terça-feira, agosto 25, 2009

PAULA REGO OU UM ROSTO DENTRO DA PINTURA

Paula Rego

Nem sempre, em Portugal, se prestam as devidas homenagens aos grandes criadores do domínio das artes. Há excepções. Mas nesses casos o excesso de vénias e privilégios redundantes chega a comprometer a o sentido das coisas, a medida do próprio génio. Paula Rego cabe perfeitamente no âmbito deste quadro, no sentido destas palavras. Este rosto arrasta com consigo a pertinência da obra entretanto louvada retrospectiva após retrospectiva, um rosto que ainda conheci jovem e belo, dividido entre uma entrevista que tinha de fazer à pintora, que soletrava o encanto das suas colagens, e o manto de formas fascinantes estendido no chão do atelier. Tudo lhe acontecia, já nessa altura, como ela pensava: pois agora, levada em ombros, como no futebol, aliena a sua grande obra dos anos 60, retira-lhe importância, e afadiga-se, entre modelos vivos e histórias de terrível sentido ou violência, no trabalho alucinante com pastéis de óleo, numa espécie de super academismo com um fio de perfídia, o gosto pelas crianças em plena catástrofe do medo e das maldades risonhas, tornando-se, enfim e afinal, numa das grandes contadoras de histórias em pintura, pintora ilustrativa, sem pudor, a quem os críticos de há uma ou duas décadas, puniriam sem piedade. Eles apagavam quem representasse ou contasse um «pedacinho» de gente à beira mar. Paula Rego tem agora, em abundância, as mais disparatadas consagrações, como este museu ou «Casa das Histórias», tudo feito segundo o lado mais visionário da pintora, mulher forte e sonhadora, que deseja e realiza histórias, as histórias da terrível tradição portuguesa, os pesadelos, os gestos torcionários sobre modelos no exercício da cópia interpretativa, fealdade a conjugar-se como beleza, o belo horrível, gente do fundo dos tempos, um rosto profundamente marcado por tão intensa entrega aos gritos e às armadilhas, um rosto, enfim, que se parece cada vez mais com os outros rostos, os pintados, os rostos do absurdo; é com eles que Paula vai conviver, patética, legando porventura a sua própria máscara às projecções de diversos estados do subconsciente e da memória. Paula sente a angústia de tanta coisa junta, percebe o lado enviesado de tanto êxito e mordomia. Mas é o que sabe fazer no atelier, lugar dos seus «brinquedos», dos seus «bonecos». Fica um pouco impertinente com a balbúrdia, diz coisas tolas e sábias, vai ter uma «catedral» para os mutantes que foi espalhando pela cultura das nossas regiões. Ao menos ninguém lhe aponta um dedo. Ninguém lhe pede contenção. Justamente: porque à sua volta todos perderam a contenção. Portugal está ali. Inteiro.



Declarando-se envergonhada com tantas exposições e ruído à sua volta, Paula Rego, na última revista do Expresso parece tomada por sentimentos patéticos, aflita com a desarrumação do ambiente de montagem do museu e das suas obras, esta tem de ficar à frente, a «Mulher-Cão», aliás capa do catálogo. Mas ela anima-se diz que «todos poderão brincar lá dentro. Seja apenas com um olhar, seja com o desejo de partir à procura dos contos escondidos naquele universo feito de espanto» (A Casa das Histórias é um projecto de Eduardo Souto Mourinho). Trata-se de, reconsagrando a obra de Paula Rego, fazer mais balanços, corresponder à sua obsessão pelos encantamentos das histórias: o museu passa a ser a casinha da senhora-menina, lugar onde ela poderá continuar a rir das suas brincadeiras desabridas e algo pérfidas. A pintora fala das histórias e assegura que «são extremamente violentas, física e psicologicamente. São más e belas, O grotesco é belo, que é a coisa mais maravilhosa que existe». E ainda acrescenta, entre outras coisas: «Há alguns contos (literatura portuguesa) que são terríveis, como o da mulher que corta o peito para dar de comer ao marido». Nesta festa do visual e do terrível, comenta: «Num país de brandos costumes, fazem cada clister... As pessoas são cruéis, mas às vezes também dão beijinhos. Portugal vive muito do chicote e caridade. Isso fascina-me. Admira-me. Espanto-me».
Depois disto não se espere que a pintura de Paula Rego seja um aprofundamento do país em termos de testemunho e denúncia. Apesar das personagens sombrias e da esquizofrenia delas, o que fica não é um dedo rasgando iniquidades. Fica a história de brincar, feita tecnicamente com grande profissionalismo. «Há muita narrativa na minha pintura. Porque não posso fazer um quadro sem ter uma história, sem ter em enredo»
Lá se vai a «pintura pela pintura», o primado da cor, o fim como abstracção. A não sar que Paula Rego seja apenas em parênteses redentor mas equívoco.



a avó dos meninos que brincam com os brinquedos dela

domingo, agosto 23, 2009

A BELA IMPERTINENTE E A DOR DE FRENHOFER

fotomontagem de rocha de sousa

Ainda bem que te revejo, Marianne. Fazias parte de outro filme meu, colada à imagem de Odette e aos sonhos brevíssimos da Alice. Meninos ainda, vasculhámos as teses de Antonioni em «Blow-Up», Brian de Palma em «Blow-Out», e assim por diante. É preferível viver assim, folheando o futuro, do que beber de uma só vez a purga do tempo. Lourdes, que belo rosto, perdeu-se num cemitério e automóveis e foi sofrer para a Grécia. Não, ela tentou libertar-se das feridas que lhe haviam provocado: voltou salva mas irremediavelmente envelhecida. Estivemos uma tarde a ver «O Contrato», do Greenaway. Sim, ainda bem que sabes: toquei no assunto num livro quase impossível de escrever, porque metade dele tem que dar a ver grandes pinturas não assinadas. Ah, isso? Podes dar uma vista de olhos, podes até ler. Sim, sim, aceito que o digas: escrever é uma forma de ler e uma forma de ver.

«No filme «Bow-Up» é claramente investigado o acto perceptivo enquanto tal e como qualidade básica da visão, comprometendo a consciência das impressões móveis numa necessidade não explicada de escolha. No caso da «Bela Impertinente», há uma espécie de enunciado vago da ideia de projecto, algo que poderia ter o mérito táctil das coisas, no sentido de as transformar em várias configurações de um sonho qualquer meio perdido, afectos antigos, o lado metafísico que informa muitas das nossas buscas práticas, técnicas, sempre a contornar ou ultrapassar o visível».


publicado a partir de Construpintar 02
onde o excerto utilizado é outro

«O pintor, que parecia ter saído de uma crise indeterminada, queria dar corpo a um certo projecto, abandonado, velho de dez anos. Eu acho a tese absolutamente determinante para enquadrarmos a natureza do pensamento plástico, a contingência da nossa relação com o mundo aparente, carregado de armadilhas e escondimentos. A Inabilidade inicial de Frenhofer, ou o ruído rasgador do aparo com que entra em perfeita deriva pelo papel, tudo isso nos remete para o lado trágico da arte enquanto criação emergindo de um pântano de memórias, fixações, afectos gastos ou desfeitos. Eu vejo isso. professor. E vejo que a tese, de um Balzac demasiado disciplinado, tem no filme um bom acerto. Em todo o caso, não posso deixar de acentuar que Rivette se perde no tempo e nos perde enquanto espectadores. Tenho que confessar, por outro lado, que a mão de Dufour exprime bem o envelhecimento da sua oficina, honrando o trabalho de Picolli na sua patética procura do amor acabado, da verdade atrás da porta -- o irreprimível desejo de dar sentido às formas antropomórficas, mas da ordem do monstruoso, que rasura sobre a tela. Para quê o modelo?, dir-se-á então. O artista, enfim na margem, aflora com o carvão a alvura preferível do papel ou rasga arduamente, em cadernos de mercearia, toscos nus de aparência velha e amarga. É isso que ele vê ou é isso que pretende dar-nos a ver, passando pelo modelo para interiorizar a parte do desejo que toda a criação envolve? Será que pinta apenas para si mesmo, arrancando a cumplicidade de Marianne, catarse regeneradora de um tempo único, afinal irrecuperável, cuja memória o vai devastar por dentro, fazendo soçobrar também a esperança inicial do modelo? É muita coisa para um filme só, apesar das quatro horas, e sobretudo porque, explicando as coisas por uma cartilha mais ou menos acessível, nos deixa entregues à nossa própria deriva. Muito bem, julgo dever dizê-lo, a citação de que a arte, permanecendo pelo tempo fora, será sempre esquisita e incompreensível. Bendita inutilidade, votada a guardar os nossos mais poderosos segredos e apontando para posteriores utilidades cuja natureza nos nos alegra e magopa, nos liberta e faz sonhar, o homem assim capaz de produzir civilização e poética. Por aí passa, mesmo em jeito de sombras chinesas, a nossa verdadeira identidade».

sábado, agosto 22, 2009

FÉRIAS MÍTICAS NA PRAIA: O MUNDO DESFAZ-SE














Quem renuncia à praia não é gente
de verdade, porque a praia, apesar das multidões,
das promiscuidades, da desordem urbanística,
do pouco zelo pelo tratamento das falésias,
é, dizem os aficcionados, o melhor tónico
de sempre, mesmo tendo cada vez mais nocivos
raios solares e até o fanatismo feminino,
ou de toda a gente, em passarem da pele
branca, por vezes bem bonita, ao mais sujo
dos bronzes.









