quarta-feira, janeiro 31, 2007

A FESTA DA NUDEZ, LITURGIA DE UM LUGAR

reportagem vendida às revistas

Em boa verdade, só li parte do texto que acompanha esta performance colectiva, no qual se dizia que estas pessoas comemoram assim um certo dia dedicado à vida e ao amor. É a sua liturgia do apaziguamento e do sentido de comunidade. Não estamos aqui perante um trecho fotográfico daquele fotógrafo que corre o mundo a encher ruas e praças de gente nua. Mas aí há uma encenação artística. Aqui há uma encenação artística como agradecimento pela dádiva dos encontros.

terça-feira, janeiro 30, 2007

FUTEBOL POS-MODERNO

Os dez grandes estádios que se edificaram em Portugal, a fim

de servirem o EUROPEU correspondem, segundo técnicos

habalizados, a montantes financeiros e grandeza logística

para a edificação de cinco pequenas cidades no

interior do país, incluindo estruturas básicas

num quadro tecnológico de porte

médio. A aposta não passa, quanto a mim, de uma tentativa

escassa de relacionar a grandeza absurda dos edifícios liga-

dos ao futebol com o desperdício improdutivo da sua totalida-

de e financiamentos acessórios.

De cada vez que me defronto com o futebol (mil vezes pela televisão) sinto repulsa por essa ensurdecedora prioridade da comunicação social relativamente a tal desporto, assim capaz de tornar fundamentalista uma boa fatia da população. Lembro-me de ver jogos em Inglaterra em que todos os jogadores se situavam a certas distâncias uns dos outros, trocando a bola, e partindo depois, num golpe surpreendente, em profundidade, para a esquerda ou para a direita -- passo raro e preciso que permitia uma rápida triangulação sobre a baliza. Esse futebol quase perdido em função das «audiências», das trocas de ano para ano, das compras de jogadores por milhões de euros acintosamente desproporcionados, era, para mim, o verdadeiro futebol, e reconheço que a televisão inglesa nos ensinou muito ao transmitir os encontros com uma subtileza enorme, em directo, usando muito bem o plano próximo em belíssima coordenação com os planos médios e gerais. Através da televisão inglesa, nos tempos do preto e branco, tornou-se claro que o futebol (aquele, pelo menos) era fotogénico e tinha um grande aliado nas emissões televisivas. Mas a fotogenia tinha também um sentido literal, decorria muito de modo como os atletas jogavam, sugerindo por vezes a câmara lenta colada na passagem aos disparos rápidos, na corrida e com a bola.

Abarrotando de emissões de futebol, sobre o futebol, numa sufocação intolerável, horas e horas, aqui e além, nos noticiários sem falta, a Televisão Portuguesa, toda ela, comete um grande atentado contra a sanidade mental dos cidadãos e cria neles, a par de analfabetismos de pesos vários, um fundamentalismo inteiramente injustificável. As estatísticas deste tempo pós-moderno mostram a loucura ilusória de cada plantel nos tempos de antena dedicados ao futebol e deixa-nos estupefactos, infectando a razão e tornando redutor o espaço dos nossos desejos. Em boa verdade -- incluindo todas as estruturas administrativas -- o futebol português deveria ser revolucionariamente reformado, encurtado, menos mercantilista, menos perdulário nos gastos e obeso nos privilégios; menos premiável (também) aos negócios pouco limpos, ao tráfico de influências, à desnacionalização ilusória de cada plantel. Com o tempo, o tão elogiado futebol português (pelos fundamentalistas) tem-se comercializado e degradado tanto na técnica como no sentimento. A brutalidade abunda, das mais diversas maneiras. As lesões sucedem-se, pagas a peso de ouro. Tudo deveria ser reformulado: as regras do jogo em geral e a mudança de procedimentos, aberturas e reservas, disciplina, arbitragem, tempo, processos de registo vídeo nas grandes áreas.

Aos presidentes, administradores, capitães de equipa e árbitros seria sempre atribuído um dignificador apito dourado

sexta-feira, janeiro 26, 2007

A LUXUOSA DESTRUIÇÃO DO MUNDO

dos jornais

A grandiosidade aparente das industrializações energéticas que a imagem propõe, e de certo modo engrandece, são de facto uma espécie de cenário da ficção científica, as terríveis premonições de um futuro carregado de ameaças desencadeadas pela própria humanidade. A tecnologia cresce para funções cada vez mais avançadas, entre vertigens de uma pressa que os mais cautelosos não compreendem, mas a ciência começa a ter agentes capazes de fazerem o seu exame de consciência, demonstrando que algumas das actuais transformações climatéricas do planeta resultam do uso de matérias não renováviais, arrancadas à terra e usadas na criação poluente de energia. A par dos ciclos naturais da vida da Terra, enquanto corpo vivo, as grandes concentrações fabris e humanas, quase exclusivamene baseadas no petróleo, só agora percebem com alguma propriedade que os milhões de toneladas diárias expelidas para a atmosfera foram abrindo caminho a um aquecimento do planeta, tendo iniciado, entretanto, as primeiras e catastróficas manifestações da mudança do clima e dos desastres induzidos pela criatividade aprisionada da população -- sociedades de consumo, dizia-se até há pouco, o que não deixa de ser verdade ainda, em termos quase fundamentalistas, adiando as pesquisas já perfiladas para a formação de energias renováveis, porventura influenciando no futuro os próprios objecivos das comunidades.

