sexta-feira, junho 27, 2014
terça-feira, junho 10, 2014
AS COMADRES ALFACINHAS NO PÓS-TROIKA
Alguém chegou ao limite do seu tempo, sobretudo nas horas da mentira. 17 de Maio, em 2014? Qual quê? Portugal tinha recorrido à velha manha de não prevenir leis ou orçamentos ao Tribunal Constitucional: o Presidente assina e promulga e a bicharada recorre àquele orgão de soberania, latidos e risos, urros e cuteladas: «Queiram V. Exas tomar na devida medida o nosso protesto contra certas reformas, protesto de direito através do qual assinalamos a maior dúvida sobre a constitucionalidade de cortes nos restos dos salários dos funcionários (outrora) públicos, linchamentos de reformas dos velhotes a que falta o toucinho da dupla ração, além da SES (é mais bonito assim), coisa que arrasa de novo pensionistas e outros, tendo passado de uma falsa solidariedade para uma impossível sustentabilidade.»
E assim tendo sido, «quatrocentos» anos depois, o tribunal Constitucional escreveu 150 páginas de «acordeon» para dizer que a lei proposta era inconstituicional, o que equivalia a uns 600 milhões de euros. É preciso remendar esta bronca com mais colheitas, até chegar aos 1200 milhões da mesma moeda.
Estado: «Então que chacota é esta? Mais cortes, menos dinheiro, menos toucinho, mais sustentabilidade? A gente não vai nisso. Negociamos com a troika, que ainda nos deve dinheiro, e partimos para amanhã, pedindo ainda ao juízes que nos expliquem se aquele recorte se aplica amanhã ou hoje. Como fazer com o que já se pagou em duodécimos e agora tem de se continuar à tranchada rápida.»
Estava o país nesta fantochada (que se estava mesmo a ver desde a não prevenção) quando o António Costa (aquele da costela indiana) arrebatou do comunicador e comunicou que decidira candidatar-se a secretário geral do PS e o Mário Soares bateu palmas. Seguro, cada vez mais irritado com a falta de papel para desempenhar, disse: «nunca me demitirei».
Não se faz nada, um Congresso nem nenhuma farsa dessas. A democracia às bases. (Otelo regougou de satisfação: «Eu não disse? Que isto só ia com a verdadeira participação das bases?») E pouco depois já Seguro assegurava que era preciso mandar os estatutos do partido às malvas, começando por avaliar a vontade dos militantes e simpatizantes numas eleições primárias, coisa que ele mesmo tinha julgado impróprio para o PS, na sua representação da cultura popular do país. Começou a balbúrdia, eleições para eleições, perguntando a pseudo simpatizantes: «Ouça lá! Já alguma vez votou no Partido Socialista? * Eu cá não, não senhor...* Bom, mas isso não quer dizer que não simpatize agora com estas figuras , o José Seguro como secretário...» * «Se calhar. Assino aonde?» * Aí em baixo, onde diz CONCORDO» * E o povo assina. Não importa que aquilo não esteja nos estatutos: é preciso ganhar tempo e abater a onda de fundo que o Costa já arrasta numa enorme Surfada. Pois bem. Isto dito assim até parece leve, mas o facto é que demonstra a insanidade da nossa política e outras coisas undergrownd: uma constituição para rasgar, uma austeridade para banalizar, uma aldrabice de ditos e não ditos, a troika toda contente porque talvez se safe de pagar aos lusitos a última tranche.
Tudo isto vem daqueles monstros que os americanos inventaram para dar cabo do cinema e das mentes infantis.
terça-feira, maio 27, 2014
EUROPA: PS VITÓRIA DE PIRRO. VER LEGISLATIVAS
Uma verdade crua e nua, esta vitória saudada no primeiros minutos como uma indiscutível ordem de varrer as regras para avançar com eleições antecipadas, eis uma derrapagem emocional sem pés nem cabeça. O grande partido que é o PS não ultrapassou os quatro pontos de diferença da coligação e esta, proporcionalmente, nem sequer foi ao fundo. Mas os nossos carnavais são assim, cabeçudos, repetitivos. Toda a gente sabe que o secretário geral do Partido Socialista continua, desde o início, agarrado a uma espécie de disputa propedêutica com a Aliança de governo, entre birras de bancada e discursos sem doutrina nem fundamentos estratégicos para um futuro verdadeiramente pós troyka, incluindo a reforma do Estado, coisa que Passos Coelho e Paulo Portas embrulharam numa lista de generalidades sem estudos adequados, espaços de interacção, organograma permitindo a viagem desses vários racords e a avaliação dos recursos, tecnologias, reforço da formação de quadros. Ainda bem que Paulo Portas chamou guião ao seu esboço: porque toda a gente sabe que um guião guia, raramente estrutura: nas artes do espaço e do tempo, o guião é transformado em projecto e na forma conjuntural de algumas ideias: pode ajudar a realizar o modo de formar e a própria forma estruturada que o projecto já anuncia.
Um trabalho assim não precisa de biliões de euros; mas tem de ser feito num grande espaço adequado a diversas escritas, sobretudo da informática e gabinetes de coordenação e estudo dos elementos quantitativos e qualitativos, entre actividades, conseguidos com antecipação.
Ora nada disso foi feito e os partidos disputaram, como legislativas, as eleições europeias, ficando todos, excepto o PCP, em má posição. José Seguro louvou o PS como nos velhos tempos e discursou mais uma vez sem ideias, nem qualidade formal, nem coisa nenhuma. Todo o percurso do PS nestes três anos foi prejudicado por esse personagem e os votos são expressivos de uma perigosa renúncia a um primeiro ministro com aquele perfil. Não fiquei espantado, no «noticiário da Uma», ouvir António Costa dizer que está na disposição de disputar o lugar de Seguro, tendo agendado um encontro leal com ele. Seria bom que esse percurso arrancasse e mudasse as neuras, antigas raposas, astenias e anemias. Ao contrário, talvez haja uma abstenção de terror.
sábado, maio 24, 2014
A EUROPA AINDA JUSTIFICA O NOSSO VOTO?
eurocracia
Diz um conceituado jornalista português:«Quantos ainda acharão que a Europa vale uma ida às urnas?»
Em boa verdade, este é um dos mais graves problemas que o país viveu nos últimos quarenta anos, desde aquelas horas, após catorze anos de guerra nas colónias, quando, em vez de descolonizar, abandonou quase de súbito, aos trambolhões e sem contrato sobre valores de toda a humanidade, os tais territórios reivindicados pelo mundo inteiro. Territórios que se chamavam eufemisticamente "Províncias Ultramarinas"e são hoje países a reemergir, tendo em conta a riqueza e as ajudas de novas massas de emigrantes (entre os quais, quatrocentos mil portugueses) para trabalhar, projectar e coordenar. São os novos colonos, sob novas leis e novas alcunhas: os portuga passaram a praga dos portugueses.
