Donde, o quê, para onde? 2007
2007 Stridons Lassü
1987 técnica mista
a palavra pensa a imagem
Em todos os séculos, filósofos e artistas sempre forneceram definições do belo; por isso, graças aos seus testemunhos, é possível reconstruir uma história das ideias estéticas através dos tempos. Mas, com a fealdade aconteceu de maneira diferente. Na maioria dos casos, definiu-se o feio em oposição ao belo, mas quase nunca se lhe dedicaram tratados extensos, somente alusões parentéticas e marginais. Portanto, embora uma história da beleza se possa servir de uma ampla série de testemunhos teóricos (dos quais se pode deduzir o gosto de uma época), uma história da fealdade terá, na maioria dos casos, de ir procurar os seus documentos às representações visuais ou verbais de coisas ou pessoas, de algum modo, consideradas «feias». Contudo, uma história da fealdade tem algumas características em comum com uma história da beleza. Antes de tudo, podemos somente supor que os gostos das pessoas comuns corresponderiam de algum modo aos gostos dos artistas do seu tempo. Se um visitante vindo do espaço entrasse numa galeria de arte contemporânea e visse rostos femininos pintados por Picasso e ouvisse os visitantes a julgá-los «belos», poderia conceber a ideia errada de que, na realidade quotidiana, os homens do nosso tempo achassem belas e desejáveis criaturas femininas com rostos semelhantes aos representados pelo pintor. Todavia, o visitante espacial poderia corrigir a sua opinião se assistisse a um desfile de moda ou a um concurso de Miss Universo, em que veria celebrados outros tipos de beleza. A nós, ao contrário, isto não é possível, porque, quando visitamos épocas remotas, não podemos fazer verificações nem em relação ao belo nem relativamente ao feio, porque dessas épocas só nos restaram testemunhos artísticos. Outra característica comum tanto à história do feio como do belo é a que devemos limitar-nos a registar as vicissitudes destes dois valores na civilização ocidental. Para as civilizações arcaicas e para os povos chamados primitivos, temos achados artísticos, mas não dispomos de textos teóricos que nos digam se aqueles se destinavam a provocar o deleite estético, o terror sagrado ou hilaridade. ________________________________________________ Citação da abertura da História do Feio dirigida por Umberto Eco
Frank Frazetta
O Comendador Marques Correia exprimiu a Jardim Gonçalves, em carta de 22 de Outubro de 2007 a perplexidade que o assaltara perante o clamor que se levantara contra aquele banqueiro inaposentável, clamor que se ficou a dever, pensa ele, às dívidas entretanto pagas (paternalmente pagas) contraídas por um filho algo aventureiro. Disse o Comendador que o mal estava em ter pago os 12.500.000 euros gastos pelo rapazola, o que não altera em nada a salgalhada que vai pelo BCP. O Comendador já não se lembra daqele tempo em que a idade de 70 anos levava à reforma compulsiva. E também não se lembra muito bem, presumo, daqueles senhores que começavam como paquetes e acabavam em gerentes, donde só saíam para o hospital ou para os Jerónimos. Este senhor, senhor Comendador, talvez seja o homem «que não devia pagar». Mas ele é um ganhador que não quer envelhecer.
Foi considerada uma mulher muito corajosa. Benazir Bhutto, primeira-ministra do Paquistão há mais de 14 anos, foi deposta e reeleita mais tarde, considerando-se por isso «uma sobrevivente». Zulfikar Ali Butto, pai de Benazir, escolheu para a filha o nome de «incomparável». A sua trajectória privilegiada, sendo a irmã mais velha entre os outros filhos de Zulfikar, levou-a a concluir os estudos de Ciências Políticas e Filosofia, nas universidades de Harvard e Oxford, os quais acabou no fim dos anos 70. Nessa altura, o regresso à sua terra foi auspicioso, mas ela terá de passar por mais regressos. Antes disso, conferiram-lhe vários «títulos»: «mulher corajosa», «filha do destino», simplesmente «filha». Carachi é a sua terra natal e lá a esperam após 9 anos de exílio em Londres e Dubai (nada mal convenhamos), talvez milhares e milhares de pessoas. Este é mais um regresso (porventura problemático), mesmo tendo em conta a ideia dos habitantes da província de Sindh, se se considerar que ela aspira de novo ao poder. Há quem a entenda como «uma mulher corajosa, elegante e inteligente», mas há também quem a recorde como «uma grande desilusão enquanto primeira-ministra». Esta última questão também se relaciona, em parte, com a sociedade paquistanesa, muito polarizada e dividida entre os que amam esta mulher e os que a odeiam. O seu casamento, muito negociado pela mãe, não se pautou por uma escolha apaixonada. Casou em 1987, já famosa na política, com Asif Ali Ardari, um quase desconhecido para ela, praticante fundamentalista do pólo e vindo de um estatuto humilde. Este homem insistiu na proliferação de herdeiros e um dos seus «desportos» principais