Até se bronzeiam
previamente em máquinas,
das tais geradoras de doenças que até custa nomear.
E agora, além do mais, passa a haver outro
desporto de alco risco: procurar sombras debaixode falésias e rochas
avisadamente prestes a ruirem.
Ontem aconteceu que um troço de rocha
certamente instável, acabou por desabar sobre
os banhistas que se acomodavam afoitamente
naquela sinistra sombra. Vários mortos e feridos.
No Allgarve

Aconteceu numa praia perto de Albufeira.


Desta vez, a falésia desmoronou-se fragorosamente sobre a areia
e as pessoas que se acolhiam se acolhiam à sombra dessas «fortalezas»
em vias de ruir. Mortos e feridos. Casos dramáticos. Ajuda tardia,
sem a sem prospecção de lugares cujo uso por humanos coincide
com a regular erosão de colinas, barreiras, rochas, falésias.
E as autoridades, que colocaram uma placa de perigo ou proibição
na rocha que se pode ver na última destas imagens, falando
pelas televisões, dizendo o que vão fazer para que as pessoas
não se aninhem debaixo dos «matadores».
O que restou desta derrocada, um aparente sinal menhir,
Torre de Pisa sem engenheiros,
um rochedo há muito instável que vai ser
cautelosamente derrubado.

quinta-feira, agosto 13, 2009

MORREU SOLNADO, FICA UMA OBRA HUMANÍSSIMA

Raul Solnado

Sei muito pouco o que dizer perante a morte, entre familiares e grandes amigos da nossa história contemporânea, como é o caso de Raul Solnado. O que me vale, nesta situação de Solnado nos pertencer a todos e todos lhe pertencermos, é que o vazio provocado pela morte, absurdo da própria criação, distende-se por uma obra que ele nos deixa e que podemos visitar de várias maneiras, segundo meios muito avançados. Um dia isso será para todos, se chegarmos a esse dia, mas o actor pensou sempre em nós e tinha um apreço muito grande pelo lado mais humano e mais modelar dos seres que vivem, num certo abismo, nas margens da sociedade, quase párias, velhos perdidos na orla da calçada, artistas que morrem sem uma brisa de presença e de amizade. Mas em boa verdade, esta atitude solidária estendia-se a toda a gente, sem subserviências e com um grande sentido de solidariedade.



Desde muito cedo que recebi, calorosamente, este gesto, como outros, o triunfo do riso sem vaidade e os efeitos de um grande currículo profissional, no teatro, nas rábulas, na extraordinária criação de personagens em que nos reconhecíamos, a nós e a muitos outros, no cinema que vem desde o D.Roberto e que alcançou domínios de seriedade exemplar, de rigor, de contenção, aliás na mesma medida de importantes entrevistas. Sobre ele se escreveu talvez menos do que era preciso, pois Solnado, além de ser um dos maiores vultos na história do seu género mais conhecido, em Portugal, países lisófonos, Brasil em particular, era também, por excelência ,um personagem humano digno de estudo, de aprofundamento técnico e sociológico. Sempre lutou, mesmo nas peças de verdadeiro non-sense, pela afirmação do homem, dos seus valores, da ética e de uma afirmação da liberdade responsável a todos os níveis. Dele nos fica, com efeito, uma obra significativa. Um testemunho de humanidade. Um facto de arte limpa, apesar de, tantas vezes, ser inspirada na incultura e no analfabetismo do país, politicamente esfacelado.
Morreu o nosso amigo Solnado, um amigo em quem podiamos confiar. Talvez alguma perplexidade o assaltasse nos últimos tempos. Mas não era (disse) por medo da morte, coisa universalmente inevitável, antes porque gostava imenso de viver. «Viver é bom»


quinta-feira, julho 30, 2009

MIA COUTO NÃO MIA MAS ESCREVINHA BEM BOM

Mia Couto

Mia Couto é um escritor Luso-Moçambicano, ou ao contrário, que viaja assiduamente em direcção a Lisboa e ao Brasil, mercantilizando a sua imagem e a sua gostosa escrita ou cortejando (no melhor sentido) intelectuais e professores de toda a parte. Os mais preciosistas garantem que o artista se trata de um dos nossos maiores escrevinhadores, desbebendo os vidros do Porto e canecando belas murraças que eu próprio já experimentei em Quelimane, logo logo e esófago enroladiço até cuspir, depois escrementando o almoço em finos cheiros azeverdes.
Aqui há uns meses, havia um certo número de bloguistas que partilhavam um jogo de palavras, as quais eram previamente propostas por um coordenador. Tratava-se de meter as palavras num contexto narrativo ou poético, mais ou menos inteligível. Fizemos um com palavras de Mia Couto, inseridas em «Cada Homem é Uma Raça» e passo ao exemplo possível:

«A miúda andava meigando pelos cantos, mas o pai estava atento, atrás do vento. Viviam na redondura das ilhas e a família era pouca. A Lauridinha gostava das cascas dos mariscos, mas o primo bebia muito e daí que a sala acabava por dar lugar à pontapesaria. As ilhas também são assim, com a maré da alma vaziando-se. A música fazia-lhes bem, aos ilhéus, todo o espaço se fabulava. E quando a morrinha prendia tudo e todos, aí pelo início da tarde, as pessoas entravam devagar, sacundindo gotas de água, todas parecendo tocadas de uma espessa sonolentidão.
De manhã, se o sol batia nas janelas, acontecia quase sempre a par de um verdadeiro chilreino.
Laurinda apressava-se, tinha que aproveitar o bom tempo, pensava me prossigo, e pouco depois voltava ao quarto.Raramente se punha a ruar, como as outras. Ía à missa, desatenta, sabia que o padre duvidava do seu joelhamento. Morrera-lhe o noivo, preferia visitar a campa para se lembrar do sabor do corpo dele. E contudo alguns choros, estremunhos. Mais tarde sonecava ali mesmo, agarrada às flores; e quando se levantava era como se sonambulassa, vaga, em deriva. E em casa, descasada, o espaço sofria de solistência. Os mais n0vos, amafengu, gingavam assim, entre a fome e a brancura. Havia um deles que sonhava com bula-bula, de uma casa onde vendiam ndoé, raranja, esperando pela voz do cocorico.

domingo, julho 26, 2009

AS ESCOLHAS DO PODER POR RETRATOS PRÉVIOS












divulgação do Expresso

Por muito que nos espante, as personalidades candidatas a primeiro ministro do próximo governo português são estas: um homem ainda novo, que nem parece ter sido tão flagelado como aconteceu em quase todo o seu mandato, agora em fim de festa, e uma senhora idosa, em pose de retrato e olhar de soslaio, simulando a bondade aristocrática da poupança e fina lisura de ambições. Dos outros nem se fala: inconstitucionalmente, os partidos tresmalhados, cada vez mais improvisados e improvisadores de altas prestações, mostram ao povo, ensandecido de pasmo, as criaturas indigitadas para se aconchegarem na cadeira do poder. São dois retratos, nada mais. Há mais partidos a concorrer às eleições legislativas, mas como ainda não estão perto desta linha de «alternância», palavreiam na Assembleia e por vezes formam com o PSD ou o PS coligações para maiorias ditas estabilizadoras.
Disseram-me agora que as figuras dos indigitados não deviam aparecer em primeiro lugar, a fim de se atenuar sacralizações apriorísticas. A força que ganhasse teria então possibilidades de propor o primeiro ministro e, com ele, um programa de governo. Assim, afadigam-se a gastar dinheiro, com muitas jogadas já jogadas, andam por tudo quanto é sítio, das feiras às praças públicas ou grandes auditórios, anunciando espalhafatosamente os «amanhãs que cantam», talvez usando palcos imensos, muito som e muita luz, com lugar para 40.000 pessoas, o que, feitas as contas, é menos do que o santificado futebol. Também me disseram que o Manuel Alegre (que já esteve à direita do PS e agora anda muito jubilado pela esquerda exterior ao Partido) não concorreu desta vez, gosta do seu Movimento e talvez esteja e preparar o salto para a Presidência da República, sem reparar que o nosso Durão Barroso é seu concorrente, para além de uma possível troca de madame Ferreira Leite com o europdeputado Rangel rangente. Ela ficaria na Presidência, espiolhando contas, boatos, desfalques, casos de corrupção, e a estudar a forma do rangente primeiro ministro vender ao exterior os submarinos do Portas, deixando cair o caso Freeport. A maldade dos Bancos está em banho maria, pica daqui, pica dali. Já há quem proponha a sua entrega, sem custos, aos dois milhões de pobres e desempregados, eles que tratem do espólio, restos, vendas, recebimentos.