ARTE CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA

pintura actual de Teresa Magalhães

Até aqui não aproveitei devidamente este blog para divulgar casos de referência de artes plásticas quanto a autores contemporâneos portugueses, embora tivesse assinalado há pouco, numa perspectiva cultural e política, no «trecho» sobre os ARTISTAS ENCOBERTOS, a deficiente situação da coordenação e apoio das artes em geral, no nosso país.Passarei a dar atenção ao assunto com mais assiduidade, até porque faço critica de arte no jornal JL e disponho de materiais por vezes de grande relevância, adequados à divulgação É o que acontece agora, com a exposição de pintura de Teresa Magalhães, pouco tempo depois de haver apresentado um projecto de raiz retabular na Sociedade Nacional de Belas Artes.

Durante o mês de Fevereiro, na Galeria Valbom, Teresa Magalhães, nascida em 44 e formada pela Escola Superior de Belas Artes, agora Faculdade da UL, vai expor de novo. Senhora de um vastíssimo curriculo, entre exposições individuais e colectivas, presente em colecções ou Museus e premiada em diversos certames, os seus estudos nesta área beneficiaram de haver seguido a reforma para o Ensino Superior Artístico de 1957, mantendo assim contacto com Professores Assistentes e Professores de novas gerações para o tempo, os quais, embora pressionados negativamente pela Direcção da Escola (arquitecto Paulin Montez). Isto contrariava, em termos conservadores, os próprios termos da reforma. Mas o ensino tornara-se mais aberto, possiblitando o acesso a metodologias novas das aprendizagem e dos actos de formar. Não era ainda grande coisa, mas casos como o da Teresa Magalhães, a par de muitos outros, demonstram o acesso a práticas próprias da revolução artística do século XX, um tempo decisivo que desapossou a obra de arte -- a pintura, por exemplo -- de adereços redundantes e muitos efeitos característicos do naturalismo, da pretensão realista (como no próprio neo-realismo), tudo isso numa larga proliferação de movimentos em busca da essência estrutural e significante das obras, viragem por vezes radical e muitas vezes equívoca. Mas o avanço foi importante, sobretudo na problematização da arte em geral, e em todos os géneros. Teresa Magalhães filiou desce cedo a sua prática nos estudos que rodearam toda a experiência da acção, dos gestos correndo e escorrendo na tela, sugerindo movimento, espacialiade, musicalidade, a criação de um mundo liberto, aberto, colorido, simbolizando indirectamente o apelo, por um lado, à vertigem confiante da segunda metade do século XX, e, por outro, à ressonância das batalhas, dos destroços, a fragmentação de olhares sempre criativos e atormentados com o excesso do mundo contemporâneo.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