passava por coisas menos chiques do que o pólo -- era a corrupção. Benazir viajara nos anos 90, contra a opinião local, e dizia-se interessada em conhecer bem as relações internacionais, fundo imenso em que acabou por se enredar. Mas os paquistaneses deram-lhe o benefício da dúvida, desligando-a das penas aplicáveis por práticas menos recomendáveis. Voltou ao poder em 1996, dizem que tempestuosa e arrogante. Assumiu-se como o próprio Paquistão. Lembram outra vez, em 1996, a narração das aberrações, contratos, tráfico de todas as influências, casos trágicos da antiguidade e as intrigas dos impérios onde a traição e a volúpia do poder marcavam tudo. A sua prática nessa altura, contra as recomendações da Amnistia Internacional, após acusações de mortes nas prisões, assassinatos sumários, repressão relativamente à oposição, era condenada nas dimensões imponderáveis que alcançou. Quando deixou o poder de novo, em 1996, as aberrações, contratos, tráfico de todas as influências, escapam a uma narração nestas dimensões de espaço e tempo. A história torna-se difícil de sintetizar.É por isso que, como dizem os jornais, todo esse currículo (onde contam anos de prisão) deixa uma pergunta inquietante no ar: «quem é esta mulher que aterra hoje em Carachi?» É, dizem os que sabem, uma mulher muito diferente do que era em 1986. Nessa altura (pode ler-se no Público) tinha o ardor da juventude e voltava para desafiar um ditador. Agora volta mais uma vez, mas para se ligar a um outro. Citamos a sua biógrafa Christina Lamb: «Isto vai tornar difícil ela poder dizer que está a lutar pela democracia». A verdade é que este rosto ainda cuidado e reflectindo uma beleza mítica, um combate antigo, foi, como veremos a seguir, incorporado por outro, ou vingativo, ou arrogante e sem dúvida ávido pelo poder.
N: considerações apoiadas na imprensa do dia, 18.ou.07, em especial o Público.
Esta conhecida escritora das nossas letras, protagonista de grandes êxitos editoriais, em particular quanto aos milhares de livros vendidos, tem sido louvada e combatida por diferentes protagonistas da cena intelectual portuguesa, cronistas e críticos literários, aos quais ela responde de forma desnivelada, sobretudo desnecessária. Agora apareceu a atacar os «blogues», aquilo a que chama, destemperadamente. «um território de guerrilha suja, protagonizada pelos terroristas da Internet». Assim, tal e qual, todos ao molhe. Olhe, Margarida, eu uso este «territótio» como uso a pintura, o cinema e a literatura. Saberá você que, tendo eu uma obra vasta e de qualidade reconhecida (sem pretensão às filas da frente, claro), fizeram-me ancorar aqui e além, poucas críticas aos meus livros sabotados pelas máquinas editoriais e outras, pouco estudo da pintura, audiências da tarde, pelas seis horas na televisão (séries culturais sobre arte), um cinema de ensaio premiado lá fora e usado sobretudo na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Este ficar entre parenteses, este esboço de esquecimento, estas marcas do tráfico de influências inacessível, tudo isso (fora a vida académica) são dores que você não sente, circunstância que pode afectá-la, deixando-a contudo refém de um êxito periférico, cujo significado mais profundo tem maior importância quantitativa do que literária, presumo. Públiquei «Os Passos Encobertos» (romance), «Amnésia» (teatro), «Angola 61, uma crónica de guerra» (factos reais de uma comissão em Angola), «A Culpa de Deus» (romance, para um ensaio sobre o livre arbítrio). Foi decisivo o romance «A Casa Revisitada». Está para sair «Memória das Velhas Artes e os Segredos Conventuais», «Nojo aos Velhos também», e escrevo entretanto crítica de arte no JL, como aconteceu no Diário de Lisboa, Colóquio, Opção. Não estou a fazer o meu currículo: estou a mostrar-lhe que esta obra, reconhecida por personalidades de grande relevo, por vezes até indignadas com os silêncios, não passa pelo largo crivo oferecido à sua escrita. E isso revela como se sufoca em Portugal, como se discriminam valores erradamente, porque, para falar do seu caso, convido-a a ler A Culpa de Deus, avaliando-o segundo o seu critério, tentando perceber se tal obra é menos digna do que qualquer das suas. O que fazem as distribidoras e os escritores uns com os outros? Você acharaia mal que constitíssemos um Observatório para esta área, entidade ordenadora de quantidades, qualidades, regras, pareceres, propostas e definições vinculativas em certos casos? Se você não monta nenhum «blog» é porque pode escrever um livro num mês e atirá-lo para além da própria Internet. E creia que nem todos os bloguistas são terroristas, porque, em geral, são muitas coisas mais. Veja lá não lhe apeteça o caminho de Espanha, como o nosso colega Saramago, a globalidade subverte tudo em toda a parte. Faça por admirar também os seus inimigos. Torne as suas indignações matéria literária.