Mas voltemos à Europa (chamada agora, com cinismo, União Europeia) e às metamorfoses que vem sofrendo a senda terrorista da globalização.
As grandes potências que constituem hoje a União Europeia, todas antigas nações colonialistas, no melhor e no pior sentido, livraram-se muito a tempo e com importantes compensações dos enormes territórios que exploravam, ainda hoje a funcionar de forma sorrateira e à distância, e depois da última guerra, em que a Alemanha, mais uma vez, perdeu as pretensões de governar o mundo por mil anos, as nações enfim desocupadas e o espírito dos países Aliados, sobretudo com os dólares do Plano Marshall, entenderam-se com um sentido de razoabilidade, partindo para a grande reconstrução das nações atingidas pelo conflito. A partir de maiores patamares da estabilidade, grandes personalidades do tempo, como Konrad Adenauer, Joseph Bosch, Gaspari, entre vários outras, sobretudo Jean Monnet, Robert Schuman ou Willy Brandt, estabeleceram e lutaram por um decisivo projecto europeu, tendo em conta um sentido solidário entre os Estados, paridades de certos direitos estruturais. O peso da Alemanha, ou da França, ou da Inglaterra, desviaram da coesão necessária o quadro dos valores de consenso e, fustigando os países em dificuldades, em particular perante uma moeda (o euro) talvez mal construída, mal usada e relacionada, fizeram centralizações de direcção (Alemanha), o que desarticulou a construção geral, a própria comissão, o poder do parlamento (orgão vital e de orientação de conceber e planear a base legislativa), entrando a região numa enorme crise económica e financeira, apesar do papel do Banco Central, países como Portugal sujeitos a resgates humilhantes e de duvidoso resultado futuro, tudo a depender da ganância especulativa dos credores escondidos atrás das histéricas agências de "rating" a manobrar os créditos a juros do inferno e códigos de jogos de computador.
Esta Europa, a realidade que nos resta, não é a que foi desenhada nos tratados de Roma. Desenvolveu-se em derivas imprevisíveis, pressões inesperadas, numa geral impreparação para corrigir desvios e novos tratados tóxicos. A memória, cultura e e novas perspectivas de desenvolvimento das várias nações integradas na UE mal percebem que estão cada vez mais aptas a aceitar conceitos alheios sobre economia, reajustamento, austeridade, cortes de toda a espécie, em nome de um futuro modesto mas pacífico. Ora não é isso que decorre do manejo dos juros entre grandes e pequenos países, decisões unilaterais, degradação do espírito e nobreza anteriores. A falta de resposta das políticas europeias aos problemas concretos que as famílias enfrentam todos os dias, incluindo pelo contexto político, atrai os grupos políticos de uma direita que aponta aos nacionalismos, e desfaz uma já mal desenhada federalização.
As eleições para o parlamento europeu passam por tratos de insensatez, desligando-se dos grandes debates sobre a Europa e remoendo quezílias de cada país, o que nos faz pensar na má qualidade das futuras prestações e sobretudo na incapacidade de fazer frente à xenófoba divisão norte/sul.
Diz hoje Miguel Sousa Tavares, na sua crónica do Expresso: «Talvez um dia a História desminta, mas, até lá, vou continuar a acreditar que o alargamento da Europa a Leste, até ao ingovernável conjunto de 28 países que hoje constituem a UE, foi um sábio plano premeditado pela Alemanha para, de duas uma: ou liquidar a UE, tornando-a ingovernável, ou tomar conta dela, sob o pretexto de ser ingovernável.»
Como votar? Para quê votar? Votar é um direito constitucional de escolha para a gestão dos países ou grupos de países, entre outras situações. Mas agora, em Portugal, depois de uma terraplanagem e de um governo sem voz na UE, as listas para os parlamentares europeus são ilegíveis, em certos casos mesmo impensáveis. Há muitos cidadãos que pretendem exercer o seu direito de voto anulando a escolha, abatendo a legitimidade do boletim. Mas o não-voto por abstenção, ainda que lamentável por todos os que se vêem cercados de vazios, é também uma escolha: a percentagem abstencionista tem a sua leitura, terrí-vel mas legítima. Escolher numa lista entre várias, por mero descargo numérico e sem confiança, pode cuidar de certos perigos, mas nunca para uma boa solução, quando não há concretamente soluções por este método eleitoral, que os políticos sabem bem que já devia ter sido substituído, a bem do país e de todos os eleitos e eleitores.
Talvez não chova amanhã.
Esta Europa, a realidade que nos resta, não é a que foi desenhada nos tratados de Roma. Desenvolveu-se em derivas imprevisíveis, pressões inesperadas, numa geral impreparação para corrigir desvios e novos tratados tóxicos. A memória, cultura e e novas perspectivas de desenvolvimento das várias nações integradas na UE mal percebem que estão cada vez mais aptas a aceitar conceitos alheios sobre economia, reajustamento, austeridade, cortes de toda a espécie, em nome de um futuro modesto mas pacífico. Ora não é isso que decorre do manejo dos juros entre grandes e pequenos países, decisões unilaterais, degradação do espírito e nobreza anteriores. A falta de resposta das políticas europeias aos problemas concretos que as famílias enfrentam todos os dias, incluindo pelo contexto político, atrai os grupos políticos de uma direita que aponta aos nacionalismos, e desfaz uma já mal desenhada federalização.
As eleições para o parlamento europeu passam por tratos de insensatez, desligando-se dos grandes debates sobre a Europa e remoendo quezílias de cada país, o que nos faz pensar na má qualidade das futuras prestações e sobretudo na incapacidade de fazer frente à xenófoba divisão norte/sul.
Diz hoje Miguel Sousa Tavares, na sua crónica do Expresso: «Talvez um dia a História desminta, mas, até lá, vou continuar a acreditar que o alargamento da Europa a Leste, até ao ingovernável conjunto de 28 países que hoje constituem a UE, foi um sábio plano premeditado pela Alemanha para, de duas uma: ou liquidar a UE, tornando-a ingovernável, ou tomar conta dela, sob o pretexto de ser ingovernável.»
Como votar? Para quê votar? Votar é um direito constitucional de escolha para a gestão dos países ou grupos de países, entre outras situações. Mas agora, em Portugal, depois de uma terraplanagem e de um governo sem voz na UE, as listas para os parlamentares europeus são ilegíveis, em certos casos mesmo impensáveis. Há muitos cidadãos que pretendem exercer o seu direito de voto anulando a escolha, abatendo a legitimidade do boletim. Mas o não-voto por abstenção, ainda que lamentável por todos os que se vêem cercados de vazios, é também uma escolha: a percentagem abstencionista tem a sua leitura, terrí-vel mas legítima. Escolher numa lista entre várias, por mero descargo numérico e sem confiança, pode cuidar de certos perigos, mas nunca para uma boa solução, quando não há concretamente soluções por este método eleitoral, que os políticos sabem bem que já devia ter sido substituído, a bem do país e de todos os eleitos e eleitores.