OS ARTISTAS ENCOBERTOS

cartazes sobrepostos e rasgados na parede,
um bom símbolo ajustado ao encobrimento dos
nossos escritores e das publicações comerciais
Diogo Pires Aurélio, professor universitário, na coluna CRÓNICA, do Diário de Notícias de 23 de Janeiro do corrente ano, tratou um tema que não nos tem sido alheio, aqui, mas que atinge, de dia para dia, aspectos desastrosas para a literatura portuguesa, um dos maiores bens caracterizadores da nossa cultura. A propósito da poesia de Fiama Hasse Pais Brandão, agora coligida em toda a sua amplitude, Pires Aurélio dizia que certas obras tendem, a despeito da sua grande qualidade, a ficar cada vez mais na sombra, no mais restrito dos restritos círculos de leitores. A observação deste lamentável comportamento, aliás sempre por falsas razões económicas, leva-nos a perceber quais são os produtos que se vendem e porquê. Não, não são as razões económicas nem e grosso formato de alguns livros a interditar o gosto por este mercado. O contínuo desgaste das boas preferências literárias -- aliás como também noutras áreas artísticas -- deve-se a muitos factores sociais e culturais alinhados na distribuição «democrática» de variadíssimos produtos, o que verdadeiramente não fazem, pois a incidência da sua política de consumo é culturalmente redutora e induz o efeito de moda em torno de coisas que parecem necessárias ou surpreendentes. Assim, autores que beneficiam de largo acesso aos media e grandes máquinas de angariação pública, começam a ganhar muito depressa a sedimentação em alvos de preferência. Se o apresentador da televisão escreve aquele livro, e com ele estão logo milhares de pessoas, o caso explode num ápice, a grandeza do acontecimento é desproporcionada para a verdade interior da obra ou para a equidade a subscrever um redor de certas obras qualitativamente equivalentes. As editoras não prospeccionam, esquecem ofertas eventualmente preciosas, e os seus colaboradores da comunicação social vão atrás das chamadas escolhas óbvias que todos os dias escorrem para as livrarias. O encobrimento de muitos autores de qualidade, porque todos os anos surgem autores de qualidade, resulta da incompetência, dos interesses imediatos e do tráfico de influências: neste mesmo instante, livros porventura superiores aos que se penduram no top jazem abandonados nas montras, de súbito velhos. Em geral, a qualidade e progresso da arte depende, em paises pequenos, não da brutalidade do mercado selvagem mas do cuidado cirúrgico de vários operadores a trabalhar consequentemente. Para a literatura, além dos outros campos, é preciso «haver quem permaneça imune à generalização da banalidade e preserve esse tipo de coragem que representa a fidelidade a mais nenhuma verdade que não seja a verdade da obra de arte»*
Já houve tempo em que as coisas não se passavam desta forma. Naturalmente que as obras de qualidade careciam ainda de um público alargado, o acesso aos vários consumos trabalha-se a partir de minorias, e nem sempre, numa medida de proprocionalidade do lançamento dos produtos, da notícia sobre eles, e da própria moda que daí pode decorrer. Hoje, para certa gente, o sacrifício a favor do livro cai em Saramago (ele, ainda por cima prémio Nobel, alagou grande parte dos próprios meios eruditos) e os livros do Saramago são colocados em pilhas nas montras das livrarias, em detrimento de outros, isolados, cuja vida talvez seja mais reveladora. Eu penso que, se fosse livreiro, teria apenas (quando da saída dele) um único exemplar do escritor do prémio Nobel, nobilitando outras presenças que soubesse valiosas e desconhecidas dos maquinais compradores de nóbeis. E porquê? Porque um livro de Saramago, exposto com critério, chama sempre os compradores antecipadamente agarrados. Enquanto que um Nick Tosches, mesmo estrangeiro e bem actual, só toca os muito bem informados. Não sei mesmo se, nos casos mais perdidos da informação, não seria boa a invenção de legendagem original, giratória, bem relativizada. O critério da procura está viciado, pela futilidade, pela notícia escassa e deformada, pelos «códigos», pelo escândalo ou revelação se segredos, entre outros motivos, e por isso os livreiros deveriam fazer também o seu simpósio para estudarem as estratégias de combate à degradação do gosto, aos impulsos esquizofrénicos do mercado, acertando em novos processos de trabalho em coorde-
nação com os vendedores. A este respeito Pires Aurélio escrevia que os «próprios divulgadores da grande arte, para além de garantirem, por vezes contra a evidência, que ela também pode ter público desde que bem divulgada» -- assim o proclamam «porque não dispõem de mais argumentos ou já se renderam à inutilidade de os invocar»*
Assim, ao lamentar-se o possível destino de Fiama, denuncia-se por essa trágica verdade a sombra brumosa que envolve correctos critérios de produção e distribuição. Imaginem que Saramago, justamente aquele que já nem precisa que o empilhem nas montras, escrevia agora, como derradeira obra anunciada, O CÓDIGO DO NOVO TESTAMENTO. Certamente já sabem o que aconteceria. Embora isso não evitasse os que iriam compará-lo com todos os fazedores de códigos e fundamentações de sinal sagrado que ainda sobraram do holocausto.
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* da coluna «FIAMA, por Diogo P. Aurélio.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

O ESPECTÁCULO E OS OSSOS





Anorexia é mais um dos vocábulos humilhantes envolvendo o nosso psiquismo manipulado à superfície das montras, vinda de longe e de perto, doença inicial que podemos colar ao aspecto daqueles manequins de plástico que servem para simular o prazer de vestir uma peça de roupa sem que o corpo, de fora, pareça rebentar de hematomas. A magreza é procurada a todo o custo. E os pacientes não comem ou vomitam o qe comem, o que não os impede de se olharem ao espelho, no qual se projecta um esqueleto de Treblinka ou se distorce uma caricatura da verticalidade do corpo humano. A massa muscular quase não existe, os ossos emergem sob a pele, e nada disso evita que tais fundamentalistas ainda sonhem, aqui e além, com volumes ainda a abater.
Os distúrbios produzidos pela readquirida imposião da escravatura têm hoje um glossário técnico, comercial e químico que faria inveja à mais andrajosa das civilizações. Veja-se como a Índia cresce à razão de 10% ao ano, o que é fenomenal e realiza riqueza social insofismável para uma parte da população, enquanto dois terços da massa demográfica tenha de viver com um euro por dia. Muitas das razões que determinam esta assimetria, em pleno crescimento da riqueza nacional, vieram do Ocidente e das grandes mecanizações do fabrico e do consumo.
Nas aulas de anatomia ligada às artes, entre padrões femininos gregos, romanos, e outros, as linhas perpendiculares que desciam virtualmente dos ombros da mulheres vinham cair na curvatura da anca, enquanto pelos seios se podia fazer passar, de mamilo a mamilo, o lado menor de um rectângulo ao alto, que cabia em baixo, em várias alturas, ainda dentro da silhueta do modelo. Conheci uma rapariga, mais ou menos com esse perfil anatómico, alta, clássica, com um corpo sem acentuações e de grande harmonia. Ela veio a candidatar-se a uma dessas famosas casas angariadoras de reféns da moda, procurando aceder à profissão de manequim. Quase nem a viram, porque de soslaio chegaram logo à pérfida conclusão de que tinha anca demais. Contudo, o patrão dos visionamentos acompanhou a rapariga à porta onde aproveitou no sentido de a convidar para jantar -- o que parece contraditório em função do diagnóstico debitado.
o código da aberração
Numa onda que foi crescendo a partir de França e da Itália, o poder das agências de angariação de modelos, abarrotando de candidatas, foram apertando o cerco à alucinadas meninas que aspiravam chegar ao sucesso das passerelles. Era gente sem informação científica e estética sobre a matéria, imaginando, na sua mente snob, o exemplo feminino sem ancas, sem peito ou peito tratado, ombros alinhados pela maior largura na horizontal que passa pelo púbis, mas tudo isso, sob contratos caninos, levados ao absurdo e frequentemente com mocinhas dotadas de um palminho de cara, ponto de interesse que era reelaborado pelo pessoal da maquilhagem. Começou tudo com o código dogmático das medidas 86-60-86, simetria que nada tem a ver com a estrutura do corpo feminino. Em suma, uma indúsria da cultura de massas, uma produtora de meninas anorécticas de difícil recuperação, gente com a morte anunciada algumas vezes, alucinada pelo padrão imposto, as pernas miseravelmente lineares e magras, que trocavam os pés no andar de mero treino, tanta coisa assim enviesada naquelas anatomias descarnadas.
As indústrias do consumo, quase sem o perceber, alinham em rotinas conceptuais insustentáveis, trabalhando alimentos absurdos, padrões de dieta inqualificáveis, manequins cuja vida, em certos casos mitificada por multidões alienadas, passa por uma dureza escrava. Tudo por uma sociedade artificializada nas necessidades e nos gostos, à beira de ter que regulamentar o caso da moda. Mas escrevo ao saber que o peso das raparigas passou a ser exigido nunca abaixo de certa marca e apesar de me sentir ainda impressionado com o caso (entre outros, certamente) da morte de uma modelo -- um corpo prematuramente cansado, corroído pela anorexia e pelos trinta e tal quilos que chegou a pesar nos últimos dias.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

