terça-feira, julho 31, 2007

NA MORTE DE INGMAR BERGMAN

Bergman 60


Não é possível pensar o cinema, na sua globalidade, sem citar Ingmar Bergman e a sua obra genial, os sonhos, as amarguras e os encontros da existência, os retratos de personagens inesquecíveis, uma deriva nostálgica pela vida interior de gente que colide com os desastres do mundo. São raros os autores, em cinema, que tenham, como ele, aprofundado a alma humana, a sua inquietude perante os sinais do ser e da morte.
«Para Silva Melo, a mistura e contaminação entre cinema e teatro, no autor sueco, salta aos olhos». E cita obras tão relevantes como O Sétimo Selo, Lágimas e Suspiros, Persona como referência a um puro Strindberg, ou As Três Irmãs, a partir de Tchekov.
O depoimento do crítico João Lopes tem um notável reflexo nas condições de recepção do grande cinema entre nós, durante e depois da ditadura. A actual castração do público português quanto a esta arte tem sido verdadeiramente criminosa, baseada em magníficos sistemas de distribuição, monopólio de salas minúsculas onde o som, colocado muito acima, destroça a qualidade e os ritmos internos de muitas películas».
Oiçamos João Lopes: «Para mim, acho que é disso que devemos falar a propósito da morte de um homem que celebrou a frondosa singularidade do género humano. E nos fez saber que a relação com o outro (humano ou divino) é sempre infinitamente complexa, desafiando-nos a viver apesar da certeza da morte. Ou melhor: contra a certeza da morte.
Acho que devemos falar desse escândalo que faz com que existem seres tão extraordinários como Bergman, capazes de nos mobilizar para a dificuldade de estarmos vivos e compreendermos os outros (e nós próprios), ao mesmo tempo que as formas de ficção mais poderosas nos submetem a uma lógica de crescente infantilização e banalidade.
Sermos dignos da herança ''bergmaniana'' é lidarmos de frente com a sua recusa de vulgarização narrativa e o seu empenho em defender a irredutibilidade de cada manifestação do factor humano. De resto, vejam-se os seus filmes».
Direi agora eu próprio, para terminar: é preciso separar a indúsria do cinema do chamado cinema de autor. Seria mau, certamente, que tivéssemos de suportar pintura realizada por uma centenas ou duas de operários trabalhando segundo o princípio da cadeia de montagem.

persona
Esta brevíssima imagem de um dos mais belos e
profundos filmes de Bergman lembra-nos
como o cineasta se apropriava do
dos fantasmas que se movementre nós e
nos duplicam e se desfocamna beleza da vida e das suas distâncias
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Bergman já em idade avançada, sempre ligado ao teatro, de que nunca se esqueceu,
com o qual deixou para a humanidade indeléveis sulcos sobre o entendimento
da vida e da morte

domingo, julho 29, 2007

PARA ALÉM DO INFINITO


«Blade Runner» é uma obra de culto do cinema de ficção científica, deslumbrante reflexão sobre a manipulação bilógica do homem, entre a sua necessidade de sobrevivência num planeta chuvoso e apenas tolerável através de próteses tecnológicas (aquilo em que se tornara a Terra) e a tentativa de recriar a vida humana através de um caminho mais complexo. Tendo produzido seres de configuração integralmente humana, capazes de uma relação normal, funcional, o homem mal se apercebeu de que realizara uma criatura milhares de vezes superior a si mesmo, o que, de forma não muito longínqua, a realidade biocibernética poderia eventualmente conceder aos robbots capacidades bastantes para se multiplicarem e aumentarem os seus poderes. Estes seres denominavam-se replicantes, e o seu tecto de vida, como prevenção do homem perante a grandeza insondável do ser gerado, dominado por programas cibernéticos, teve que ser reduzido nas gerações mais recentes. O Homem-Deus, mais inseguro do que se julgara, dispondo de uma vida que rondava os noventa a cem anos, teve de programar os seus replicantes para uma resistência vital de quatro anos apenas. O que não deixou indiferente a inteligência replicante, para quem a vida ganhara um enorme valor cognitivo e afectivo, uma surda vontade de encontro e de pesquisa no espaço e no tempo.
A tese desta obra de grande qualidade, mesmo nos adereços que explicam e conotam os elementos de toda a relação dos seres e dos equipamentos, vem colocar-nos o problema essencial da vida: e é bem certo que o limite dos replicantes não passa de uma trágica metáfora sobre a própria vida humana, o seu sentido, a construção de estações espaciais para uma vida bem pior do que a dos replicantes, entre pesquisas e projectos de emigração na galáxia, a tecelagem de um futuro utópico mas já visionalizável. São esforços desesperados, num grande espaço de descoberta e construção, mas que está longe de vencer espaços imensos, afinal indecifráveis, mesmo como vanguarda no estudo colossal de 682 galáxias e milhares de astros singulares, de sistemas semelhantes ao nosso, mais distantes e solitários, em todo o caso, como nos dá a ver o terrível livro «A Nave da Esperança», de Edmund Cooper. Nesse caso, nunca chegamos a lugar nenhum, habitável, colonizável, sendo envolvidos pela curvatura do espaço, ao fim de centenas e centenas de gerações nascidas e educadas no cosmos, em torno do mito de chegada, e chegando absurdamente a um sistema onde um só planeta acusava algumas condições de vida. Era a Terra, obviamente. É uma pergunta crucial sobre a nossa natureza, a pergunta sobre o que somos e para quê, a par da vastidão percorrida minimamente durante mais de mil anos luz, em nome da descoberta das diferenças no exterior, da pulsão inimaginável do universo, e para descobrir mais do que isso -- um lugar estável onde a consciência humana tivesse apoio biológico e logístico. Porque a morte, cobrindo de absurdidade todos os nossos sonhos, não parece dominável, nem com uma vida prolongada e conservada (potencialmente recuperável para a ternidade).
Se os meios tecnológicos nos permitem, agora, descortinar, a milhões de anos de luz de distância, um espaço onde corpos e forças colossais se movimentam, se entrechocam por vezes, recriando o tecido do infinito, a verdade é que tal situação mais nos dá consciência da impossibilidade de racionalizar limites, entre a vida e a morte, entre este espaço e outros e outros, todos maiores do que o nosso próprio universo, e em expansão, em mutação, brutal de força e pulverizável no vórtice dos buracos negros. A condição humana é assim tão «explicável» pela imagem do bispo que jaz não sabemos onde, como, pelo replicante perplexo sob a chuva, ou por aquele outro, estupefacto na alucinação do sangue, a rede do sangue, geometria sempre mutilada -- todos nós perplexos, furiosamente amedrontados, enfim incapazes de reconhecermos quem somos.