Talvez não chova amanhã.
sexta-feira, maio 02, 2014
RUI MÁRIO: MORREU UM PENSADOR DAS ARTES
RUI MÁRIO
Quando me contaram não me ocorreu o que deveria dizer. Morrem os amigos e os que pensam sobre coisas que também nos movem. Um aneurisma, um assalto sem honra nem limite. Conheci Rui Mário na altura em que tinha já alguns anos de docência na antiga Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. E na SNBA. E na AICA. Escrevi nos mesmos jornais e revistas onde ele se exprimia como crítico de arte. Discutimos o fim e o princípio das artes, a escrita, a pedagogia neste âmbito. E um dia ele escreveu o único verdadeiro ensaio que alguém escreveu sobre a minha obra, no catálogo de uma exposição na Judite daCruz. Um dia, na Bucchholz, que ele então dirigia, tocou-me no braço, parou, olhou-me com grande precisão e disse-me: «Você tem ali um grande livro». Eu voltara de Angola e escrevi vinte anos depois um livro sobre a guerra em que participara. Era sobre esse livro que ele me falava. Era ao mesmo tempo sério e divertido, discutindo sobre arte com os dois tons no mesmo tom. Tinha o sentido da luta mas não da violência. E habitava as crenças maiores do século XX quanto à arte moderna.
Irmão de Eurico Gonçalves, outro grande amigo, licenciado em Ciências Físico-Químicas mas interessado desde muito cedo pelas artes plásticas. Dedicou-se à crítica de arte e desenvolveu, como professor de Estética, muitas iniciativas entre estudantes. Recebeu o Prémio Gulbenkian de Crítica de Arte, tendo colaborado nas melhores revistas nacionais, além de jornais. Leccionou também no Curso de Formação Artística da SNBA e trabalhou para a televisão e sobretudo na RDP (Antena 2). Foi membro da Sociedade de Gravura e do respectivo Conselho Técnico.
Das suas obras, podemos destacar "Pintura e Escultura em Portugal" | "O Imaginário da Cidade de Lisboa, 85 | "Dez anos de Artes Plásticas" - 1974-84. O seu currículo ultrapassa o limite desta sombra, deste resumo como perfil e memória. Lembrando as figuras que Rui Mário mais estudou, elas surgirão na sua companhia, daqui a algum tempo, amanhã, depois, mãos dadas a Dacosta, Almada, Amadeo, Cruzeiro Seixas.
segunda-feira, abril 28, 2014
VASCO GRAÇA MOURA, UM HOMEM RARO
VASCO GRAÇA MOURA
Apesar da fragilidade transferida pela doença, vinda do nada, ele resgatou até aos últimos dias a imponência conquistada: na voz da escrita, nas palavras redescobertas das traduções, nos poemas quase ocasionais que grava aqui e além e em vários livros decisivamente importantes. O que admira, nesta vida plural, de muito trabalho e forte intervenção, é a persistência, a continuidade, a iniciativa. E sobretudo as exímias traduções (Shakespeare ou Dante) que espantam de forma profunda pelo rigor, interpretação e pela qualidade de excelência.
Morreu no sábado, com 72 anos, respondendo sem recurso a poemas ou referências literárias. Homem da palavra, viu-se confrontado, nos últimos anos, com uma das mais difíceis espécies de cancro. Essa luta, como muitas outra, passou também pelo seu vertical desacordo do «famoso» acordo ortográfico da língua portuguesa, entorse incompreensível a uma língua rica, aliás bem utilizada nas grandes traduções que Vasco Graça Moura realizou e lhe fez merecer o prémio de melhor tradutor do mundo, pela escolha da Itália.
Tinha, no Centro Cultural de Belém uma posição nítida e empenhada, recebeu uma das mais significativas condecorações portuguesas.
Ele diz: «Em Portugal está a faltar muita poesia. Não eche a barriga, mas pode ajudar a encher o espírito. Tudo o que importa a uma dialéctica de opostos é importante. Pelo menos um embrião de conflito. A unanimidade é a mais banal e empobrecedora das situações.1
A pena de todas as escritas
1 citado da Visão
terça-feira, abril 22, 2014
CALVET, UM NOME E UMA OBRA PARA SEMPRE
Carlos Calvet, arquitecto e pintor, 86 anos, morreu ontem. Carlos Frederico Calvet nasceu em Lisboa, estudou na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (também na do Porto) tendo obtido a sua licenciatura em 1957. Além de arquitecto interessou-se muito pela Fotografia e foi sem dúvida um dos nossos mais significativos artistas plásticos. Trabalhou em Cinema, Fotografia, Pintura e Serigrafia. Era assim, inicialmente como arquitecto, um autor pluridisciplinar, algo que acontece frequentemente no nosso meio, talvez devido aos apelos do meio e da própria dimensão das hipóteses de pesquisa enquanto falha no mercado.
Carlos Calvet expunha desde 1947, individual e colectivamente, tanto em Portugal como em vários países da Europa e Ásia.
Próximo do Grupo Surrealista de Lisboa, em cuja exposição de 1949 participou, a par de Mário Césariny e Cruzeiro Seixas, iniciou a sua produção fotográfica anos depois, em 1956, motivado pela sua formação em arquitectura, o que o levou também a interessar-se pelo Cinema.
A maior parte destas palavras foram retiradas dos documentos inscritos na internet, mas posso acrescentar que ainda acompanhei e estudei a obra de Calvet, tendo mesmo participado em exposições com ele. Embora soubesse a idade que atingira, tendo esperado por uma conversa que tínhamos combinado há muito, ontem fiquei chocado com as duas perdas: a do artista e a da conversa com que ele aceitara ter comigo.
terça-feira, abril 08, 2014
NÃO É SEMÂNTICA NEM INCUMPRIMENTO
Reestruturar a dívida, no caso actual do nosso país, não deve suscitar nenhum pavor apocalíptico, nem falar como se ouviu dos socialistas: "estruturar nunca, é dizer que não se paga". Não sei se os mercados ficam incomodados com o sentido da palavra, ou se ela tem tradução imperfeita em inglês, que é a única língua que por lá se fala. Só sei é que em português trata-se de alterar uma ordem para lhe conferir outra mais confortável para todos. Deve dizer-se: Ninguém perde mais, ninguém ganha mais. Se, por inércias absurdas, tudo gira em ruído e erro, tanto mais que hoje os juros trabalhados no mundo são barbaridades de perfeita agiotagem e não se controlam com rectidão e bom senso, isso já não passa pela tal palavra.
sexta-feira, março 07, 2014
UMA CARTA QUE ESCAPA AO SABER DA HISTÓRIA
carta do descompromisso
Li hoje no jornal Público mais uma saborosa crónica de Vasco Pulido Valente. Chama-se esse texto Uma Pequena História do "Consenso". Todos sabemos de quem ele fala e da carta invertida por dois protagonistas da teimosia e por vezes praticantes do non sense. Vasco Pulido Valente procura, sinteticamente, elencar os dados da nossa tendência para os «consensos». Começa ele pela Carta Constitucional de 1826, outorgada por D. Pedro IV. «A Carta pretendia reconciliar o radicalismo «vintista» com o antigo regime, e a alta nobreza tradicional com a classe média e a plebe das cidades.» Consenso não era a palavra usada: antes, e bem, "compromisso".