A IMAGEM E O REAL

ilustração de rocha de sousa

Um dos efeitos perversos da sobrecarga de imagens -- televisivas, fotográficas, etc. -- é o desconhecimento da própria imagem como modo de dar a ver. Modo, entenda-se: não o decalque de um qualquer real, mas uma via particular de habitar esse mesmo real, por assim dizer construindo-o e reconstruindo-o, confirmando-o ou desmentindo-o. Daí um elementar princípio pedagógico: fazer imagens, ou apenas contemplá-las, não é reproduzir nenhum real. mas produzi-lo -- cada vez que fabricamos ou olhamos uma imagem, o real transfigura-se.

NB: excerto do artigo «De quem são estas mãos?», de João Lopes, Diário de Notícias, revista «6ª», 19.01.2007

A JUSTIÇA É CEGA


Há muitos anos, estava eu iniciando alguma vida profissional, fui chamado ao Ministério da Justiça, lugar mítico do qual pouco sabia, com indicação de um Secretário de Estado cuja ideia de ramo perdi por completo. Lá atei a gravata ao pescoço, sobre uma camisa nova, e fui. Quando falei com o porteiro, dizendo-lha ao que ía, logo me encaminhou para um gabinete de espera. E disse: «o senhor doutor vem já.» O ambiente era um pouco carregado, a luz muito cortada pelas cortinas, e o mobiliário preto, decorado por retorcidos. De facto não esperei muito e o senhor, cuja graduação tanto podia ser de Secretário de Estado ou de Ministro, pois os meus ouvidos fecharam-se ao som articulado das palavras de apresentação, convidou-me para nos sentarmos. E passou a explicar-se: «O Ministério da Justiça pretende encomendar-lhe o projecto de uma tapeçaria para a grande sala do Palácio da Justiça de Moimenta da Beira, que estará em breve em acabamentos. Soubemos do seu trabalho pedagógico e profissional neste domínio e queremos alargar o leque dos artistas a convidar». Calou-se e ficou a olhar para mim, como se esperasse uma resposta com tão poucas premissas. Disse-lhe que me sentia honrado com a escolha, mas precisava saber contornos do projecto, onde seria manufacturado, se havia ou não, para além da natural premissa de integração, recomendações técnicas, temáticas ou outras. E ele, sorrindo: «Então aceita?» Eu respondi que sim, que em princípio a encomenda me agradava. E ele, antes que eu voltasse à lenga-lenga das condições: «Óptimo. A tapeçaria terá três por quatro metros, será tecida na Manufactura de Portalegre, incluindo a ampliação para papel de tear. O Ministério pagar-lhe-á pelo «cartão» com todas as indicações necessárias entre cem ou cento e vinte contos.» Resmugando um pouco à partida, acabei por aceitar, considerando que a Manufactura ou o Ministério me fornecessem as coordenadas habituais. «Com certeza -- disse ele -- mas tem de respeitar apenas uma condição. A sua linha estética é a que quiser, com ou sem figuras, com ou sem simbologias recorrentes. No entanto, e no caso de desejar representar a figura simbólica da Justiça, o Ministério não aceita qualquer entidade com os olhos vendados e adereços de espada e balança. Entemde a questão?» E eu, estupefacto: «Com certeza.» Antes de terminar, já entre portas, o homem entendeu por bem esclarecer-me sobre as exigências do Ministério: «Este Ministério é de facto da Justiça. Não encontramos razões, na época actual, para apresentar a Justiça como cega (de olhos vendados) e com uma balança e uma espada, indicações de dividir laminarmente para distribuir valores ou de os ter de pesar como se os actos humanos o pudessem ser». Agradeci-lhe a explicalção e fui à vida. Em Moimenta da Beira pode ver-se o resultado. De facto a Justiça não pode julgar sem ver, porque ver é indagar, é julgar o real, enquanto o fio da espada e a balança pouco se ajustam a uma sentença ponderada numa sala e escrita à secretária. Meus amigos, os que me estejam a ler sem vendas nos olhos, esta hitória é verdadeira mas a concepção daquele Secretário ou Ministro é hoje falsa. A Justiça, entre nós, mostra índices de formação e formulação de sentenças por vezes aterradoras. Estamos neste momento a assistir à tentativa, judical, de se retirar a uma família de acolhimento e adopção uma criança que a mãe biológica lhes entregou e pediu que cuidassem, o que fizeram até ao presente, durante cinco anos. O pai biológico, que só apareceu verdadeiramente um ano depois da filha nascer, é chamado a assumir o seu papel de sangue, vivendo a milhas de qualquer cenário capaz. A protecção dos pais biológicos chega a ter aspectos ainda mais absurdos do que este, é sagrada e mítica, a criança acaba sempre em segundo plano, quando devia ser, antes de tudo, a primeira causa a avaliar. O país indigna-se: porque o pai adoptivo foi preso por seis anos e a mãe adoptiva fugiu para parte incerta, a fim de preservar a menina de uma verdadeira catástrofe. E o povo indigna-se porque percebe que o pai adoptivo se deixa prender com honra e na defesa dos valores em causa, protegendo a filha, tanto como a mulher que se oculta da total inconsistência desta decisão do tribunal. Um tribunal que obviamente exerceu uma justiça cega e não sabe nada de ninguém. Um tribunal e que usa a espada para dividir cegamente. Um tribunal que julga poder evocar a lei numa situação que é ontológica e não circunstancial.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