sábado, julho 21, 2007

DO BLOG AOS RETRATOS SEM ROSTO



A expressão de ideias e sentimentos através das condições específicas do blog é uma recente aquisição do vasto campo instrumental que o homem tem concebido em nome da grande variedade de projectos e aproximação dos indivíduos entre si, quer para trocar ou partilhar informações, quer para fazer emergir do vazio presenças ignoradas, a voz escrita de alguém, retratos com ou sem a tradução do rosto. Eu não tenho nenhuma teoria bloguista, nem de concepção estrutural, nem de qualquer especificidade linguística desse meio, sobretudo nas ligações interactivas entre a palavra escrita e a imagem paralítica ou cinética, conceitos que decorrem directamente do cinema, da fotografia ou da televisão. Antes de criar um blog, aprendendo as operações aos solavancos, como acontece frequentemente aos autodidactas, o que eu sabia era-me transmitido por outros meios de comunicação, incluindo uma iniciada mitologia em torno de modos de formar, processamento técnico, temática inusitada, debate no âmbito do testemunho e da política. A isto se adicionava o grande universo da Internet, a sua pluralidade de temas e dados do conhecimento, os patamares operativos para os quais nós próprios podíamos reenviar réplicas de coisas, criações as mais diversas: a concavidade sem medida da Internet receberia tudo isso, doutrinas inteiras. Ora essa realidade (em parte virtual) fascinava-me um pouco, ao mesmo tempo que me levava a cogitar nas lacunas possíveis, nas sobreposições, no excesso, no lado perverso de certos aproveitamentos da curiosidade e dos mimetismos humanos.
O Blog, pelas suas características, despertava-me uma grande curiosidade, não tanto nas propriedades da forma (as quais existem noutros campos assumidos da criação literária ou pela imagem) mas sobretudo pela sensação territorial que parece legar-nos, tendo no seu campo autónomo indicadores de liberdade de expressão verdadeiramente aliciantes. Esses indicadores, embora veiculados à lei geral sobre a responsabilidade do nosso poder de intervenção pública, ou diante de acontecimentos graves, concediam-me uma considerável margem operatória, a qual, com efeito, ultrapassava a mobilidade armadilhada da pintura, a escassez dela perante a grandeza de tudo o que nos habita e desejamos partilhar com os outros, a pouca circulação do quadro em contraste com a viagm imediata de cada «postagem» que me ocorresse alinhar no campo.
Mas o meu maior apelo dizia já respeito à condição de habitante do blog, sabendo que o seu nome, desde logo, atrairia visitantes curiosos, concordâncias, discordâncias, expressas ou omitidas. Isso dependia de muitas coisas relativas à minha prestação, à sucessivas presenças, gritos, imagens, que se organizassem em termos de mensagem. Como em qualquer outro suporte, essa intervenção é claramente possível em termos de abertura, de contracção minimalista ou vive-versa, na linha, por exemplo, do que aconteceu com a art pop, numa dádiva coloquial às falas trocadas, aos encontros ficcionais, às cadeias de consumo, pela oportunidade de um comentário ou pelo tratamento das mais diversas situações. Estaria sempre livre para desenhar uma escrita breve e simples, a par de dialogar, nesse mesmo sentido, com os meus pares no domínio mais erudito da teoria da arte ou mesmo da sua política em redor.
Desde da primeira pessoa a quem enviei um e-mail no sentido de que ligasse para o «desenhamento», a corrida (escorreita, no meu caso) nunca mais parou. E é aí que se verifica o problema mais profundo (embora por vezes populista) que me tem envolvido no estudo sobre a imagem ausente, a voz insonora, o retrato sem rosto. Claro que, à medida que meia dúzia de pessoas se aproximam de nós, cúmplices, a dimensão psicológica dessas entidades vai ganhando forma -- e é como se o nosso imaginário, apoiado em dados do conhecimento científico, parecesse retratar, um pouco à maneira dos retratos robot usados pela polícia, alguém aqui menos cmprometido com semelhanças corporais ou deduzindo tais semelhanças pelo retrato psicológico acumulado em páginas de textos, comentáros, formas peculiares de descrever as coisas, avisos sobre temas e eventos preferidos, o aceno da partida, o chamamento inicial. Trata-se de um argumento cujo afloramento nos filmes não passa de suporte de certas vias de acção. Eu vejo-o, ao outro que entretanto escreve, suponho o retrato sem rosto em viagem anunciada pelos amigos, olhares escondidos, sem se reportar à marca da fotografia de alguém. Alguém na pose da fábula, ou meramente como no pragmatismo do bilhete de identidade, forma por vezes difusa mas reconhecível como realidade essencial da face palpável. No retrato identificador (que o é, na cereza de tudo) a aparência passa a revelar um rosto, mas o que sentimos para além dele é mais do que rosto, aproxima-se do entrosamento metafísico entre duas pessoas e a vários níveis: a fotografia nunca diz o que o longo encontro cultural, pela escrita, promove num espaço e num tempo indeterminados, mas animicamente determinantes. Isso faz-nos sentir uma espécie de nostalgia do rosto imaginado ou na presumível semelhança dele com gente que pertenceu ao nosso círculo de relações, que ajudou em parte a formar o nosso habitat. O lado metafísico dos cruzamentos de mensagens pode perfeitamente, além de abrir afectos, ajudar-nos a perceber o mundo na ausência de muitas coisas que o formam. Ou nesses velhos quadros onde a representação de uma figura, sem nos mostrar quase nada dela apesar da pose e do ponto de vista, dá-nos contudo a ver a atmosfera psíquica que se desprende da personagem, uma cabeça voltada e apesar disso revelando tristeza, alguma espera indizível, as mãos (que não vemos) e no entanto sabemos como se encontram cruzadas.
No Blog, cada viagem após a consolidação do primeiro diálogo consistente, a aventura reside em fazer jornalismo, ensaio, montagem de imagens, iniciar contactos a favor de uma interactividade palpável ou meramente virtual mas fecunda. E sobretudo parecem verídicos os nossos passos de ensaio no escuro, passos que nos levam a tocar (por exemplo) a seda de uma folha dormindo, a face de alguém na desculpabilização da surpresa e do encontro, a iniciação de um afecto -- e até mesmo de um amor.
É fascinante, sem dúvida. É estranho também, em todo o caso.

terça-feira, julho 17, 2007

O ENXERTO DE SARAMAGO

Saramago, Prémio Nobel
da lingua portuguesa

Numa entrevista concedida ao «Diário de Notícias», Saramago disse: «Portugal acabará por integrar-se na Espanha». E assim, breve, à sua volta, os homens de cultura ficaram em choque: porque uma coisa é fugir por medo, passados que são séculos de história, outra é anunciar algo que nunca será uma escolha e que, como soberania importada de fora, com cumplicidades cá dentro, acaba como retrato da traição. Algumas das reacções a este mergulho em direcção à jangada de pedra, mostram fundamentada indignação: porque Saramago tem uma «dívida para com a língua portuguesa», move-se numa rodilha de azedumes ligados à «ortodoxia marxista-leninista» Mais: «uma provocação deve ser motivo de reflexão» e a mim ocorre-me dizer que uma provocação deve ser antecipadamente reflectida, sobretudo como neste caso, dada a sua importância e os créditos de quem a soltou. Apesar das suas intervenções, quando convidado pela televisão, revelarem um contido apreço pelos problemas do homem e da criação, sem derrapagens deste tipo, nota-se que o desconforto de Saramago em relação a Portugal emerge aqui e além numa espécie de elipses ou de ardilosas metáforas. Saramago é agora acusado de ser incapaz de defender Portugal»

Martins da Cruz, Ministro dos Negócios Esrangeiros de Durão Barroso, foi talvez quem mais reagiu à frase da Saramago. «A visão de Saramago é uma visão do século XIX e não do século XXI. É muito fácil odiar Portugal no estrangeiro, o que é difícil é defender os interesses de Portugal no estrangeiro, e isso o sr. Saramago é manifestamente incapaz de fazer». Nesta linha de abordagem à insólita situação, também houve reacções de muitos intelecuais e escritores, como Vasco Graça Moura ou Manuel Alegre. «Ele tem a responsabilidade de ter ganho o Nobel da Literatura com a língua portuguesa», disse o poeta Manuel Alegre. «Saramago concebe a realidade como sendo gerível com uma engenharia de racionalidade» (considerou Graça Moura). Por muito que a medalha do Nobel notabilize um homem, neste caso um português, isso confere-lhe mais deveres perante a língua e a Pátria donde se alcandorou a esse galardão, do que direitos enviesados, má fé, arrogância, eufemismos perversos. Os direitos de expressão têm de ter sempre em conta os outros -- e, em casos assim, menor sensacionalismo e profunda reflexão sobre a hipótese formulada. Por mim, na raiz do meu ser e da minha língua, da nossa cultura e considerável antiguidade, muito teria para dizer a Saramago (apesar das minha deficiências e das fragilidades não usufruirem o benefício dos media), pois considero que o escritor contraiu uma grande responsabilidade a vários níveis. Portugal honrou-o, perdoou-lhe muitas sinuosidades, conversou civilizadamente sobre os valores humanos e a necessidade da arte. A caricatura da «Jangada de Pedra», Portugal voltado para a América e a Espanha com as suas feridas voltadas para a Europa, a cicatrizar, não tem necessariamente que deslizar para o sul. E era melhor a ideia de que essa ruptura servisse para ligar de novo os dois continentes, voltando assim a uma certa verdade original. Saramago deve reflectir, partindo de dentro de si mesmo e fazendo auto-crítica. Nas pedras de Lanzarote. Observando as condições capazes de permitirem saudavelmente o enxerto de uma coisa na outra. E a lembrar-se da humilde grandeza com que escreveu «Levantado do Chão».