Carta aqui ao nosso gosto de um baralho de contrários, mas na simbologia do tanto apreciado OURO.
Carta aqui ao nosso gosto de um baralho de contrários, mas na simbologia do tanto apreciado OURO.
Explica Pulido Valente: «O compromisso de 1826 provocou uma guerra civil que se estendeu, aos soluços, até 1834. Daí se concluía que não pode haver entendimento nenhum entre Esquerda e Direita (e eu pergunto se os senhores aqui evocados em imagem não serão antes uma mistura sem especial sabor das tontarias do nosso mundo sem razão). Radicalistas do Exército e da plebe de Lisboa decidiram abolir a Carta: falaram com a Rainha e a sua proposta constava sabiamente da junção das duas Cartas (1826 e 1834 com efeito em 1842).
Tão brilhante exercício, que ficou nas mãos de Costa Cabral, não acabado a tempo das impertinências expectantes do país, gerou uma nova guerra civil -- e a dívida e a fome aumentavam. Segundo Vasco Pulido Valente, e perante intervenções de Espanha e Inglaterra, Saldanha, em 1851, estabeleceu a «concórdia universal e Fontes Pereira de Melo sustentou essa concórdia com dinheiro da Inglaterra e da França.
Já se vê como canta o ouro (dinheiro) e como os parceiros destas nebulosas conjuntas se trocam na pose -- cabeça para baixo, cabeça para cima e vice-versa, sem a plebe riscar as paredes.
Depois de 1851 «veio logo a época dourada da Regeneração», cinco anos de alegrias e venturas, «remessas do Brasil» e já os partidos a fingir o tal compromisso («fusão») para partilharem fraternalmente a Pátria. Mas os fios apodreciam, a fome não aguardava a retoma, e assim, de 1890 a 1893 a «ilusão morreu, a guerra civil, «larvar ou activa» não sossegou os portugueses. Mais tarde «Salazar, com a censura, o Exército e a polícia política, abafou essas longas festividades.» E Pulido Valente conclui: «Hoje, o Governo que fala em "consenso" e o PS que recusa por razões triviais não percebem que o "consenso" implica um Estado com dinheiro, e muito dinheiro, e crescimento económico. Não sabem História.
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in Público 7.03.2014, baseado no artigo de VPV
sábado, março 01, 2014
UMA IMAGEM SEM TÍTULO DA TRAGÉDIA NA SÍRIA
SÍRIA
São como fantasmas a aparecer
A seu tempo, pouco tempo afinal, fizemos aqui um comentário relativo à guerra que se desencadeara na Síria, desde logo carregada de agressividade entre os rebeldes e a tropas de Assad. O critério de ambos os lados manteve-se e agravou-se. A Síria, com milhões de refugiados por diversos pontos do mundo, numa soma de vítimas e flagelados enorme, há três anos que persiste e se esquiva à pressão internacional. Rússia e a China, por razões que se desfazem em confronto com a bárbara destruição do país, ajudam Assad.
Aterradoramente, uma revolta na Crimeia, contestando a não aceitação do Presidente relativamente a uma aceitação de conjugação com a Europa, rebentou nas ruas de Kiev e ganhou forte expressão, incluindo a demissão do Presidente e a reformulação do governo. A Rússia, que tem interesses visíveis na zona, sobretudo na Crimeia, mostrou a sua não aceitação de contacto formal com a UE e começou a colocar tropas não sinalizadas no edifício do Governo, carros de combate cortando certas vias importantes e introduzindo, no mar, a marinha, e em terra mais unidades vigilantes. A situação é explosiva. A imagem, em cima, passa por uma espécie de Guernica: um momento da deslocação da população na principal artéria da capital.
sexta-feira, fevereiro 21, 2014
A UCRÂNIA IMPEDIDA DE ESCOLHER, A FERRO E DOR
Kiev, Ucrânia, revolta soberana
Algumas linhas, entre a dor, as mortes e o protesto de massas, quando a Ucrânia, desde longa data, tenta estabelecer as condições para ter um governo democrático, novas estruturas sociais, de liberdade, responsabilidade e verdadeira soberania. Na perspectiva das actuais condições de vida, entre vagas de emigração e níveis de vida contestáveis, apesar de muitos cidadãos terem boa formação e serem muito bem aceites na Europa, o projecto defendido por grande parte da população é negociar a adesão à União Europeia e conseguir bons perfis de cidadania, respeitáveis, com direitos reconhecidos. A parte mais longínqua da Ucrânia tem uma ligação mais forte à Rússia. E este país, sempre dominante, opôs a sua decisão à escolha da Ucrânia ocidental, anunciando mesmo sanções graves se o entendimento com a Europa se iniciasse. Os Jogos Olímpicos de Inverno, na Rússia, talvez tenham impedido uma intervenção mais musculada. A explosão de revolta verificou-se desde há tempo, muito concentrada em Kiev, e tendo ganho uma inquietante expressão nos últimos dias, abalou a intransigência do presidente. Propostas de negociação política, ontem, não tiveram condições de instauração, enquanto a América ameaça rebeldes e a Europa, escapista, mal definiu formas de diálogo e de ajuda, formulando princípios capazes de criarem plataformas de resolução.
quarta-feira, fevereiro 19, 2014
TARDIAMENTE NA MORTE DE MANUELA JUSTINO
Manuela Justino
Lamentavelmente só ontem soube da morte da colega e amiga Manuela Justino. É meu critério assinalar tais acontecimentos relativos a pessoas do meu convívio e da minha área de trabalho. Faço-o agora, com mágoa, por Manuela Justino, a quem ajudei pedagogicamente na Escola Superior de Belas Artes e com quem trabalhei mais tarde a propósito da sua bem assumida vocação na tapeçaria experimental, participando nos projectos que chegou a imaginar antes da doença a travar.