sábado, julho 25, 2009

ENTRE A SOMBRA E O PARADOXO DAS MARCAS


Algum tempo depois do 25 de Abril de 74, aparentemente vários anos após aquele memorável Primeiro de Maio, mãos dadas e flores, canções de epopeia, Zeca Afonso ao amanhecer, começaram a emergir azedumes na força irracional dos desencontros, obscuras conflitualidades. Um fio de mágoa tocava o coração dos velhos, de alguns resistentes carregados de inocência, a tropa trotando pelas cidades em nome do PREC, ao dizer-se capaz de ajudar a «reconquistar» as coisas do povo, terra, casas, caminhos, o gado. Os latifundiários, diziam os novos comunistas, de casacos aos quadrados, têm de partilhar as terras com o processo revolucionário em curso, com os camponeses e as camponesas. As casas devolutas ocupam-se. As falsas fortunas, fugindo a más horas, nacionalizam-se, toda a banca e todas as fábricas, e quem o disse melhor o fez, arrastando dependências por todos os cantos do país. Houve a Fonte Luminosa, uma resistência com outro nome, enquanto novos partidos, à esquerda e à direita, se fundavam num cada vez maior afrontamento. Da extrema direita à extrema esquerda, 42 grupos procuravam expressão em conteúdos políticos quase todos gastos ao longo do século XX. O CDS, novíssimo à direita, era perseguido como os antigos homens da esquerda. O PCP, com Álvaro Cunhal, fazia uma estratégia institucional e opunha-se ao poder cada vez maior de Mário Soares e do PS. O PSD chamava-se PPD, altura em que perdeu, num sinistro desastre de avião o seu maior expoente, Sá Carneiro. Amaro da Costa, do CDS, também faleceu. Alguns nomes, riscados nas paredes, siglas e contra-siglas, produziam estranhas iconografias, testemunho da fragmentária existência dos partidos políticos. Esquerda, Direita, Centro e extremos, tudo isso se transformava em ansiedade conflituosa, incandescente. Houvera e havia pinturas parietais, muros cheios de riscos sem nexo ou ilustrações «didácticas» que a massa do povo mal aprendera.
Aí as temos, as letras, as siglas, PPD vandalizado com uma violenta suástica, enquanto um vagabundo, em certa vila do interior, se senta por baixo daquela simetria e limpa o nariz, indiferente, assimetricamente. Será este, ainda, o povo português? Este homem tinha vindo à praça, comera pevides e bebera um copo de três. Fazia calor, era um verão quente daqueles que os políticos inventaram. E então, sem nada saber de nada, nem da sua fome, o homem sentou-se no chão, por baixo daquilo, refrescando o corpo e a fervura do vinho. Uma verdadeira e cândida criança dos destinos anónimos.

sábado, julho 18, 2009

TER OU NÃO TER PISADO A LUA, EIS A QUESTÃO



A 20 de Julho de 1969, há portanto 40 anos, o astronauta americano Neil Amstrong pisava o chão poeirento da Lua. A frase que pronunciou, não sendo uma pérola inesquecível, entrou na História pela importância da viagem até ao nosso satélite natural, senhora de poetas e muitos enigmas. Ao assentar o pé naquela terra, e através da rádio, ouviu-se Neil dizer: «é um pequeno passo para o homem, um salto do gigante para a humanidade». Não sou um céptico relativamente a esta e outras alunagens do projecto Apollo (aqui o da Apollo 11), mas também não imagino que esta frase tenha sido espontânea: penso antes que foi pragmaticamente preparada e com a devida antecedência. Quase tudo o foi, o que de resto se justifica para um instante com tão elevado siginificado. Após uma viagem, com alguns amigos, a Peniche, voltámos tarde mas a tempo de poder organizar a recepção televisiva na hora avançada em que estava prevista. Para nós, os mais ligados culturalmente, a istória do evento, era imperioso não nos dispersarmos, o que nos levou a atrasar as verdadeiras chegadas a casa de cada um. E assim nos juntámos na casa de um colega, um salão grande ali para os lados da Estrada da Luz. Jantámos, conversámos, vimos televisão e ouvimos relatos de vários pontos do Globo. Mas quase toda a gente foi cedendo ao sono, deitando-se no chão e nos sofás da sala onde tínhamos ancorado. Contudo, eu e um amigo que estivera comigo em Angola, ficámos a pé, entre as notícias e a varanda, fumando de expectativa. E depois, acordando os outros, alinhámos os olhares e vimos. Vimos com espanto e uma pontinha de decepção. Porque a singeleza do sinal e outras imperfeições do tempo, retiravam grandeza e valo espectacular áquele plano fixo, salpicado de ruídos visuais e da rádio. Vista assim, a Lua era qualquer coisa como um campo de futebol pelado, o horizonte ali à mão. E isso fez-mos pensar no que teriam sido as primeiras e longas viagens marítimas dos nossos navegadores: o tempo todo, a tormenta e a fraqueza, mortos alguns, por vezes muitos, pelos caminhos do Oceano. Alguns meses mais tarde, um velho amigo dos tempos de escola, agora comunista ferrenho e anti-americano primário, sorria para as imagens coloridas do Projecto Apollo, artigo ilustrado numa revista de fundo. Era o primeiro céptico sobre o assunto com quem podia conversar: segundo ele, nada daquilo tinmha acontecido, os americanos, para acertarem a competição com os russos, haviam encenado toda a viagem numa base remota, creio que no Estado do Nevada. Para nós, crentes, parecia mais difícil simular tanta coisa complexa do que ir à Lua. É verdade que houve depois filmes (de ficção) abordando directamente a questão. Um deles era exactamente como descrevera o meu amigo da esquerda rude. Tratava-se de uma obra vulgar, mas de absoluta verosimilhança cénica, na NASA, no espaço, na alunagem, nos procedimentos que entretanto se tornaram bem histórico e cultural de todos nós. A certa altura, na obra fílmica, um técnico do rastreio rádio, julga perceber que o sinal rádio não lhe chegava do espaço, antes de perto da terra ou dela mesma. O técnico foi bem depressa descoberto e arrastado dali, não sem que o realizador nos deixasse de mostrar a «verdade» do voo, tudo certo, impensável, excepto quando a câmara de filmar, pelo ângulo e pelo enquadramento nos desvenda a colossal estrutura de toda aquela «antecipação». Era esplendoroso e, ao mesmo tempo, aterrador. Este filme multiplicou o númeor de cépticos, havendo na América mais de dez milhões de pessoas que não acreditam no que viram. A «teoria da comspiração» também se propõe à nossa reflexão, voltando-se no sentido menos imaginável.


Penso que hoje há meios para provar a existência na Lua dos despojos das várias viagens. Nem sequer é caro. O Hubble, e mesmo recentes rádiotelescópios na Terra, poderiam artografar de perto as zonas anunciadas e mostrar se houve ou não uma casca de banana em tudo isto. Das sondas, cujos feitos parecem largamente comprovados, haveria uma erivante simples: retornando um pouco no programa sobre o Cosmos, seria perfeitamente realizável colocar uma câmara em órbita lunar, escolhida com o rigor que se conhece, a vasculhar tudo.
A Revista do «Diário de Notícias aventurou-se a fazer manchete desta história, com as imagens que chegaram do espaço. «E se o homem não tiver pisado a Lua?» Interessante ler os argumentos, as eventuais falhas de escala, de luz, de gravidade. É um sonho ao contrário, ao mesmo tempo risível e perturbador.
Para os mais curiosos, direi que, numa das alunagens do projecto Apollo, entre outras coisa, os astronautas deixaram, no chão da Lua, um reflector laser, com o qual, desde então, os cientistas trabalham a sério, explorando o retorno dos feixes que enviam para lá. Isto seria impossível se não tivesse havido nenhuma alunagem. Por outro lado, os alinhamentos dos radiotelescópios e de outros receptores de ondas rádio, não se enganaram na orientação para receberem, daquela distância e num azimute correcto, as comunicações ocorridas entre a base e o módulo lunar. Muitos outros aspectos poderiam ser rebatidos, desde o horizonte próximo ao tamanho da imagem da terra, diferente entre duas fotografia.