segunda-feira, julho 16, 2007

ANGOLA INDEPENDENTE

O carro derrapa na areia que se espalha pelo alcatrão. Coisa pouca. Um menino negro salta como gazela. Tem medo do visitante. Já vai longe, remover lixos em contentores, saltita num alcatrão devastado. A península que fecha a baía de Luanda do lado esquerdo, no crepúsculo, palpita de risos. Ontem morreu aqui um casal por assalto à mão armada. Os lugares são contingentes, sobretudo à noite. Há postos secretos, a essas horas, que se ligam entre si na passagem de drogas e outro comércio ilegal, pobres pescadores além. Os risos. Festa da nova sociedade angolana que se apropria de tudo e de todos, sacudindo perfume e sedas, em círculos concêntricos ao poder. Perto dos restaurantes, um polícia coloca-se à frente do carro. Deveria ter uma luva branca (imagino de memórias estranhas) mas a pistola metralhadora que o adorna faz bem o trabalho da luva, fica a mão. Tenho documentos especiais, um carro de luxo e um cartão de imprensa. O homem faz-me a continência: passo devagar, entre risos ali perto. Festas depois de festas, os ricos dispõem da cidade como querem, sobretudo na zona alta. No tempo da guerra, quando aqui estive, tomava banhos de água morna. Olho para o interior dos restaurantes e no Miami, o mais moderno: a alta sociedade luandense bamboleia ancas, seios, jóias. Os rostos pintados brilham, escorrem cremes, imitam até a sociedade colonial que o tempo ajudou a desfazer, bem depressa substituída por uma outra, essa assombrosa guerra civil que deixou o país arrasado. Em grandes áreas fecundas mas abandonadas, onde um dia haverá fósseis incongruentes, alguns técnicos procuram catar e desactivar as minas que ficaram no terreno, sem notícia, nem carta. As cidades destruídas ainda hoje se apresentam assim, talvez moribundas ou mortas, mas onde vemos por vezes meninos e mulheres carregando víveros e coisas de uso comum, compradas nas viaturas que vão e vêm, invisíveis. Mataram um casal mas não foi só ontem. Tudo o que é gente na noite, na posse de alguns objectos de uso comum, pode ser espoliado. Negar é enfrentar duas ou três facadas, a morte quase certa. Aquela gente que desceu à baía, conduzida por pretos luzidios, veio cumprir o ritual dos diamantes e do petróleo, comemorar aniversários, arranjos floridos de jovens destinadas a casamentos da «alta cidade.» Cada esbanjamento festivo é ornamentado com fogo de artifício, porque os diamantes ficam no cofre. E entretanto os seguranças lá vão estando atentos, descortináveis a olho nu. Os carros voltam de madrugada. Amanhã, aqui e além, nos lugares de luxo, a gula e o prazer voltarão. É um direito, dirão alguns. É roubo e usurpação, dirão outros. Subi ao depósito das águas e olhei em panorâmica o mar a perder de vista dos muceques, verdade social que teria um milhão de habitantes antes da independência e hoje, na cintura imensurável, alberga mais de quatro milhões de almas. O ar parece atravessado pelos cheiros de várias pestes associadas. A lama envolve a periferia, numa terra de ninguém, mas na qual, como dantes, os meninos brincam sem nexo, estatelando-se naquela espécie de barro escorregadio. Há gente poderosa, de visita ao governo do país, no alto requintado das residências, e os vinhos e os acepipes vão de ambulância para lá. Ali mesmo, onde acharam uma criança abandonada no entulho, coberta de sangue e pó, e já morta, passam os grandes senhores a caminho das suas mansardas. Luanda, aliás, acabou por ser destinada a fechar quase toda a Angola no seu interior, entre bairros degradados e muceques imensos, enquanto a verdadeira Angola se ignora a si mesma, de um lado os imensamente ricos, de outro a pobreza extrema, os pestíferos, os estropiados, meninos e velhos sem pernas, vitimados pelas minas ignoradas no ponto exacto, prontas a explodir e fazer vítimas durante um bom par de décadas. Curiosamente, os putos que brincam na lama ficam temporariamente irreconhecíveis, pretos, brancos e mulatos de súbito de cor homogénea e amiga. A outra e imensa Angola, fecha-se, pelo seu lado, nela própria, desconhecendo-se para além dos que roem ou cultivam raizes e deixa que o vento escorra para sul, anharas totalmente vazias . Do alto, num táxi aéreo, pode ver-se essa desolação. Voando mais baixo, posso tirar fotografias de aldeias inenarráveis, onde se descortinam crianças, mulheres batendo a mandioca, homens usando próteses e muletas, deambulando pelo patamar de terra batida, como se o mundo tivesse parado nessas imagens. Nas terras de ninguém é tudo lento e essencial, a breve passagem dos helicópteros dos senhores do poder e, em baixo, as vítimas da independência, comendo a mandioca que o diabo amassou.
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Nota: este texto foi inspirado na reportagem de Luis Pedro Cabral (Única, 15.07.07) e as fotos
adaptadas da peças de Sandra Rocha (Luanda). Aspectos complementares derivam da experiência da guerra que o autor deste Blog viveu mos anos 60.










quinta-feira, julho 12, 2007

CENTRIFUGAÇÃO GLOBAL DE BOLONHA

Este não é o Olho de Big Brother
«1984», de Orwell já passou. Mas enganam-se aqueles que suspiram de alívio e pensam que o mundo alegoricamente mitificado naquele livro não virá, nas suas diversas vertentes, confirmar-se mais tarde, expandindo-se por todo o lado, com grande incidência nos grandes países. A gula terá entretanto outro nome e o caos imensurável nunca existiu nem existirá. Em todo o caso, é verdade que a tecnologia, nas mais variadas acelerações da sua caminhada, cada vez mais em nome do crescimento, concorrência, competitividade, fez com que as sociedades passassem a uma corrida vertiginosa, reacertando fronteiras e explorando todo o petróleo do mundo. Surgiram sistemas de ordenação exploratória dos recursos e da sua errática divisão. Mas as crises não poupam a odiosa deificação dos mercados, todos concorrem com todos -- e isso começa por marcar indelevelmente as metodologias da formação, o supremo bem da Educação, sempre em reforma, progredindo para um novo paradigma, como se diz agora, apesar do ruído se instalar um pouco por toda a parte e o ensino de profissões (dizem) estar aí para nos ajudar a criar cidadãos mais qualificados, justamente aquilo por que clama a indústria e os sonhadores da produção em massa. Muitos esquecem-se, nas suas boas intenções, que muitos dos nossos empregadores, entre um rapaz habilitado e outro apenas com o nono ano, acabam por preferir este. A flexibilidade no trabalho é um dos mais hediondos eufismos dos dias que vivemos, para não falar no filhote daquela teoria, cujo nome é ainda segredo de justiçao. E os nossos licenciados que o digam, cerca de 40.000 sem emprego, à espera de alcançar campos de aplicação que não sejam só os industriais.
Escrevendo na revista «VISÃO», o prof Carlos Reis resolveu, depois de uma informada contextualização, alinhar para o «pessoal» algumas «PERGUNTAS INDISCRETAS», das quais, pela sua enorme propriedade, terei o gosto de partilhar convosco:
Ao fechar a primeira parte do seu texto, Carlos Reis pergunta se «dentro de alguns anos será sustentável, num pequeno país, a existência de instituições universitárias com oferta pedagógica própria? Nesse tempo a vir, haverá lugar para a diferenciação e para a singularidade cultural? O que agora é gratuito sê-lo-á sempre? (Recordam-se de quando as leituras dos jornais na Internet era gratuita? Parecia mentira...). E ainda: não caberá aos Estados fomentarem a consolidação e o desenvolvimento de sistemas universitários fortes e fecundos? Ou será mais expedito (e mesmo mais barato) se nos ''abastecermos'' no pronto-a-aprender de grandes ''fornecedores'' sem rosto? Tudo, afinal, susceptível de ser resumido numa pergunta inquietante: terão as universidades portuguesas o mesmo destino que as nossas pescas conheceram?»
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Nota: citações do artigo referido, do prof. Carlos Reis, e enquadramento de Rocha de Sousa