Manuela, que foi professora de Educação Visual, esteve destacada no Ministério da Educação, mas a sua formação projectou-se sobretudo numa carreira de artista plástica, especialmente no campo da tapeçaria. Também, com louváveis percursos, na fotografia, desenho e pintura.
tapeçaria de grande formato de Manuela Justino
NÃO SE MORRE INTEIRAMENTE QUANDO ASSUMIMOS A VIDA E A LIGAMOS AO TESTEMUNHO SOBRE O MUNDO E MARCAMOS A ÚLTIMA DATA COM FORMAS PERENES DE CRIAÇÃO, PROVA HUMANA DO SONHO LÚCIDO
sexta-feira, janeiro 17, 2014
A TELEVISÃO TORNOU-SE TÓXICA E ANTI-CULTURAL
A Televisão é uma das mais extraordinárias invenções do Homem, marcando decisivamente a vida das populações e um novo quadro da comunicação audio-visual. Por outro lado, tudo o que aconteceu na sequência da electricidade, electrónica, rádio, contacto entre comunidades, à distância e sem fios, veio revolucionar muitos quadros da reestruturação das sociedades em desenvolvimento ou em vias de desenvolvimento. Não apenas mas sobretudo. E o século XX, apesar das duas grandes guerras que arrasaram parte do mundo, sobretudo a Europa, beneficiou em parte com a própria tragédia, mesmo no imenso lamento pelos milhões de mortos e nos custos dos difíceis trajectos de reconstrução, em particular na Alemanha. Um apelo à paz, à harmonia entre os povos, a par das tecnologias favoráveis a vários tipos de desenvolvimento, tudo isso, com a Sociedade das Nações e depois a ONU veio contribuir para um período de estabilização, um tempo de paz, à medida que as descobertas de meios de construção e comunicação permitiram entender melhor o território, as cadeias de produtivas, novos enquadramentos do trabalho, da educação e da pesquisa científica. Aí se integraram muitos dos passos mais nítidos para a socialização do meio televisivo, design e tecnologia, enquanto a Rádio, já muito bem difundida, procurava tornar bem acutilante a nitidez da sua especificidade.
Foi uma época determinante na qual se chegou a imaginar um "mundo futuro" de importantes fecundações pela arte, pela ciência e por novas teorias do comportamento. Os povos apostavam na diversidade dos aparelhos apropriados à decisiva sedimentação das cidades, à melhoria das vias de comunicação por terra, através dos oceanos e do imenso espaço atmosférico. O crescimento de tudo isso induziu, em muitos outros percursos, a variação contínua de respostas às necessidades que estivessem ainda mal apoiadas, ou a partir delas, mercado a mercado, o inquietante processo que se dedicava a multiplicar respostas e a inventar novas necessidades, laterais, quase absurdas, mas cujo fascínio foi criando nas pessoas uma espécie de doença do consumo, apetências por mais do mesmo, sem a noção do equilíbrio e do desenvolvimento harmonioso das comunidades.
Nesse quadro da roda dos encantamentos, a televisão passou a ser um objecto e um fim domesticamente essencial, cada vez em maior concorrência com outros meios da mesma raiz e sobretudo na base alucinatória da competitividade: programas, concursos, publicidade intensa, da brandura ao maior dos choques, entre lutas de personalidades, actores, séries, especulação noticiosa, debates, exposição do insólito, a sociedade desvendada, virada do avesso, rolando para uma bola de neve cada vez mais suja de ruídos e pesados imaginários -- sempre suspeitos, no auge das incríveis proezas de impossíveis heróis ou de cartáticos apocalipses.
Na Televisão portuguesa ninguém soube (nem podia no tempo do antigo regime) abarcar as hipóteses conceptuais e formais de começar a operar muito mais tarde do que noutros pontos do mundo. Por estranho que pareça, houve naquele tempo mais crítica de televisão (Mário Castrim, notável pela sua acutilância) do que a partir do regime democrático. E quanto mais liberdade se verificou no âmbito das disciplinas criativas (artes plásticas, literatura, cinema, teatro, música) menos os jornais e revistas dedicaram um interesse analítico e pedagógico em torno de todas essas questões. A Televisão (cega, surda e muda, apesar de colorida e digital) está a afundar-se no mesmo buraco negro (apenas ruidoso) para o qual escorre a própria cultura, aquilo a que chamamos civilização contemporânea. Eventos elaborados no sentido de um gosto massificado, que são procurados por multidões alucinadas, num domínio de som acima de toda a prudência concorrem com as Televisões e estas retrucam com os mais díspares programas ditos de entretenimento e que não passam, na grande maioria dos casos, de concursos nos quais os espectadores se sujeitam às mais absurdas torturas, tocando vermes, aranhas, cobras, ou aceitando que sobre eles se derramem detritos e líquidos hipoteticamente coloridos. Noutros casos (Big Brother, Casa dos Segredos) os pacientes são encerrados em acomodações toscas ou pop, vigiados por dezenas de câmaras 24 horas por 24 horas, compelidos a respeitar uma VOZ que os confessa e os leva a proceder contra os outros companheiros em acções não éticas, de traição e jocosidades grosseiras, entre muitas outras actividades ignóbeis, regularmente atiçados por uma condutora impensável, que troca avisos, inventa situações e insinua encontros entre rapazes e raparigas, sexo, namoros e inevitáveis intrigas. A clausura, sem contacto com o exterior por dois ou três meses, excita os protagonistas, atira-os uns contra os outros, reduzindo a sua educação à boçalidade, lutas verbais, assimetrias de comportamento, tudo na expectativa de cem mil euros de prémio. Não há debates exteriores sobre esta anormalidade, os seus efeitos no público e nas cobaias, aliás escolhidas consoante os objectivos mais controversos.