quinta-feira, julho 16, 2009

A PIANISTA REBELDE OU OS CANTOS DO EXÍLIO

Maria João Pires

Parece que algumas das mais importantes personalidades do nosso meio artístico e cultural, zangadas com a mediocridade do país, a tacanhez dos gostos e dos governos, a falta de zelo pelas actividades artísticas, começam a ponderar o abandono deste lugar de tantos ostracismos, procurando o Brasil como terra para novos enquadramentos. Sempre tivemos este tipo de de exílios, dantes sobretudo para França, onde ainda hoje, ligados às artes plásticas e ao cinema, são referência gente como Maria de Medeiros, Bértholo, Lourdes de Castro. Coisa semelhante acontece com londres, cidade onde Paula Rego tem um ponto de ancoragem, entre outros, ou mesmo a Holanda, país arduamente escolhido por Maria Beatris para fazer carreira. Na semana passada lemos as queixas de Sousa Tavares, agora mais público e publicado, em rota de aterragem no Brasil, onde o tratam bem e não o conhecem nas ruas. Conheço engenheiros, homens de letras ou artistas, que emigraram para o Brasil, sem protecção de rectaguarda, pessoas que acabaram por voltar, não muito tempo depois, em face de se se sentirem discriminadas e repelidas polidamente pelas classes privilegiadas das grandes cidades, apesar do convívio, como altos quadros, que mantinham nas empresas com os sues homónimos. Pode ser que isto tenda a mudar. Sabemos de casos, de gente mais comum, que tem baterias de rectaguarda e não alimenta tanto a vontade de ir viver e morrer no Brasil, em nome de uma solução que a pátria desolada não lhes assegura minimamente, mesmo em Lisboa ou Porto. Maria João Pires, pianista de excelência, portuguesa por inteiro mas dotada de capacidades invulgares, talvez perto de geniais, louvada e aplaudida em muitos pontos do mundo, entre prémios, homenagens e audições históricas, é agora (também) um dos últimos casos de exílio no Brasil, país ao qual parece ter dito que pediria a respectiva nacionalidade. Trata-se de um agravo conhecido, que tem implicações mais pesadas do que as telúricas vontades de Sousa Tavares, desconfortos perante os políticos, governos, instituições desse domínio, todas e todos em geral acusados pela pianista de desleixo, a par de indiferença ou recusas quanto ao projecto que ela tinha em andamento - o Centro de Belgais (Castelo Branco), iniciativa que envolvia muito empenho de artistas portugueses e estrangeiros. Continuo a pensar que as figuras de decisivo recorte público, de grande talento e por vezes muito mediáticas, não são as mais indicadas para contraírem síndromas de impertinência no seu país, pois constituem, de facto, uma frente que tem meios de luta e que pode, inclusive, arrastar consigo admiradores, forças aumentadas, coligadas, capazes de fazerem exigências perturbantes de direito à cultura. Os anónimos, os que vivem no fundo do poço, pessoas correntes e de vida por vezes penosa, esses têm por vezes resistido (apesar da diáspora que nos representa no mundo) com sentido de associação, protesto, edificação de espaços produtivos por muitas áreas. Os artistas deveriam ter igualmente esta força, estão mais apoiados e para a sua mediatização nem sequer precisam traficar muito, como nos casos extremos, em que avançar pelas televisões é penoso, humilhante, mas conduz alguns carentes a conseguir no dia seguinte milhares de dadores de coisas várias, na grandeza e no infortúnio. Com isto não quero nem julgar nem condenar as opções de ninguém. Não é disso que se trata. A própria Maria João Pires, cuja rebeldia é amavelmente citada, cujos actos têm revelado posturas de sustentação e dignidade, também não pediu direitos de autor quando, em muito nova, preferia brincar trepando pelos telhados ou fazendo «coisas malucas». A liberdade de transgredir faz parte de certos direitos tendencialmente reconhecidos aos criadores de nomeada e em várias disciplinas de índole artística. Num filme conhecido, A Bela Impertinente, de Jacques Rivette, a irrequietude de um modelo feminino leva o pintor, segundo razões pessoais, a combater perante o corpo que lhe escapa e a memória de amor distante que deseja recuperar. Eu acho que o artista sai vencido, mas também sei que os nossos caprichos de representação, em torno de um real ou de uma lembrança dele, nada reconquistam, pouco constróem. Compreendo que a pintura de Frenhofer o levasse a desejar maior superação do cerco, metáfora que tantos de nós subscreveriam, e acho louvável que, apesar de tudo, o pintor da história tenha permanecido ali, ainda que transitoriamente. Por vezes, os anjos procuram-nos na morada habitual e não num endereço apagado.


quarta-feira, julho 08, 2009

MORREU, BRANCO, O CANTOR MICHAEL JACKSON

Esta era a imagem de Michael Jackson quando do lançamento do vídeoclip Thriller, em 1984, obra considerada das melhores de todos os tempos. Não há sinais das borbulhas afirmadas na adolescência e o trabalho de imagem adequava-se à pujança dos meios vocais e do gesto, dança invulgar, indiciada por muitos dos ritos urbanos, sobretudo onde florescem diversas misturas rácicas e mitomanias assmbrosas. Fala-se de uma infância problemática, difícil, aliás bem cedo explorada pela própria família na dança e num tom vocal específico, preso também à vontade do próprio Jackson, menino de vocações exploráveis. Um articulista, ao falar desta época, intitula a sua prosa com o título «uma estrela à custa de cinto». Joe, o pai, não admitia falhas aos filhos e recorria à violência para lhe incutir um rigor fanático. O tempo levou esta figura, tão poderosa em Thriller, a uma estranha metamorfose, duvidosamente fundada em certa doença da pele, que empurrou o cantor e dançarino para um caminho alucinatório, por vezes fascinante mesmo sob o peso das suas marcas, das sucessivas operações ao corpo, à derme, às feições do rosto, um rosto enfim ocultável e patético, ilustração inquietante dos ídolos em decadência, dos vícios que entretanto os cerca de solidão e crises depressivas de grave recorte. Jackson não era um monstro e morreu de forma abrupta, sem recurso, tratado das mais diversas sequelas derivadas da sua vida e das lesões que provocava a si mesmo. Teria estranhos hábitos, na sua relação com crianças e bichos exóticos, assaz perigosos, que chegou a ter em casa, com ênfase. Que desejaria ele daquela sala onde, em determinada altura, coleccionou manequins que declarava serem os seus amigos? Metáfora contra a solidão? Resistência à exploração da indústria dos espectáculos? Mas ele próprio os queria assim, talvez sem os saber gerir com vontade bem activada, cultura e bom senso. Seja como for, sem falar em genealidade, o seu talento era insofismável e a sua obra fez história. Nada que justifique, para além do respeito que lhe é devido nesta hora, a hipertrofia dos processos megalómanos em que envolveram as cerimónias da sua despedida e da quase sacralização do ídolo. Assim nos enganamos cada vez mais, sendo certo que os actores dos grandes espectáculos passam ao futuro pelo estreito caminho do envelhecimento irreversível.
este foi o rosto que Michael Jackson impôs a si mesmo,
não se sabe em nome de quê

segunda-feira, julho 06, 2009

SOUSA TAVARES, LANZAROTE, BARÃO NO BRAZIL

Miguel Sousa Tavares numa das varandas da sua casa
que dispõe de uma soberba vista sobre o Tejo