A LÓGICA DO CRESCIMENTO

quinta-feira, junho 28, 2007

ENTRE A VIDA E A ETERNIDADE

rainha do antigo Egípcio, 1458 a.C.
Enquanto o corpo responde aos nossos impulsos e todas as capacidades do ser se manifestam em plena luz, pensar na morte é como quem olha distraidamente, e sem interesse, para uma fotografia vulgar de um vulgar desconhecido. É porventura objecto ocasionalmente achado e brevemente, se houver condições próximas, atirado para um caixote público do lixo. Esse incidente, como muitos outros que poderiam colocar-nos diante de quem seremos ou a que distância estaremos do fim, só começam a alcançar contorno, codificação, um balanço entre uma vida depois da vida, no instante cobarde em que nos socorremos de um fio desdramatizador da inevitabilidade, a despeito das crenças sobreexcitadas no ser eterno, lugar ou lugares onde revitalizariamos uma alma imortal, retornando, segundo alguns movimentos, a este quotidiano que nos cerca e que sabemos em declíneo. Muitos de nós assim pensam, de facto, porque a suprema qualidade dos seus instintos, percepções e sensações parece não poder ser negociada, nem transferida para sítios do silêncio e do não retorno. Terá sentido uma vida para nada e uma morte igualmente para nada? Isto ofende a razão. Ofenda os sentimentos e até a dignidade com que por vezes assumimos a vida. Há portanto uma fase da vida (pois já conhecemos a esperança dela em termos estatísticos) em que questionamos o estar, o ser, viver sem prémio -- ou indagando as possiblidades da transmigração, da sobrevivêmcia da alma e portanto do indivíduo.Onde e como não sabemos? Nem o que faremos, nem se de facto retornaremos aqui pela lei da reencarnação. Os panteístas gozam aquilo de que podem dispor até a uma dissolução da consciência. A vida do espírito nas mais antigas e abstractas religiões do mundo, embora passe pela Terra, tem a sua evolução apontada por o Todo, o Nada, o Nirvana. E entretanto, lucidamente, os ateus desvalorizam toda a sobrenaturalidade e podem assumir éticas comportametais, de solidariedade, responsavelmente. Perto da morte, quando a doença produz dores imensas e a cegueira entre elas, em plena zona terminal, muitos, crentes ou ateus, já concebem a eutanásia -- ou a ajuda no limite mais cruel desse limite.

A fotografia que publico com este texto corresponde à múmia de uma rainha, ignorada num sotão do Museu do Cairo, e que foi identificada como Hatshepsut, que viveu e exerceu o poder num Egipto de entre 1479 e 1458 antes de Cristo. A ciência tem desenvolvido extraordinárias tecnologias neste campo, no estudo de fósseis, corpos, múmias, adereços e sonhos apodrecidos. O próprio método do ADN, pelos estudos de Zahi Hawass, tem aqui o seu papel; enquanto outras metodologias nos permitem perceber toda a vida destes mortos e a incontornável fé que depositavam na sua continuidade depois da morte, sendo então profundamente tratados, trabalhados, em ordem a uma idade longínqua em que voltariam ao seu dia a dia. Veja-se como o homem sempre se confrontou com esse buraco negro onde soçobram, sem retorno, astros e sistemas planetários inteiros -- até faraós. A «eternidade» de Hatshepsut é esta imagem, é este magnífico silêncio, é esta inalienável brevidade.
Enfim, fica-nos a curiosidade dos estudiosos, saber que esta mulher tinha o hábito de se vestir de homem, de fingir bigode. Foi uma figura das mais poderosas do antigo Egipto (mais do que Nefertiti e Cleópatra). O seu templo funerário, em Deir et-Bahari (na zona do Vale dos Reis) é um dos monumentos egípcios mais visitados no presente, o que talvez permita alegorias sobre o outro lado da morte ou a perenidade dos restos mortais de alguém, conservados, existindo assim, enre visitas, não se sabe até quando. Uma «etermidade».

quarta-feira, junho 27, 2007

DA BELA CONTROVÉRSIA AO MUSEU BERARDO

Francis Bacon
Inaugurou-se ontem, 26 de Junho de 2007, em Lisboa, Portugal, o Museu Colecção Berardo, instituição que se alcandorou no Centro Cultural de Belém, após um tempo de grande polémica entre o próprio Joe Berardo e o Estado: o empresário ameaçava levar o seu espólio artístico para França, nem mais nem menos. Há cerca de um ano, em Agosto de 2006, foi enfim criada (coisa cada vez mais recorrente por cá) a Fundação de Arte Moderna e Contemporânea da Colecção Berardo (assim até 2016), o que implica um contrato de cedência sem custos do Centro de Exposições do CCB, após o qual o Governo português terá a opção de compra da colecção. Até então as obras não serão classificadas como património nacional, sendo possível que circulem, em parte, fora do País. Mas há mais contemplações: a Fundação Berardo poderá mover um fundo anual para aquisição de obras, o que, a acontecer, terá a divisão igual de despesas por Berardo e o Estado hospitaleiro. Berardo será presidente vitalício da sua Fundação e concederá, depois de toda esta máquina de efeitos especiais e importantes cedências, uma cara exposição de arte contemporânea a Portugal e a Mundo. Ao fim dos 16 anos, já terá corrido muita tinta sobre este bizarro acordo. O fim, se Portugal continuar pobre, é mais ou menos previsível. Houve tempo em que os grandes coleccionadores, ricos e com o sentido do dever público, cediam as colecções por completo (Gulbenkian) ou ofereciam ao País Fundações inteiras, como Arpad e Vieira da Silva. Para não falar em preciosas bibliotecas, gestão de espólios (SNBA) e assim por diante.

A programação do Museu Colecção Berardo deverá orientar-se pela rotação dos vários movimentos artísticos que a integram. Por muitas subjectividades que as escolhas contenham, a verdade é que o conjunto das inclui 862 obras. O objectivo desta recambolesca negociação concentra-se em dar a conhecer a evlução das artes plásticas no século XX, permitindo, ou potenciando mesmo, o intercâmbio de obras de arte com outras de instituições estrangeiras semelhantes. Embora nada do que está escrito saia destas fronteiras, Berardo atreveu-se a dizer que este acontecimento «significa o concretizar do sonho de ter um gande centro de arte em Portugal, onde os artistas portugueses possam expor as suas obras e o público nacional ver peças dos melhores autores e museus mundiais.»
Berardo parece esquecer-se que isso tem acontecido através de um largo mecenato e de outras instituições públicas e privadas, sem que o país possa hoje considerar-se propriamente desactualizado. Aquilo de que ele fala deveria implicar a desafectação do Centro de Belém deste contrato, após, e a breve trecho, a construção de um edifício inteiramente construido para a colecção Berardo -- e, quem sabe, talvez à sua custa e futura exploração das mais valias.
O programa anunciado para o funcionamento inicial do Museu comporta grupos de fotógrafos e e pintores, nos quais aparecerão, como seria inevitável, obras de Helena Almeida, Ângelo de Sousa e Paula Rego. Depois o surrealismo será obrigatório e autores relevantes, como Warhol, Bacon, Picasso, Magritte, serão também, e por outro lado, integradores de afinidades com artistas portuguses

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Segundo os noticiários em circulação, imprensa e TV