Durante manhãs inteiras, os diversos canais, arregimentando público local, gastam horas em quase nada, aos gritos, misturando alhos com bugalhos, entrevistando pessoas destroçadas, seguidas de músicos de ocasião ou de fenómenos risíveis, afinal insensatos . Há rodas da sorte, milhares de euros (à sorte) para quem telefone para o estúdio (números repetidos entre gargalhadas) e esteja assim durante toda a manhã à espera que o acaso lhe venha ter às mãos.Todos os canais concorrem entre si, mostrando ao mesmo tempo coisas do mesmo tipo, cartelizando os próprios e grandes espaços de publicidade. As telenovelas (duas ou três por noite) são precedidas de intervalos de publicidade colados em massa, durante mais de 20 minutos. Não é coisa para cardíacos. Aliás, abruptamente, no decorrer de qualquer das novelas, a acção é cortada por anúncio breve -- 20, 30, 45 segundos, durante os quais explodem mais anúncios seja do que for. Aliás, o problema da publicidade atinge níveis ilegítimos dentro de qualquer programa eticamente correcto. O cinema desapareceu dos programas regulares, os debates em torno da situação nacional (sócio-política) misturam as mais variadas gentes, não têm coordenação capaz, os espectadores são confrontados por vezes com quatro intervenientes a falar ao mesmo tempo. O contraditório é interrompido, não há esclarecimento nem qualquer valor pedagógico, visualmente apoiado. Sem mais, um debate "mais sério" pode ser interrompido por emergências acéfalas em torno de casos do futebol. Futebol infecta tudo, respeitado acima das próprias tragédias. Os debates sobre futebol duram horas, ocupam dois ou três vias noticiosas, ao mesmo tempo, e a qualidade das falas (no conteúdo, na forma, na margem) deixa estarrecida qualquer pessoa de bom senso. A contagem dos minutos de um programa, no fim, é coisa inominável, sobretudo em confronto com os extensos concursos de arrasante esforço cançonetista, cantigas de outros, imitações por vezes brilhantes mas não aconselháveis a um sério plano cultural verdadeiramente criativo. As figuras que aceitam fazer rir, em cenários pacóvios ou atafulhados de néons e torturas lumínicas em movimento, é gente pouco informada sobre as boas correntes do humor, abaixo de toda a dignidade de fora e conteúdo, ou imitando "vozes meninas" e sufocadas ou enviesando os tons e as posturas. São coisas indescritíveis onde até aparecem talentos, mas inevitavelmente soçobrando na banalidade e grosseria.
Mas o país consome cada vez de forma mais alarmante todas estas frutas espinhosas, matando uma sede que já não sabe identificar. Porque, fora do ecrã, até se sujeita a ver cinema em caixas de fósforos, por altos preços e tendo de suportar bandas sonoras distorcidas até à surdez. A televisão aborda as artes em pingos ocasionais -- 30 segundos para noticiar uma exposição, nada sistematizado no tempo e no espaço sobre teatro, livros, encontros em torno de questões científicas, sobre o ensino, sobre autores do país e do estrangeiro. A notícia dessas coisas pode não ser bombástica nem barulhenta, mas é cada vez mais indispensável em termos da consciência do meio e da cadência de alternativas que os grupos minoritários (com direitos expressos) seguem a sério.
A Televisão portuguesa precisa de comissões avisadas para regular o barbarismo dos conteúdos e dos buracos negros de publicidade que enche ecrãs cada vez mais inúteis (e até prejudiciais) perante o serviço que "vendem" a um público destroçado sem o saber.
segunda-feira, janeiro 06, 2014
MORTE DE EUSÉBIO: IMPOSSÍVEL NÃO SENTIR
Eusébio
Ao presenciar o trabalho deste homem singular, seguindo de longe a sua prestação, é impossível não sentir esta vontade de o lembrar aqui, a preto e branco, tocando com os lábios a famosa bota de ouro.
domingo, janeiro 05, 2014
PARA RELER PLUMA CAPRICHOSA: DETROIT E NÓS
A questão é a eliminação do poder das constituições e das regras da justiça social, em nome da «emergência»
«Um Juiz do Tribunal de Falências para o Distrito do Michigan, um juiz federal, autorizou formalmente a declaração de falência a cidade de Detroit, e decretou que, neste caso, a obrigação de pagar as pensões públicas deixava de ser intocável. As leis do Estado do Michigan e a Constituição proíbem que se toque nas pensões públicas. Um jurista perito em legislação municipal acha que a decisão pode vir a mudar a intocabilidade das pensões, não apenas no Michigan como em outras cidades com problemas em pagar pensões de funcionários públicos. Cidades como Los Angeles, Chicago e Filadélfia. A decisão do juiz federal considera que os benefícios das pensões são um direito
contratual e não estão abrangidos pela protecção especial num caso de falência municipal ao abrigo do Capítulo 9.
contratual e não estão abrangidos pela protecção especial num caso de falência municipal ao abrigo do Capítulo 9.
Detroit está na bancarrota. A cidade foi a 4ª maior e é hoje a 15ª. Perdeu centenas de milhares de habitantes (1,8 milhões para 700 mil). Os serviços públicos deixaram de funcionar, circula apenas um terço das ambulâncias e a polícia consegue apenas fechar 9% dos casos reportados, apesar do aumento da criminalidade. Os bombeiros, que não têm mãos a medir, devido aos casos de fogo posto, estão mal equipados e sem meios. Udevastadorm gestor especial de falências, nomeadamente pelo Estado, Kevyn Orr, pretende iniciar já o plano de recuperação da cidade com base na decisão, pagando uma parte apenas dos 18 mil milhões em dívida (da cidade) e restaurando os serviços essenciais. Este plano chama-se «Plano e Ajustamento». A cidade vai vender património e reinvestir o dinheiro nos serviços públicos.
Para as famílias com rendimentos fixos, qualquer corte na pensão será devastador. Os sindicatos e os gestores de fundos de pensões prometem luta judicial, recorrendo a um tribunal superior, mas nenhum líder sindical tem dúvidas de que se a decisão vingar, o resto da América atacará as pensões.
Os reformados e pensionistas ficarão sem apoios, sem comida, medicamentos, carro, e serão despejados das casas e dos lares. Um bombeiro que recebe uma pensão de invalidez depois de ter ficado gravemente incapacitado num incêndio, acha que a decisão, considerada ilegal e amoral, é o "canário na mina." Resposta oficial: "Não há dinheiro". Numa manifestação de protesto, liam-se nos cartazes as palavras Bank of America, um dos bancos americanos resgatados pelo contribuinte americano. Nesse caso, ninguém disse que não havia dinheiro.
O declínio de Detroit tem muitos factores. A cidade sustentava-se praticamente de uma única indústria, a automóvel (resgatada também pelo contribuinte americano) e acumulou lideranças municipais corruptas e incompetentes. Junte-se a isto a tensão racial, a pobreza e a desigualdade. A dada altura, Detroit pedia emprestado para pagar empréstimos anteriores, um círculo vicioso semelhante ao da dívida portuguesa e dos juros. Com a diferença de que Detroit não pagará a dívida toda nem os juros. E um dos últimos presidentes da Câmara, Kwame kilpatrick foi condenado a 28 anos de recandidatar-se cadeia por crimes de extorsão, fraude e corrupção durante um mandato entre 2001 e 2008. As falhas da da liderança política foram, antes e depois dele, as grandes responsáveis pela falência de Detroit. O mayor que lhe sucedeu demorou pouco tempo no cargo e escusou, e o mayor actual teve de ceder poderes ao gestor especial de falências, Kevyn Orr.