Há dois ou três anos, escrevi neste mesmo blog um auto de homenagem a Sousa Tavares: eram palavras de quem apreciava a frontalidade e lucidez do jornalista, agora escritor, filho de duas personalidades que ainda conheci e que me confrontaram com a coragem de afirmar uma luta, uma arte, a habitual e cobarde intriga da nossa vida, incluindo a intelectual e a política. Sousa Tavares não me desiludiu. E de súbito o EQUADOR, obra legítima, interessante, mas que lhe cortou, em todo o caso, a geografia da identidade e deixou-o a fazer acrobacia na latitude entre separa Portugal do Brasil, sequioso dos grandes espaços e de mais carga inspiradora.
Caro concidadão, a sua entrevista ao jornal «Diário de Notícias», ontem, domingo, é das peças mais decepcionantes que já sairam do nómado adolescente que ficou a residir no seu retrato inconsciente: porque foi muito desconfortante vê-lo reclinar-se na fama, rebolar na boca as quantias que ganhou, o júbilo de um discutível viajante, uma coisa assim a parecer-se com o pequeno salto de Saramago, ele que foi só amar entre as pedras e espreitar daí, sem as pujanças do tal país novo que é o Brasil, o mundo em volta, Lisboa que você também cantou, o deserto global atravessado por artistas corredores, arranhando-se até ao martírio só para gritarem: «quase no fim da colúna, meus amigos, más chéguei: agora sou de Dakár.» Este é o lado mais pueril dos portugueses, postura pela qual ganharam mundos ao mundo para logo os perder, alcançando terras do fim da Terra, e fugindo para o Brasil pela ameaça exterior, mas fugindo para sempre, com barões e baronesas atrás, barcos carregados de meio Portugal para instalar na terra da salvação, lugar dos engenhos, dos escravos, da imensidão que dana a maior parte dos burgueses, montes de mordomias que brotavam da insanidade das pessoas e da exploração alucinada de riquezas jorrando um pouco por toda a parte, era só apanhá-las e levar à côrte. A loucura teve a sua beleza, a sua grandeza, e dela até saíram coisas absurdas e fascinantes como Manaus.
Apetecia-me dizer, à maneira de Caeiro: «eu sou desta terra, vejo e penso a terra, faço pinturas e escrevo livros, não há mais nada para fazer até ao fim daquele outeiro». É verdade, o Sousa Tavares já ouviu falar nos meus livros? Não ouviu. Mas eu, que nem sequer sou pior escritor do que o meu caro concidadão, não venho em nenhuma página, em nenhum telejornal, não viajo quatro vezes ao Brasil só com a massa de uma edição ou duas ou três. E sabe porquê? Porque, depois de vir de Angola, tive de esgaravatar tudo, palmo a palmo, sem jeito para pedir o favor de um destino inteiro, nem o berço onde me caísse do céu uma nuvem de açucar. E como eu há muita gente por aí, os que deveriam ter a oportunidade de sentir na pele essa doçura de cortesia de que você fala. Não, não pense nisso: o homem que lhe fala é bem mais velho do que você e não tem nenhum azedume pelo triunfo dos outros. Mas nos regimes actuais, o triunfo tem uma indústria por trás. Você é um produto dessa indústria e teve berço e esperteza para saltar a sebe. Está aborrecido com o país (um escritor que almoça, telefonado, com Sócrates) e julga ter urgência em apanhar um abanão, pensando que dessa forma alcançará um pouco do tal elixir da juventude, o sal de um inapagável talento. Precisa de inspiração, foge para o Brasil. É verdade que não tem a obrigação de usar a sua sorte e o seu jeito numa verdadeira causa por Portugal. Se somos macambúzios, geramos Vergílios Ferreiras (sem Nobel). A lista não terminaria. Porque os países velhos, são sobretudo antigos, e é nessa nobreza que a experiência escorre para dentro de nós. Juan Gris dizia que a grandeza de um artista se media, sobretudo, pela quantidade de experiências que ele trazia dentro de si. O Brasil serve para experimentar, para exprimir. A força de Angola, mesmo despida da demografia brasileira, mesmo na passagem pela floresta em guerra, deu-me estados de espírito inquietantes, deles retirei «Angola 61». E você a dar-nos recados, sem se importar com a ofensa que nos lega, porque a sua mobilidade também teve o nosso contributo, que é que pensa?
«Vou para o Brasil. É um país novo, de que eu gosto há muitos anos. E sou muito bem tratado sem ser popular na rua, o que é óptimo. É um país optimista, não está cansado, não está desiludido, sem esperança. Mesmo que agora haja tanta asneira feita no Brasil, todos os dias, não é? Só que que eles têm espaço e tempo para uma maior dose de asneira do que nós». O caro concidadão quer espaço e os emigrantes brasileiros vêm até aqui por sufoco e não acham o português (conforme os contextos) assim tão macambúzio. Podem é ter perdido quase todo o cosmopolitismo que já usaram (Eça de Queiroz devia ressuscitar) e por isso agem de forma mais pagã, nas festas tradicionais, com o património cultural de que dispõem. E os ricos fazem como os ricos paulistas. Mas olhe, Sousa Tavares, cuidado com o espaço, não se meta a ser um «sem terra», porque logo-logo terá terrinha para escrever, mas será rondado por outros sem-terra, muitos outros que nunca mais acabam, e você, macambuzado, pensará na bela casa da Lapa, com vista para o Tejo, decidirá vender a terrinha (que é o que eles todos fazem), virá a Lisboa comer uma boa cabeça de cherne, trocará o Algarve pelo Alentejo, e visitará, com algum esforço, compreendo, o «nosso» Saramago, lá nas pedras de Lanzarote. É mais verdadeira, esta ideia, e só tenho pena que o Nobel Português (da literatura) não se tenha curado das antigas solidões. Não é por acaso que ele diz de si, com algum sarcasmo, está bem de ver: «ele que vá para o Brasil ou para Marte, tanto me faz». Alguma coisa há-de fazer. Pois se um génio-para-si-mesmo-sonhando, aqui em Campo de Ourique, lhe está a dizer estas coisas, é porque alguma distorção ética haverá na sua preferência, tanto mais que, se há coisa que você é, e muito bem, é português. Devia estar mais ofendido com as garotadas que você disse aos jornalistas, como se se babasse de ir participar numa fulgurante imitação dos prazeres colonialistas. Mas não fico ofendido: acho apenas que você se desentendeu. E garanto-lhe, eu que conheci de perto o seu pai, em pleno PREC, tenho contactado com muito poucas pessoas tão portugueses como você, meu caro concidadão. Já não diria o mesmo da senhora sua mãe, que muito apreciei, e cuja obra nos legou, em português.

sábado, junho 27, 2009

CAMPO DE ADORADORES DA MORTE PELO SOL

O senhor Silva pertence às redes comunitárias de adoradores do sol. Na praia, certamente. O mundo já não pode viver sem os Silvas. Eles não querem nada com as serras e as cidades. É no verão que se deslocam aos milhares, porque o sol queima muito mais nessa altura. As estradas, logo a partir de Julho, enchem-se de gente. Gente dentro de carros fumegantes. As auto-estradas são pagas e quanto maior for o percurso mais se paga. Os Silvas viajam com um plano de poupança, usando de preferência pequenos carros utilitários, em segunda mão e pagos a prestações. Em estradas atulhadas. Antes de Julho já as filhas dos Silvas andam dias e dias a caçar todos os raios de sol, ali mesmo em Santo Amaro. Umas têm medo dos avisos quanto à exposição aos raios solares por causa dos cancros da pele. Mas são como os fumadores: um terço deles, em todo o país, deixou de fumar pelo aumento do preço mas, acima de tudo, pela proibição de expelir fumo de cigarros em todos os lugares públicos, escolas, empregos, restaurantes, hospitais, e até igrejas. A campanha sobre as praias, largamente desenvolvida pelas autoridades, não fez baixar os adoradores da morte pelo sol. Não é por acaso que as meninas, fugindo ao provincianismo e aos costumes antigos, já afirmam querer a cremação quando morrerem. Caixões e cemitérios, que parolice, que seca: é muito mais higiénico a cremação dos cadáveres. Depois, sem nojos, ficar numa pequena ânfora de estilo grego, ali na própria sala, ou no quarto da família. Se há pessoas que derramam os mortos, por acidente, na carpete, outras há que usam processos de prevenção contra tais casos, ajudando a indústria dos sarcófagos de metais preciosos para uso dos mais colados à necrófilia. De resto, há quem vá a uma ponte velha, aí abrindo a caixinha e polvilhando o espaço e as águas com o pó dos mortos. Outras alternativas são as próprias praias, onde muitos começaram a morrer: e é mesmo durante o banho de mar que filhos e netos de um Silva qualquer (já não se trata de uma questão de minorias) despejamam as cinzas a cerca de cinquenta metros da orla de areia suja, entre a espuma dos dias, eles boiando com a ajuda de bóias de plástico insuflado e uma coroa de flores que deixarão ao sabor das correntes. A berraria dos miúdos é clara e intensa, chegam a esticar os dedos molhados por baixo da caixinha, sujando-se com a cinza do avô e logo admoestados pelas mamãs para lavarem já já os dedos na água salgada até não sentirem nem um só grão na pele. Mas quanto ao resto, não há problema: a multidão enche cada campo em que se transformou a praia, cada pessoa luta arduamente pelo seu bocado de território. Quando consegue lá estender a toalha, abre logo um chapéu de sol e desata a cobrir-se de protector solar número 40. A segurança e a comodidade são coisas que desapareceram há muito. A qualidade de vida, ao descer na maior promiscuidade, costuma matar, de insolação e enfartes, pelo menos dez pessoas por semana. Agora as concessões são a dobrar e comportam, a preços fabulosos, serviço médico e de enfermagem. Os deputados da Assembleia Nacional Superior já enfrentaram a hipótese de criar cotas para cada praia e consoante as horas. E alternâncias. E até proibições. Como ninguém tomava as medidas relativas aos vários regulamentos, os campos foram municiados com grandes chapéus de sol, mas os Silvas preferem ir para os piores sítios, com direito a pequenas sombrinhas de sua propriedade, as quais espetam na areia, o eixo logo rodeado de mochilas, cães, meninos e bolas. Qualquer Silva que se prese, após essa hora de marcha, luta e pouso, abrem os seus banquinhos portáteis, ficam em calções, besuntados a 40, e lendo jornais (Bola, Record, Correio da Manhã). É claro que o sol atravessa a lona dos toldos, mesmos dos toldos institucionais, e ninguém descobre ninguém neste mar de adoradores do sol, ou mesmo da morte por lento suicídio em nome do bronzeamento. As mulheres são as que mais rezam sob o sol e o creme a escorrer, pele escuríssima, tudo muito pior do que em Fátima.

quarta-feira, junho 17, 2009

CONDIÇÕES DOS JUDEUS IMPOSTAS À PALESTINA



Gritos, disparos de armas de fogo, pedras voando na atmosfera carregada de fumos, um cheiro pesado espalhando-se sobre o asfalto amolecido nuns pontos, cicatrizado noutros. Anos da Intifada, memória humilhada das derrotas militares e dos territórios ocupados, Arafat num cartaz tão longe, velhos de plantações mirradas, outrora capazes de produzirem cebolas, agora definitivamente labirintos de cimento e arame farpado. Corredores vigiados. Agonia na Faixa de Gaza, enre campos e ruínas. Os povos palestinianos sabem, em suma, de uma dor qualquer, baça e funda, que tem a ver com tudo em volta, Telavive, os israelitas, anos 40, mais tarde a guerra dos seis dias. Os problemas do Médio Oriente persistem, cortantes, apesar da História soprar outros ventos, odores indizíveis, o cheiro da terra queimada. E um cuidado com os velhos azimutes, porque o rumo da morte já não se sabe com antecedência qual seja. Foi feito mais um apelo para reconhecimento do Estado de Israel, enquanto Estado Judaico, apelo inserido num discurso de Benjamin Netabyahu, primeiro ministo daquele país, mas os conteúdos pontuais são quase um insuto, o que acabou entretanto por ensombrar expectativas, as próprias simulações de abertura, tudo num estranho ciclo vicioso onde Deus capitula e o sagrado domina aterradoramente todos os espíritos. Ninguém irá apoiar o apelo de Benjamin, aliás produzido na Universidade de Bar.Ilan, perto de Telavive. O Egipto não poderá dar a mão a um programa implícito totalmente desajustado da situação. Nem o Egito, nem a maior parte dos Estados da Zona. É verdade que o primeiro ministro Benjamin Natanyahu declarou pela primeira vez, no seu discurso, aceitar um Estado da Palestina. Só que as condições apresentadas para essa aceitação, não parecem poder tornasr-se História, porque foram urdidas de forma impenetrável e de verdadeiro desprezo pelos outros. Tais condições foram rejeitadas pelos palestinianos e também pelos países árabes, incluindo mesmo os que têm acordo com Israel.