segunda-feira, junho 25, 2007

O MAL DO EIXO II


Os canais de televisão esticam todas as cordas de que dispõem para, entre alguns programas temática e formalmente sérios, inventarem coisas de entretenimento, coisas fedorentas e fedores de anedotas inócuas, novelas cada vez mais viciadas nos estereótipos da intriga banal, a cometer os mesmos erros que os brasileiros impingem às multidões, muito refugo, muitos tertulianos para falarem das «vedetas» nacionais, patos falantes e universos assim, a abarrotar de publicidade. Por estranho que pareça, e num país que precisa de trabalhar (ou precisaria) os programadores destas empresas publicam por vezes, a acabar às 2 e 3 da manhã, filmes de qualidade, algum «traficado» documentário sobre artistas plásticos, um hoje, outro daqui a um ano e assim por diante.
Os chamados programas de intervenção, também madrugadores, envolvem gente de mau humor, azedume e piadas rasteiras, com diversos percursos que julgam fazer a diferença. Não me refiro a alguns debates e tentativas de avaliar questões sociais ou de claro interesse pedagógico e cultural. Deixando de lado a majestática oratória de «A Quadratura do Círculo», encontro por vezes «O Eixo do Mal», ideia talvez trabalhável, até no clima, mas que sofre assiduamente de falta de critério comportamental e estrondosas derrapagens dos intervenientes, sobreposições e pronúncias erráticas, o que o desgastou depressa, perdendo sentido ou quase mergulhando no pântano em que é suposto todos nos estarmos a afundar, desde a demissão apocalíptica de Guterres. O eixo do mal foi buscar o seu nome a uma dessas invenções políticas, neste caso vinda provavelmente do gabinete de Bush, que traçava um eixo do mal da balbúrdia trágica do Médio Oriente até à «perigosíssima» Coreia do Norte. Mas a exploração dessa temática, que puxa pelas meninges, acabou cadáver, sem diagnóstico, e a televisão aproveitou-a no quadrado a que se deve chamar, com maior propriedade, «O Mal do Eixo».
O últino número desde «espaço de comunicação» surgiu particularmente infeliz e trouxe à superfície, simbolicamente sem a presença da Clara Ferreira, as caricaturas dos protagonistas, a sua incompetência em fazer televisão e comunicar sem se assaltarem uns aos outros numa pequenez confrangedora, nas escolhas, nas ideias, no fraco estilo performativo: a política tem muito que se lhe diga, mas neste caso tudo se resume sempre à pele risível do tablóide, aos erros do governo, a Sócrates, à queda de Sócrates, Sócrates à beira do fascismo -- e até ao declíneo de Sócrates comparado com o declíneo de Cavaco Silva. Qua raio de palavreado é este, todos a puxarem o que restava das frases alheias? Depois foi a Ota, é sempre a Ota porque sim, o povo que se ponha a pau que há conspiradores e traficantes por todo o lado. Foi a CIP que pagou o estudo de Alcochete? Não, foram os outros, os medrosos, os escondidos. Foi a CIP, foi a CIP. Já saudosa é a Portela, há quem queira Portela+1, com um campo de golfe ao lado para aterrarem as excursões. O ministro que defende cegamente a Ota é destituído de quase tudo (jamais, jamais) e o que se passa é apenas uma encenação pindérica para entreter as oposições: quando chegar ao fim dos seis meses estabelecidos, o Governo agradece e diz que na Ota é que é. E esta reboleira de inutilidades temáticas ou de reflexão, sobretudo afogada em todos ao mesmo tempo, lá vai comendo tempo, tarde, com as contas dos políticos, Alcochete, Portela+1, Sócrates vaiado em Abrantes, uns pós sobre a questão da Câmara de Lisboa, tudo errado, sem planos, tudo em arranques palavrosos ou sucintos, sem análise, sem profundidade, sem estudo alternativo, as palavras em tom acre, incandescências verbais para nada, palavras de «escárnio e mal dizer».
É difícil fazer uma ideia e é escandaloso que os gestores televisivos comparticipem nesta algaraviada redutora. A liberdde de expressão já ninguém a contesta, mas, com ela, é preciso expressar em qualidade e oportunidade. Que diabo: estava-se «sobre» a reunião para o tratado da U.E., havia o desenvolvimento da situação em Gaza e na Cisjordánia, a problemática dos jornalistas de guerra, casos importante nos tribunais, interrogações entre os favores cedidos a Berardo e também o modo como nos representamos na Bienal de Veneza e no Mundo. De resto, e se soubessem trabalhar o assunto, havia os temas das festas populares, a utilidade ou inutilidade da feira do livro, as escolhas das editoras e a queda de valores a esse nível. Já não digo que se dedicassem um pouco a meditar no buraco negro que separa cada vez mais ricos de pobres mais pobres. Mas, na oportunidade certa, agora, com as eleições para a Câmara, era bem bom falar-se dos vazios das cidades, de como encarar a ordenação e fomento da actividade humana no território, a par da enorme riqueza, pelos novos planos municipais, da construção prevista, licenciando o que acabará por atingir quarenta milhões de casas para os dez milhões de portugueses, muitos deles compulsivamente proprietários de andares comprados a crédito, com suor sangue e lágrimas.
Ó meus senhores, assim não. Nem a triste deriva sobre Berardo teve nexo e conclusão. A alucinante semelhança entre a semelhança da queda de Sócrates com a de Cavaco Silva, afirmada com dedinhos espetados de certeza, deixou-me estupefacto. Porque, além das coisas não se aproximarem assim, é burrice tratar o futuro de tal modo, em perfeita incontinência do sonho. Tudo muda, e também aqui é legítimo comparar situações, mas sem desvio rasteiro da diferença dos factos, dos contextos históricos. De bocas estamos todos fartos. Se os senhores querem falar da comunicação, restringindo os temas, anunciem o projecto: aquilo assim não é nada, passará para feira de vaidades, bocas ao acaso, oportunidades enviesadas, gaguejadas, degoladas. Comunicação? Aprendam primeiro como ela se faz e aquilo que a ela importa dia a dia.
A não ser que estejam empenhados em imitar os portugueses a discutir futebol na tasca da esquina. Nesse aspecto, entre falas sobrepostas e empirismos insuportáveis, são perfeitos.

sexta-feira, junho 22, 2007

A IMENSA BONDADE DA GLOBALIZAÇÃO

foto que ganhou o grande prémio em Nova Iorque
Soy Sauce «Stan Chance»
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Cada vez mais se houvem palavras como flexibilidade, competitividade ou globalização. Os conceitos subjacentes a tais códigos parecem absorver hipnoticamente quase todos os habitantes do planeta. E é isso, de certa maneira, que a fotografia aqui publicada nos mostra: uma utópica e monstruosa disciplina da multidão compacta, cabeças rapadas, indumentária igual, talvez o braço esquerdo formulando uma nova saudação. Todos juntos, assim, parecem um fungo pronto a cobrir a pele do mundo. Mas são apenas prováveis representantes da civilização actual ensaiando a grande marcha para o Sistema Global - estranhamente como vemos em Meca ou na Praça do Vaticano. A representação a duas dimensão deste registo remete-nos depois (em baixo) para o resultado da compactação, para a abstracção tridimensional da simulação de uma esfera. Aqui, como muita gente já percebeu, cada vez é maior a osmose e a sufocação.
Curiosamente, a fotografia que me serviu para esboçar a analogia entre tempos e crenças regista o crâneo de um antepassado nosso, universalmente falando, um inca, primeiro homem abatido com uma arma de fogo no continente americano. A descoberta deste vestígio aconteceu durante uma campanha arqueológica promovida pela National Geographic. A morte deste inca terá resultado de um tiro desferido há 500 anos por uma arma espanhola durante o cerco a Lima, em 1536.
Veja este «post» em «construpintar02» numa versão idêntica mas onde se colocam algumas perguntas, a par da convocação da alegoria de «À Espera de Godot», de Beckett. Estaremos nessa situação, entre as guerras que se espalham por todo o mundo, elaborando através da chacina do ambiente e dos povos entre si, a morte do mundo?



segunda-feira, junho 18, 2007

AS CABEÇAS ROLARAM ANTES DO GRITO

Ninguem esperava a morte do mundo quando a única brincadeira era a intriga e a armadilha pensada em nome do poder. As mulheres sempre foram hábeis em tais cumplicidades. Entre venenos e cobras mortais soçobrou o Império Romano. A ex-União Soviética, bem armada e bem abafada, conteve o mundo em sentido, fazendo crer que era capaz de arrasar tudo, ela própria incluida, como os homens-bomba do Iraque e de outros lugares. Noutros tempos, primero deitava-se o veneno da política e depois degolava-se o cavalheiro. E os impérios caíam, votados aos olhares curiosos e fascinados do futuro, nós, do século XXI.