O MELHOR DE TODOS OS PORTUGUESES

pintura de Carlos Carreiro

O melhor, o maior, o portguês capaz de representar todos os portugueses. Por um lado, é o referendo sobre o aborto, discutido em assembleias devidamente legitimadas, cidadãos procurando saber se já estamos maduros para despenalizarmos aquela eventual escolha de muitas mulheres em situações que lhes colocam o dilema: ter ou não ter este filho. Já falámos sobre este tema e oxalá os cidadãos estejam maduros. Mas, a par desta difícil tarefa de discutir um direito das mulheres que se debatem com aquele problema, a televisão pública achou por bem convidar os portugueses a decidir, à maneira de jogo mas onde se tratam coisas muito sérias, qual é ou terá sido o melhor, o maior, o mais representante de todos os cidadãos deste país. A apresentação dos mais votados para uma primeira volta, foi feita pela retornada Maria Elisa, personalidade que fica sempre a condizer com estes chás ou conversas de cerimónia. Muitos portuguses ilustres falaram sobre outros portugueses ilustres e a bola, podemos dizer assim porque o povo percebe melhor, e de acordo com a contagem dos telefonemas, de muitos foram escolhidos dez cidadãos, entre mortois e vivos. O programa vai assim animado e julgam os promotores que estão a desenrolar uma séria acção pedagógica, sem perder o fio à meada -- reeducar a memória dos maiores símbolos nacionais e controlar as audências com a solene encenação do evento, a fim de que não pareça um reles entretenimento. Mas é, é entretenimento e reles, ao ponto de Padre António Vieira perder para Eusébio e de Pedro Nunes não atingir a craveira dos dez apontados. Afonso Henriques, fosse lá qual fosse o seu feito, é um símbolo de todos, inicia a nacionalidade, não parecia difícil fazer uma escolha dessas, emblemática mas nunca errada. Outros tropeçam com Salazar, o dos brandos costumes, e não hesitam muito em telefonar: porque era um sossego no tempo dele, incluindo a brasa do Tarrafal, a agricultura funcionava, o pão não subia de valor como agora, era garantida a disciplina dos actos e um certo sentido do Império.

E eis ao que chegámos. Andar com uma lanterna, no jeito de Demóstenos, à procura do maior entre os maiores, coisa que nem sequer tem valor científico, artístico, entre a bondade das regras. É rasca e não se concilia com a cultura geral do povo português. Só não decidem utilizar os dados porque o telefone pode garantir a solidão da terrível escolha e sempre rende uns cêntimos. Uma vez que a operação está lançada, concurso e milhões sem boletim, resolvi publicar aqui uma colorida multidão dos cidadãos consumistas, cada qual na sua postura, feira de vaidades vinda directamente dos pincéis do Carlos Carreiro, pintor de uma graça patética, falando um português de imitação e tornando o espaço bem festivo, igual ao que pedem todos os nossos públicos, no cinema, nas artes plásticas, na literatura, no teatro, na música. O público português está cada vez mais habituado aos foguetes (iguais todos os anos) e que toda a gente festeja dizendo «que lindo, que lindo!». Fogo de artifício, meus amigos, este é um outro segredo da escola pela alegria dos nossos concidadãos, embora não se compare com a imensa catarse do futebol. Não há problema, não se inquietem, também há jogadores de futebol na grande tômbola dos maiores.