O declínio de Detroit tem muitos factores. A cidade sustentava-se praticamente de uma única indústria, a automóvel (resgatada também pelo contribuinte americano) e acumulou lideranças municipais corruptas e incompetentes. Junte-se a isto a tensão racial, a pobreza e a desigualdade. A dada altura, Detroit pedia emprestado para pagar empréstimos anteriores, um círculo vicioso semelhante ao da dívida portuguesa e dos juros. Com a diferença de que Detroit não pagará a dívida toda nem os juros. E um dos últimos presidentes da Câmara, Kwame kilpatrick foi condenado a 28 anos de recandidatar-se cadeia por crimes de extorsão, fraude e corrupção durante um mandato entre 2001 e 2008. As falhas da da liderança política foram, antes e depois dele, as grandes responsáveis pela falência de Detroit. O mayor que lhe sucedeu demorou pouco tempo no cargo e escusou, e o mayor actual teve de ceder poderes ao gestor especial de falências, Kevyn Orr.
A guerra prossegue agora nos tribunais, e as decisões finais das batalhas judiciais serão analisadas à lupa e aplicadas ou não nas outras cidades, com ou sem o sistema bancarrota. Na vida da democracia americana, nunca o princípio constitucional da inviolabilidade das pensões tinha sido posto em causa, mas o próprio juiz que a decretou considera e das regras daque há sempre recurso para o tribunal superior. O que os sindicatos e fundos tencionam fazer. Dado o estado de emergência da cidade, o juiz acha que o processo deve ser acelerado. posto em fast track, para que a cidade não fique muito tempo paralisada pelos tribunais. A cidade e o "Plano de Ajustamento."
Não custa traçar paralelos entre o que está a acontecer na Europa e em Portugal, com os seus planos de ajustamento, embora no caso de Detroit ninguém fale em austeridade (seria irónico). O que importa reter é que o sistema dominante arranjou uma maneira definitiva de dar cabo dos direitos adquiridos das pensões públicas, um princípio sagrado desde a sua instituição. O que o futuro nos prepara é simples: a pensão é matéria aleatória. Há dinheiro mais do que suficiente na América para salvar Detroit, e muitos exemplos do empreendorismo da cidade já se notam por todo o lado, numa espécie de renascimento urbano. A questão não é saber se há ou haverá dinheiro. A questão é a eliminação do poder das constituições e das regras da justiça social, em nome da "emergência".Lá como cá».
Revista do EXPRESSO de o4.01.2014| pluma caprichosa | Clara Ferreira Alves.
quinta-feira, janeiro 02, 2014
PORTUGAL FESTEJA, CONSOME, TROIKANDO
Aqui temos, quase três anos depois da abertura real da crise e do avanço colossal da troika, Portugal vivendo, em plena balbúrdia, as festas tradicionais do Natal e da Passagem do Ano: fogo de artifício, fogos nos rabos e nas cabeleiras, popularmente mas a par das noites em hóteis de luxo, mulheres lindas, vestidos a condizer, uma cozinha esquálida, obras de artes plásticas, entre pequenos cubos e cilindros, pinceladas a condizer, chupáveis juntamente com frutos miniaturais vindos do Extremo Oriente. Andar pelas ruas naquela noite, rasando os sem abrigo, a malta embriagada, as multidões de roupas coloridas, bandas e cómicos numa idade média em pleno Terreiro do Paço, fogo de artifício por todo o país, Bom Ano, mau ano nunca, banhos frios para resistir às gripes e aos resgates, delírio como nunca se viu na chamada época faustosa, em contraste com a hirta marcha da troika e a crença (muito seca e singela) dos ministros que anunciam o futuro em pleno ardor de fé. Amém.
sábado, dezembro 21, 2013
ACORDO ORTOGRÁFICO: FALSO AJUSTAMENTO
Miguel Sousa Tavares
Quando tentou cumprir o acordo ortográfico toda a sua imagem
ficou gravemente poluída por sucessivas perdas de corpo e alma
Cumpre-me saudar este jornalista e escritor por se ter mantido fiel à língua portuguesa. Ele sabia que uma língua, que é uma alma viva, não se «actualiza» na secretaria, com dicionários em volta, nem sob os imperialismos que bamboleiam a fonética lusa do outro lado do Atlântico.
como lidar com estas palavras:
setor | sector
No primeiro caso, é claro que se trata de uma anómala abreviatura feita nas escolas, quanto ao professor, pelos alunos:
Setor, como é que se transfere para o AO a palavra percepção?
Setor, porque é que está errada a palavra sector na frase sector dos arquivos arquitectónicos?
Miguel Sousa Tavares acompanha sempre a sua crónica no Expresso com uma nota final que reza assim: "Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia."
A Assembleia da República tinha agendada para ontem a «apreciação» de mais uma petição contra a entrada em vigor do Acordo Ortográfico -- escreve aquele jornalista.
«Não sei bem o que possa significar, no léxico jurídico-parlamentar, uma «apreciação». Mas tratando-se do AO, não tenho dúvidas de que os deputados continuarão a fazer tudo para evitar uma votação. Alguns deputados (...) talvez se tenham atrevido a dizer que, de facto, ninguém quer o acordo entre a lusofonia -- nem Angola, nem Moçambique, nem o Brasil; ninguém em Portugal, que trabalhe com a língua (escritores, professores, editores, jornalistas) quer ou entende para que serve o AO, excepto umas raras sumidades académicas que não existiriam sem esta oportunidade; que, do ponto de vista linguístico, o AO é um delírio de aberrações e idiotices que nenhum dos seus defensores consegue sustentar numa discussão séria; e que, até juridicamente, o AO não pode entrar em virgor pois que o expediente inventado para o fazer sem o número requerido dos seus signatários viola o próprio tratado que o instituiu. Mas a maioria dos deputados aposto que terá ficado calada e não terá mostrado qualquer interesse na questão; uns por ignorância do que está em causa; outros porque acham que já é tarde para voltar atrás; outros porque acham politicamente correcto este acto de submissão colonial ao Brasil -- (onde os poucos que estão por dentro da questão sentem desprezo por nós); e outros, talvez a maioria, porque não está para se chatear com o assunto, E o assunto é apenas a defesa da língua portuguesa, que é um dos indicadores fundamentais da nossa identidade e da tal soberania, que Cavaco, Portas e Passos Coelho tanto apregoam. Também não encontro palavras para descrever a violência que é ver como a arrogância de tão poucos e a indiferença de tantos se consegue impor, por inércia ou por cobardia, a todos aqueles que fazem desta língua maravilhosa que herdámos o seu instrumento de trabalho. Quem lhes deu tal direito?»
esta crónica, de Miguel Sousa Tavares, foi citada do
jornal Expresso de 21-12-2013
A Assembleia da República tinha agendada para ontem a «apreciação» de mais uma petição contra a entrada em vigor do Acordo Ortográfico -- escreve aquele jornalista.