O presidento Egípcio, Mubarak, adiantou dias atrás ter comunicado ao presidente dos EUA, Barak Obama, que «todas as crises no mundo árabe passam por Jerusalém». Esclareceu haver comunicado ao ministro israelita que as negociações sobre o estado definitivo dos territórios palestinianos deveriam ser imediatamente retomadas e no ponto em que foram interrompidas». Com efeito, as ideias anunciadas por Benjamin Netanyahu não respondem às epectativas da comunidade internacional, infirmam o próprio estatuto do Estado dos Palestiniamos e bloqueiam os dados imprescindíveis para a existência de pas naquela zona. O Egipto assinou acordos com Israel, em 1978, e a Jordánia em 1994. O Líbano e a Síria têm suspenso um processo de paz com Telavive, Pois esses dois países colocaram as mais sérias reservas ao conteúdo do discurso de Netanyahu. O modo com o estas personalidades têm encarado os «direitos» de Israel, ou aqueles que os combatem, legam à contemporaneidade uma das mais absurdas contendas em volta de arcaicas mitologias, como se a vida das pessoas pudesse ser tratada dessa maneira ou assim pirateada, aliás desde a instalação artificial e combinada dos judeus na terra segregada aos povos da região, na altura.


Tudo tem sido visto por orgãos internacionais, por vezes até em combinação com eles, o chamado milagre de desenvolvimento do Estado de Israel, não apenas à custa de engenho e arte, ou de domínio tecnológico, mas também pela guerra e, em nome da defesa, por expansão humana ou territorial. Judeus de Gush Emunin, em 1974, tomaram para sua insta~lação Sebatia, perto de Nablus (norte da Cisjordânia), fazendo aquilo que constitui o primeiro colonato ilegal no território palestiniano, nessa zona ocupada por Israel após a guerra de 1967. Além disso, a inclusão tocou a Jerusalém Oriental. Os israelitas ocuparam o Sinai e os Montes Golã. Com o decorrer do tempo, os colonatos (ilegais perante a lei internacional) multiplicaram-se com arrogância. As caravanas tomavam as colinas e aí emerguam casas, subsidiadas, integrando as melhores condições possíveis. De pólo a pólo, os pequenos povoados ganharam escala e demografia de autênticas cidades. Basta dizer que hoje são 300 mil só na Cisjordânia. Yizahak Samir (1992), depois de perder as eleições, chegou a confidaenciar que tencionava construir tanto e tanto que impedisse a devolução dos territórios aos palestinianos. Não haveria nada para resolver e é nisso que consiste a actual ameaça dos colonos. Há jeito de entendimentos com estes actos prepotentes e insensatos?

Pois então veja-se como Benjamin Netanyahu concebe as coisas: (publicado do Diário de Notícias em 16.06.09. O texto anterior baseia-se em trabalhos de Lumena Raposo)

Estado judaico: os palestinianos têm de recopnhecer Israel como nação judaica.

Garantias intenacionais:O Estado Palestiniano não pode ter exército, não pode controlar o seu espaço aéreo nem adquirir amas.

Jerusalém:Permanecerá a capital de Israel. Os palestinianos têm de abdicar da sua reivindicação à capital de Jerusalém Orientalk.

Colonoatos:Israel não construirá mais colonatos na Cisjordânia mas fica indiciado a autorização do denominado «crescimento natural» nos já existentes.

Direito ao regresso: O problema dos refugiados palestinianos tem de ser solucionado fora de Israel. (Milhões de refugiados palestinianos vivem em campos da Cisjordânia, Jordânia, Líbano, Síria e Faixa de Gaza)

Depois disto, sobretudo com este guião iniminável, parece que a Nação Judaica se prepara para vingar, com outro, o Holocausto que Hitler, não os palestinianos, lhe infligiram.

domingo, junho 14, 2009

ARTE CONTEMPORÂNEA | Artur Cruzeiro Seixas


CRUZEIRO SEIXAS

Conheci pessoalmente Cruzeiro Seixas em Angola, nos anos 60, aproveitando um tempo de licença na cidade de Luanda. Entre amigos, aí visitámos a belíssima colecção de arte africana que o pintor conseguira formar ao longo dos anos, naquele grande território atormentado por guerras inúteis. Ao rever alguns textos escritos sobre a sua última exposição na Galeria S. Mamede (CENAS INTOCÁVEIS), reparei numa frase que eu próprio citara, a partir do catálogo. Franklin Rosemot dizia a certa altura das suas considerações: «uma figura principal no movimento surrealista internacional pela segunda metade do século XX, ele continua a ser, como a presente exposição o demonstra, um excelente exemplo e mentor do século XXI». Ao revisitar, entre memórias, a casa de Cruzeiro Seixas em Luanda, mobílias populares integralmente pintadas de azul, objectos brancos, molduras brancas, nichos e patamares onde se situavam as principais esculturas mágicas, salto por cima daquela nota entusiástica: o artista português, hoje ainda activo e a viver numa residencial de idosos, falou-me há dias dos seus sonhos e das figuras humanas que lhe preencheram os melhores momentos de convívio, com afecto e verdadeiro conhecimento da sua obra. O Surrealismo foi sem dúvida um movimento determinante na história da arte relativa ao século XX: intenso, inovador, capaz de se desdobrar pelas almas contagiantes, este Movimento também se fracturou em consequência das mudanças de modo e fundamento em todas as grandes transformações do tempo. Em Portugal, Cesariny herdou um perfil soberano, talvez inspirado em Breton, mas o que podemos estudar na obra de Cruzeiro, mentor por sua vez de outros artistas, é um talento fiel ao rigor e à encenação do espaço. O pintor não era surrealista porque sim, tanto quanto aconteceu no século XX, mesmo quando alguns perdiam o apego ao modo, visando outras experiências, opostas, mas continuando a dizer-se representativos do Movimento, ostentando o seu forte galardão, quer na via caligráfica, quer simplesmente da abstracção, por vezes ciosos de sopros orientais. Ora isso mudava muita coisa. Cruzeiro Seixas, criador das suas composições, morfologias, lendas, oratórias do mito e dos seres intocáveis, sempre se conservou fiel às técnicas que desenvolveu e aperfeiçoou, sempre manteve o seu pensamento alinhado pelos princípios e concepções da estética surrealista. Quase profissional, no sentido desse apego a um jogo certeiro, sem cartas viciadas, ele tem sido um autor de excelência, transportável, sem desgaste maior, para o século XXI.


apontamento da memória

Artur Cruzeiro Seixas nasceu em 1920. A sua ligação ao grupo «Os Surrealistas» cobriu a apresentação inicial ao público (colectiva em 1949): trazia «estranhas esculturas de meias de seda armadas em estruturas de arame». Mas a sua afirmação verdadeiramente significativa aconteceu na área do desenho, escrita inusitada, caligrafia de delicada presença formal. Tratou-se, e durou até hoje, assim o posso dizer, de uma especialidade aparentemente suspensa da própria banda desenhada, antes de ela ser essa verdade cósmica, de superior design, que Alex Raymond nos legou. Esta imaginária filiação em nada belisca o espírito superior, com outros riscos e outros propósitos, do belo formulário gerido por Cruzeiro Seixas. Ele foi, quase de súbito, surrealista, plástica e poeticamente, na metamorfose que imprimia a muitas das figuras, sujeitando-as ao paroxismo de cenas de violência e crueldade, como referiu José Augusto França. Mas o que importou foi o seguimento gráfico, lírico, poses das citadas encenações operáticas, composições de palco (o plano ou o palco) inventadas com ênfase, formas por vezes inspiradas na poesia de Lautréamont, universos de valor onírico, maior entre os maiores da arte portuguesa dos anos sessenta. Senhor seguro de uma imagética efectivamente invulgar, a dança das linhas modeladoras, neste autor, servem profundas dinâmicas estruturais e uma suavidade algo feminina, desde as anatomias e os adereços ao tipo de musicalidade virtualmente inserida nas cenas e nas «paragens» de cada enquadramento.


um mundo metamórfico e crepuscular

Cruzeiro Seixas toma o rumo de Angola em 1951 e ali trabalhou no museu de Luanda, estudando os universos da expressão plástica nativa. Muito respeitado no meio, contribuindo para a cultura da cidade, inclusive quando acolheu Nikias Skapinakis (pinturas de Lisboa) e outros artistas. Ele teve o mérito de aceitar um convite de artistas para expor em colectivo, apesar do estatuto que alcançara enquanto director do museu, num espaço de lamentáveis lacunas nesse campo. Quando voltou a Lisboa foi entendido justamente pelo lado da cultura demonstrada e opções estéticas inspiradas, tendo assim sido director da Galeria S.Mamede, de 1969 a 1974, e a ele se deve uma boa parte do lançamento de autores como Paula Rego, Mário Botas, António Areal ou Cesariny. Os surrealistas portugueses, após alguns endeusamentos e liturgias vindas de França, chegaram a disputar o seu próprio pelouro, defeito próprio de certos radicalismos ao tempo.




