de 1957, a qual nunca chegou a passar do papel e da contratação de um novo corpo docente. Depois dos 25 de Abril, e apesar de um esforço associativo, técnico-científico, as reformas das ex-Escolas Superiores de Belas Artes só foram conseguidas e sancionadas duas décadas depois, integrando-se enfim nas Universidades, como Faculdades de Belas-Artes. Quando se discutiu, na velha Assembleia Nacional, a Lei de Baes do Ensino Superior Artístico, as ideias então expressas pecavam pelos mesmos erros quanto aos conceitos em torno da arte e do papel do artista. Apenas um deputado, Dr. Albuquerque, defendeu outra perspectiva. Foi ele quem disse, na sua intervenção, algo de diferente, considerando, a certa altura do discurso, que «mais digna ainda de aplauso do que a visão global do ensino artístico é, pelo que revela de intenção inovadora, a elevação do ensino de belas artes à categoria de ensino superior. Na verdade, não faz sentido que se considere uma coisa subalterna a preparação de homens que precisam de um alto nível para cumprirem com nobreza a sua missão de intérpretes da natureza da alma humana, plasmadores e configuradores de ideias descobridores de ritmos e criadores de simbolos.» Estas palavras foram pronunciadas há cerca de cinquenta anos. E, contudo, há ainda quem as remeta para o caixote da mera retórica em nome de uma prática sem projecto e de uma deriva por meros talentos mediáticos, mitos na nusca da pincelada genética, eles sim, elefantes brancos derrubando uma loja inteira de bela porcelana -- palavras recentes de jovens candiatos a artistas que rejeitam a formação teórica neste campo, depois do que já aconteceu por esse mundo fora. O projecto mais consequente sobre o desenvolvimento do ensino superior artístico no nosso país situa-se na reforma de 1975/76, no seu reconhecimento e acesso das Escolas a completas condições de Faculdades de Belas Artes (Universidade de Lisboa e Universidade do Porto), e na renúncia da persistência das oficinas do instinto ou da intuição, retorno a uma espécie de Renascença, do tempo dos meninos aprendizes e da mercantilização do talento expressivo perante a encomenda e a protecção da aristocracia da época. O que se pretendeu, nos anos 70, foi a consolidação de uma nova base para a formação artística superior, não apenas quanto ao desenvolvimento dos talentos oficinais dos formandos, antes de maneira a aprofundar as razões de de ser do seu futuro trabalho e com uma abertura apetrechada para a expansão cultural. Ou seja: com os instrumentos que cobrissem uma interacção teórico-prática actualizada, capaz de os situar, enfim , num quadro intelectual robusto em termos cienmtíficos, filosóficos, pluralmente decisivos, como intérpretes do superior estatuto que define a própria arte. Assim o dizemos de novo, contra a escassez brutal, e com José Augusto França: uma civilização sem arte não o é.» Ao contrário do que muitos ainda pensam, não são os elefantes brancos da teoria que empurram o artista para a exclusão. O saber teórico, aliado ao campo instrumental da praxis, é que desvenda sucessivos espaços de criação fundamentada, inovadora, servindo, virtual ou presencialmente, a grande arquitectura da função e do ser, a rede que multiplica o sentido universal de todas as disciplinas cujo elenco propicia mais largas e novas conexões próprias da razão no complexo sentido dos alinhamentos ontológicos.

O artista de hoje é um operador generalista ou especializado no seu mister, ombro a ombro com outros de áreas afins, e não um mero produtor de artefactos secundários. O que ele produz, com arquitectos, designers, engenheiros, além de outros, são indubitavelmente, num grande espaço de abrangências, objectos de civilização. Eu próprio, quando me graduei na área de pintura, também procurei colocar-me numa espécie de vanguarda, numa linha estratégica informada, correndo os riscos habituais ao redimensionar o status das artes visuais: isso implicava abordar a arte e o modo de a ver; daí ter reenquadrado algumas das hipóteses que o estado da ciência já permitia praticar nuns casos e anunciar noutros. Ao defender a tese «mobilidade visual, aparência e representação», inventei um caminho talvez aventureiro sobre o ver e o fazer, fazer depois de ver -- e ver sobretudo segundo uma nova dinâmica do estar. Chegava ao ponto de cinematizar o acto visual, dinamizando os pontos de observação, usando próteses de registo e tratamento do visível, anunciando novos instrumentos e processos de transformação do real, sobretudo através da ciência e de uma espécie de cartografia poética que me permitisse aceder com novas vantagens a outros planos da paisagem, fosse ela qual fosse. Aí estavam envolvidas metodologias que tornavam surpreendente o que parecia invisível ou não ter existência. Esta investigação levou alguns de nós a perceber melhor donde vinha a invulgar capacidade de descoberta, aquela que nos é própria, ver o oculto, fazer em simultaneidade o que é sucessivo -- como perceber a realidade, por instantes que fosse, em plano paralítico, mesmo sabendo que ela sempre se move quando julgamos o contrário, ocultando e desocultando caminhos para um aproximado hiperteto do visível. É importante afirmar que as recentes formulações artísticas, previsivelmente ligadas à cibernética, não são rios sem afluentes e nunca propõem nem um modo fixo de representar o real, nem uma tirania da moda. Por isso a formação dos artistas tem de ser de excelência e o seu trabalho, sustentado por novas tecnologias, garantir uma luta profunda contra o esquecimento do mundo. Se não há civilização sem arte não há mundo sem memória.

_________________________________________________________ texto de rocha de sousa. fragmento da sua intervenão nas provas de doutoramento dp prof. pintor Hugo Ferrão


pintura de Arshile Gorky

pintura de David Hockney

3 comentários:

Betty Coltrane disse...

Muito interessante este texto. Confronto-me com esta questão a cada dia, numa área que considero irmã da sua. Sempre me chocou saber o quão jovem era a licenciatura em história da arte, criada pela primeira vez independente do departamento de história pelo dr José-Augusto França, na FCSH da nova, onde me encontro a terminar a referida licenciatura. Felizmente tenho visto algumas mudanças de mentalidade, que me dão a esperança de que as novas gerações encarem a arte de modo menos diminutivo. Antes com um terço do numerus clausus de história, agora encontramo-nos quase em pé de igualdade. O estudo da arte é fundamental para percepcionar o nosso tempo, aquilo que somos. Seja com um enfoque teórico, no meu caso, ou de criação, no seu. Seguidor de Francastel, França encara igualmente os dois factores fundamentais de excelência da obra de arte - a excelência técnica, mas principalmente a originalidade estética, que a faz materialização do pensamento estético de uma civilização. Acreditemos ou não na teoria da linguagem visual, é inegável que estes são factores fundamentais. E o ensino das belas-artes pontecia-os exponencialmente.

Tenhamos então fé, nos homens, que se houver deus, está lá muito longe!

abraço!

alinejussiani disse...

Nao me diga verdade!

Anónimo disse...

Nao me diga verdade!