sábado, janeiro 13, 2007

INTERRUPÇÃO VOLUNTÁRIA DA GRAVIDEZ


É verdade que, no pulsar da vida em comunidade, pouca coisa seríamos enquanto gente se ousássemos olhar para o mundo como simples suporte dos nossos mitos, mero espaço dos devaneios do imaginário. Um osso pode começar por ser uma arma de percussão ou de arremesso (como em «2001, Odisseia no Espaço») e dentro em breve aperfeiçoar-se até à lâmina e ao punho. Cumprida a sua função essencial, a ornamentação inicia-se e lavra, em épocas muito posteriores, os cabos onde o punho se personaliza, entre aplicações de metal e caprichosos efeitos decorativos: é o caminho para uma consagração simbólica, coisa diante da qual muitas propiciações podem ser convocadas. Alguns utensílios ou representações casaram-se assim com diversos conceitos. E os conceitos apoiaram a invenção das redes da mitologia, nomeadamente tendo em vista a sagração de elementos estruturais da vida, ela mesma símbolo maior, o que a fez enquadrar uma transcendência que nos finge eternos.
A questão do aborto, que está a ser discutida no nosso país, liga-se profundamente ao cunho sagrado que imprimimos à vida, apesar de nada sabermos sobre a origem dela, nem o seu objectivo, ou que finalidades eventualmente encerra. Vivemos ainda presos à ideia de sobrenatural e à invenção da vida como bem sublime. Curiosamente, a Natureza é menos fundamentalista e engana-se com assiduidade na formação do homem, esquecendo-se de partes do corpo, de capacidades fundamentais do ser, do próprio cérebro. As instituições ditas do espírito, religiosas e aproximadas, encaram a fecundação como irreversível, num atávico fervor de protecção da vida a todo o transe. As mães, que emprestam o seu ventre à obra de Deus, são por vezes surpreendidas com uma gravidez impositiva e não esperada nem desejada. E contudo elas vêem-se rodeadas de uma feroz barbárie em todo o mundo, com milhares e milhares de mortos, vontade de governos, sem consulta de Deus, ou de bandos petrificados ideologicamente. Na incerteza de tudo, as mães «compulsivas» não compreendem porque razão as impedem de interromper, ainda numa fase embrionária e absurda, a proliferação das células dentro de si. Muitas estão à beira da exautão, após outros nascimentos, e ainda têm que suportar os acasos naturais incorrigíveis, o erro humano, natural ou divino. Aqui não há escolha porquê? Porque razão a vida, afinal tão contingente, foi colocada no nicho dos símbolos totalitários?
A enorme quantidade de espermetozóides produzida para a transcedente batalha da fecundação, tão curta enquanto existência, deixa-nos presos entre a fascinação e o fenómeno intrigante. Em boa verdade, que destino reserva a Natureza aos milhares de agentes da vida, da fecundação, que não conseguem penetrar no óvulo da mulher? A lógica dos ciclos naturais, incluindo a desconcertante adulteração de alguns genes, então responsáveis pela sentença de morte vinda de dentro para fora, enfim dirigida aos seres que geraram e coordenaram, é apenas intrigante ou sinal de perdas calculadas sem intervenção humana?
A interrupção voluntária da gravidez é uma conquista como outras do direito e a sua legitimidade cabe ao próprio sentido e qualidade da vida sustentado pelo ser fecundado.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

O EIXO DO MAL É CADA VEZ MAIOR


O Presidente Bush, cujo temor pelo eixo do mal tem sido um dos seus pontos cardeais em política externa, continua a alimentar o prolongamento desse conceito aplicado ao terreno. Desta vez, após a morte de Saddam e a violência que todos os dias encharca de sangue os caminhos do Iraque, aconselhando-se com os seus falcões e uma ou duas pombas brancas que ainda sobrevivem perto da Sala Oval, o Presidente achou-se suficientemente bem aconselhado a fim de dar ordem, apesar do desconforto dos democratas, para o envio de mais vinte mil combatentes destinados ao lamaçal sangrento daquele país. A realidade -- uma paisagem assombrada pelo fumo das explosões e pelos ataques de grande violência -- não resiste nem sequer ao nosso olhar. E, embora os seus fragmentos sejam sobretudo de edifícios arrasados, a comparação cada vez mais incisiva com o Vietnam é feita quase todos os dias. Um renovado contingente de vinte mil homens, num tempo em que a estratégia americana recua para a vigilância e patrulhamento, por forma a que as responsabilidades tutelares caibam ao novo governo iraquiano, expediente tentado no sudoeste asiático, só tornará as coisas mais difíceis se não tiver como missão de fundo criar as condições mínimas para uma retirada cuidadosa do Iraque. Se o reforço é operacional, não tem sentido e poderá causar mais problemas. Depois do alastramento do mal à escala actual, não seriam precisos menos de 500.000 soldados ajustáveis a uma nova estratégia de barramento das milícias suicidas, entre outras graves tensões. Assim, o eixo do mal é cada vez maior, envolvendo uma linha oblíqua que toca ao norte e a oriente a fundamentalista Coreia do Norte.