Rosemont, surrealista americano, ainda escreveu sobre Seixas e as suas imagens nestes termos: ele é um autor «a quem o mundo deve indiscutivelmente tantos dos mais maravilhosos desenhos das últimas cinco décadas, e é também um dos mais incontestáveis mestres deste Pluriverso em perpétua transformação».
Estas palavras gravam-se nas imagens aqui expostas. E também nos casos da pintura, com a mesma base de desenho, onde figuras híbridas, em metamorfose, lembram ainda a realidade antropomórfica, barcos de areia e astros como bolas amassadas à beira mar. Tocam, com idêntico sentido, as modelações em tons de terra cota, a visibilidade das ondas, o real aberto diante de nós com o seu fogo petrificante, poses monumentais, um mundo metamórfico e crepuscular, sob atmosferas sensivelmente empurradas pelos ventos, entre seres e coisas e justaposições, força romântica que se atenua pela melancolia do mundo. Esta obra parece elaborar respostas à obra de Rimbaut, no sentido dos encontros, aliás num trajecto de quem deseja em tudo ser sublime,
«absolutamente moderno».



das cenas intocáveis

texto publicado no JL

sábado, junho 06, 2009

AMANHÃ EUROPEIAS EM PLENA POLITICOMANIA

dos jornais

Um amigo meu encontrou-me no café, sentou-se, pediu água lisa, e começou a tentar sair da lavandaria das europeias. «Não estou preocupado, meu caro, estou sobretudo indignado. E não é para seguir a máxima de Soares. Nem os gritos do povo, índios nas feiras, tabernas carregadas de políticos de aviário bebendo café e copos de três, beijocando quem cospe neles ou lhes devolve bafos e salivas. São todos umas tribos de abruptos, todos têm razão de coisa nenhuma, os pachecos com os seus maneirismos no poder de interrupção, capela do círculo em quadratura, maçonaria de pacote, blogues e santanas por aí, à coca, copistas das cópias das antigas eleições, muito pau, muita bandeira, slogans capitalistas, esquerdistas, direitistas, enquanto rolam ferreiras pelo Chiado abaixo, sorrindo idades e arcaísmos, devegar se vai ao longe, treta dos liceus para pequeninos. Nem devagar nem depressa. Não há longe. E lá vêm os capelães da evangelização de rua, os arautos das canetas esferográficas, lápis de cor, cadernos de cópia, panfletos ou garotadas para os velhotes esfarrapados da reforma, batuques, portas a fechar portas e a abrir portões, melna sem pá, estilo francês, la fraternité, muito discurso a fingir de jeitoso, trocadilhos, e por duas ou três razões. Ou quatro, Os sócrates não podiam deixar o trono para virem umas horas apoiar os seus candidatos, vitais moreiras acusados de burros, de falharem tudo, sim, sim, os rangéis é que estão a dar, não nas faladuras, talvez por serem quase virgens em coisas destas e terem uma voz aguda e rachada, uma escolha brilhante (dizem) das ferreiras para fazerem o papel delas, aquelas que chamaram aos sócrates cooveiros da Pátria e afirmaram, brando no laranja, que as reformas não se fazem em democracia: fazem-se depois de se suspender a democracia pelo menos durante seis meses. Tudo à bruta, num tufão de mudança, políticos atirados deste para outros continentes, nada de provedores, nem de juízes, juízes também, porque não? Um estágio, sem vencimento, na Guiné-Bissau, seria de um fulgor sem nome. Indignado, eu? Eu nem queria parar a democracia, queria varrer os partidos, tudo se recicla ao cabo de certo tempo. Em vez deles, experimentava, através de um programa de televisão, punha lá gente miúda e boa, humilde e sábia, ansiãos também, daqueles dos governos comunitários nas aldeias, mas sem etiquetas, num gran círculo sem quadratura, projecto eventualmente capaz de mitigar a nossa depressão pânica. Os actuais partidos, os grandes e velhos partidos, deveriam pagar multas imensas por cada arruada cometida, gente a comer febras, a beber vino, a esconder segredos: iriam todos descascar batatas batatas em prisão preventiva até confessarem os recentes manobrismos, reconhecendo que propaganda de rua, com brinquedos e outras acenos, não são maneira de falar às populações, a festinha balofa, os milhares de euros gastos para lavar a roupa suja, entre duas ou três palavras sobre a europa, lá onde se acomodam primas donas, delinquentes da extrema esquerda, defensres do natural equilíbrio dos mecados, tudo ao molhe e no malho, malta do dinheiro selvagem, malta que finge esquecer a lei dos mais fortes, a morte do planeta por erros colossais dos seus homenzinhos conscientes. São os xavieres de sacristia, os louçãs analistas, padres metodistas com pedra no sapato, dragas como as Irínias mais afinadas, ildas trotantes, cortantes, fundamentalistas, jerónimos dos partidos que são como condomínios fechados, homens sem cabelos brancos nem sobrancelhas façanhudas, todos reféns de mitologias doentes, de incapacidades mórbidas. Todos os nossos partidos estão em desacordo com tudo, mas em cinco minutos aceitaram o dinherrinho para as arruadas e, em mais de um ano, não foram capazes de se entender para a substituição de um senhor provedor, que acabou, doente e indignado, por resignar. E por aí se vê que nada, entre cassetes, vai muito mais longe do que malhar no freeport, manuelas malhadas pelos marinhos, bancos corruptos, banqueiros por prender, aliás entre outros da mesma casta social. E o ensino, meu caro? A ministra vem do outro mundo falar de forma tecnicista, salvadora, capaz dos maiores milagres, O ensino não tem nada a ver com tão enviesados manobrismos nem os professores precisavam de andar tanto na rua, humilhando-se. Os sindicatos têm as suas tocas de permanência, não doutrinam nem ajudam ninguém: é também gente petrificada por décadas no seu altar, não resignam nem à porrada e aceitam eleições continuamente iguais. O espectáculo dos últimos dias, repetindo até ao vómito fórmulas gastas, arcaicas, todas de feirantes no seu pior estilo, ideias nenhumas, barretes muitos, que é que eles fazem amanhã? A crise não está a servir para nada, é uma oportunidade perdida: a ideia de progresso alfacinha é a mesma, mais carros, mais condomínios fechados, mais hipermercados, mais assimetrias sociais (até ao crime), mais vencimentos inomináveis, mais imobiliário sem norte, abjecto, casas devolutas, casas a mais, cidades grandes a mais, vileza das estradas, o interior candidato a deserto, nem memória da agricultura diversificada, nem uma única ideia sobre como mudar o homem e as sociedades para um outro paradigma (como se dis agora), um projecto capaz de excluir o excesso e o lixo, os fósseis e a morte das florestas» Estou sem fôlego, amigo, disse ao meu amigo. Apreendeste tudo isso nos jornais, onde tudo não passa desse barro e dessa acidez, ficando bem longe de retornos aos primeiros grandes ciclos da vida organizada. O trânsito, na capital da Nigéria, visto do ar, perturba qualquer consciência. Mas isso, como quase tudo mais ou menos semelhante a isso, incluindo a migração para as cidades que parece continuar até à sufocação, o planeta vai calar ou apagar daqui a menos de dois séculos. Os abruptos, ao emigrarem para Sírius, serão porventura visitados por uma Nova verdade, respirando uma atmosfera de metano e acabdo submetidos a uma outra genética totalmente imprevisível. Deus ainda não sabe o que fazer com a sua criação.