PORTUGUESES CADA VEZ MAIS SUFOCADOS

fumo de todos as fontes, poluições indizíveis, morreu o velho da lagoa
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O problema da surdez, tratado atrás, não é o único na panóplia de armas de destruição do planeta, realiade que já se esboça um pouco por toda a parte e que só agora, com duzentos anos de atraso, os políticos de classe 8 enfrentam vagamente, entre bocejos de impaciência, entre gestos lassos, semelhantes à tontice de Calígula que, no vértice dos seus devaneios, reclamva que lhe trouxessem a lua para junto de si. «Eu quero a Lua. Quero a Lua junto de mim». Hoje, numa esquizofrenia planetária (global), Busch lembra aquele Calígula que Camus imortalizou em plena ficção da verdade. Busch é a verdade da ficção: o que ele quer é acabar com o Iraque, Quioto já foi, o homem é bom demais para se deixar amedrontar por uma subida dos mares ou a globalização do terror. Para ele, a beleza das coisas é elas serem humanamente assim, rios sujos, mares com biliões de peixes em decomposição, milhões de toneladas ce co2 todos os dias atirados para a atmosfera como aqueles balões festivos (apenas milhares) que os meninos ladinos soltam para o céu do jardim . De resto, a poluição e os problemas do ambiente, embora sejam a maior questão da actualidade, o que deveria obrigar à cessação de muitos actividades e produções, é visto pela maior parte dos habitantes do planeta como uma equação híbrida a longo prazo. Para não falar do tabaco. Para deixar libertar-se toda a droga que invade as metrópoles e compromete a genética, a vida, o futuro. Para enchergar os gelos na televisão, continentes inteiros em vias de extinção ou afundamento, sem retorno nem Arva de Noé. Deus assiste a tudo isto, em estado de melancolia. O paraíso está a arder.

quarta-feira, junho 13, 2007

PORTUGUESES CADA VEZ MAIS SURDOS

anatomias banco de ouvidos e pavilhões para surdos
Procura-se amaciar as agressões contra o ambiente e os ecologistas aumentam de dia para dia diversos sectores da sua actividade. Muitos jovens tornam-s altruístas e estudam os problemas da terra, das assimetrias, da pobreza rural. Cuidam das espécies e avaliam a situação actual do planeta. Mas carecem de especialistas do som, embora registem e comparem o ruído urbano e preconizem medidas de salvaguarda da qualidade de vida nesse aspecto.
Pois os jovens portugueses enfrentam cada vez mais problemas auditivos, traumas por vezes irreversíveis, fruto de uma vida cegamente entregue à frequência das discotecas, sítios onde saltitam noite ineiras, mesmo que seja com a ajuda de drogas estimulantes. Bebem do princípio ao fim, dia após dia, sob um regime de som que chega a manter-se ns 120 dB, bem acima portanto dos aceitavelmente toleráveis 85 decibéis (dB). À frequência de divertimentos nocturnos, acrescentam-se espectáculos de massas em estádios e recintos, onde as medidas de som chegam a ultrapassar os níveis já referidos, durante três a quatro horas, o que tem provocado fortes aumentos de traumatismos por via sonora, ou seja, lesões do ouvido interno derivadas da exposição prolongada a níveis elevados de som. Muitas dessas lesões, segundo o odorrinolaringologista António Nobre Leitão, podem atingir graus de difícil ou nula recuperação.
Embora não existam estudos oficiais sobre a percentagem da população que sofre de problemas auditivos ou perda de audição em Portugal, estima-se que cerca de dez por cento (um milhão de pessoas) se encontrem afectados.
As pessoas que trabalham no mundo da música e os que frequentam regularmente, além de outros meios similares muito desgastantes, representam «um dos grupos com risco mais elevado quando se fala de perda de audição induzida pelo ruído, uma vez que a intensidade sonora em locais como as discotecas pode atingir (ou mesmo exceder) os 120 dB, ultrapassando os limites considerados de risco para a audição», afirmou Catarina Kom. Só para se ter uma ideia do barulho ao qual as pessoas se encontram expostas na discotecas basta dizer que a sonoridade de um martelo pneumático ou de uma serra eléctrica atingem os 110 dB. A descarga de um trovão, conforme os casos, anda perto dos 120 dB. E um avisão a descolar, a cerca de 40 metros, debita cerca de 130 dB. A estes exemplos correntes, devemos acrescentar a soma de situações altamenre ruidosas nos espaços urbanos, entre o tráfego automóvel, máquinas em obras, os escape de motas potentes, em aceleração, e ainda, por estranho que pareça, o som estapafúrdio nas nossas mini-salas de cinema, construções que deviam ser proibidas em muitas das suas características. Imaginem uma cena íntima, com dois personagens num diálogo murmurado, tramitida para o espaço de duas assoalhadas a cerca de 80 dB. Não são apenas os ouvidos que se ressentem: os filmes são violentamente deturpadas na interacção dos valores estéticos, do próprio sentido das obras, e só fico espantado como é que os realizadores ainda não protestaram formalmente.
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N: parte deste apontamento cita ou transcreve uma nota publicada no JR Lisboa, 5 de Junho

quinta-feira, junho 07, 2007

O CONHECIMENTO DA ARTE

pintura de Francis Bacon

As artes não servem de ornamento do mundo. São, noutro sentido, entre suportes culturais determinantes, o rosto da própria civilização.

As instituições portuguesas ligadas à educação e ao conhecimento ou difusão da arte, apesar da circulação intensiva da informação na época contemporânea, têm sido longamente adversas a reconhecer as modernas projecções do projecto artístico e os processos avançados das diferentes formações na área das disciplinas de índole estética. As principais reformas que foram assumidas em Portugal surgiram tarde e carregadas de arcaismos imponderáveis. Trinta ou quarenta ans atrasado relativamente a esta problemática, o nosso país não foi sequer capaz de corporizar a reforma de 1957, a qual nunca chegou a passar do papel e da contratação de um novo corpo docente. Depois dos 25 de Abril, e apesar de um esforço associativo, técnico-científico, as reformas das ex-Escolas Superiores de Belas Artes só foram conseguidas e sancionadas duas décadas depois, integrando-se enfim nas Universidades, como Faculdades de Belas-Artes. Quando se discutiu, na velha Assembleia Nacional, a Lei de Baes do Ensino Superior Artístico, as ideias então expressas pecavam pelos mesmos erros quanto aos conceitos em torno da arte e do papel do artista. Apenas um deputado, Dr. Albuquerque, defendeu outra perspectiva. Foi ele quem disse, na sua intervenção, algo de diferente, considerando, a certa altura do discurso, que «mais digna ainda de aplauso do que a visão global do ensino artístico é, pelo que revela de intenção inovadora, a elevação do ensino de belas artes à categoria de ensino superior. Na verdade, não faz sentido que se considere uma coisa subalterna a preparação de homens que precisam de um alto nível para cumprirem com nobreza a sua missão de intérpretes da natureza da alma humana, plasmadores e configuradores de ideias descobridores de ritmos e criadores de simbolos.» Estas palavras foram pronunciadas há cerca de cinquenta anos. E, contudo, há ainda quem as remeta para o caixote da mera retórica em nome de uma prática sem projecto e de uma deriva por meros talentos mediáticos, mitos na nusca da pincelada genética, eles sim, elefantes brancos derrubando uma loja inteira de bela porcelana -- palavras recentes de jovens candiatos a artistas que rejeitam a formação teórica neste campo, depois do que já aconteceu por esse mundo fora. O projecto mais consequente sobre o desenvolvimento do ensino superior artístico no nosso país situa-se na reforma de 1975/76, no seu reconhecimento e acesso das Escolas a completas condições de Faculdades de Belas Artes (Universidade de Lisboa e Universidade do Porto), e na renúncia da persistência das oficinas do instinto ou da intuição, retorno a uma espécie de Renascença, do tempo dos meninos aprendizes e da mercantilização do talento expressivo perante a encomenda e a protecção da aristocracia da época. O que se pretendeu, nos anos 70, foi a consolidação de uma nova base para a formação artística superior, não apenas quanto ao desenvolvimento dos talentos oficinais dos formandos, antes de maneira a aprofundar as razões de de ser do seu futuro trabalho e com uma abertura apetrechada para a expansão cultural. Ou seja: com os instrumentos que cobrissem uma interacção teórico-prática actualizada, capaz de os situar, enfim , num quadro intelectual robusto em termos cienmtíficos, filosóficos, pluralmente decisivos, como intérpretes do superior estatuto que define a própria arte. Assim o dizemos de novo, contra a escassez brutal, e com José Augusto França: uma civilização sem arte não o é.» Ao contrário do que muitos ainda pensam, não são os elefantes brancos da teoria que empurram o artista para a exclusão. O saber teórico, aliado ao campo instrumental da praxis, é que desvenda sucessivos espaços de criação fundamentada, inovadora, servindo, virtual ou presencialmente, a grande arquitectura da função e do ser, a rede que multiplica o sentido universal de todas as disciplinas cujo elenco propicia mais largas e novas conexões próprias da razão no complexo sentido dos alinhamentos ontológicos.