O CARTEIRO JÁ NÃO BATE À PORTA




fotos rocha de sousa
O que mais me fascinava na minha infância era a chegada do carteiro, que batia com uma só pancada no batente da porta da rua e gritava arrastadamente correio.O homem apoiava o grande saco de cabedal no poial (a mala), e retirava de lá, em resmas, as cartas que meu pai recebia em abundância. Todos os dias acontecia assim e era certeiro.
Quando vim estudar para Lisboa é que tomei contacto com as caixas de correio por habitação, no hall dos prédios, casinhas como pombais, de ranhuras na parte superior. Enquanto houve porteiro, sinal luxuoso da civilização, as casinhas eram bem conservadas e os pombos-correio
retirados à tarde ou à noite, pelos residentes do edifício. As civilizações parecem grandes barcos à vela e todas elas se afundaram, no passado, com o peso cada vez maior dessas lonas e o lixo que acumulavam. Assim também acabaram os porteiros e as casinhas de lata começaram a ser desrespeitadas por meninos ladinos, brancos e pretos, enquanto os mais velhos, na esquina da rua, fumando o seu cigarrinho, se preparavam para coisas de homens, mais arriscadas e produtivas.
Hoje, em muitos lugares da cidade, ou da civilização decadente, os carteiros deixam o correio em lances de porta a porta, ou no senhor Silva, merceeiro, vizinho dos vizinhos todos.
Era eu menino, vejo agora nitidamente, e todos nós associávamos a vinda do correio com a chegada à cidade de um combóio madrugador, de passageiros e mercadorias, conhecido por combóio da manhã ou combóio do correio.
Rocha de Sousa

segunda-feira, janeiro 08, 2007

TEIXEIRA LOPES, GRANDE ARTISTA MAL-AMADO


desenhos em técnica mista de Gil Teixeira Lopes
Janeiro 2007, Palácio Galveias
«O que simboliza a arte senão a alegria e a tragédia?»
Esta frase de Álvaro Lapa adapta-se bem ao percurso de Gil Teixeira Lopes e às injustas omissões que o meio português lhe tem aplicado. Como noutros exemplos relevantes. Num trabalho incessante, sempre nasceram de Gil os sinais de uma forte alegria telúrica e as marcas veementes da dor, da memória trágica ou das perdas indizíveis. Agora, entre o espólio de desennhos incontáveis, provas ensurdecedoras do seu gosto pela largueza do gesto projectado na impressão de gente sem retrato, tintas dominadas a meio do acaso, riscos de renúncia e descoberta, a alegria, enfim, da mistura com os sulcos da tragédia, paradoxo da arte, ou desfocagem da morte, ou a sagração das formas que se acomodam em albuns manchados, improváveis, vividos sob o olhar de uma nova emoção. Esta presença, que recupera obras dos anos setenta é bem um pórtico para a compreensão da importante obra gravada de Teixeira Lopes.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

A CULPA DOS CULPADOS


dos jornais

Um sobrevivente de Auschwitz regozijou-se, num sorriso melancólico, com a morte de Saddam Hussein. Fizeram-lhe ver que, nas actuais circunstâncias, era impossível estabelecer comparações com Nuremberga, por exemplo. O velho judeu encolheu os ombros e não falou mais durante toda a tarde, acomodado a um canto da sala daquele debate semi-institucional.

Sinto-me como aquele velho, embora não seja capaz de assumir a silenciosa dignidade dele ao escutar jornalistas qualificados esgrimirem sobre questões como a pena de morte, a prisão perpétua, o vil enforcamento de um homem (tirano embora) nos últimos instantes em que aparelhavam o equipamento do acto final. Não sou capaz porque a mancha de hipocrisia em que assentam os nossos conceitos, e permanece em geral escondida por protocolos e etiquetas, explode um pouco por toda a parte, de súbito muita gente civilizada falando de direito, de oportunidade, de propaganda, de vingança, de moral, de respeito humano, de mera política legitimando-se no caos -- tudo isso como se o nosso rosto tivesse de cobrir-se de vergonha com o acto cuja origem, no fundo, se ligava a anteriores decisões de Busch e de um tribunal titubeante (além de encurralado) na frente da guerra do Iraque, dos interesses jogados sobre a mesa pobre de populações mal-amadas. O que me faz alinhar aqui estas palavras, e apesar de também de discordar da pena de morte, é a pulverização de uma causa que, perante todos os mal entendidos da história e da história dos déspotas, só se pode abordar sem emocionalidades patéticas como as debitadas em torno (ou a propósito) da condenação executada de Saddam. A teoria política da justiça, a este nível, tem de fundamentar-se no plano científico, na medida ética e moral, em sentido perfeitamente ontológico e não na babugem das raivas menores, na obscuridade de um homem que praticou crimes contra a humanidade e poderia ser levado para o pequeno jardim prisional, destinando-o a regar as plantas durante a vida, até à morte. A demagogia que se espalhou pela comunicação social, os pruridos de políticos ingénuos ou manhosos, os culpados julgando a culpa, tudo isso me conduziu à indignação.