Personalidade de grande assiduidade interventiva, prestando trabalhos multimédia aos orgãos da comunicação social, instituições universitárias, forças partidárias e acontecimentos de reflexão política a diversos níveis, Pacheco Pereira tem marcado um longo período pós 25 de Abril da vida portuguesa com inusitada veemência teórica, incluindo o plano inventivo das hipóteses de transformação dos governos, sem desvios de uma democracia mais robusta de um ponto de vista ético. No último número da revista sábado, 30 de Agosto, 2007, coluna «A lagartixa e o jacaré», este erudito comentador preocupa-se com a RTP. Inquieto sobre quem manda nela, imagina-a governada por uma cadeia hierárquica que depende do par Santos Silva - Sócrates, como no passado aconteceu com o par Morais Sarmento - Barroso. Estes receios, poventura justificados, fazem parte do elenco de eventuais mordaças aplicadas ao universo da imprensa escrita ou audio-visual, que muitos apontam ao governo (leia-se Sócrates) e a uma espécie de projecto Big Brother para a nossa sociedade em geral, numa gestão orwelliana mais fina dos últimos fios de liberdade. O medo de ser português chegou às bancas em forma de livro, mas Pacheco Pereira, capaz de citar algum epifenómeno desse tipo, não é jogador cobarde, nem se furta aos possíveis ataques dos seus próprios correligonários: saltará sempre a crista da onda, criando rectaguardas demolidoras. A RTP foi sobretudo mais um pretexto para fazer política e atacar o primeiro-ministro, figura a quem reconhecerá alguns feitos e alguma coragem, mas que se aproxima cada vez mais do fim do mandato e da natural perda da maioria absoluta no Parlamento. Embora os monitores caseiros andem atulhados de futebol, como sempre, Pacheco Pereira, quanto à RTP, acha que ela está demasiado sobrecarregada de «momentos Chávez», expressão algo grosseira para caracterizar os momentos (quanto a mim, muito escassos) em que o primeiro-ministro aparece nos ecrãs. Pacheco diz que Sócrates se apresenta «compostinho e grave, a falar do palanque nas condições preparadas profissionalmente pela sua máquina de propaganda». O povo gosta desta visão chocarreira aplicada aos governantes, mas a intervenção séria sobre tais problemas, e num país ainda largamente iletrado, deve reger-se por melhores critérios éticos, não por uma espécie de hipertrofia transgénica no apontamento dos erros e dos fatinhos domingueiros. O crítico, aqui, acha que tudo é sempre encenado, calculado, incluindo figurantes, e enquadramentos de reportagem. E em todos estes aparecimentos do primeiro-ministro na televisão (aparecimentos a que chamarei, por agora, esporádicos), Sócrates «não se pronuncia sobre nada de importante, seja a 'ceifa' transgénica e a apatia da GNR, sejam as estatísticas preocupantes da enonomia portuguesa, seja o silêncio sobre as negociações do célebre 'tratado reformador', sobre o qual nada se sabe, apareceu de novo para as habituais sessões de propaganda». Depois, e na mesma forma, a frase ácida vai para novos pretextos de gabarolice saloia quando o primeiro-ministro entrega computadores ao abrigo do Programa Novas Oportunidades, «ocasião única de armazém, que pode ser repetida quantas vezes se quiser». A entrega dos computadores tem de facto um significado real de grande importância se pensarmos a sua relação com outros problemas da área do ensino, mas concordo que, repetida cem vezes, ou mesmo cinquenta, ou mesmo dez, ou mesmo cinco, pecará por redundância política. Quanto ao resta, as coisas fiam mais fino. E das duas, uma: ou Pacheco Pereira é a personalidade culta, sólida e séria que tantas vezes tem procurado fazer passar, ou o seu inegável talento analítico e literário estão enlameados pelo lado mais soez da política, precisando o autor desse género de populismo para apontar erros a Sócrates e ao Governo. Se estivéssemos em lugar e circunstância adequados, penso que valeria a pena confrontar Pacheco Pereira com as descaracterizações, distorções, mal-dizer paranóico, intencionalidades enviesadas, partindo apenas do modo de usar palavras como propaganda, máquina, recado governamental, conveniência, condições preparadas, palanque, falar do palanque, sempre com amplo tempo, compostinho e grave, mitologia ideológica do serviço público, e, entre outras falas engrenadas como vimos atrás, para terminar com o golpe fulminante «momentos-Chávez», momentos inadmissíveis em termos jornalísticos, sobretudo na «oficiosidade» das notícias. Lamento este género de colorido e de vocabulário, com a carpintaria jocosa (para dizer o menos) que nos foi oferecida em toda a crónica «Problema da RTP». Tal trabalho jornalístico, em vez de um outro mais didáctico e com menos empáfia, esse sim, é que anuncia o medo, é que engatilha a humilhação, é que borra o retrato para que nos sintamos pequenos e informes ao espelho do «Big Brother».
Rocha de Sousa