sábado, maio 23, 2009

INVULGAR HOMENAGEM A UMA VIDA DIFERENTE


Tomei conhecimento em Silves, há cerca de uma semana, que a cidade perdeu um dos seus mais curiosos habitantes, apesar da pobreza e da diferença, cidadão que teve a desdita de nascer com deficiência mental, em definitivo limitado no desenvolvimento da fala, bem como noutros aspectos estruturais ser enquanto da prestação comum enquanto ser humano. Cresceu inicialmente sob a protecção dos pais, gente modesta mas responsável dos deveres inerentes a um caso assim, desde muito cedo, aliás, compreendido e acompanhado pela população da cidade. Na cama de um anexo hospitalar, já com idade avançada mas impossivelmente determinável, morreu Zé Xana, assim mesmo, como era conhecido por toda a gente. Confirmaram-me o que eu próprio verificara, ao longo de décadas, sempre que vinha a férias: que o Zé, eterno moço, inicialmente descalço e depois ajudado e arranjado por instituições sociais, desfrutara sempre de uma saúde de ferro. Umas vezes encontrava-o de sandálias com meias e um casaco escuro, em espinha, calças pardas, amarrotadas, barba crescida, pele curtida do vento e do sol, cabelos hirsutos, negros, gritantes. Outras vezes, anos depois, descobria-o nos sítios habituais, derivas por lugares que lhe eram próprios, paragens nas mesmas praças, rindo a quem passava, «café, café... o Zé sabe, tu és Amorim. Teu pai teu pais?» Se alguém se afastava, com alguma indiferença, ele não barafustava nem gritava -- dizia apenas para a distância maior: «Quando voltas morim, quando voltas? Teu pai teu pai?» Sentava-se na calçada e ria, em bronze, cabelos rijos; chamava por outros que passavam, voltava bem depressa à sua deambulação pela cidade, vencendo horas e horas de passos e pausas junto de qualquer sítio. Sempre capaz de identificar quem via, se era alguém, se era alguém da realidade social da terra ou comerciantes que vinham habitualmente ao mercado. Vencia, com risos e bonomia, todos os silêncios, a mudez dos domingos, a incerteza de certos acontecimentos, e cada vez mais, ao contrário da idade invisível, a sua memória acumulava nomes e rostos de muitas pessoas, fosse qual fosse a hora de chegada, até aqueles que regressavam da guerra no Ultramar, voltando outros. Souzinha souzinha, tás tu?» E eu: «Em Lisboa». Ele ria-se porque já sabia: «Souzinha, zinha, teu mano teu mano, teu mano onde mora? Teu pai morto, tua mãe morta, teu mano souza?» Olhava-o, abismado, via-lhe um rosto de rapaz enrugado, quase castanho, cabelos duros com pintinhas brancas aqui e além: «Toma, Zé, vai beber o teu café». E ele queria, aceitava, pedia mais, ria sempre e não se afastava de nós enquanto não nos despedíssemos dele.
Vivia, por último, numa casinha estreita e branca. As vizinhas e outras pessoas haviam decidido naturalmente tratar de limpar-lhe a casa, lavar as roupas, dar-lhe de comer. Para uma cidade acinzentada e pobre, onde as pessoas se metiam em casa durante dias e dias inteiros, sobretudo quando da morte da indústria corticeira, tal solidariedade era quase patética. E mesmo quando tudo mudou para melhor, de 74 aos anos 90, ninguém esqueceu o Xana, nem o tratou com mais negligência. Ele foi sempre nosso companheiro de chegadas e partidas, ali ficava nas ruas empedradas, acenando com gestos do coração, rouco, ainda que o cuspo lhe aflorasse aos lábios. «Souza, teu mano, pá? diz, diz, teu mano e os meninos, os menos grandes?» Os olhos húmidos sabiam exprimir essa saudade, anunciar essas lacunas, como aconteceu durante a guerra e depois do 25 de Abril.

Zé Xana nunca trabalhara, por clara incapacidade cognitiva; trabalhava, contudo, até o sol se pôr. Era o seu modo de trabalhar, manter o seu mundo em volta, exercer a faculdade da memória específica. Assim procurava os outros, saudava os outros, mesmo quando começou a decair, sujando-se, deixando romper-se a roupa. Lá foi recolhido, enfim, para o tal anexo de um velho hospital, a saber o que sofria, não no desespero da morte. Creio que ele não sabia o que isso era, o que não espanta, pois nós mesmos não sabemos, embora nos passe o resultado dela pela consciência. O Zé esteve sempre atento às visitas, porque as recebia, visitas sobretudo da sua zona, pessoas simples, gente que ele agarrava com os olhos sombrios ou molhados, atribuindo o nome certo a cada um, agitado, logo pedindo «abraça, abraça, abraça».
Morreu, enfim, o Zé Xana, figura emblemática de um certo quotidiano. E, por mais surpreenden- te que pareça, a cidade fez-lhe o funeral, um bonito funeral, e encheu as ruas que permitem acesso, demorado, ao cemitério. Vivendo numa bebulosa onde as memórias se certificavam de centenas de pessoas, talvez parentes, Xana passou aos habitantes da cidade uma mensagem profunda, assim agradecida por uma multidão que respeitou, com a grandeza da humildade, aquele desconhecido diferente, morto por nada, aquele «estrangeiro» que todos sabiam ser português e que todos acompanharam à derradeira morada.
Deus não estava ali, mas os homens sabem, por vezes, fazer o Seu trabalho.

segunda-feira, maio 11, 2009

TELEVISÃO DE MASSAS E REVOLUÇÃO IMPOSSÍVEL


A televisão é uma das maiores descobertas do século XX e tem hoje horizontes técnico-expressivos que parecem ultrapassar a capacidade humana quanto à sua veradadeira utilização, entre formatações, efeitos especiais e diversos tratamentos temáticos. Tanto podemos ver um espaço cénico quase impensável, inteiramente virtual, como sermos confrontados com a mais pindérica forma de contextualizar certos processos de comunicação. Os maneirismos primários abundam em quase todos os programas ditos de entretenimento. A «(lei» da oferta e da procura, já de si perversa, torna-se completamente distorcida pelos programadores dos quatro canais portugueses e apêndices em função prioritária: a famosa competitividade caduca nos caducos modos de administração ou de gestão e os criadores, reduzidos ao novo riquismo aparente dos meios, tornam-se reféns de modelos pseudo-avançados, em nome das massas, da carnificina para as massas e níveis de audiência, vivendo obsecados por esses rasgos de triunfo à percentagem. Estas pessoas (consideradas acima do próprio saber elitista) não passam afinal de manipuladores da opinião pública, acabando por acreditar piamente no jogo: se os temas de violência e e intriga fazem subir as audiências, é porque os telespectadores preferem amplamente as matérias de tais produtos.
Assim falava, dizemos por analogia, um Freedman, entre outros, defendendo economias de marcado livre, sem regras «castradoras», pois só dessa troca aberta sairia um natural equilíbrio entre os agentes produtores e s consumidores, entre exportações e importações: a «lei» da oferta e da procura determinaria a dinâmica capaz de contribuir para o simétrico princípio dos vasos comunicantes. Trata-se de mais um embuste, corrente cega que levou o capitalismo de índice neo-liberal a contaminar o mundo inteiro, sob o rótulo retumbante da globalização, a jusante do fenómeno da multiplicação dos escudos pela «banqueira do povo» (Dona Branca) e em biliões e biliões de perdas rasas. O mais apto capitalismo, de preferência «sem Estado ou menos Estado», desabou estrondosamente, a gritar pelo «Pai». Porque, como é óbvio, os operadores e agentes financeiros e toda a panóplia de gigantes da Banca sempre fizeram bluf ao longo da História. Para que um mercado equilibrado e pacífico, sem fronteiras, decorra como sugeria o imaginário de algumas luminárias, seria preciso que todos os homens estivessem marcados por uma honestidade à prova de todos os riscos, não precisando de fiscais, coordenadores ou supervisores. Mas, como a História já demonstrou, o género humano não pertende ao imaginário reino dos anjos bons: aquelas criaturas, dotadas de inteligência, primam em grande medida pela desonestidade, pelo gosto do poder, numa insana ganância fixada nos valores monetários ou de propriedade, e assim se guerreiam pelo vértice da pirâmide. De resto, vivem desde há muitos séculos civilizações baseadas nessa estrutura triangular, ou seja, segundo critérios totalitários, tanto políticos como militares e religiosos, donde surgiram, quer em nome de Deus (a entidade mais totalitária que nos inspira) quer em nome da sobrevivência, sobre placas de oiro. Foi nesta perspectiva cada vez menos defensável que surgiram os grandes objectivos civilizacionais (suicidas) que delinearam, a longo prazo, o crescimento a todo o custo, em vários campos, na quase totalidade dos campos, cujos primeiros resultados já contaminaram praticamente todo o século XX e anunciam crises planetárias e sociais na actualidade e séculos futuros. Admitindo que esta alucinação demente tem ainda condições de reversibilidade, a mudança de rumo implicaria implosões deliberadas e colossais, uso inverso dos meios naturais e tecnológicos, ampla racionalização do contacto com o território, por forma a pulverizar os núcleos comunitários da vida colectiva. E o maior dos trabalhos, a verdadeira revolução, consistiria em matar as emergentes grandes guerras, com o maior pragmatismo possível, dentro de uma enorme reserva de direitos. Espero que os mitómanos saudosos dos fabulosos torcionários da História não me interpretem como arauto da utopia do mal. E que pennsem na grandeza dos meios de que dispõem num mundo cada vez mais pestífero, entra montanhas de informação ou informação feita lixo. Há um interessante video-clip britânico que retrata um mundo em destroços, em consequência do excesso, e algumas minmorias de humanos dependentes da televisão, programas in formáticos, informação em massa, lixo envolvente de tudo isso. A imagem central e ezemplar desse vídeo mostra um homem ainda novo, obeso, engolindo pela boca e pelos olhos milhões de dados informativos que se desfaziam uns aos outros e criavam o risco de fazer explodir o pobre e derradeiro homem do consumo. Essa imagem é-nos dada em directo, depois de assistirmos, com horror, à irreversível expansão da criatutra em todos os sentidos. Um crâneo solto derrama no ar a pasta do cérebro.