«Não sei bem o que possa significar, no léxico jurídico-parlamentar, uma «apreciação». Mas tratando-se do AO, não tenho dúvidas de que os deputados continuarão a fazer tudo para evitar uma votação. Alguns deputados (...) talvez se tenham atrevido a dizer que, de facto, ninguém quer o acordo entre a lusofonia -- nem Angola, nem Moçambique, nem o Brasil; ninguém em Portugal, que trabalhe com a língua (escritores, professores, editores, jornalistas) quer ou entende para que serve o AO, excepto umas raras sumidades académicas que não existiriam sem esta oportunidade; que, do ponto de vista linguístico, o AO é um delírio de aberrações e idiotices que nenhum dos seus defensores consegue sustentar numa discussão séria; e que, até juridicamente, o AO não pode entrar em virgor pois que o expediente inventado para o fazer sem o número requerido dos seus signatários viola o próprio tratado que o instituiu. Mas a maioria dos deputados aposto que terá ficado calada e não terá mostrado qualquer interesse na questão; uns por ignorância do que está em causa; outros porque acham que já é tarde para voltar atrás; outros porque acham politicamente correcto este acto de submissão colonial ao Brasil -- (onde os poucos que estão por dentro da questão sentem desprezo por nós); e outros, talvez a maioria, porque não está para se chatear com o assunto, E o assunto é apenas a defesa da língua portuguesa, que é um dos indicadores fundamentais da nossa identidade e da tal soberania, que Cavaco, Portas e Passos Coelho tanto apregoam. Também não encontro palavras para descrever a violência que é ver como a arrogância de tão poucos e a indiferença de tantos se consegue impor, por inércia ou por cobardia, a todos aqueles que fazem desta língua maravilhosa que herdámos o seu instrumento de trabalho. Quem lhes deu tal direito?»
esta crónica, de Miguel Sousa Tavares, foi citada do
jornal Expresso de 21-12-2013
quarta-feira, dezembro 11, 2013
MORREU NADIR AFONSO, ARQUITECTO E PINTOR DE ESPAÇOS ONDE A GEOMETRIA SE TORNAVA PAISAGEM E SONHO

Nadir Afonso,
Arquitecto e pintor
Nadir Afonso Rodrigues nasceu em 1920 e faleceu hoje, dia 11 de Dezembro de 2013. Iniciou os seus estudos de arquitectura na Escola de Lisboa (Belas Artes) ainda segundo os termos da reforma de 32. Muito dotado para o entendimento das problemáticas relativas ao domínio das disciplinas do espaço e da cor, diplomou-se em arquitectura e trabalhou com Le Corbusier e Oscar Niemeyer, personalidades do conhecimento do mundo, aliás de grande relevo no século XX. Além do mais, Nadir empenhou-se desde cedo no campo da representação votada ao espaço, à pintura, à memória urbana. Estudou pintura em Paris, tendo assumido uma aproximação de trabalho com Vasarely, o criador da arte op, além de personalidades como André Bloc e Fernand Léger. A dinâmica cinética devida aos estudos de Vasarely inspiraram bastante Nadir Afonso. Ele é visto, justamente, como um dos pioneiros da arte cinética. Daí, em boa medida, ter sido autor de uma teoria estética, publicando diversos livros nos quais sustenta que a arte é puramente objectiva e regida por leis de natureza matemática. Ele defende a ideia de que a arte não é um acto de imaginação mas de observação, percepção e manipulação da forma. Muitas vezes, esta tese envolveu ensaios contraditórios, sobretudo por não haver razão, nas razões apresentadas, para se excluir dos pressupostos indicados na teoria os factores derivados da imaginação.
Nadir Afonso foi considerado um espírito invulgar, mesmo em termos de reconhecimento internacional. Está representado em muitos museus e as suas obras mais famosas integram a série chamada Cidades, belas peças que, de início, o artista negava serem representações de carácter urbano. Em volta dele, na SNBA, num Salão de Arte Moderna, alunos de Belas Artes insistiam «não são mas parecem». E ficaram parecendo, brilhantemente até hoje, porventura pelos tempos fora ou da História. Lugares do mundo. Espaços onde a geometria se tornava espaço e sonho.
MORREU SOARES BRANCO, ESCULTOR E HOMEM AMÁVEL
SOARES BRANCO
Morreu no passado dia 4 o escultor Soares Branco. Tinha 87 anos e era escultor pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Escola onde leccionou durante largos anos, sempre nas disciplinas de índole artística ligadas à escultura e ao desenho. Era um colega sóbrio e de bom trato. Era um homem amável.
Domingos de Castro Gentil Soares Branco foi aluno de Simões de Almeida (sobrinho) e de Lepoldo de Almeida, já na Escola de Belas Artes. Depois, concluído o curso, foi desenhador na Escola Médica de Lisboa, trabalho raro entre artistas com formação deste tipo. Foi então escolhido para Belas Artes. Ao longo do seu percurso como escultor foi 2º classificado do Prémio de escultura Soares do Reis, SNI. A sua obra teve altos e baixos, mas beneficiou de um tempo de encomendas que permitiu a muitos artistas desta geração desenvolver soluções de arte pública. Entre os colegas, Soares Branco foi sempre correcto e cumpridor, ganhando amigos mais novos à medida que o tempo passava. Tinha uma forte ideia desses valores e do fundo de artifício do seu diálogo com a Oficina.
quinta-feira, dezembro 05, 2013
MORREU MANDELA, ILUMINANDO A HISTÓRIA
Nelson Mandela
Morreu um dos seres humanos mais decisivos para que possamos apurar, com ele e depois dele, o verdadeiro sentido da nossa melhor natureza e do futuro. Prémio Nobel da Paz, preso durante longos anos por defender a paridade entre os homens, os seus direitos sociais e espirituais, no respeito pela grandeza civilizacional. Foi presidente da África do Sul, num testemunho exemplar, admirado por todo o Mundo. Contra a separação das raças e a discriminação perversa entre os povos, Mandela será sempre um símbolo maior da Humanidade, marcando para sempre o Continente Africano no sentido de honrar o fundo dos seus diversos materiais, em harmonia de perfil e partilha. Nelson Mandela, cuja raridade se conjugava com a força ética, fou e será um dos mais poderosos símbolos da luta contra o regime segregacionista do Apartheid, sistema racista, sem rosto, oficializado em 1948. Mandela foi um inimitável na sua postura de negação dessa força absurda, combatendo sobretudo através do seu perfil moral, ou, como disse o Presidente da ONU, «um dos maiores líderes morais e políticos do nosso tempo.» Morreu a 5 de Dezembro de 2013.
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