O artista de hoje é um operador generalista ou especializado no seu mister, ombro a ombro com outros de áreas afins, e não um mero produtor de artefactos secundários. O que ele produz, com arquitectos, designers, engenheiros, além de outros, são indubitavelmente, num grande espaço de abrangências, objectos de civilização. Eu próprio, quando me graduei na área de pintura, também procurei colocar-me numa espécie de vanguarda, numa linha estratégica informada, correndo os riscos habituais ao redimensionar o status das artes visuais: isso implicava abordar a arte e o modo de a ver; daí ter reenquadrado algumas das hipóteses que o estado da ciência já permitia praticar nuns casos e anunciar noutros. Ao defender a tese «mobilidade visual, aparência e representação», inventei um caminho talvez aventureiro sobre o ver e o fazer, fazer depois de ver -- e ver sobretudo segundo uma nova dinâmica do estar. Chegava ao ponto de cinematizar o acto visual, dinamizando os pontos de observação, usando próteses de registo e tratamento do visível, anunciando novos instrumentos e processos de transformação do real, sobretudo através da ciência e de uma espécie de cartografia poética que me permitisse aceder com novas vantagens a outros planos da paisagem, fosse ela qual fosse. Aí estavam envolvidas metodologias que tornavam surpreendente o que parecia invisível ou não ter existência. Esta investigação levou alguns de nós a perceber melhor donde vinha a invulgar capacidade de descoberta, aquela que nos é própria, ver o oculto, fazer em simultaneidade o que é sucessivo -- como perceber a realidade, por instantes que fosse, em plano paralítico, mesmo sabendo que ela sempre se move quando julgamos o contrário, ocultando e desocultando caminhos para um aproximado hiperteto do visível. É importante afirmar que as recentes formulações artísticas, previsivelmente ligadas à cibernética, não são rios sem afluentes e nunca propõem nem um modo fixo de representar o real, nem uma tirania da moda. Por isso a formação dos artistas tem de ser de excelência e o seu trabalho, sustentado por novas tecnologias, garantir uma luta profunda contra o esquecimento do mundo. Se não há civilização sem arte não há mundo sem memória.

_________________________________________________________ texto de rocha de sousa. fragmento da sua intervenão nas provas de doutoramento dp prof. pintor Hugo Ferrão


pintura de Arshile Gorky

pintura de David Hockney

terça-feira, junho 05, 2007

UMA ALUCINANTE ATERRAGEM NA OTA


O incidente que se narra a seguir é semelhante a muitos que acontecem nos últimos anos na Lusitânia e no Allgarve. Por qualquer pequeno detalhe das grandes decisões, os políticos e os empreendedores vão para o Campo Pequeno ou para a Assembleia da República e desenrolam as suas fitas de argumentos. São todos muito habilidosos, a inventar túneis, a berrar porque querem o Alta Velocidade, comendo pouco a pouco o que resta de hortaliças para atravessar o pequeno país de autoestradas. Todo o planeamento do território baseia-se nas autoestradas, no abandono das vias férreas e na acumulação de montanhas de cimento mesmo junto ao mar. Há dias, num programa de televisão, um ministro explicou que o grande centro de desenvolvimento é Lisboa, numa circularidade em torno da chamada frente marítima a qual se estende até perto de Aveiro e Sines. Porque não vale a pena polvilhar de casinhas o interior, de alto a baixo, para os lados de Espanha, porque Espanha já fez isso, com as respectivas acessibilidades, e em breve terá cidades por lá, o que sugaria o interior português dos pequeninos.
LISBOA FARAÓNICA
Ontem, quando cheguei a Lisboa, fiquei encantado com o aeroporto. Espaços modernos, renovação atempada de muitas estruturas, lugares bem instrumentalizados e um ambiente de razoável consistência familiar, tudo a condizer com as dinâmicas e as sinalizações. A minha mala saíu na passadeira em cerca de meia hora, o que é muito bom para a Lusitânia que nos amolava os miolos e dilatava os calos. Lembram-se? Era nos correios, na Caixa Geral dos Depósitos, nos Bancos em geral, nas caixas dos super-mercados, nas entradas em Lisboa (antes do túnel), no caminho para as praias, nos percursos interiores da cidade, ou em certos restaurantes tipo churrascaria. Para não falar nos antigos notários, excelentes funcionários públicos, também na Câmara Municipal, sobretudo com licenças e papéis vulgares, daqueles que dizem quando a gente comprou o primeiro tijolo e coisas assim. Bom, vendo bem, meia hora por uma mala que viajara no porão de um jacto civilizado, com cinquenta pessoas a bordo, não se pode dizer que seja um avanço muito significativo. Ao chegar à rua, já a noite tombara sobre a portentosa gare, pressentindo-se as luzes da nova cidade envolvente. Um taxista perguntou-me se eu precisava dos serviços dele. Um pouco enjoado de ter que completar vários contactos áquele hora, voltei-me para o taxista, que já andava ajoujado em volta da minha mala, e perguntei-lhe se na cidade portuária não haveria alojamentos disponíveis. E ele, sorridente: «Não, não é preciso ir tão longe, isso da zona portuária é demasiado longe e não está bem equipada de hotéis.» Insisti: «Mas eu não estava a falar do rio, pensava hospedar-me aqui perto». O homem largou logo a mala e cantarolou o que achava: «Ah, isso é outra coisa, uma corrida de nada e tem a sua malinha num bom hotel, aliás numa área onde poderá escolher o equipamento que achar mais próprio». Consolei-me pelo bom entendimento e pedi-lhe que me ajudasse a carregar a mala.«O senhor pode levar a mala denro do carro, a seu lado, e não terá que pagar taxa de bagagem. Na bagageira já é outra coisa.» A minha pele irritou-se um pouco. «Bom, que diabo, ponha lá a mala aí ao lado, no banco.» Entrei pela outra porta e ordenei ao lusitano: «Pronto, vamos lá então para Lisboa» O outro voltou-se para trás: «Em Lisboa já nós estamos, a bem dizer. Tem alguma zona ou rua em particular para onde queira dirigir-se?». Senti um calafrio. Sacudi os ombros: «Não, ou melhor, sim, quero ir para essa zona onde diz que há vários hotéis à escolha». O tipo não teve mais dúvidas e arrancou, começando a rodar por uma longa avenida, mais residencial do que de serviços, aliás quase vazia embora razoavelmente atapetada de carros. Pensei para com os meus botões: «Que raio, levaram quase meio século a fazer o aeroporto, mas agora as envolventes são maiores do que o próprio.» A certa altura pressenti um cheiro a sardinhas ou coisa parecida, lembrei-me dos bairros populares, e olhei para as grandes estrutras, à direita, talvez de escritórios, com portas de ferro e alguns cromados, pátios contudo vazios de seguranças e porteiros. «Estamos ainda muito longe?» - perguntei para a frente. «Não senhor, estamos quase; acabei de entrar na aveida da República». Fiquei atónito: «Mas já estamos na avenida da República, em tão pouco tempo?» E ele, num riso breve, a mascar um palito: «É para que veja. Então fizemos o 25 de Abril e ficávamos de mãos a abanar? Cá vamos nós, ao lado das avenidas Novas: há velhos por aí que voltaram do Brasil e encheram-lhes os bolsos outra vez». Olhei de esguelha, apertado entre a mala e o lado da porta: lá estavam os bolos de noiva, os que restavam, mais Bancos, mais super-mercados, e em frente, apertada por dois colossais e estalinistas prédios novos, uma estátua de bronze, num miniatural plinto de calcáreo. Perguntei, ansioso: «E então e o Saldanha, a praça do Saldanha?» O lusitano gargalhou: «O senhor já deve estar almareado: então não vê que estamos a atravessar a praça do Saldanha? Olhe como ele aponta.» Dilacerado, cerrei os dentes e clamei para dentro da minha cabeça: «O que ele está é a mandar destruir toda esta trampa altíssima, feíssima, na esperança de reganhar a sua querida praça. Fechei os olhos, encostei-me no banco, uma nuvem de confusão invadia-me a consciència, enquanto a memória, emigrada durante largos anos, se despojara no cansaço da chegada. Lisboa parecia uma coisa texana, destituída de nexo, armadilhada por milhares de cartzes néon no pior estilo de Las Vegas. Uma pequena volta mais «aquele é o túnel do Santana» e estávamos à porta de um hotel de muitas estrelas, o «Altis». «Aqui estamos. Este é um dos melhores hotéis, no centro de Lisboa. Quer ficar aqui ou procurar um pouco mais?» Abalado como nunca, respondi-lhe que um pouco mais não era nada e que podiamos sair. O homenzinho fez tombar a mala para o chão, de esquina, mas já se aproximara de nós um empregado do hotel. «Então quanto lhe devo?» Ele afagou o nariz, olhou para dentro e respomdeu: «Oito euros». Fitei o pequeno lusitano com os olhos em brasa: «Então o senhor vem da Ota até aqui e só me leva oito euros? Devem ser oitenta, pelos vistos». O taxista deixou cair o beiço e ficou arrasado, de olhos arregalados, incapaz de falar. O empregado do Hotel colocou a mão direita no meu braço esquerdo e falou com brandura: «Tem estado fora do país?» Puxei o braço:«Sim, claro que sim». O tipo voltou a pousar a mão no meu braço e disse pausadamente: «O senhor taxista tem razão. Ele veio do aeroporto da Portela. O caso da Ota ainda está por resolver. Estuda-se uma das últimas hipóteses que é criar uma grande ilha artificial no Tejo e aí implantar o novo aeroporto. Já não fica só a norte e servirá os dois lados, respeitando os aquíferos e os postulados ecológicos, com a vantagem de estar tão perto de nós como o da Portrela. Atónito, perguntei em verdadeiro estado pré-comático: «E o aeroporto da Portela?». Ele sorriu. «Não há dinheiro para o explorar ao mesmo tempo do futuro equipamento. Vai a baixo, com certeza. Diuscutem agora o aproveitamento desses terrenos. Pensa-se que talvez umas casinhas, uns bairrozitos, mas com zonas verdes e a Feira Popular.» Senti que perdia os sentidos e só acordei de manhã, sedado, num quarto enorme e mal arrumado, dentro do qual se ouvia, de quando em quando, os aviões em aproximação de aterragem.