Continuando imóvel durante três horas, pelo menos, o velho sobrevivente de Auschwitz talvez se lembre de coisas mais próximas, os militares provocando ou sancionando a morte, em meses, de oitocentos mil africanos, entre países ´contíguos. Talvez pense nos gaseificados, na tortura ainda em uso, ou no enforcamento, na cadeira eléctrica, na injecção letal, que se praticam nos Estados Unidos. A beleza funconal da guilhotina. A morte pela fome. Os efeitos, assim, da ira irracional dos homens, que fazem despertar a habitual ira de Deus. Como deveriam ter sito tratados (se o não fizessem eles mesmos) Hitler e Staline? O julgamento de Nuremberga serviu para quê? Para exercer a justiça, tomar decisões dedicadas à memória futura? Há crimes graves, políticos ou outros, por todo o mundo, a maior parte deles impunes. Não façamos da nossa culpa, por inteiro, mero espelho dos verdadeiros culpados.

Rocha de Sousa ! Jan.07

quarta-feira, janeiro 03, 2007

POR AMADEO DE SOUZA-CARDOSO



Não vou abrir os livros, dicionários, enciclopédias, tratados. Amadeo de Souza-Cardoso, agora largamente apresentado na Fundação Calouste Gulbenkian e contextualizado com outros autores da sua época e de outras latitudes, mostra-nos bem quanto é importante o nosso patrimóno cultural (entre casos e casos), aliás definitivamente avançado em muitos tempos ao longo do percurso civilizacional que ajudámos a formar nestes últimos dois mil anos. Um país configurado a partir dos movimentos territoriais e vontades de ultrapassar os escassos limites da sobrevivência, dotado de perto de dois milhões de almas, caldeado por diversos povos, unificado na diversidade da sua origem, Portugal não tem que se humilhar, mesmo agora, perante os altos e baixos da sua história e da história que o envolveu. Até porque, descontando os gigantismos alheios, preparados nos grandes actos coloniais e de expansão, a leste e a oeste, os portugueses foram dos principais construtores do mundo conemporâneo e chegaram a estar a montante da linha de saberes que abriram o mundo ao mundo. Esquecemo-nos disso, com frequência, deprimidos por comparação com os consumismos que nos chegam de fora, produções fúteis, condicionamentos de grandeza física, escalas tecnológicas e outras. Nada disso deve nortear o nosso comportamento, até porque petencemos, de facto, à Europa -- esta junção mitigada de vinte e sete nações -- centro de uma civilização que chegou bem longe no entendimento do ser humano, dos valores, direitos e deveres que o definem, prática social, avanço nas áreas de ponta do conhecimento. Estamos aí. E, além do mais, deixámos marcas sensíveis por todo o mundo, grandes países que falam a nossa língua e podem evoluir até espaços temporais de sobrevivência do próprio planeta. Dar exemplos é inútil. Falar dos heróis, das aventuras marítimas, das crises do século XX e de emigrações gloriosas, também pouco importa. Ou melhor: pouco importa quando nos desejamos focar num dos primeiros grandes pintores do século anterior, importante sem dúvida, pioneiro da arte moderna e das vanguardas igualmente, embora os poderes actuais das outras culturas o não tivessem descoberto à dimensão a que merecia, tanto mais que morreu novo e o seu país entrou em crises de regime, em ostracismos culturais. Os que menos se atemorizam com tais distorções da história, sabem que Amadeo deverá ser revisto, reconquistado e projectado no plano europeu, para não falar de outros. Porque o seu pioneirismo se situa efectivamente no vértice de uma revolução artística travada sobretudo a partir de França mas que hoje se distende, se reafirma e se contradiz no plano global (por muito perverso que este conceito possa vir a revelar-se).
Amadeo de Souza-Cardoso, cuja formação mais avançada decorreu em Paris, mas também nessa espécie de «exílio em casa» que o atingiu durante a Primeira Grande Guerra e que o haveria de recolher pela trágica epidemia, a pneumónica, que assolou o mundo na segunda década do século, mostra-se, a partir da maturidade mínima, capaz de seguir ou antecipar particularidades estruturais e conceptuais nas artes plásticas então a abrir-se em diversos caminhos. A «espátula» que Cézanne aplicava à geometrização ou nivelameno das formas, no próprio terreno da paisagem, isso levou Amadeo para as planificações das áreas pictóricas, entre configurações representativas e encenações bidimensionais do campo. A cor que pratica, dispara no espaço, utilizada com sabedoria entre os tons negros, concentrando toda a dinâmica interna do quadro. Tem forma. É espontânea, da larga escala à arrumação quase caseira de certos aglomerados figurativos. E, além disso, a tranformação foi mais longe, a outros pontos (como «A Cabeça Verde»), fronteiras do expressionismo e do surrealismo, premonições de alguns territórios cubistas, enre vários. Não estão lá as teorias, porque não teve tempo de as reescrever, mas estão as consequências antes mesmo das confirmações a jusante.
Seria bom que este homem fosse mais estudado. Qua a sua obra fosse divulgada e contextualizada por peças dos media, audio-visuais, interpretação tratadista. Não como hoje se faz para alguns autores engalanados a despropósito com livros imensos, catálogos e textos a triplicar, enviesando a história pelo ostracismo ideológico ou meramente preconceituoso que os mandantes dedicam a muitos outros. É que em vez de um Amadeo poderíamos ter vários -- nas artes plásticas, nas artes do tempo e do espaço, cinema, teatro, dança, controlando o efeito colonial nocivo (porque nem sempre o é) dos espectáculos megalónamos.
Rocha de Sousa