domingo, junho 03, 2007

PARA UM MEMORIAL DAS NAVEGAÇÕES


Estas imagens correspom à corporização da memória de quase cem anos de navegações, entre pequenos e grandes portos fluviais, carregando grande diversidade de produtos e materiais. Barcaças robustas, de madeira apropriada, eventualmente construida nos estaleiros da zona do Seixal. De tempos a tempos, estas enormes baleias dóçeis, eram varadas na margem, apoiadas a certa altura do chão, e revistas, reconstruidas, repintadas e calafetadas, em busca de mais rio e de mais futuro.














fotos de rocha de sousa

terça-feira, maio 29, 2007

A DOR SUPREMA

foto de Joan Moore / Getty Images / AFP
Ao ler hoje de manhã o Jornal Público fiquei prisioneiro desta impressionante fotografia e resolvi partilhar convosco o mesmo sentimento. A rapariga, deitada rigorosamente sobre a terra adjacente à campa onde jaz o noivo, vítima este ano de uma explosão no Iraque, exprime a dor da perda, a dor suprema, e talvez o seu pressentido acto de rezar pareça a muitos de nós o abrandamento funcional do sonho desfeito. Por mim, e embora respeitando a prece da «personagem» que o mundo irá engolir um dia, creio que esta atitude não significa apenas um acto de fé. São outras coisas que se esvaziaram e um retorno amado impossível.

domingo, maio 27, 2007

ARTISTAS PORTUGUESES | Gil Maia







pinturas em acrílico sobre tela de Gil Maia 2007
O pintor Maia nasceu em Mais, em 1974. São marcas curiosas. O pintor fala do gosto pelo silêncio porque nesse estado é sugerida a substância de encontro mais preciosos. Cita o canto da mesa como lugar cómodo, ou ainda o pátio enquanto possível lugar de todas as estranhezas. Mas aqui, pela excelente escrita do pintor, já nos encontramos em pleno espaço da pintura, diante do seu espectáculo, entre a batalha das linhas oblíquas e circulares, por vezes rectilíneas ou em faixa, e os planos cromáticos determinantes ou organismos subtis vogando nesse mundo ao primeiro olhar caótico, bem depressa desvendável nas suas cortinas, cortes, inesperados preciosismos, toda uma construção que, no conjunto, nos pode sugerir a interminável soma de próteses a completar e a dilatar as estações orbitais em movimentos inivisíveis, desarrumadas enquanto verdadeiro habitat humano, controladas entre gerações e gerações de computadores, a par de outras máquinas especializadas.
Gil Maia sabe certamente qual o grau de abertura das suas obras, mundos formados num quadro libertário, não raras vezes indecifrável pelas metedologias tradicionais, mas também nos revela um pouco, entre desfoques, algo que se pode «espreitar pelos buracos dos bordados», tendo assim em conta a sedução de uma de uma cortina naturalmente pendurada e cujo valor intrínseco parece atrair, de forma inexorável, o nosso olhar. É Maia quem nos diz, a propósito do pátio e de todas as as estranhezas, que esse é, ao fim e ao cabo, o apeadeiro dos viajantes sem regresso, o espaço onde pousam máquinas tão excêntricas quanto coloridas.
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Gil Maia é licenciado pela Faculdade de Belas Artes do Porto e deté já um curriculum de qualidade.

terça-feira, maio 22, 2007

OS MENINOS DESAPARECIDOS OU RAPTADOS

Esta menina, de quatro anos e origem inglesa, encontra-se desaparecida há cerca de um mês e o seu caso ainda não foi resolvido, como infelizmente acontece todos os dias com milhares de outras crianças em todo o mundo.

ARTISTAS PORTUGUESES | Sara Maia



Portrait with Mun and Dad 2007


Na sua última exposição Sara Maia utilizava em título «O Sono do Cão». Em inglês, esta expressão idiomática - Dog's Sleep - significa um certo teatro, mise en scéne. Assim se esplica, com outras frases idiomáticas visuais, a série de sinpopses que a autora propõe no catálogo para cada quadro, uma espécie de roteiro, «uma representação das representações esperadas». Afinal, diz a pintora na mesma abertura: «O título 'O Sono do Cão' expressa ainda o facto de os cães dormirem em vigília, num permanente estado de alerta. Pela sua sensibilidade apurada, a sua orelha atenta, o seu olfato sagaz, e sendo o cão um animal doméstico, carente, dependente e que assume sentimentos próximos do humano, é nele que recai a minha escolha»
Lendo bem, ao sabermos como decorreu a infânca de Sara, entre uma espécie de «sequestro» e um ilimitado espaço de liberdade criadora, o fio do nosso imaginário desenho o desenho da menina que ela ainda parece, julgamos perceber donde nasce a fascinante alegoria do cão. A menina estava sempre alerta como ele, o cão, sabendo, como todas as meninas, os modos de inventar para além das coisas, entre a crueldade e o contentamento.
Sara Maia viveu uma infância dolorosamente marcada por fragilidades, doenças, e por isso parmanecia em casa longos períodos: era aí que formatava a sua liberdade e onde inventava fantasmas, monstros, velhos meninos, situações incontornáveis. Surgem então narrativas, da menina cega aos velhos que tanta estranheza lhe causavam e cuja beleza, nua espécie de redenção, veio redimensionar no Ar,Co., onde estudou e onde desenvolveu as grandes potencialidades do seu imaginário. Daí muitas das suas preferências recairem em Frida Khalo, Francis Bacon, vang Gogh ou Bakthus -- referências, assinala, da sua própria formação.

Os quadros da última exposição de Sara, de grandes dimensões, abriram mais um capítulo no percurso da autora e são dominados por uma força expressiva poderosa, entre o monstruoso, a ironia, o sarcasmo, o que resta da bondade da menina. Sara, cúmplice com o seu tempo, olha as distorções aociais, o real degradado dos seres, a ternura e a sua impossibilidade, criando assim (como aliás vem acontecendo na pintura de hoje) certas narrativas de um realismo impossível, bordalescas por um lado e violentas por outro, acto político também.


















On ones lap
The Saint of the Little Bottles